LatitudeCast#25: Edyr Augusto: Quando a realidade da Amazônia vira palavra

Edyr Augusto fala sobre produção literária na Amazônia
Edyr Augusto fala sobre produção literária na Amazônia - Foto: Amazônia Latitude
Edyr Augusto fala sobre produção literária na Amazônia

Com 10 episódios, a nova série “Pensando a Amazônia pela literatura”, da Revista Amazônia Latitude, veicula entrevistas que podem ser ouvidas no “LatitudeCast”, série dedicada exclusivamente a debater a literatura produzida na Amazônia.

Escritores e pesquisadores convidados vão compartilhar olhares e leituras das múltiplas facetas da literatura amazônica.

No primeiro episódio conversamos com o jornalista, escritor e dramaturgo paraense, Edyr Augusto Proença. O autor já conta com 19 livros publicados em diferentes gêneros, voltados à urbanidade de Belém.

Algumas de suas obras rompem a imagem estereotipada da Amazônia e foram traduzidas para o francês, como ‘Os Éguas’ (1998, Boitempo Editorial) e ‘Moscow’ (2001, Boitempo Editorial); e para a língua inglesa, como ‘Casa de caba’ (2004, Boitempo Editorial).

Ouça:

Acompanhe parte da entrevista:

Edyr, vamos começar realçando a tua escrita, que está enraizada na realidade do estado do Pará. Como a Amazônia, e a cidade de Belém em específico, influenciam a tua obra? 

O primeiro texto que eu escrevi, quando tinha 16 anos, foi uma peça de teatro baseada numa lenda amazônida. Eu não tinha essa vivência toda, porque sempre fui um cara urbano. Mas a minha mãe, que nasceu no Marajó, em Moaná, trazia consigo tudo isso. Ela foi uma figura fantástica para mim, porque ela plantou a imaginação na minha mente. Tudo, de certa maneira, eu devo a ela. Ela me proveu de um verdadeiro glossário das expressões Marajoaras, de modo que eu pude desenvolver aquilo. 

Depois, eu me dediquei à área urbana. Escrevi a peça de teatro sobre a cabanagem, que foi apresentada em 1985, ano em que se comemorou os 150 anos dessa revolta. E, então, eu me vi escrevendo para teatro falando daqui [de Belém]. Quando comecei a escrever poesia, fui muito influenciado pela poesia marginal que engraçou nos anos 1970.

Como jornalista, houve solicitação de crônicas. Você sabe: crônicas são um refresco da alma, uma visão rápida. O jornal vem com aquelas notícias pesadas, e, de repente, tem uma crônica para o leitor dar uma respirada. Eu nasci no centro da cidade. O centro de Belém fica quase na beira d’água da Baía do Guajará, porque Belém era uma cidade portuária no começo do século XX, no boom da borracha.

Uma cidade portuária tem muitos marinheiros aportados que esperam recarregar o navio para voltar. Esses marinheiros frequentavam muito a zona do meretrício, que, coincidentemente, ficava atrás do meu prédio. Eu cresci vendo aquilo, mas sem participar muito. À medida que eu fui crescendo, adolescendo, você começa a conviver quando sai à rua com essas pessoas todas, de alguma maneira reconhece, dá um “oi” discreto. A partir do momento em que o meu grupo de teatro, o Grupo Cuíra, ocupou um casarão que fica no começo do que era a zona do meretrício, nós passamos a conviver melhor com aquelas pessoas. 

A primeira cara que botou o rosto para perguntar o que seria ali quando nós entramos no casarão foi uma prostituta. E no nosso primeiro espetáculo, metade do elenco era formado por prostitutas. A nossa presença teve um desdobramento maravilhoso na vida dessas pessoas. Quanto à nossa [vida], ela enriqueceu muito. A minha, muito mais. Eu passei a conviver com elas, a fazer amizade.

Eu aprendi, estando ali com o teatro e estando com elas no teatro, a não julgar ninguém. A amizade começou porque eu não julguei ninguém, entende? Eu saio de casa e converso com prostitutas, converso com os pimps, converso com traficantes e engraxates, gente que toma conta de carro. Essas pessoas falam muito comigo, e eu as ouço. Eu ouço a melodia das vozes, eu ouço as queixas, eu ouço as alegrias também.

