De Bruno e de Dom: Os elos que matam e desmatam

Arte colorida que mescla imagens da Amazônia e do indigenista Bruno Pereira e jornalista Dom Phillips, assassinados na floresta.
A Amazônia ilumina o Brasil ao expor estruturas de poder e violência. Os assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips são apenas o exemplo mais recente de uma cadeia de mortes.

Passado um mês do desaparecimento (e assassinatos) do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira cabe-nos, nesse momento, purgarmos a dor e honrarmos suas vidas continuando a fazer o que faziam: a luta pela vida em toda sua diversidade cultural e biológica.

Para isso, é preciso saber ligar os fios que surgem da própria tragédia anunciada, pois se não soubermos ligar esses fios que atam múltiplas escalas, pré-anunciaremos as próximas tragédias. Comecemos pela disputa que se abre nesse momento entre a Polícia Federal e a União dos Povos Indígenas do Rio Javari (Univaja).

A Polícia Federal opera no caso como se fosse um caso específico, isolado. Por isso, insiste que se trata de um crime sem maiores implicações, como se fora uma querela de pescadores que estavam lutando para garantir seu ganha-pão. Ignora, assim, que a Univaja já vinha denunciando crimes e criminosos que operam na região, cujas denúncias documentadas anunciaram o que veio a ocorrer com Dom e com Bruno.

Lembremos o assassinato de outro indigenista, Maxciel Pereira dos Santos, ocorrido na cidade de Tabatinga, em setembro de 2019. O crime permanece sem esclarecimentos e punição dos responsáveis. Não esqueçamos a cadeia de fatos que envolvem o próprio Bruno Pereira e que levaram a que, em 2019, ele fosse afastado de suas funções por fazer justamente o que suas funções determinavam, no caso, o combate ao garimpo ilegal em terras indígenas.

A Univaja e o próprio Bruno Pereira, que vinha assessorando a entidade desde que pediu afastamento sem remuneração da Funai, vinham denunciando a existência de grupos que atuavam ilegalmente na região, o que liga o assassinato de Maxciel Pereira dos Santos aos assassinatos de Dom e Bruno de Araújo Pereira.

Todos esses elos ligam esses (e outros) crimes locais à situação política nacional, não bastasse o explicitamente anunciado desmonte dos órgãos públicos destinados à proteção dos povos indígenas e tradicionais e ao meio ambiente. Experientes e comprometidos agentes públicos vêm sendo afastados e substituídos por militares ou por gente de aberta oposição à função dos órgãos, como a Funai, o ICMBio, o Incra.

Tudo indica que estamos diante de Crimes de Estado, haja vista a cadeia de elos que ligam o local ao nacional. Está passando da hora de voltarmos a nos interessar pelo destino da sociedade brasileira, o que implica retomar o interesse por nossa formação social. Isso, com certeza, vai nos ajudar a entender porque a figura do Capitão do Mato, persona que vivia de perseguir negros e indígenas, ganhou tanta relevância nos dias que correm.

O desinteresse pelo debate sobre a natureza da formação da sociedade brasileira está nos levando a ser, de certa forma, cúmplices do que vem se passando. Lembro aqui de dois brilhantes juristas, Nestor Duarte e Raimundo Faoro, que tanto contribuíram para decifrarmos muitas das nossas mazelas políticas. O próprio título de duas das obras desses autores já nos indica como compreenderam a natureza da geografia política que conforma nossa sociedade: Ordem Privada e Organização Nacional: Contribuição à Sociologia Política Brasileira, do baiano Nestor Duarte, e Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro, do gaúcho Raimundo Faoro.

Apoiar politicamente a posição da Univaja de buscar os elos que ligam os assassinatos de Dom e Bruno ao de Maxciel Pereira dos Santos enquanto parte de uma estrutura de poder, que tanto mata e desmata, pode nos mostrar os verdadeiros caminhos que a sociedade brasileira deverá assumir para ser uma sociedade digna – que nos faça dela nos orgulhar, em
vez de nos envergonhar.

Carlos Walter Porto-Gonçalves é Professor Visitante do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Coordenador do Laboratório de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades (LEMTO) da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Foto em destaque: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

 

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