Iraildes Caldas Torres

Professora titular da Universidade Federal do Amazonas e doutora em Antropologia Social.

A morte dos yanomami e a dor do mundo

Aldeia Maturacá, próxima o Pico da Neblina, em terras Yanomami - Foto: Guilherme Dias / Amazônia Latitude

Pensar a condição humana dos yanomami na Amazônia supõe, como diretriz reflexiva, discutir processos de exclusão e desumanização que promovem morte em forma de barbárie.

A realidade é aterrorizante e, embora os yanomami não gostem de posar para fotos (porque ao deixarem este mundo tudo tem que ir junto com eles), acabaram autorizando suas imagens para mostrar o estado de abandono e crueldade do governo brasileiro nos últimos quatro anos.

São 570 crianças que não sobreviveram à estupidez de um sistema mortífero que abriu as porteiras da Amazônia para a extração de minérios, deixando rios poluídos, águas envenenadas, pesca ilegal, territórios desprotegidos, total abandono e exclusão social destes indígenas.

O governo de Jair Bolsonaro assumiu uma face perversa em relação aos povos indígenas, mantendo-o na invisibilidade dos direitos e das políticas indigenistas.

No Brasil, os povos indígenas foram declarados cidadãos com base no critério estabelecido pelo Estado brasileiro do Jus Solis – ou seja, quem nasce no Brasil é brasileiro. Por um dispositivo legal os povos indígenas foram decretados brasileiros à revelia deles e de suas especificidades.

Eles são diferentes e querem ser tratados de forma diferenciada reivindicando, inclusive, governo próprio. Trata-se de uma designação que não expressa o sentimento de pertencimento que constitui uma comunidade Nacional, ou mesmo de ligação a um Estado.

O não reconhecimento dos indígenas como seus compatriotas, seus “iguais”, por parte da sociedade brasileira e do próprio Estado, é comprovada no massacre e vilipêndio que se impôs na história em sucessivos processos genocidas desde o período da conquista.

O Holocausto dos judeus bateu de longe o genocídio indígena na América. São processos de extermínio baseados na ideia de raça inferior, criaturas sem cognição e com baixa estatura moral.

Os brancos se dizem inteligentes. Não o somos menos.

Nossos pensamentos se expandem em todas as direções e nossas palavras são antigas e muitas, diz Davi Kopenawa.

No discurso oficial, os indígenas não aparecem como sujeitos de direitos, mas como seres que carecem da “ajuda” governamental. Está em causa a política da tutela, da menoridade indígena, a invisibilidade étnica, que historicamente puseram os indígenas no subsolo dos direitos e fora da noção de cidadania.

Mas, os indígenas não são indivíduos ingênuos e depositários dos interesses políticos de forma passiva. Eles se organizaram em movimentos de resistência, sendo o direito à terra e o respeito às diferenças suas principais bandeiras de luta.

Há uma diferença entre cidadania e nacionalidade no que diz respeito ao estabelecimento de relações. Enquanto que a cidadania se expressa numa relação política da sociedade civil com o Estado (um conceito associado à ideia de Estado Moderno), a nacionalidade está estritamente relacionada ao conceito de nação que nem sempre coincide com o de Estado no âmbito nacional.

O Estado brasileiro é marcado pelos ideais liberais que nortearam a suposta igualdade e homogeneização das raças. A diferença é vista como uma ameaça à identidade nacional. A solução encontrada tem sido a diluição da noção de diferença na noção de igualdade civil, por meio do discurso da cidadania.

O pacto da cidadania jamais representou equidade e igualdade cívica. A cidadania nunca foi desfrutada pelos indígenas apesar de ter sido reivindicada historicamente por eles, permanecendo a diferença, uma excrescência, sem reconhecimento.

Os povos indígenas possuem modos próprios de ser e estar no mundo e, com mais de quinhentos anos de contato, o Estado brasileiro ainda não aprendeu a lidar com a diferença.

As políticas integracionistas e homogeneizadoras constituíram-se num desserviço às comunidades indígenas na medida em que promoveram a expansão do capital com a entrada de alimentos industrializados e a implementação dos grandes projetos amazônicos de desenvolvimento regional. São processos que atingem violentamente essas comunidades com o desmatamento, o garimpo ilegal, a pesca predatória e a escalada do agronegócio.

A morte dos yanomami é uma crueldade que banaliza a vida. Perde-se a dimensão de continuidade da vida, sufoca a cultura, cala-se o mito.

Muitos adultos, homens e mulheres que eram guardiães de sua cultura, se foram. O velho indígena é o amigo da sabedoria, aquele que viveu muitas luas, fumou muitos cachimbos, exalou o pariká, fez muitas pescarias. É o senhor da floresta, das montanhas sagradas, dos sagrados rios, em cuja experiência construiu os pilares de sua etnia. É o ser que habita a casa do mundo e que foi embora levado pela fome, por doenças e pelo envenenamento pela água.

Chegamos ao limite da condição humana e estamos vivendo a dramática dor do mundo.

Iraildes Caldas Torres é professora titular da Universidade Federal do Amazonas e doutora em Antropologia Social. É autora de livros como “As Primeiras Damas e a Assistência Social: relações de gênero e poder” (2002), “As Novas Amazônidas” (2005) e “Arquitetura do Poder: Memória de Gilberto Mestrinho” (2009). Exerce o cargo de diretora do Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do Amazonas.
*Colunistas têm liberdade para expressar opiniões pessoais. Este texto não reflete, necessariamente, o posicionamento da Amazônia Latitude.
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