A vida insiste: lições do nascimento das tartarugas do Abufari para a Amazônia

Um agente ambiental do ICMBio, segura um filhote albina de tartaruga-da-amazônia, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), 17 de novembro de 2025.

Um agente ambiental do ICMBio, segura um filhote albina de tartaruga-da-amazônia, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), 17 de novembro de 2025. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

A vida insiste: lições do nascimento das tartarugas do Abufari para a Amazônia

Entre a areia, o rio e o tempo, a eclosão de milhares de tartaruguinhas revela por que a Amazônia segue viva, e por que vale a pena defendê-la.

Marcos Colón (texto) & Edmar Barros (fotos)
27 de dezembro de 2025

 

O ano de 2025 chega ao fim. Foi um ano duro, atravessado por conflitos, retrocessos e disputas profundas sobre o destino da Amazônia e dos povos que a habitam. Ainda assim, enquanto a luta pela vida continua, a floresta segue fazendo aquilo que sempre fez: insistir em viver.

Na Amazônia, a vida não anuncia sua chegada com alarde. Ela chega no silêncio. No escuro da madrugada. Debaixo da areia quente. E exige presença, vigilância e cuidado para não desaparecer antes mesmo de começar.

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Uma filhote albina, de tartaruga-da-amazônia, recém-nascida, é vista junto à outros filhotes, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), 17 de novembro de 2025. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

Em setembro, a Revista Amazônia Latitude esteve na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), um dos maiores berçários naturais de quelônios da Amazônia. Acompanhamos o ritual milenar das tartarugas amazônicas que retornam às praias para desovar e garantir a continuidade da vida. Aquela reportagem foi um testemunho de resistência e paciência. Um lembrete de que proteger a vida exige tempo, corpo presente e atenção constante.

Em Novembro, o fotojornalista Edmar Barros retornou ao Abufari para acompanhar um dos momentos mais delicados e impressionantes desse ciclo: a eclosão e soltura de mais de 167 mil tartaruguinhas. Um acesso raro, exclusivo, que só foi possível graças ao trabalho contínuo do ICMBio e à confiança construída ao longo dos anos.

Um agente ambiental do ICMBio, faz fotos de filhotes de tartaruga-da-amazônia recém-nascidos, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), 17 de novembro de 2025.
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Agentes ambientais do ICMBio fazem fotos de filhotes de tartaruga-da-amazônia recém-nascidose os soltam no Rio Purus, 17 de novembro de 2025. Fotos: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

A chegada não foi simples. Nem planejada como deveria. O barco programado cancelou. O tempo fechou. A viagem atrasou. Havia o risco real de perder tudo. O pico de eclosão havia sido estimado, mas na Amazônia nada é garantido. Edmar chegou por volta das duas da manhã, exatamente na madrugada do maior pico.

Naquele único dia, 119 mil tartaruguinhas eclodiram.

Como narrou Edmar Barros: “Se tivesse chegado horas depois, teria perdido a explosão de vida que as imagens agora revelam”. Nos dias seguintes, nasceram quatro mil, cinco mil, dez mil. Mas o coração daquele ciclo foi aquela madrugada. Um encontro raro entre tempo, natureza e insistência.

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Um grupo de estudantes e professores, participam da soltura de filhotes recém-nascidos, de tartaruga-da-amazônia, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), 18 de novembro de 2025. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

Ali, Edmar aprendeu também o rigor da linguagem da floresta. Não se diz “nascimento”. Diz-se eclosão. As tartaruguinhas romperam os ovos dias antes, mas permaneceram sob a areia. Esperaram. Como se obedecessem a uma sinfonia invisível, um acordo silencioso entre corpos frágeis. E então, juntas, eclodiram. Todas de uma vez. Na madrugada.

O silêncio absoluto era quebrado apenas pelo som mínimo das pequenas patas tentando alcançar a água.

Mas a vida ali não caminha sozinha.

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Emerson Fernandes (esquerda), agente ambiental do ICMBio, verifica covas, onde tartaruga-da-amazônia nasceram, antes da solura dos filhotes (direita). Fotos: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

Logo ao amanhecer, os agentes do ICMBio entram em ação. As tartaruguinhas são recolhidas dos cercados, que muitos imaginam ser destino final, mas são apenas proteção temporária, e levadas em baldes e botes para pontos estratégicos do rio. Locais com mais vegetação, mais camuflagem, menos predadores. Cada gesto é técnico. Cada escolha é uma aposta contra a morte.

