Peixe que mata, molusco que cura: imagens, comensalidades e cosmologias da Amazônia Atlântica
Entre o veneno e a sustança de seres não humanos na experiência social amazônida

Um mosaico de saberes, riscos e curas que emergem das águas salobras e dos manguezais da Amazônia Atlântica. O alimento é a
linguagem que narra a íntima relação entre humanos e não humanos. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
Este ensaio se inscreve no campo da fotoetnografia como uma tentativa de pensar o cotidiano a partir do que se mostra e, sobretudo, do que se esconde no visível. Ao articular narrativas textuais e imagéticas, propõe-se compreender como determinadas experiências ganham forma, sentido e espessura nos modos de viver e comer de uma comunidade amazônida.
A fotografia, nesse contexto, não é mero recurso ilustrativo, mas linguagem que produz pensamento e convoca o olhar a desacelerar, a demorar-se nos detalhes e a perceber o que escapa à primeira vista.
O cenário dessa investigação é Araí, meu campo etnográfico, comunidade rural a 60 km de Urumajó (Augusto Corrêa), na região nordeste do Pará, na Amazônia Atlântica. É um vilarejo com aproximadamente três mil habitantes, sendo uma das maiores comunidades rurais do município, tendo como principais atividades produtivas a plantação de roça de mandioca e a pesca artesanal (Picanço, 2018). Esta última se processa nos manguezais e nas águas do principal rio do lugar, denominado de rio Araí.
Compreende-se os manguezais como “[…] ecossistemas que apresentam uma alta biomassa e concentração de biodiversidade. A alta produtividade favorece a exploração destes ecossistemas por muitas populações que vivem tradicionalmente da mariscagem e da pesca artesanal” (Souto, 2004, P. 22), como ocorre com os habitantes das comunidades rurais que compõem a região costeira do estado, em particular em Araí, onde os manguezais, os rios e a pesca artesanal constituem não apenas meios de subsistência, mas também fundamentos simbólicos da vida social.
É nesse território de águas salobras e saberes transmitidos pelo convívio com a natureza que se tecem práticas alimentares atravessadas por riscos, tabus, curas e crenças, compondo um complexo sistema de significações.

O baiacu (Tetraodontidae) capturado em Araí. Na Amazônia Atlântica, o peixe que alimenta é o mesmo que exige uma técnica cirúrgica para não se tornar letal. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.
Ao voltar-se para o baiacu e o turu, este ensaio busca compreender como certos seres não humanos ultrapassam sua condição biológica e se inscrevem como elementos centrais na organização da experiência social. Entre o perigo e a sustança, entre o veneno e a cura, tais criaturas mobilizam cosmologias, memórias e afetos que revelam formas particulares de habitar o mundo e de produzir sentidos sobre a vida, o corpo e a morte.
Assim, este ensaio ancora-se em narrativas textuais e imagéticas, cujas fotografias contribuem como “[…] forma de saber ver e saber dizer melhor para fazer pensar por meio da imagem […]” (Samain, apud Achutti, 2004). Portanto, as fotografias convidam para a percepção dos detalhes e informações que normalmente não se mostram à primeira vista, tratando-se de nuances que se escondem por detrás da aparência e que, às vezes, só a imagem pode revelar.
Aqui, as fotografias são autônomas, “pensam” e fazem pensar sobre algumas experiências dos/as araienses com esses seres que povoam não apenas os manguezais e as águas do rio Araí, mas também as mesas dos araienses, a saber: o baiacu (tetraodontídeos) e o turu (Teredonavalis).
Entre o perigo e o tabu

