‘Noites Alienígenas’ e as vozes amazônicas

Foto: Divulgação/Noites Alienígenas/Vitrine Filmes

Ismael Machado

Escritor, jornalista, roteirista e doutorando em cinema. Ganhador de 12 prêmios jornalísticos. Já cantou em banda de rock, plantou árvore e ajudou a criar dois filhos.

Foto: Divulgação/Noites Alienígenas/Vitrine Filmes

Conheci Sérgio de Carvalho lá por 2008. Estávamos a trabalho para um festival de cinema itinerante que chegava naquele instante ao Peru. Nos conhecemos naquela zona fronteiriça do Acre com o país vizinho. Desse período, minha lembrança sobrevivente foi uma noite em que os dois atravessamos a noite de Cuzco e a terminamos encantados com a voz negra de uma mulher cantando blues e soul num bar.

Fui reencontrar o Sérgio na Fundição Progresso oito anos depois. Era um daqueles eventos político-culturais que tinham como pano de fundo os gritos de “não vai ter golpe”. Bom, golpe houve, já que os ouvidos se fizeram surdos a esses apelos.

Sujeito tranquilo e boa-praça o Sérgio. Nesse intervalo de tempo as notícias mais próximas eram de um festival acreano de cinema chamado Pachamama, que tinha a digital dele. Aqueles heroicos festivais de cinema de fronteira, considerados periféricos e sem o glamour dos similares em outros centros do país.

Esses fragmentos de lembranças servem apenas para realçar a –estupenda– surpresa quando o noticiário cultural se quedou com o atropelo que o filme “Noites Alienígenas” causou no festival de cinema de Gramado, arrebanhando prêmios, incluindo, entre outros, o de melhor filme. E tendo Sérgio de Carvalho na direção.

A surpresa veio de nem imaginar que Sérgio estava por trás das câmeras dirigindo um longa-metragem de ficção. A curiosidade para ver o filme passou a ser intensa, principalmente com a leitura de resenhas e críticas sobre o filme.

A curiosidade foi saciada recentemente. Numa sessão de cinema em horário quase impraticável (13h30) e, infelizmente, poucos espectadores, pude conferir o longa acreano. E gostei do que vi.

Não é esse texto, ressalto, um enunciado crítico sobre o filme. São apenas apontamentos de sensações desprovidas de rigor técnico. Um compartilhar de pensamentos.

Saí feliz com o filme. Pela existência dele. Pela força emanada na tela. Pelos acertos e falhas existentes. Pela sinceridade e afeto com que foi produzido. Pela história e reflexão contidas nos 80 minutos de filme.

“Noites Alienígenas” conta, em linhas gerais, a história de três personagens da periferia de Rio Branco, impactados pelo conflito entre facções criminosas do tráfico e pela violência urbana espraiada por cada pedaço de cidades brasileiras. São eles Rivelino (Gabriel Knoxx), Sandra (Gleici Damasceno) e Paulo (Adanilo). Cada um com atuações altamente convincentes e, para usar uma palavra dos tempos contemporâneos, potentes.

Rio Branco é uma cidade de fronteira. A frase pode soar oca a quem nem de longe vive essa realidade –na saída do cinema, um trio sudestino argumentava que a obra deveria ser um documentário e não ficção, para se ver o tamanho da encrenca que é o Brasil do eixo entender a nossa vivência amazônida. Mas, quem conhece esses espaços, entende bem o que é estar sempre na fronteira (econômica, ambiental, social, cidadã, política).

Estamos sempre em um escorregadio território fronteiriço entre o século 19 e o século 21. Isso é a Amazônia e suas intrincadas multiplicidades. Quem são os alienígenas, afinal?

O que o filme mostra é esse limiar de uma cidade que enfrenta os problemas advindos do deslocamento da “civilização capitalista do tráfico sem fronteiras e empreendedor”, ao mesmo tempo em que busca se equilibrar em tradições que vêm das ancestralidades florestais de povos originários.

É uma obra 100% bem resolvida? Não. Há problemas quando não se resolve adequadamente o destino de determinados personagens –como o de Sandra, por exemplo, que merecia mais, principalmente pelas possibilidades abertas pelo roteiro de Camilo Cavalcante, Rodolfo Minari e Sérgio de Carvalho. Camilo já é bem conhecido por suas obras com digitais do melhor do cinema pernambucano. O longa, diga-se, é baseado num romance de Sérgio de Carvalho.

