Os inimigos de Adrian Cowell, o documentarista da prudência

Adrian Cowell evitava rotinas, mudava trajetos, sempre imaginava a possibilidade de uma emboscada. Foto: Divulgação/GPA/PUC-GO

A regra geral de Adrian Cowell é: “primeiro, filmar o inimigo”. Depois de filmar o lado amigo, as portas podem se fechar e o risco aumentar. Mas qual inimigo?

Nos filmes de Cowell (1934-2011), nunca havia um inimigo declarado, mas sempre sugerido. O diretor, personagem oculto em quase todos os filmes (ele aparece em cena apenas nos primeiros filmes feitos no Brasil), mostrava os diferentes lados dos conflitos. Lados que não são necessariamente antagônicos, mas múltiplos agentes em situações de oposição.

Seus filmes são filmes sobre conflitos políticos de tensões sociais e os clímax ocorrem nos confrontos mais expostos. Por vezes tiros, emboscadas, mortes. Em outras, a construção intelectual do problema leva a compreender a disputa de ideias, e a violência é apresentada pelos discursos.

Os inimigos construídos são, invariavelmente, o lado mais forte das disputas. Adrian Cowell sempre esteve do lado dos oprimidos, da população mais vulnerável, principalmente daquelas que dependem do acesso direto ao ambiente para sobreviver – como indígenas, camponeses pobres e seringueiros. Mas também os tibetanos ou os povos da Birmânia que queriam ser independentes.

Os inimigos em “Matando por Terras” são um pistoleiro que treina tiros no Maranhão, um fazendeiro que vive longe da área cuidada por pistoleiros e os policiais que trabalham como pistoleiros. É também o governo federal, no final da Ditadura, que incentiva a ida de migrantes para essas regiões de fronteira.

O inimigo é, ainda, o então candidato a presidente da República, Ronaldo Caiado, enquanto presidente da União Democrática Ruralista, fazendo um gesto ameaçador com as mãos e prometendo unir os fazendeiros “como em uma caixa de marimbondo”.

Em “A Tribo que se Esconde do Homem”, o garimpeiro que dá um tiro para o alto comemorando que encontrou diamantes é o inimigo dos Ikpeng, um povo da região do Xingu. Mas o garimpeiro em “Montanha de Ouro” é o oprimido, parte da grande massa de pobres que sonha em melhorar de vida, e cujo acesso às riquezas dos subsolos fica restrito ao monopólio da Vale.

O Estado, tantas vezes retratado como inimigo, é o destemido funcionário do Ibama que sofre ameaças de morte de madeireiros em Rondônia, em “Batida na Floresta”. Mas o grande Estado é o inimigo dos tibetanos, quando um comboio do exército chinês sofre emboscada em “Raid into Tibet” – o único filme jamais feito sobre uma guerrilha tibetana.

Empresas, Estado, o grande capital frente a uma população da floresta… Adrian Cowell retratava esse desequilíbrio de forças, como o gigante frigorífico Bordon, em São Paulo, que vendia carne produzida nas terras dos seringueiros no Acre. Assim como quem assumia o
papel local dessa indústria, da violenta pecuária, como o próprio fazendeiro que mandou matar Chico Mendes, na fria entrevista que Cowell conseguiu realizar com Darly Alves.

Conflitos dinâmicos e sem maniqueísmo

Na magistral série “A Década da Destruição”, algo aparentemente maniqueísta revela-se complexo. O garimpeiro que mata os indígenas é também a vítima da Vale. Em “Na trilha dos Uru-Eu-Wau-Wau”, o pobre migrante em busca de terras que mata os indígenas é o que morre pela mão de pistoleiros a mando de grandes proprietários em “Matando por terras”.

Os conflitos são dinâmicos. As vítimas, no trabalho de Cowell, não são agentes inertes. Reagem, lutam, enfrentam. São os Uru-Eu-Wau-Wau que raptam e matam os filhos daqueles que os atacam, ou os posseiros que matam e emboscam os pistoleiros e até a polícia pistoleira.

Não há guerras vencidas, mas guerrilhas em batalhas constantes para sobrevivência, e tentar impor a sua sobrevivência pela resistência.

Adrian Cowell não era, a princípio, um ambientalista

“A Década da Destruição” foi uma série com imensa repercussão logo antes da grande conferência Eco-92 da ONU, no Rio de Janeiro. Foi vista pelo Príncipe Charles, que passou a se interessar pela Amazônia. No entanto, Cowell não era um ambientalista.

O ambientalismo surgiu como expressão política depois que Cowell já havia realizado importantes filmes sobre o Xingu. Mas ele se aproximou do movimento ambientalista da mesma forma que Chico Mendes. Viam nele pautas em comum, inimigos em comum, e alianças importantes.

“Cowell não estava preocupado com o desmatamento apenas pelo impacto que poderia causar aos animais ou só à natureza, mas ao que isso representava às pessoas, as populações que dependiam dessa natureza para sobreviver”, disse Barbara Bramble, sua companheira.

Barbara é advogada e ambientalista, hoje diretora da Wildlife Conservation Society. E é nesse sentido da interação entre ser humano e natureza que Cowell, como narrador, apresenta a destruição de Rondônia como “o maior holocausto ecológico da história da humanidade”.