Técnica e precisão: o manuseio cuidadoso para a retirada da glândula de veneno do baiacu. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.
O primeiro é um peixe, ao qual é atribuído certo perigo, chegando a ser conhecido como peixe venenoso, cujo consumo inadequado pode ser fatal. Há registros de casos de mortes provenientes do consumo inadequado do peixe. Foi o que ocorreu com o primo da Leila, moradora de Araí:
O Henrique fez uma moqueca de fígado e ovas de outros peixes e misturou com o fígado de baiacu. e, acredito que esse fígado de baiacu tava envenenado, devia ter estourado e o veneno se espalhou e misturou. depois de meia hora ele foi com o amigo dele lá pra banda do porto. quando chegaram lá, ele disse ao amigo que não estava se sentindo bem, logo começou a se tremer, se debater, se babando e colocando uma baba verde pelo canto da boca. o amigo dele correu pra chamar a esposa do Henrique. Foi uma galera pro porto, atrás do Henrique, chegaram lá ele estava se debatendo, morreu logo depois. isso aconteceu em dezembro de 2022.”
Natanael também foi vítima do peixe, escapando por pouco de uma fatalidade:
Eu peguei o baiacu salgado, depois de botar de molho eu coloquei numa brasa e comi uns três. depois que acabei de comer fui me deitar. aí, quando eu olhava pro telhado amode, assim, que atava rodando, já. aí, eu levantei e sentia uma coisa ruim, aí, fui andar, comecei a trocar as pernas, já, parecia que eu tava porre. passei dois dias naquela arrumação.”
Um dado interessante sobre o veneno do animal diz respeito à sua relação com o florescer dos cajueiros. Em Araí, de setembro a outubro, é proibido o consumo do baiacu. O tabu se faz necessário porque, segundo os moradores locais, nesse tempo o veneno encontra-se espalhado por todo o peixe. “Comê-lo no florescimento do cajueiro significa pedir para morrer”, afirma Leila.
Apesar do perigo que cerca os comensais adeptos de baiacu, sua presença à mesa pode ser possível. Para tanto, exige-se sabedoria para, cuidadosamente, expelir o famoso veneno, o qual concentra-se em uma pequena glândula do pescado, que depois de retirada o torna próprio ao consumo humano. A retirada da susbtância exige muito cuidado e técnica, sob pena da glândula estourar, tornando a iguaria incomestível.

Um saber que separa a vida da morte. O preparo do peixe é um ritual de conhecimento prático que torna a iguaria própria para o consumo humano. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

O perigo em repouso. Na Amazônia Atlântica, a abundância do baiacu convive com o silêncio do veneno. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Após o manejo cuidadoso, a carne revela-se pronta. O processo desmistifica o medo e reafirma a soberania dos saberes tradicionais sobre os perigos do rio. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

O baiacu pronto para o consumo, acompanhado pela farinha e pela pimenta. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

A iguaria finalizada. O baiacu transformado em alimento, cultura e identidade. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.
Sustança e cura
Além do baiacu, as vivências dos araienses — e, quiçá, de toda a Amazônia Atlântica — são atravessadas pelo turu, um molusco que se constitui como uma comida tão marcante e singular nessas paragens quanto o próprio peixe venenoso. Na região, sua presença é historicamente notada desde os tempos das populações ameríndias.
Para os de fora, a aparência do molusco pode causar estranheza; para os araienses, porém, ele é comida que dá sustança, sendo-lhe atribuída considerável carga curativa e afrodisíaca. Nesse sentido, há uma máxima do pensamento social daqueles territórios amazônidas que diz que o turu, particularmente o seu caldo, “levanta até defunto”. Ribeiro et al. (2023) reforçam que:
[…] o Turu é um alimento rico em substâncias consideradas essenciais para o bom funcionamento do organismo, contendo alta quantidades de macros e micronutrientes necessários, para um paciente diagnosticado com TB, podendo ser utilizado como um complemento alimentar natural de baixo custo, revigorante de fácil absorção, sendo uma opção a substituir a suplementação sintética.”
Na Amazônia Atlântica, os manguezais — em especial os troncos caídos e em avançado estado de decomposição do mangue (vegetação nativa desses ambientes) — constituem o habitat natural do molusco. De coloração aproximada ao branco acinzentado, trata-se de um invertebrado bivalve, aparentado a um verme, pertencente à mesma família das ostras e dos mexilhões.