Essa coisa do homem da Amazônia é que me interessa. E isso eu passei a refletir em todos os meus livros. Eu percebi que, de alguma maneira, ao longo das peças que eu passei a escrever, eu estava sempre em Belém e falando da minha terra, do meu chão, do meu cenário e vendi isso para o mundo. Eu tive uma ajuda sensacional da minha editora há muito tempo, que apostou em mim, publicou todos os meus livros e também me vendeu para outros países, os direitos autorais.

Eu sou um escritor do Pará, um escritor da Amazônia, o que me impede muitas vezes de participar da maioria dos festivais que acontecem normalmente no sudeste do Brasil, embora no momento eu esteja vivendo uma fase interessante através do SESC e um programa que eles têm chamado Arte na Palavra. 

É uma maneira de falar da minha obra, porque nós, escritores daqui, enfrentamos um problema complicado do Brasil. É curioso, nós somos a Amazônia é a maior parte do Brasil, não é? Eles são menores do que nós lá embaixo e, no entanto, parece que uma montanha de gelo impede que nós consigamos passar e mostrar nossos trabalhos lá fora. 

Um dos temas que você tocou foi a tua formação como jornalista e radialista. Você mostra uma realidade amazônica que vai além da rota de alguns intelectuais que se resumem em Belém-Salinas. Isso se deve ao teu trabalho de investigação, do conhecimento pessoal da região, das pessoas, como você mesmo me. De que maneira essa tua percepção jornalística influenciou a tua obra literária? 

Uma moça em São Paulo me perguntou se eu não achava que, pelo fato de ser um jornalista, de alguma maneira os meus livros também traziam uma espécie de denúncia. Eu concordei com ela, é claro. Há coisas acontecendo que são inimagináveis e erradas, e eu gostaria muito de que a pessoa fizesse o meu livro ao final do livro. Ela para, respira fundo e pode dizer: “poxa, esse livro foi forte”. Mas, em seguida, ela elabora um pensamento a respeito daquilo tudo que ela leu, entende? 

Eu tenho sempre uma palavra que é um pouco forte. Eu digo que a Amazônia é a puta do mundo, porque nós temos diversas multinacionais levando riquezas nossas para fora, riquezas que retornam manufaturadas e nós pagamos caro. Só o trem da Vale S.A., que tem dois quilômetros de extensão, cada trem vai duas vezes por dia levando minérios. E os contratos não são feitos por nós, são feitos no Governo Federal. E o que fica para nós é uma esmola.

Alguma coisa está errada nessa história. E aí vem o jornalista e detecta isso, também vem um escritor. A maior característica do escritor é a observação. Você olha a realidade a sua volta, você olha as pessoas, você olha o jeito delas de falar, de reagir, de tudo e você vai guardando aquilo para o momento em que vem a ideia um livro, uma coisa que responda isso tudo. É inevitável, como jornalista, que isso apareça nos livros.

Eu considero você um pioneiro ao mostrar, nas tuas obras, o tráfico de mulheres, o tráfico de drogas, o tráfico humano. Os teus narradores revelam uma Amazônia invisível, que transcende para a superfície da tua literatura. Trazendo isso para o presente, vemos a invasão dos garimpeiros nas terras Yanomami, vemos o PCC, que não são realidades distantes. Nesse sentido, a tua obra vai quebrando essa imagem idílica da Amazônia e aborda dramas que podem acontecer em qualquer outra grande cidade. Como você vê a importância de trazer essas histórias para fora da região amazônica e apresentar uma perspectiva que estilhaça a questão do local e do global? 

É claro que muita coisa, como você mesmo disse, não é só da Amazônia. Belém, nesse sentido, é uma cidade chave para entender por causa da sua posição geográfica. Pela capilaridade dos rios da nossa região, o tráfico chega de avião também, mas, sobretudo, através de barcos que vêm pelos rios e chegam aqui. Essa droga é enviada, através do Caribe, para os Estados Unidos e para a Europa, a Holanda, principalmente.

Essa droga deixa, aqui, o rebotalho, digamos assim, destroçando vidas de pessoas muito pobres. Ela causa mortes, desgraças, e isso acaba resultando numa cidade bastante violenta, onde você tem que ter muito cuidado ao sair à rua. Enfim, problemas de Belém. 