Segundo Rita Lima, chefe da Rebio Abufari, que atua há mais de dois anos e meio na gestão da unidade e acompanha o trabalho na reserva há mais de uma década, o número impressiona à primeira vista, mas exige uma leitura cuidadosa:

“Esse ano tivemos cerca de 167 mil filhotes, superando o ano passado. Mas isso oscila muito. As mudanças climáticas interferem diretamente. Se a cheia é excessiva, não há praia para desova. Se a seca é mais severa, tende a nascer mais. Tudo hoje é muito inesperado.”

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Agentes ambientais do ICMBio, recolhem filhotes de tartaruga-da-amazônia, para serem soltas em local mais seguro, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), 17 de novembro de 2025. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

O que parece abundância, na verdade, é sinal de desequilíbrio. Já houve anos com 400 mil, 500 mil nascimentos. O rio sobe e desce fora do ritmo histórico. Algumas áreas da praia foram alagadas de forma repentina, destruindo ninhos inteiros. Em certos pontos, os agentes precisaram cavar, retirar ovos, reposicioná-los em áreas mais altas, numa corrida contra a água.

Nem todos sobreviveram. Muitos filhotes morreram antes de alcançar o rio. Outros foram salvos por minutos.

E ainda assim, a vida insistiu.

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Filhotes de tartaruga-da-amazônia, recém-nascidos, aguardam para serem soltos na água, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), 17 de novembro de 2025. Fotos: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

Agentes ambientais do ICMBio, recolhem filhotes de tartaruga-da-amazônia, para serem soltas em local mais seguro, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), 17 de novembro de 2025. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

Entre as quase 170 mil eclosões, aconteceu algo ainda mais raro: nasceram três tartarugas albinas. Um evento que pode ocorrer apenas uma vez a cada centenas de milhares, ou até milhões, de nascimentos. Duas nasceram na mesma cova, em outro ponto da praia. Uma delas foi registrada por Edmar naquela madrugada exata do pico.

Um corpo branco emergindo da areia escura.

Como um mito antigo que resolve aparecer quando mais precisamos acreditar.

A fotogaleria que publicamos aqui não é apenas um registro raro da natureza. Ela é símbolo. O encantamento que ela provoca não é fuga da realidade, é força política. É o fôlego que sustenta a luta quando tudo parece ruir.

Agentes ambientais do ICMBio, transportam filhotes de tartaruga-da-amazônia, para serem soltas em local mais seguro, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá, estado do Amazonas, Brasil, segunda-feira, 17 de novembro de 2025. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

No dia seguinte ao pico, alunos da cidade foram levados à reserva. Dormiram nos barcos. Participaram da soltura simbólica de cerca de dois mil filhotes. Aprenderam, ali, com o corpo e com a experiência, o que nenhum discurso ensina sozinho: a vida só continua se for cuidada.

A Reserva do Abufari foi criada para proteger um dos maiores tabuleiros de desova da Amazônia. Mas o trabalho ali vai muito além das tartarugas. Protege-se a fauna inteira. A flora. O território. E enfrenta-se também a caça ilegal, ainda presente, ainda naturalizada em muitos contextos locais. São mais de dez ações de fiscalização por ano. Vigilância constante. Trabalho silencioso.

Trecho da praia onde nasceram mais de 144 mil tartarugas-da-amazônia em 2025, na Reserva Biológica do Abufari, em Tapauá (AM), 17 de novembro de 2025. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

A Amazônia nos ensina de muitas maneiras. E a jornada dessas pequenas tartarugas, da areia ao rio, revela, de forma simples e profunda, por que vale a pena lutar pela vida na floresta.
Nem todas sobreviverão. Apenas uma pequena fração chegará à fase adulta. Mas isso nunca foi motivo para desistir.

Que a eclosão dessas tartaruguinhas, e especialmente daquela que nasceu branca como luz, nos acompanhe na travessia para um novo ano. Que nos lembre que, mesmo diante da crise climática, da violência e da destruição sistemática, ainda há vida brotando.

E enquanto houver vida insistindo em nascer, haverá razão para seguir lutando pela Amazônia, por seus rios, seus biomas, seus povos humanos e não humanos, suas encantarias.

Porque defender a Amazônia é, antes de tudo, defender o direito de continuar amanhecendo.

Texto: Marcos Colón
Fotos: Edmar Barros
Revisão: Juliana Carvalho
Montagem da página: Fabrício Vinhas
Direção de Redação: Marcos Colón

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