‘O som do rugido da onça’: a história de duas crianças indígenas traficadas à Europa em 1820

Montagem: Fabrício Vinhas

Montagem: Fabrício Vinhas

Em 1820, o botânico naturalista Carl Friedrich Philipp von Martius (1794 – 1868) e o zoólogo Johann Baptist von Spix (1781 – 1826), cientistas alemães, levaram do coração do Brasil até Munique, na Alemanha, diversos suvenires colhidos em sua expedição científica pelos trópicos: 6.500 plantas e sementes, 2.700 insetos, 85 mamíferos, 350 pássaros, 150 anfíbios e répteis e 116 peixes, além de duas crianças indígenas escravizadas: a menina Miranha e o garoto Juri.

Esse detalhe da famosa expedição científica de Spix e von Martius sempre foi tratado apenas como um mero detalhe a ser apreciado com as regras da resignação histórica: eles levaram cativos da Amazônia seis indígenas, pessoas que lhes tinham sido presenteadas ou foram trocadas por apetrechos em suas aldeias. Destes indivíduos, dois foram deixados no Brasil com autoridades da época, dois morreram durante a travessia do Atlântico, e com as duas crianças eles desembarcaram em Lisboa, dali rumando para Madri, depois Valência, Tarragona, Barcelona, subindo os Pirineus, passando por Perpignan, Lyon, Alsácia, entrando em Estrasburgo, margeando o Reno e chegando enfim à capital da Baviera, destino final dessas duas almas. O menino morreria depois de seis meses da chegada. A menina, Iñe-e (rebatizada como Isabella Miranha), doze meses depois.

Até que, em 2021, a escritora pernambucana Micheliny Verunschk decidiu que interessava aos relatos do futuro revisitar a memória da experiência da menina contrabandeada Iñe-e e, finalmente, emparelhar seu ponto de vista com os de seus captores, que desfrutaram, em seu tempo e adiante dele, de formidável divulgação e análise. Mas Micheliny não dispunha do mesmo instrumental (os cadernos de notas, os documentos científicos, os arquivos epistolares, o arsenal da linguagem escrita) – “o papel suporta qualquer coisa que se deseje”, pensava von Martius em 1820. Entretanto, a autora do século 21 dispunha de uma arma igualmente poderosa: a flexibilidade da literatura. A literatura e aquela qualidade que Roland Barthes assinalou: a de conferir aos saberes um lugar indireto e, consequentemente, um lugar precioso.

É dessa espécie de impulso mediúnico que se alimenta “O som do rugido da onça” (Companhia das Letras, 2021), um dos romances mais aclamados e bem-sucedidos dos últimos anos. “Empresta-se para Iñe-e essa voz e essa língua, e mesmo essas letras, todas muito bem-arrumadas, dispostas umas atrás das outras, como um colar de formigas pelo chão, porque agora esse é o único meio disponível”, adverte a autora, já na primeira parte do livro. “Quando Iñe-e morreu, ela estava com doze anos de idade. Então, essa é a voz da menina morta”.

Mas não é a voz da menina indígena morta a única, há uma evocação de depoimentos de dois mundos no livro. Entre o passado de 200 anos atrás e a própria voz da autora, que se confunde orgulhosamente com a de sua personagem, há um coro de vozes que impele nossa consciência para adiante, para a São Paulo das alterações climáticas violentas, ruas virando rios, o embate afirmativo pioneiro do cacique Raoni e as lutas dos povos originários, o sentimento de Josefa, uma expatriada de Belém do Pará vivendo na agitação da metrópole, o assassinato de uma vereadora negra no Rio de Janeiro, a polifonia das responsabilidades coletivas, o débito para com nossa própria história. “A minha bisavó materna foi pega a laço, sabia? Tenho um tanto de sangue Kayapó em mim. Mas o fato é que todo mundo tem uma avó pega a laço no Brasil, eu, você, o porteiro lá embaixo”.

Essas vozes se diferenciam pelo ritmo da narrativa. Nos relatos sonhados pela via da cosmogonia e das destinações dos espíritos — a menina Iñe-e estava destinada a ser curadora do corpo e do espírito a partir do seu encontro com a grande rainha das matas, a onça –, Micheliny se aproxima da linguagem roseana, das invenções daquela linguagem que já existe solta na natureza, mas precisa de bom ouvido, um ouvido que ouça o ruído de um bicho-caça morrendo afogado em seu próprio sangue. “Nenhum deles nunca vira um rio que falasse tantas águas, rios sem margem”.