No filme, Rivelino trabalha vendendo drogas ao lado de Alê (Chico Diaz). Paulo, numa atuação intensa de Adanilo, é usuário e pai do filho de Sandra, uma personagem que tenta viver longe dessa guerra de facções que está a ponto de explodir. Ela trabalha em um restaurante, sonha em partir dali e descarrega suas emoções em encontros de slam ao lado de amigas e amigos num coletivo de arte urbana.

Em determinados momentos cheguei a pensar que o filme talvez pudesse ter sido conduzido justamente por Sandra, tamanha riqueza de possibilidades que a personagem apresenta. Mas isso talvez seja mais a projeção de quem escreve do que de quem fez o filme.

Quando o filme fez história no 50° Festival de Gramado, em 2022, onde recebeu cinco prêmios, incluindo Melhor Filme Brasileiro, Melhor Ator para Gabriel Knoxx, Melhor Ator Coadjuvante para Chico Diaz, Melhor Atriz Coadjuvante para Joana Gatis e o prêmio da crítica, além de receber uma menção honrosa pela atuação de Adanilo, o que estava –e está– em pauta era uma discussão sobre o protagonismo amazônico na e fora das telas audiovisuais. Um oportuno debate sobre inclusão na tomada de decisões e na possibilidade de produtoras locais nortistas contarem suas próprias histórias.

E é como se justamente “Noites Alienígenas” comprovasse essa necessidade. E muito menos se está a comparar qualidade de obras, mas recentemente tive a oportunidade de assistir a “O Rio do Desejo”, filmado numa cidade amazônica, mas sob o prisma de uma produção não nortista. É gritante a diferença em termos de sangue, veia, pulso, carne, vida, olhos, de um filme a outro. Entre a beleza quase cartão postal de “O Rio do Desejo” e a “sujeira” incômoda de “Noites Alienígenas”, fico com a segunda opção.

O longa acreano se impõe na cinematografia contemporânea brasileira sem pedir maiores licenças. Escolhe contar sua história a partir de um ponto de vista peculiar. Se está ali a ancestralidade de uma terra onde o “daime” é religião, também se apresentam aos nossos olhos o fetiche pelos símbolos urbanos mais prosaicos –a moto símbolo do “subir na hierarquia”, por exemplo.

O tráfico globalizado resultou na perda de parte de uma geração inteira de jovens acreanos. O filme mostra isso em uma cartela ao final. Esses problemas alienígenas que deixam para trás a romântica ideia de um simples baseado ao pôr do sol substituindo-a por concretas pedras de crack e outras drogas é apenas um dos tantos que a Amazônia herda. Afinal, quem lucra em última instância, apenas para traçar o paralelo, com a exploração clandestina do garimpo em terras Yanomami?

Saí do cinema e lembrei o riso aberto e franco do Sérgio de Carvalho. Fazia uma bela tarde de sol no Rio de Janeiro. Agradeci intimamente a toda a equipe de produção do filme pela experiência e pela certeza de ser esse um caminho sem volta para o audiovisual amazônico. Há muitas e muitas histórias a serem contadas, mas os erros e acertos precisam ser predominantemente nossos, sem que isso soe como um favor condescendente.

Que venham os próximos filmes, séries, clipes, animações etc etc e etc.

Ismael Machado é escritor, jornalista e roteirista. A palavra escrita como fonte de vida. Autor de cinco livros, diretor audiovisual e doutorando em Cinema. Ganhador de 12 prêmios jornalísticos voltados a questões de direitos humanos, meio ambiente, educação e ciência. Também já ganhou prêmio de melhor roteiro de curta-metragem. Escreveu para grande e pequena mídia (seja lá o que isso signifique). Já cantou em banda de rock, plantou árvore e ajudou a criar dois filhos. Não sabe dirigir, mas tem orgulho de sua pequena biblioteca. Foi professor de jornalismo e sempre agradece aos três gatos por deixarem que habite o mesmo teto.
Este texto não reflete, necessariamente, o posicionamento da Amazônia Latitude.
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