Resenha: A Serra do Roncador ao Poente

Um grupo de adultos e crianças do povo Xavante caminham na Serra do Roncador. A vegetação na serra é esparsa e algumas montanhas estão no horizonte ao fundo.
Foto: "A Serra do Roncador ao Poente" (2022)

Vencedora do prêmio de filme etnográfico no IV FIFEP, obra expõe a história de resistência dos Xavante por meio do protagonismo narrativo de membros do povo indígena

A Constituição Federal de 1988 prevê o direito dos povos indígenas brasileiros à terra. Essa garantia, no entanto, é constantemente violada pela fragilidade nas leis e sua fiscalização. O filme “A Serra do Roncador ao Poente”, vencedor do prêmio Jean Rouch na categoria Longa-Metragem no IV Festival Internacional do Filme Etnográfico do Pará (FIFEP), revela os efeitos que uma invasão orquestrada pelo homem branco podem causar à cultura, comportamento e segurança do povo Xavante.

Com direção, produção e roteiro de Armando Lacerda, o filme conta a história do povo A’uwê Uptabi, mais conhecido como Xavante, por meio de uma narrativa participativa. O documentário escolheu adotar seu idioma como língua oficial, que pertence ao tronco Macro-Jê, da família Jê.

Filmado nas terras xavantes, nos arredores da Serra do Roncador, no Mato Grosso, o documentário explora a ancestralidade do povo, detalhando sua origem territorial, antepassados indígenas e a travessia que fez de uma ponta a outra do país, para fugir dos perigos do homem branco. A história se concentra em cinco sujeitos: Diogo Juruna, Salvador Tsereurãsaré, Carolina Rewaptu (Mã Dzabdzé), Jurandir Tsiridiwê e Saranate Xavante, pertencentes a diferentes aldeias que integram o povo xavante.

As narrativas destacam pontos fundamentais para a sobrevivência dos indígenas no ambiente em que vivem. A partir da preservação de seus ritos e culturas – lutas, músicas, danças e a própria língua xavante, considerada vulnerável pela Unesco –, sua existência é reafirmada.

Os protagonistas da obra também destacam os conflitos gerados devido à defesa da integridade de seu território. Não é de hoje que a luta por terras é pauta no Brasil, haja vista que, desde 1500, os direitos territoriais dos povos originários brasileiros são desrespeitados. O filme deixa claro, desde o início, que essa é, infelizmente, uma realidade para o povo Xavante, que se deslocou do litoral para a parte central do país por conta da invasão do homem branco.

Neste ano, tramitou no Congresso o projeto de lei conhecido como “marco temporal”, que propõe reconhecer apenas as terras indígenas habitadas até a data da publicação da Constituição, em 5 de outubro de 1988. Ou seja, seu objetivo é limitar a devolução de terras aos povos originários, além de discordar do próprio artigo 231 do texto constitucional, que estabelece os “direitos originários” – que antecipam a criação do Estado brasileiro.

Esse tipo de reformulação legislativa ameaça os povos indígenas e viabiliza a invasão de seus territórios por madeireiros, garimpeiros, fazendeiros e demais agentes que contribuem para a degradação das terras. Os Xavante que participam da obra citam uma série de casos de violência contra seu povo, como assassinatos e o estupro de mulheres e crianças.

Por meio de suas falas protagonistas, o filme destaca a importância do aprendizado e da liderança. Carolina e Jurandir são representantes da realidade de muitos indígenas brasileiros, que precisam deixar suas aldeias em busca de qualificação estudantil e acadêmica para, depois, retornar e ajudar a proteger seus familiares.

A luta dos Xavante pelo direito à existência é antiga, como relata o documentário. O primeiro indígena eleito no Brasil foi o deputado federal Mário Juruna (pai de Diogo), Xavante do povo Namakura, em 1981. Ele lutou pela representatividade indígena na política brasileira – tão difícil batalha que, somente neste ano, cinco candidatos chegaram à Câmara Federal: Célia Xakriabá (PSOL-MG), Juliana Cardoso (PT-SP), Paulo Guedes (PT-MG), Silvia Waiãpi (PL-AP) e Sônia Guajajara (PSOL-SP).

Apesar de ser um marco no cenário político brasileiro, esse panorama exprime a carência de representação efetiva no poder legislativo, comparado ao número de candidatos brancos eleitos.

O filme também destaca a invasão de terras Xavante por militares durante a Ditadura Civil-Militar, com o intuito de apropriar “terras improdutivas”. Mário Juruna cumpriu o primeiro mandato ainda sob o regime militar, mostrando a importância da presença de indígenas na política para combater a instabilidade territorial e para proteger os povos indígenas no geral.

“A Serra do Roncador ao Poente” é um resumo da luta e da resistência de um povo que briga pelo simples direito de continuar existindo, seja pela manutenção de suas tradições, pelo respeito aos seus antepassados, ou pelo fortalecimento de seus territórios.

Os saberes dos povos indígenas foram, por tempo demais, transmitidos de forma pejorativa, rasa e inferiorizada pela branquitude. No longa de Armando Lacerda, os Xavante tomam controle sobre sua narrativa e denunciam o quanto o homem branco tirou dos povos indígenas brasileiros. Ainda assim, eles resistem contra a degradação de sua história.

Filme: A Serra do Roncador ao Poente
Direção, Produção e Roteiro: Armando Lacerda
Produtora Audiovisual: Comunicação Direta
Ano: 2022
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