Quando escrevi “Pssica”, eu passei dois anos recortando jornais de Belém falando a respeito do tráfico de escravas brancas, como é chamado, e notícias sobre a ação dos ratos d’água, que são os piratas da região, dos rios, de modo que muitas coisas escritas por mim [são], sobretudo nessa situação das mulheres, a situação de extrema miséria nas beiradas do Marajó.

Eu tirei de uma notícia o pai dizendo que podiam usar a filha que tinha doze anos e que ele a tinha feito porque não podia fazer. Há toda uma questão da região. É denúncia, sim. Mas eu coloquei dentro de um enredo, guiando e, talvez, seja um pouco pesado usar essa palavra agora, entretendo o leitor. O tráfico de escravas brancas acontece no mundo todo. 

O que é interessante no “Pssica” é esse elemento contemporâneo de um narrador pós-moderno. Eu queria que você falasse dessa faceta pós-moderna do narrador de “Pssica”. Como você fez essa costura desse narrador pós-moderno que rompe esse estereótipo do próprio Silviano Santiago?

O Marcelo Mirisola, que é um escritor muito bom, disse uma frase que eu nunca esqueci. “Ficcionistas, cuidado. A realidade se tornou uma concorrente.” Você vê muito no jornal, hoje, essa violência.

Eu acho que muito da minha escrita vem de duas fontes. No primeiro caso, a falta de julgamento. Os meus personagens não são somente maus, eles são pessoas comuns. Muitas vezes, as pessoas me dizem que ficam embaraçadas porque começam a torcer pelo vilão em determinados momentos. Isso é muito curioso, porque nós somos humanos. Todos nós somos bons e maus conforme as circunstâncias. Então eu tenho uma falta de julgamento para com os vilões. Eles agem por conta das circunstâncias também.

A outra fonte minha é o teatro. No teatro, eu aprendi a escrever diálogos rápidos. Você não pode deixar a plateia dormir, você tem que golpear a plateia o tempo todo com perguntas e respostas, argumentação, discussão.

E, também, a questão do jornalismo para o rádio. Quanto menos palavras usar e mais certeiro for, melhor. Essa concisão é muito importante. Eu penso, eu chamo o leitor como cúmplice dos meus livros. No caso do leitor de Belém, do Pará, eu faço com que ele se encontre nas ruas, porque ele conhece muito bem. E quanto ao escrito aos leitores de fora, eu penso que eles também já criaram o seu próprio cenário.

Eu também optei por não colocar travessão ou indicar “agora Fulano fala, agora Fulano responde”, eu optei por fazer blocos cheios de palavras para criar uma rapidez, uma agilidade e também uma intensidade nas cenas, e estou certo que na segunda ou terceira página você também já deu um rosto, já deu uma voz, já deu um jeito para cada um daqueles personagens.

Você sabe que as redes sociais cada vez se expressam com menos palavras, mesmo que não sejam tão ricas assim por parte de todas as pessoas que as utilizam. Mas, de alguma maneira, quando eu escrevo curto, eu mantenho a atenção do ouvinte, mantenho ele ofegante com aquilo, ao final de cada capítulo ele respira fundo e ao invés de dizer “amanhã eu leio o resto antes de dormir”, diz “preciso terminar isso”.

Você considera que seria muito prematuro dizer que os teus narradores somos todos nós? 

Do escritor vem sempre a observação, não é? E o escritor acha que fala como os seus leitores. O escritor acha que ele é atingido pelas mesmas coisas que atinge aos leitores. Quando ele escreve, como você muito bem disse, é como se fossemos todos nós falando daquilo que nós assistimos e daquilo que nos impressiona. E por que não também dizer “a violência é excitante”?

Agora Hollywood adora destruir a Estátua da Liberdade, destruir a Casa Branca, tem monumentais explosões, e, de alguma maneira, isso impressiona os olhos. E eu acho que o livro nos toca até mais fundo, porque nos toca naquilo que nós achamos também, naquilo que nos impressiona e nos faz pensar em “o que me faria agir com tal violência, o que me faria sair dessa minha tranquilidade, desse meu posto de observação do mundo, e tomar atitudes mais fortes, mais violentas?”. Essa é a pergunta que eu acho que fica no ar. 

Como você vê o cenário literário paraense atualmente? Quais são os desafios e obstáculos enfrentados pelos escritores locais?