O machado é utilizado para abrir troncos em decomposição. Este saber não é abstrato, mas emerge do engajamento sensorial e prático com a paisagem. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.
O turu nasce e cresce dentro dos troncos velhos, quase podre de mangue. Nos mangue novo ele não se cria. Quando eu vejo uma torra de mangue caída e velha, eu olho e se tiver de cor um pouco vermelha, pode meter o machado que tem muito turu. Eles também gostam de madeira de casco, de canoa. Se o caboco deixar sua canoa por muito tempo no enseco, no tijuco, vai minar de turu, daí o casco fica cheio de buraco, ele fura o casco.”
A fala de Baruque, pescador e tirador de turu, o qual acompanhei em diversas ocasiões pelos manguezais de Araídurante o trabalho de campo. Na ocasião, ele o degustava in natura, logo após retirá-lo do tronco do mangue: lavava-o rapidamente e o mastigava, retirando apenas a cabeça do bicho. Ao perguntá-lo sobre o sabor, respondia que “parece com o gosto da ostra, do mexilhão”.
As imersões etnográficas com os pescadores de Araí permitiram perceber que o turu ocupa um lugar central nas representações daquela gente, sendo possível afirmar, sem exagero, que toda a Amazônia Atlântica é atravessada por essas experiências. Nesses territórios, o turu carrega consigo certas singularidades. No nordeste paraense, por exemplo, atribui-se a ele forte carga curativa, afirmando-se que, quando uma pessoa está convalescendo de alguma doença, sentindo-se muito fraca e debilitada, o consumo do turu lhe devolve a vitalidade, regenerando o corpo e a saúde. Moradores de Araí relataram a cura de viroses, inclusive no período da Covid-19.
Dona Maria Picanço, minha mãe, afirma contundentemente que, outrora, antes da descoberta dos tratamentos pela ciência moderna, “as pessoas eram tratadas de tuberculose com o caldo do turu”. A pesquisa de Ribeiro et al. (2023) reforça isso. É provável que essas experiências relacionadas ao turu tenham origem em saberes dos povos indígenas. Ou seja, quando Dona Maria reconhece o poder de cura do turu, está se referindo a uma ciência ancestral, herdada dos povos originários — tupinambás e outras etnias que povoaram a região.
As atribuições benéficas relacionadas ao alimento não se esgotam em sua competência de cura. A ele também são atribuídas competências afrodisíacas. Dizem, por vezes até em tom jocoso, que o turu pode ser afrodisíaco e remédio para resolver questões de impotência sexual.
Assim, ele é mais do que alimento: é cultura. Se pensarmos a comida como marcador de identidade, o molusco não está ali apenas para saciar a fome, mas como comida no sentido pleno, agregador e coletivo. E não se trata de uma comida ordinária. Não é algo que se consuma a qualquer momento, pois envolve todo um ritual de coleta e uma sabedoria amazônida específica: em qual mangue ir, em que estágio de decomposição a árvore deve estar, como retirar o molusco sem despedaçá-lo. Há todo um conjunto de técnicas tanto para coletar quanto para preparar, porque, se não for feito do modo correto, o turu se perde — “ele emborracha”, afirma Dona Maria Picanço.
Comensalidades e cosmologias

