Ismael Machado

Escritor, jornalista, roteirista e doutorando em cinema. Ganhador de 12 prêmios jornalísticos. Já cantou em banda de rock, plantou árvore e ajudou a criar dois filhos.

O edital que ignorou nortistas e a urgência de nomes amazônicos na Ancine

Alex Braga é diretor-presidente da Ancine desde out/2021, com mandato até 2026 - Foto: Agência Senado
  • Nenhuma produção audiovisual da região Norte foi contemplada no resultado preliminar do edital Novos Realizadores 2022, da Ancine
  • A exclusão reflete a lógica colonizadora sobre a Amazônia e o abandono da Cultura que se intensificou desde 2018
  • Após revolta e mobilização dos produtores nortistas, a agência prometeu reavaliar a inclusão de projetos da região
  • Episódio reforça a urgência de termos nomes amazônicos na Ancine e no Ministério da Cultura

Ao longo das últimas décadas a Amazônia, quando abordada pela mídia do eixo Sul/Sudeste, foi invariavelmente retratada como uma “terra sem lei” ou um “exótico lugar de números grandiloquentes”. Uma região que abriga riqueza mineral incalculável e a maior floresta tropical do mundo. É formada por um território extenso e único por causa da variedade impressionante da flora e fauna. Abrange nove países, sendo o Brasil responsável por 60% da área total. Nela caberiam 14 alemanhas ou 20 inglaterras. Não é exagero dizer que sua marca natural é tão ou mais famosa do que a da Coca-Cola.

Considerada uma das últimas fronteiras florestais do mundo, a Amazônia abriga contradições que fazem com que seu entendimento, ou pelo menos tentativa de compreensão, passe ao largo de um discurso produzido pelos atores da própria região. Um discurso colonial que apresenta o colonizado estereotipado, num sistema que acaba se tornando crucial para o exercício do poder, como bem ensina Hommi Babha.

A Amazônia tem sido vista ora como um obstáculo ao crescimento da civilização, ora como impedimento ao desenvolvimento industrial. Em outros momentos, por deter uma das mais importantes reservas florestais do mundo, é entendida como um santuário a ser preservado.

Em nenhum desses aspectos, a voz amazônica é ouvida.

A Amazônia como “periferia” da cultura

Num país também constituído por imensa dimensão territorial, não é difícil auferir que nele convivem variadas e ricas formas de expressão cultural. E que seria desejável – e esperado – que essa diversidade fosse contemplada de forma igualitária pelas políticas culturais do Brasil. Se há vários brasis coabitando o mesmo espaço geográfico, logicamente eles deveriam ter possibilidades de expressão iguais.

Essa obviedade não costuma fazer parte das políticas públicas, no entanto. Principalmente quando o tema é Amazônia. A região Norte costuma ser tratada de forma periférica. Seus hábitos, sua cultura, sua arte, literatura, música etc, costumam ser rotuladas como “regionalistas”. Aliás, quase toda a cultura produzida no Brasil fora de um suposto eixo Rio-São Paulo é tratada como “regional”.

Em certa medida, essa assimetria foi encurtada quando Gilberto Gil assumiu o Ministério da Cultura entre 2003 e 2008, na primeira gestão Lula. Gil foi responsável pela implementação de políticas públicas para a promoção da diversidade artística, cultural e étnica, como os Pontos de Cultura, por exemplo. E iniciou-se uma salutar discussão sobre a descentralização de recursos públicos para a cultura.

A ideia foi ampliada na Agência Nacional de Cinema (Ancine) e Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) sob a gestão Manoel Rangel, do PC-do-B. Com isso, os editais para o audiovisual obrigatoriamente passaram a ter cotas de indução regional. Ainda assim com assimetrias, mas pelo menos já um caminho a ser trilhado.

As cotas regionais para recursos da Cultura

A Região Norte foi misturada à Região Nordeste e ao Centro-Oeste. Com direcionamento de 30% dos recursos em cada edital, essa cota, ainda assim possibilitou um aquecimento na produção audiovisual nortista. De 2002 a 2022, apenas para ficarmos nesses vinte anos, são incontáveis as séries, filmes, programas, webseries, clipes musicais, produzidos na região.

Um mercado de profissionais cada vez mais capacitados começou a se formar. Do Acre ao Pará, do Amapá a Rondônia, do Amazonas a Roraima. As vozes amazônicas começaram a ser ouvidas, contando suas próprias histórias.

Não sem ruído.

Ao longo desses anos, vozes insatisfeitas reclamaram (ainda que nos bastidores, muitas vezes) contra essa destinação de recursos descentralizados. Os argumentos variavam: desde a ‘fragilidade técnica’ dos produtores locais até a ‘inexperiência em lidar com grandes recursos’, várias eram as justificativas pífias para o combate à essa democratização cultural.