É muito difícil. Nós passamos quase 25 anos sofrendo a presença de um secretário de cultura que, curiosamente, não gostava dos artistas locais e achava sem talento, pobres, feios. Isso se espalha por todas as áreas. Isso foi muito difícil de enfrentar, e há mais de 30 anos não temos uma Secretaria de Cultura Municipal, temos um órgão que cuida meramente da época junina, de campeonato de quadrilhas juninas. Mas também durante esse tempo, e esse é o outro lado da questão, chegou a internet, dando voz para milhões de pessoas. Isso tem um lado positivo, claro, e tem o lado mais considerável que é o que todo mundo pode escrever.

E, por conta da presença dessa pessoa nefasta na Secretaria de Cultura, eu e um grupo de amigos escritores realizamos a FliPA, a Feira Literária do Pará, que era numa livraria Fox durante dois dias e depois se estendeu para três. Vendíamos apenas livros de escritores paraenses, e isso teve um grande sucesso, foi uma coisa muito importante. Nós realizamos três delas e depois veio a questão financeira, nos atrapalhou e em seguida a pandemia. Mas eu estou pelejando para ver se nós conseguimos fazer mais uma FliPA.Surgiram muitos escritores jovens.

Hoje, aqui em Belém, nós temos escritores de fantasia, de ficção científica, de terror e de vários outros escritores regionalistas. O Pará é uma força ainda a ser resolvida. Nós temos, historicamente, super escritores, mas não há hoje, por parte da Secretaria de Cultura do Estado, muito menos da Secretaria Municipal, nenhuma política a respeito disso, seja para os escritores baseados em Belém, seja para escritores do estado. Então não é uma situação boa, temos algumas poucas editoras. Então ainda há muita coisa para acontecer. 

Apesar disso tudo, Salomão está lançando um livro, eu lancei um livro, Marcos Quinan lança um livro, Vasco Cavalcante lançou um livro, Monique Malcher ganhou um prêmio. É uma força que existe. Agora precisamos de um apoio correto a essa força toda que temos, para conseguir fazer frente, porque é claro que há o mercado do sudeste que é o melhor mercado.

No texto que você escreveu para a revista Amazônia Latitude, você mencionou o movimento para abrir academias de letras nos municípios da região. Você acredita que essa conscientização e valorização da literatura regional poderia ser ampliada dentro do contexto não somente do Pará, mas abrangendo toda a região norte?

Você não pode querer atingir o mundo se você não consegue convencer nem a sua vizinhança. Isso é uma coisa clara, nós temos uma dificuldade, nós somos muito insulares. Para ir a Manaus ou são três dias de barco ou um Boeing, para ir a Santarém também tem barco ou Boeing. Isso dificulta o convívio com os nossos vizinhos.

A verdade é que nós somos assim, fechados. Somos fechados por nossos vizinhos maranhenses em termos culturais, por nossos vizinhos amazonenses, e os outros em volta. Isso é uma coisa extremamente errada, é, de uma maneira geral, a maneira que as autoridades tratam a área da cultura que elas veem meramente como local, com cargos a preencher por seus apaniguados. As pessoas que nos apoiam.

No que diz respeito a programas sobre isso, eu tenho ideias, eu já escrevi, eu já enviei. Quando eles assumem o cargo, eu envio como sugestão, mas talvez eu esteja trabalhando errado, talvez isso os ofenda. Porque eles estão ali sem saber o que fazer e alguém envia. Eles dizem “se eu fizer o que esse cara diz, é ele que vai aparecer e eu não. Meu cargo e o dinheiro que eu recebo talvez entrem em perigo”.

Em Belém, nós tínhamos a Fox, hoje temos a Travessia, a Solar, que são duas boas livrarias, mas temos as grandes livrarias, que não vendem o livro do escritor local, seja porque ele não tem editora, seja porque elas exigem até 60% da venda de um livro, e assim não é possível. Você entra nessas grandes livrarias, estão lá só os best sellers, e você não acha o livro local.

É preciso um esforço grande, que nem custa caro, porque a matéria prima existe. Precisamos encher esse estado de cultura porque, fazendo isso, nós uniremos o estado e haverá um ganho financeiro certamente de impostos. A cultura é uma indústria que tem um número enorme de profissionais trabalhando. Mas isso parece estar longe da vista das autoridades. Estão muito ocupadas com seus outros assuntos, e isso nos causa muito prejuízo, muita dificuldade e grandes autores, gente de talento, esses jovens que lançam seu livro e não conseguem chamar a atenção de ninguém. 

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