Aprendendo a filmar com Adrian Cowell

Na primeira vez em que estive com Adrian Cowell, eu queria aprender com ele como ele fazia para filmar os “inimigos” em situações de conflito. Eu estava impressionado após fazer uma reportagem sobre Colniza, um dos lugares mais violentos da Amazônia. Havia recebido ameaças, intimidações, passado momentos de tensão e medo. Coisas que sempre acontecem nessas situações. Conversar com Adrian era aprender um pouco da sua experiência.

O assunto mais delicado para Cowell era o tempo em que passou com a guerrilha na Birmânia para a série “The Heroin Wars”. Ali, não havia uma estratégia de saída. A rota de fuga que tinham planejado havia sido fechada. Estavam cercados pelo exército que combatia a guerrilha que filmavam.

Viveu assim por mais de dois anos. Fazia anotações em um diário, mas, como conta Barbara Bramble, não eram muitas anotações, pois ele não sabia quanto tempo iria passar lá, e não havia papel caso os blocos acabassem. Letra miúda, informações precisas, o necessário. “Esse diário nunca foi lido por ninguém”, me disse Barbara.

Cowell, metodicamente, sempre traçava rotas de fuga. “Ele planejava não só como entrar nos locais, nas regiões onde iria trabalhar, mas também como sair de lá, e como tirar os filmes”, me contou Barbara.

A ideologia do progresso como o principal inimigo

“Meu pai defendia os mais fracos. A questão ambiental surgiu depois na vida dele”, me disse Boogie Cowell, sua filha. A preocupação fundamental de Adrian era com as populações atingidas pela ideologia do progresso, que não aceitava modos de vida diferentes. O progresso, como ideologia, era o inimigo – seja na Amazônia, seja no sudeste asiático.

Nesse sentido, produtores de heroína poderiam ser vistos, pelas lentes de Cowell, como populações locais buscando uma forma de defender a liberdade e a independência. Até a atividade ilegal se justiica como uma forma de financiar a guerrilha.

A guerrilha e o governo opressor não são colocados como lados antagônicos de uma disputa fechada entre estes dois polos. Esse é um conflito, mas por trás dele está o mercado que causa esse impacto.

A série sobre o ópio, filmada ao longo de 30 anos que culmina com “The Heroin Wars”, concluída nos anos 1990, foi apresentada no Congresso americano. Por trás dessa disputa sangrenta estava o rico mercado de drogas, e a brutal guerra às drogas perpetrada pelo governo dos EUA.

Esse sim era o verdadeiro inimigo daquela disputa local na Birmânia: a política internacional dos Estados Unidos. Como a política de financiamento de estradas do Banco Interamericano de Desenvolvimento era o inimigo por trás do conflito entre Chico Mendes e fazendeiros no Acre.

“Ele contava das suas experiências na Ásia, que foram coisas pesadas, e usávamos isso na Amazônia”, me contou Vicente Rios, câmera co-produtor e amigo de Cowell até o último dia de vida. Foi o caso quando filmaram o corajoso documentário “Matando por Terras”, no violento sul do Pará, acompanhando, inclusive, emboscadas armadas pelos posseiros, e situações de tensão com trocas de tiros.

Medo e prudência eram aliados no trabalho de Adrian Cowell

Entre as técnicas para gravar os inimigos, Cowell mudava constantemente de hospedagem. Era costume sair de um hotel, sem avisar, no meio da noite, e não fazer reservas. Extrema discrição.

Nunca comentava um filme em andamento. Evitava rotinas, mudava caminhos, trajetos, sempre imaginava a possibilidade de uma emboscada. Tinha consciência dos riscos – por isso, tinha medo. Via no medo um aliado. “O medo da prudência, não o medo do pânico”, explica Bárbara.

Ao final, uma grande lealdade aos amigos. Sejam os indígenas, os posseiros, os sertanistas, como Apoena Meireles, Orlando e Cláudio Vilas Bôas, e Chico Mendes.

Quando eu estava preparando um documentário sobre o assassinato do casal de ambientalistas José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, em Nova Ipixuna, no Pará, pedi a Cowell imagens que ele havia filmado de Chico Mendes, para estabelecer um nexo entre as mortes, separadas por duas décadas, mas com padrões de execução muito semelhantes.

Ele me respondeu o e-mail no dia seguinte: “Será um prazer ajudar você a fazer seu primeiro filme. Chico, se ele estivesse vivo, sem dúvida, iria querer ajuda a causa de Zé Claudio e Maria”, escreveu. “Sem dúvida estes assassinatos têm alguma influência um sobre o outro.”

Ele contou que, antes da proposta de filmar Chico, tinha decidido que era essencial mostrar o motivo por que tantos colonos estavam invadindo as florestas amazônicas. Cowell foi com Vicente ao sul do Pará, encontrar com Padre Josimo.

“Combinamos de filmar o trabalho e vida dele, mas antes que desse tempo para iniciar a filmagem, ele foi assassinado. Logo depois, encontramos Chico e combinamos filmar ele”, contou. Chico foi morto durante as filmagens de “Chico Mendes: Eu Quero Viver”.

Como seu amigo Darcy Ribeiro, em quase todos os casos, os amigos de Adrian Cowell perderam para seus inimigos. Mas certamente, como Darcy, Adrian iria odiar estar ao lado dos que venceram.

Felipe Milanez é investigador do Centro de Estudos Sociais (CES), integra o projeto European network of Political Ecology para o doutorado em Ecologia Política e é pesquisador visitante na Universidade de Manchester. Trabalhou como jornalista especializado na Amazônia, editor da National Geographic Brasil e Brasil Indígena, da Funai. Foi indicado a herói da Floresta pelas Nações Unidas em 2012.
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