Para quem foi Belo Monte?

Foto do canteiro de obras de Belo Monte
DOI: 10.33009/amazonia2021.09.19

Quando propusemos uma edição especial sobre a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, nosso intuito era refletir sobre a memória de sua construção e dos seus impactos por diversos ângulos.

Reunimos um grupo de autores interdisciplinares, que incluiu ativistas, pesquisadores, poetas, fotógrafos e jornalistas para lembrar aos nossos leitores o que foi e o que é essa Usina Hidrelétrica. É uma memória que não pode ser esquecida nem tratada de forma conformista.

Passados 10 anos, o que foi Belo Monte? Ou melhor, para quem foi Belo Monte?

E há muito a se falar sobre esse objeto técnico de escalas gigantescas. Do conceito de desenvolvimento que sustentou sua concepção, minimizando – quando não ignorando – a população nativa, de índios e caboclos. Das mudanças urbanas e demográficas impostas a Altamira e do virtual estado de exceção necessário para sua instalação.

Esta edição especial procura contextualizar Belo Monte. Mostramos os paralelos dessa obra com outra hidrelétrica, de Tucuruí, feita durante a ditadura militar. O modus operandi de opressão, de passar por cima dos trâmites legais, se repetiu.

Refletimos sobre a contradição de uma obra bilionária deixar uma região pior do que estava. Ao invés de trazer ‘progresso’ e melhorias para a região’, Belo Monte deslocou mais de 40 mil pessoas de suas raízes territoriais. Aumentou a violência na região, os desmatamentos, a poluição. O custo de vida encareceu.

A construção da usina é um espaço de reflexão para pensar se queremos um tipo de desenvolvimento tão violento e perverso.

A Usina também se torna um ponto de análise sobre as relações entre público e privado. A empresa vencedora da licitação detinha tanto poder, sob proteção do governo federal, que se achava no direito de ignorar a lei e usar de estratégias espúrias para conseguir seus bilhões.

A história de Belo Monte, porém, não é apenas a narrativa de uma obra do sistema energético brasileiro. Da falha de um dos governos mais progressistas dos últimos trinta anos. Mas a história do que foi feito com as vidas humanas na Volta Grande do Xingu. Com as vidas de indígenas, ribeirinhos, oleiros.

Se Belo Monte foi publicizada como sinônimo de desenvolvimento, sua implantação na vida real das escalas humanas se tornou sinônimo de morte.

 
 

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