Emerson Fernandes (esquerda), agente ambiental do ICMBio, verifica covas, onde tartaruga-da-amazônia nasceram, antes da solura dos filhotes (direita). Fotos: Edmar Barros/Amazônia Latitude.
Logo ao amanhecer, os agentes do ICMBio entram em ação. As tartaruguinhas são recolhidas dos cercados, que muitos imaginam ser destino final, mas são apenas proteção temporária, e levadas em baldes e botes para pontos estratégicos do rio. Locais com mais vegetação, mais camuflagem, menos predadores. Cada gesto é técnico. Cada escolha é uma aposta contra a morte.
Segundo Rita Lima, chefe da Rebio Abufari, que atua há mais de dois anos e meio na gestão da unidade e acompanha o trabalho na reserva há mais de uma década, o número impressiona à primeira vista, mas exige uma leitura cuidadosa:
“Esse ano tivemos cerca de 167 mil filhotes, superando o ano passado. Mas isso oscila muito. As mudanças climáticas interferem diretamente. Se a cheia é excessiva, não há praia para desova. Se a seca é mais severa, tende a nascer mais. Tudo hoje é muito inesperado.”
Agentes ambientais do ICMBio, recolhem filhotes de tartaruga-da-amazônia, para serem soltas em local mais seguro, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), 17 de novembro de 2025. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.
O que parece abundância, na verdade, é sinal de desequilíbrio. Já houve anos com 400 mil, 500 mil nascimentos. O rio sobe e desce fora do ritmo histórico. Algumas áreas da praia foram alagadas de forma repentina, destruindo ninhos inteiros. Em certos pontos, os agentes precisaram cavar, retirar ovos, reposicioná-los em áreas mais altas, numa corrida contra a água.
Nem todos sobreviveram. Muitos filhotes morreram antes de alcançar o rio. Outros foram salvos por minutos.
E ainda assim, a vida insistiu.
Filhotes de tartaruga-da-amazônia, recém-nascidos, aguardam para serem soltos na água, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), 17 de novembro de 2025. Fotos: Edmar Barros/Amazônia Latitude.
Agentes ambientais do ICMBio, recolhem filhotes de tartaruga-da-amazônia, para serem soltas em local mais seguro, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), 17 de novembro de 2025. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.
Entre as quase 170 mil eclosões, aconteceu algo ainda mais raro: nasceram três tartarugas albinas. Um evento que pode ocorrer apenas uma vez a cada centenas de milhares, ou até milhões, de nascimentos. Duas nasceram na mesma cova, em outro ponto da praia. Uma delas foi registrada por Edmar naquela madrugada exata do pico.
Um corpo branco emergindo da areia escura.
Como um mito antigo que resolve aparecer quando mais precisamos acreditar.
A fotogaleria que publicamos aqui não é apenas um registro raro da natureza. Ela é símbolo. O encantamento que ela provoca não é fuga da realidade, é força política. É o fôlego que sustenta a luta quando tudo parece ruir.
Agentes ambientais do ICMBio, transportam filhotes de tartaruga-da-amazônia, para serem soltas em local mais seguro, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá, estado do Amazonas, Brasil, segunda-feira, 17 de novembro de 2025. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.
No dia seguinte ao pico, alunos da cidade foram levados à reserva. Dormiram nos barcos. Participaram da soltura simbólica de cerca de dois mil filhotes. Aprenderam, ali, com o corpo e com a experiência, o que nenhum discurso ensina sozinho: a vida só continua se for cuidada.
A Reserva do Abufari foi criada para proteger um dos maiores tabuleiros de desova da Amazônia. Mas o trabalho ali vai muito além das tartarugas. Protege-se a fauna inteira. A flora. O território. E enfrenta-se também a caça ilegal, ainda presente, ainda naturalizada em muitos contextos locais. São mais de dez ações de fiscalização por ano. Vigilância constante. Trabalho silencioso.
Trecho da praia onde nasceram mais de 144 mil tartarugas-da-amazônia em 2025, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), 17 de novembro de 2025. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.
A Amazônia nos ensina de muitas maneiras. E a jornada dessas pequenas tartarugas, da areia ao rio, revela, de forma simples e profunda, por que vale a pena lutar pela vida na floresta.
Nem todas sobreviverão. Apenas uma pequena fração chegará à fase adulta. Mas isso nunca foi motivo para desistir.
Que a eclosão dessas tartaruguinhas, e especialmente daquela que nasceu branca como luz, nos acompanhe na travessia para um novo ano. Que nos lembre que, mesmo diante da crise climática, da violência e da destruição sistemática, ainda há vida brotando.
E enquanto houver vida insistindo em nascer, haverá razão para seguir lutando pela Amazônia, por seus rios, seus biomas, seus povos humanos e não humanos, suas encantarias.
Porque defender a Amazônia é, antes de tudo, defender o direito de continuar amanhecendo.
Texto: Marcos Colón
Fotos: Edmar Barros
Revisão: Juliana Carvalho
Montagem da página: Fabrício Vinhas
Direção de Redação: Marcos Colón
























