As queimadas em Lábrea, “Terra de ninguém”

Queimada é vista em fazenda na BR 230 na cidade de Lábrea(AM), na tarde desta sexta(30), Lábrea é uma das cidades do Amazonas em estado de emergência, devido as queimadas e desmatamentos, Agosto já é o mês com maior número de focos de queimadas no estado do em 21 anos, com 6.145 focos verificados pelo INPE até 27/08/2019.
Dados sobre desmatamento e queimadas em Lábrea-AM expressam o projeto econômico do Estado e as dificuldades enfrentadas pela população amazônida

Entre o final de agosto e início de setembro, Edmar Barros, fotojornalista e colaborador da Amazônia Latitude, registrou a situação das queimadas no município de Lábrea, localizado no extremo sul do estado do Amazonas, na divisa com Acre e Rondônia. Coberta de vegetação nativa, o município impopular e pouco comentado na mídia, expressa os resultados das atividades fundiárias.

Hoje, a cidade de Lábrea é a quarta área com maior índice de desmatamento na Amazônia – e repete a colocação no ranking quando o assunto é a concentração de focos de incêndios. A relação entre área desmatada e queimada não é coincidência. De acordo com o Instituto de Pesquisa Ambiental (IPAM), os dez municípios que mais registraram focos de incêndio também apresentaram elevado índice de desmatamento.

A extração de madeira move a cidade que, com a ausência do Estado, facilita o autoritarismo fundiário. Além de extração de madeira e incêndios, há diversos casos de assassinato que nunca foram esclarecidos. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), através da superintendência do Acre, era um dos únicos órgãos que fiscalizava a região. Hoje, os principais cargos do IBAMA no Acre e no Amazonas estão desocupados – seguindo a política de desaparelhamento dos órgãos de fiscalização adota pelo governo, um dos fatores agravantes da destruição da Amazônia.

O ambiente encontrado em Lábrea é de colonização em curso. O texto da Repórter Brasil evidencia que os relatos ouvidos na cidade envolvem principalmente casos de grilagem, onde as terras são ocupadas por grileiros de diferentes partes do país, sobretudo da região Sul e Sudeste e dos estados do Mato Grasso, Acre e Rondônia. O principal atrativo é a detenção de madeira e a possibilidade de criação de pastos.

A situação do município é parecida com outros pontos da Amazônia que também estão envolvidos com a última onda de incêndios que assustou e alertou o Brasil e o mundo. Na atual gestão, órgãos voltados para o monitoramento e fiscalização ambiental perderam credibilidade, voz e autonomia. Com o enfraquecimento das políticas ambientais, grupos de fazendeiros, madeireiros e garimpeiros passaram a ter ainda mais liberdade na exploração ambiental e humana.

 

1 – Devido à ausência do Estado brasileiro, o município de Lábrea é conhecido popularmente como “Terra de ninguém”. Edmar Barros, colaborador da Amazônia Latitude, foi ao local durante o período de concentração de focos de incêndio. Nos oito dias em que esteve na cidade, nenhum órgão de fiscalização apareceu no local. O corpo de bombeiros, que costumeiramente está presente nesses episódios, também não assistiu a população durante o período. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

2 – No município, o número de pontos de incêndio subiu de 10 para 119 entre junho e julho. Contudo, de julho até o dia 26 de agosto, foram identificados 1512 focos. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

3 – Este ano, a situação de Lábrea piorou devido à falta de fiscalização do único órgão que atuava na região. A Operação Ojuara, da Polícia Federal, apontou irregularidades na superintendência do Acre. Denúncias mencionam corrupção, constituição de milícia privada e lavagem de dinheiro. O ex-chefe da superintendência, Carlos Gadelha, é um dos julgados por facilitar crimes ambientais na região da Lábrea e, por isso, foi afastado do cargo. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

4 – Os cargos de chefia das superintendências do Ibama do Amazonas e do Acre estão desocupados. No período de esvaziamento da autonomia dos órgãos, houve queda nos registros de denúncias ambientais. De acordo com a Repórter Brasil, o número de infrações notificadas em Lábrea diminuiu aproximadamente 60%. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