O genocídio da colonização, assinala Micheliny, não se esgotou no extermínio de corpos e culturas. Ele se projetou na consciência dos tempos, e para isso é que se devem apontar as baterias do esclarecimento, do resgate. “Expurgar, desviar, eliminar a variação torna-se um hábito para quem escreve ou reescreve a história, especialmente a história dos outros, mas toda raspagem ou borrão, toda nuvem de breu que cobre o desenho ou o primeiro escrito deixa sua marca, seus vestígios”. Os próprios excertos dos juízos “científicos” da expedição de Spix e von Martius, incluídos na narrativa, vão encaminhando os leitores para a conclusão de sua malignidade:

“O temperamento do índio quase não se desenvolveu e pode ser qualificado de fleumático. Todas as potências da alma, mesmo a sensualidade mais nobre, parecem achar-se em estado de entorpecimento. Sem refletir sobre a criação universal, sobre as causas e a íntima relação das coisas, vivem com o pensamento preocupado só com a conservação própria. Passado e futuro quase não se distinguem para eles, daí não cuidarem nunca do dia seguinte. Estranhos a todo sentimento de deferência, gratidão, amizade, humildade, ambição e, em geral, a todas as emoções delicadas e nobres, que distinguem a sociedade humana; insensíveis, taciturnos, imersos no mais absoluto indiferentismo por tudo”.

A literatura pode ter intenção, a literatura pode ter responsabilidade, a literatura pode ter alvo (“Nenhum outro homem ficaria de pé, porque bem sabia que o macho pertence à guerra do mesmo modo que a guerra pertence ao macho”), a literatura pode ser tudo que quiser, mas terá vida muito curta se não tiver ritmo, cadência, pulsão. E é justamente a coreografia uma das grandes conquistas da obra de Micheliny, aquilo que a faz dançar incólume em meio à diversidade política do seu leitor do Brasil do pós-golpe, do leitor idólatra e do leitor de consumo. “No túmulo do branco se escreveram as palavras bonitas dele, Entre as palmeiras me sinto sempre jovem. No meio delas, ressuscito. Mas, para isso, ele teria que ser onça, coisa que, por mais que tentasse, e nem tentou, nunca haverá de ser. Findado estava, caça que era”.

Desafiando as regras do romance histórico tradicional, Micheliny Verunschk se alinha com maior alegria ao lado dos revisionistas históricos da cultura pop contemporânea, àquele tipo de ousadia tarantiniana que tem coragem de incinerar Hitler durante uma sessão de cinema, fazer um escravizado voltar às terras do captor para acertar contas com o passado de servidão ou impedir assassinos da contracultura de executar uma mulher grávida em Hollywood. O recado é simbólico: de um jeito ou de outro, é preciso acertar contas com esse passado a quem sequestraram a voz. “Tu aprende que ruindade não acaba, não acabou com tudo que fizeram antes de mercê vir pro mundo e muito menos com o que fizeram com tu e teus companheiros, nem acabará depois que passar o que fazem ali com Kaiemi, filha do filho do teu irmão, nem acaba com o que fizeram com o teu povo com os Boros, os Huitotos, os Huni Kuins, ganância da Aranha a tomar da vida deles”, diz um personagem.

A autora é uma realidade literária que assentou nos últimos 10 anos. O primeiro romance de Micheliny Verunschk Pinto Machado, “Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida” (editora Patuá, 2014), teve distinção do Programa Petrobras Cultural e ganhou o Prêmio São Paulo de melhor livro de 2015. Mestre em Literatura e Crítica Literária e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo, publicou a seguir os livros “Geografia Íntima do Deserto” (Landy, 2003), “O movimento dos pássaros” (Martelo Casa Editorial, 2020), esse “O som do rugido da onça” (Companhia das Letras, 2021, e vencedor do Jabuti de 2022) e agora seu livro de contos de contos “Desmoronamentos” (Martelos Casa Editorial) que ficou com o primeiro lugar no Prêmio Literário da Biblioteca Nacional de 2023.

Texto e produção: Jotabê Medeiros
Edição: Emily Costa
Arte e montagem do site: Fabrício Vinhas
Direção: Marcos Colón

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