Resistência: ilustradora Guarani usa arte para denunciar danos à floresta e defender os povos tradicionais

Ilustradora usa arte para falar sobre danos à natureza
Ilustradora usa arte para falar sobre danos à natureza - Ilustração: Wanessa Ribeiro / Amazônia Latitude

Foi na Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro, que Wanessa Ribeiro despertou a arte interior que ainda estava tímida. A ilustradora encontrou na troca coletiva a força que precisava para acreditar mais nela mesma.

Hoje, os traços dão vida às ilustrações, que têm o objetivo de facilitar a informação para quem não é da cultura indígena e provocar o debate sobre a importância da natureza.

Wanessa, com descendência indígena do povo Guarani, passa a integrar a equipe da Revista Amazônia Latitude. Semanalmente, a artista trará ilustrações que abordam temas voltados para a floresta, a Amazônia, e outras pautas do dia a dia de comunidades tradicionais.

Além disso, também vai abordar as discussões nacionais que desembocam nos povos originários do Brasil. Confira os principais pontos trazidos por ela nesta entrevista.

O começo

Wanessa lembra que desenhava desde criança, mas foi na pandemia da Covid-19 que mergulhou a fundo no processo de criação. Indígenas a buscaram para ilustrar a capa de livretos feitos com o intuito de arrecadar fundo para as comunidades. Deu certo! Tanto para as parentes, com as ações solidárias, quanto para ela, que viu florescer a arte. Wanessa afirma:

Não foi bom apenas para o meu conhecimento, mas também comecei a ver que as pessoas se sentiam representadas pela minha arte, que elas queriam ver isso. Isso me deu mais força para fazer, porque acho que faço algo diferente daquilo que é tido como padrão. Às vezes, não nos sentimos seguros. Estudamos para ser de um jeito, e depois percebemos que seremos mais verdadeiro com nós mesmos se seguirmos a nossa intuição, olhar para nossa origem, para o que somos, sem ter vergonha disso.

O objetivo da ilustração

A jovem acredita que a arte é uma forma universal de retratar quaisquer culturas. No caso em questão, a indígena. Entretanto, para além do processo de representação, Wanessa avalia que facilitar a informação para as pessoas que não fazem parte desse contexto é um dos objetivos da arte. Contudo, ela ressalta:

É sempre uma luta interna, porque as pessoas de fora precisam traçar mecanismos para entender nossos símbolos, não é receber tudo mastigado, elas têm que ser provocadas para entender nossos símbolos. Por que tem milho [na arte]? “Não sabia que tinha sementes de outras cores”. A partir desses questionamentos se inicia todo uma trajetória para entender nossa cultura. Como artistas, precisamos contribuir com o banco de imagem mental dessas pessoas. Elas precisam se acostumar com a presença indígena, com corpos diversos, em contextos diferentes, porque ainda existe uma visão muito estereotipada.

A inspiração da ilustradora

Ilustração retrata a sobrevivência de crianças na Colômbia

Ilustração retrata a sobrevivência de crianças na Colômbia – Foto: Ilustração/Wanessa Ribeiro

“A floresta não é uma ameaça. A floresta nos mantém vivos” é a primeira ilustração de Wanessa para a Revista Amazônia Latitude, publicada nesta segunda-feira (12).

O pano de fundo é a sobrevivência de quatro crianças na Colômbia, que passaram 40 dias perdidas na floresta amazônica colombiana, após um avião cair na região.

Pensei que seria algo que provocasse uma reflexão e uma discussão. A frase é para as pessoas refletirem: o que esse acontecimento, essa notícia, esse fato, pode ensinar a elas? Porque minha ideia é que, em tudo que faço, as pessoas lembrem que elas são natureza, e que não sobrevivemos sem a floresta. A água que está fora, está dentro de nosso corpo, existe troca de energia, alimentos. Então, é fundamental, e para mim é óbvio, mas para muitos, não. Os povos que foram chamados de selvagens, vistos como ruins, ignorantes, inferiores, são os que seguram os céus e ensinam como sobreviver.

Garimpo ilegal, ameaça à demarcação de terras indígenas, exploração ilegal de madeira, queimadas, e outros temas importantes da vivência dos povos tradicionais devem ser retratados com ilustrações.

Gosto de manter a linha corpo/território, ou seja, o que estamos causando à natureza, estamos causando a nós mesmos. Não é algo restrito àquela cultura, àquele povo. Todo mundo precisa do mesmo ar, de alimentos. É simples, mas as pessoas perderam esse contato direto. A gente se ilude com uma série de soluções imediatas. Então, gosto de mostrar isso: o mal que estamos causando à natureza e a nós mesmos.

Ilustradora fala de apoio em rede

Wanessa é enfática ao dizer que “ninguém faz nada sozinho”, e já possui um grupo com outros indígenas, uma espécie de apoio em rede. O objetivo é se ajudar e trocar experiências.

A ilustradora também lembra que precisou fazer uma “vaquinha” para conseguir comprar um computador e, devido ao processo para se alcançar os sonhos não ser fácil, ela fica extremamente feliz quando encontra outros parentes que estão evoluindo na arte.

Sempre aprendo com eles, e eles aprendem comigo. Não existe hierarquia: um ensina e outro aprende calado. Nem disputa [existe para mim]. Me recuso a viver dessa forma, não penso assim. Nesse grupo, trocamos ideias, porque sabemos que algumas coisas são difíceis ter acesso. Fazer um curso online é algo que nunca sonhávamos ser possível, mas que metemos a cara, um foi fortalecendo o outro. Quando descubro uma técnica nova, lugares para aprender, trocamos ideias. Me fortaleço e aprendo! Acaba que um é referência para o outro. É um desafio.

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