5 – Ao relacionar o aumento das queimadas, o desmatamento e o estudo de conflitos territoriais na Amazônia, a principal hipótese de especialistas sobre o assunto para explicar o aumento dos focos de incêndio é a limpeza da área para criação de pastos –  o madeireiro corta as árvores do terreno e, em seguida, a terra é queimada para a limpeza e o preparo. Essa área servirá para atividades de pecuária e agricultura. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

6 – O desmatamento ilegal no Brasil não se trata de crime isolado, está atrelado ao sistema econômico formado por corrupção, formação de quadrilha, trabalho escravo, grilagem e roubo de madeira. O Ministério Público, através da investigação da força-tarefa Amazônia, evidencia organizações criminosas e outras infrações por trás das queimadas. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

7 – Para Joel Bogo, procurador estadual no Amazonas, o trecho de área desmatada no sul do Amazonas corresponde a algo entre 200 a 1 mil hectares, o que indica um desmatamento de grandes proporções. O procurador afirma que esse tipo de atuação vem de fazendeiros que possuem grandes rebanhos e visam ampliar a produção tomando terras públicas por vias ilegais, contornando a lei e os altos preços da terra. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

8 – Os incêndios, que assustaram o mundo por conta do papel de regulação climática promovida pela floresta amazônica, afetam a população local diretamente. O número de atendimento médicos em Lábrea aumentou – a Secretaria de Saúde do município afirma que: “há um impacto em torno de 15% com aumento do custo da saúde nesse período de verão e queimadas”. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

9 – A fumaça contém diversos elementos tóxicos e, por isso, afeta a saúde humana. Dentre todos os problemas de saúde ocasionados pela fumaça, os mais comuns são dor e ardência na garganta, tosse, cansaço, falta de ar, dificuldade na respiração, dor de cabeça, rouquidão e vermelhidão nos olhos. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

10 – Além disso, a fumaça também pode piorar crises alérgicas como rinite e bronquite. Como afeta as vias respiratórias, é possível que o ser humano exposto a ela possa desenvolver Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica. Os grupos mais afetados são crianças e idosos. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

11 – Segundo matéria da BBC Brasil, o estudo “Queima de biomassa na Amazônia causa danos no DNA e morte celular em células pulmonares humanas”, publicado em 2017, revelou que a fumaça pode causar danos genéticos nas células do pulmão. Com isso, a célula pode se enfraquecer ou perder o controle de reprodução ao crescer desordenadamente e evoluir para um câncer de pulmão. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

12 – A fumaça percorre quilômetros de distância e agride pessoas que estão geograficamente distantes quando em situações de incêndio intenso, como é o caso da última onda de queimadas vivida pelo país. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

13 – Qualquer tipo de vida passa a ser vítima do crime ambiental. O relatório de espécies ameaçadas na Amazônia devido ao fogo, elaborado pela organização WWF Brasil e divulgado pela revista ÉPOCA, mostra que 180 espécies da fauna e 85 da flora estão comprometidas. Acima, os corpos de um tamanduá e seu filhote foram encontrados na BR-230. Vítimas de atropelamento, os animais tentavam escapar do fogo. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

14 – O resultado do relatório faz parte de uma análise das áreas mais atingidas pelas queimadas. Para tal, os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (INPE) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) foram imprescindíveis. Para Gabriela Viana, gerente de projetos da WWF Brasil, é preciso resgatar os recursos financeiros retirados da Amazônia que eram para fins de combate e prevenção de incêndios. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

15 – Em outra região da Amazônia, que vivencia uma realidade próxima de Lábrea em relação aos conflitos fundiários, José Candido Primo disse à ÉPOCA que encontrou no trecho entre Aripuanã e Colniza algo nunca visto antes. “Na nossa região, a economia é movida pela madeira e a pecuária vem logo em seguida. Então, ficamos muito prejudicados, sem condições de passar isso para as entidades responsáveis, porque aqui quem fala mais alto é o madeireiro, é a extração da madeira”, explica. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

 

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