Obviamente a Região Norte era um dos alvos principais. Se a Amazônia sempre foi tratada como espaço a ser colonizado, não seria diferente num tema como o da cultura. Ainda mais audiovisual.

O descaso crescente com as produções nortistas desde 2018

Em 2018, com a assunção de Temer, logo após o golpe contra Dilma Roussef e mais ainda no desgoverno de Bolsonaro, o fosso entre a Amazônia e o resto do país só se aprofundou. O modelo que se adotou, excludente por natureza, soou como mais um indicativo da prática política onde o setor audiovisual brasileiro se alinha a uma concepção neoliberal de ver, pensar e refletir a sociedade num país desigual e injusto.

Privilegiou-se, novamente, as grandes produtoras de São Paulo e Rio de Janeiro. A mesma lógica social brasileira (monoculturas, latifúndios, elitização da riqueza, concentração de renda, desigualdade na distribuição de renda, privatizações, submissão ao deus mercado, unificação de pensamento etc) seria estendida ao setor audiovisual.

É fato que a descentralização e a regionalização das produções incomodariam grandes produtoras dos eixos dos estados mais centrais politicamente do Brasil (sim, leiamos São Paulo, Rio de Janeiro etc). Nos últimos anos, bons projetos desenvolvidos por produtoras fora desse eixo galgaram espaços, dividiram recursos, espalharam olhares e começaram a ser mais e mais competitivas.

Nos anos do PT no poder, o setor do audiovisual foi um dos poucos setores nacionais a passar quase incólume pela chamada crise econômica que se abateu no mundo. Gerou mais emprego e renda que muitos setores, como o automobilístico, por exemplo. Os recursos foram bem distribuídos por todo o território nacional. É claro que isso uma hora seria bombardeado. É como se parte do mercado audiovisual e a cúpula Ancine-Ministério da Cultura exclamassem: “Onde já se viu pequenos querendo a mesma fatia que uma elite? Ponham-se no seu lugar, periféricos”.

Durante toda a gestão Bolsonaro a Cultura foi um dos principais alvos dos ataques do Governo. A intenção era perversamente sufocar esse setor. No caso do audiovisual, foram anos onde a Ancine, sob a presidência de Alex Braga, se omitiu de suas funções democráticas. Asfixiado, o setor mal conseguiu respirar. Curiosamente, as grandes produtoras conseguiram se safar, tanto que um deslumbrado Fernando Meirelles chegou a afirmar- em total descompasso com o que vivia o resto do setor no Brasil- que aquele era um dos melhores momentos para o audiovisual.

Obviamente são declarações que não surpreendem. É a lógica neoliberal funcionando mais uma vez.

A necessidade de nomes amazônicos na Cultura para ontem

Forçado – até por vias judiciais – o governo federal precisou lançar mão de recursos represados via editais. Um deles, o de Novos Realizadores (com regras confusas, diga-se) escancarou de vez a ideia sobre Amazônia. Nenhum projeto aprovado. Sequer um mísero projeto foi considerado digno de ser selecionado no edital cujo resultado preliminar foi divulgado na semana passada. Do estranhamento ao choque, do choque à revolta. Da revolta à mobilização. Até a nova ministra da Cultura, Margareth Menezes, precisou entrar em cena para cobrar de Alex Braga uma reparação a esse escancarado apagamento. Prometida por ele. A se ver.

E de toda a mobilização surgiu a constatação óbvia. É necessário que tenhamos nomes amazônicos, identificados com as reivindicações que o audiovisual e a cultura em geral da Amazônia clamam. Alguém do Norte na Ancine e no Ministério da Cultura são necessidades inadiáveis. Talvez assim, a região possa ser vista como algo além de um quintal do colonizador. Essa é uma reivindicação para ontem. Para já.

Se a Amazônia está no centro das discussões do mundo, precisa ter em todas as instâncias transversais, nomes que a representem de fato. Qualquer discussão sobre política cultural para a região que não inicie com esse tema, está fadada a ser apenas um acessório. Nada mais.

Ismael Machado é escritor, jornalista e roteirista. A palavra escrita como fonte de vida. Autor de cinco livros, diretor audiovisual e doutorando em Cinema. Ganhador de 12 prêmios jornalísticos voltados a questões de direitos humanos, meio ambiente, educação e ciência. Também já ganhou prêmio de melhor roteiro de curta-metragem. Escreveu para grande e pequena mídia (seja lá o que isso signifique). Já cantou em banda de rock, plantou árvore e ajudou a criar dois filhos. Não sabe dirigir, mas tem orgulho de sua pequena biblioteca. Foi professor de jornalismo e sempre agradece aos quatro gatos por deixarem que habite o mesmo teto.
Colunistas têm liberdade para expressar opiniões pessoais. Este texto não reflete, necessariamente, o posicionamento da Amazônia Latitude.
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