O turu (Teredo navalis), invertebrado bivalve que habita o interior dos troncos de mangue. Para quem é de fora, a aparência causa estranheza; para o araiense, é a ‘sustança’. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.
A centralidade do turu nas vivências dos araienses — e, por extensão, da Amazônia Atlântica — pode ser lida à luz de abordagens clássicas da antropologia da alimentação. Como aponta Mary Douglas (1971), os alimentos não são apenas substâncias biológicas, mas sistemas classificatórios que organizam o mundo social, separando o comestível do repulsivo, o ordinário do ritualizado. Nesse sentido, o estranhamento que o turu provoca nos “de fora” evidencia fronteiras simbólicas entre universos culturais distintos, enquanto sua valorização local reafirma pertenças e identidades amazônidas.
Ao mesmo tempo, como sugere Claude Fischler (1990), a comida é um poderoso operador de identidade, pois ao comer incorporamos não apenas nutrientes, mas valores, histórias e cosmologias. Entendida como comida que dá “sustança”, a iguaria atualiza uma concepção de corpo relacional, no qual saúde, força e vitalidade não se dissociam da alimentação nem do território. Essa lógica dialoga diretamente com o que Marcel Mauss (2003) identifica como “técnicas do corpo”: modos socialmente aprendidos de produzir, preparar e ingerir alimentos, profundamente enraizados em tradições coletivas.
Na Amazônia Atlântica, os manguezais — particularmente os troncos caídos e em avançado estado de decomposição do mangue — constituem o habitat natural do turu, revelando uma relação íntima entre ambiente, técnica e conhecimento. Tal relação aproxima-se das reflexões de Tim Ingold (2011), para quem os saberes tradicionais não se organizam como sistemas abstratos, mas emergem do engajamento prático e sensorial das pessoas com a paisagem. Saber “ler” o mangue, como faz Baruque, é uma expressão desse conhecimento encarnado.
As práticas de consumo in natura também dialogam com Claude Lévi-Strauss (2004), especialmente com sua oposição entre o cru e o cozido. O consumo imediato do turu, retirado diretamente do tronco do mangue, não indica ausência de cultura, mas, ao contrário, um modo específico e socialmente regulado de relação com o alimento e com a natureza, no qual o frescor, a vitalidade e a força do alimento são valorizados.
As imersões etnográficas com os pescadores de Araí permitiram perceber, como afirma Fischler (1990), que certos alimentos funcionam como verdadeiros “totens alimentares”. Sua atribuição de propriedades curativas e afrodisíacas insere-se em um regime simbólico no qual comer é também tratar, fortalecer, recompor o corpo e a pessoa — lógica já apontada por Mauss (2003) ao tratar das interseções entre corpo, técnica e crença.
O turu não se reduz à função nutricional, Ele integra um complexo sistema de saberes, rituais, técnicas e valores, reafirmando que, como propõe Mary Douglas (1971), a comida é uma linguagem por meio da qual as sociedades pensam sobre si mesmas.
Ao longo deste ensaio, procurou-se evidenciar como o baiacu e o turu operam como mediadores entre o humano, o ambiente e o simbólico no cotidiano do povo de Araí. Mais do que alimentos, esses seres condensam saberes práticos, interditos, narrativas de risco e promessas de vitalidade, constituindo-se como elementos fundamentais para a compreensão das comensalidades e das cosmologias locais.
A fotografia, ao assumir protagonismo na narrativa etnográfica, revela-se uma ferramenta capaz de tornar visíveis essas camadas de sentido, permitindo que detalhes, gestos e presenças silenciosas emerjam como formas de pensamento. Nesse movimento, as imagens não apenas registram práticas, mas também provocam reflexões sobre os modos como os araienses percebem, sentem e significam suas relações com os rios, os manguezais e os seres que deles provêm.
Assim, reafirma-se a importância de abordagens sensíveis na antropologia, capazes de articular imagem, palavra e experiência comensais. Ao lançar luz sobre as práticas alimentares e os universos simbólicos de Araí, busca-se contribuir para uma compreensão mais ampla dos modos de vida regional, reconhecendo a complexidade das relações que sustentam a existência em territórios marcados pela interdependência entre humanos e não humanos.
Decerto é, que tanto o baiacu quanto o turu contribuem para composição alimentar dos povos que habitam as comunidades rurais da Amazônia Atlântica paraense, mobilizando crenças e cosmologias que sustentam os modos singulares de viver, comer e compreender o mundo e a vida.

A imagem revela o invertebrado que habita o centro das cosmologias da Amazônia Atlântica, unindo o saber indígena ao cotidiano dos pescadores paraenses. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

A técnica de retirar o molusco sem despedaçá-lo é essencial para preservar suas propriedades curativas e nutricionais. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

A análise da madeira caída para localizar o habitat do molusco. ‘Quando vejo uma torra de mangue velha, se tiver de cor um pouco vermelha, pode meter o machado’, ensina Baruque. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

O turu pronto para ser apreciado. O caldo do molusco é conhecido por suas propriedades afrodisíacas e revigorantes. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.
Referências
Texto: Miguel Picanço
Arte: Fabrício Vinhas
Revisão e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón
