Sandra Godinho

Paulista radicada no Amazonas, é graduada e mestre em Letras. É membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB), e tem 10 livros publicados.

Versões: um novo conto de Sandra Godinho

Foto: Marcos Colón/Amazônia Latitude | Montagem: Fabrício Vinhas

Foto: Marcos Colón/Amazônia Latitude | Montagem: Fabrício Vinhas

Para Verenilde Pereira, texto inspirado em trecho de Um rio sem fim

Os olhos de Luara colaram na canoa a motor que deslizava pelo Negro com vários homens, turistas que queriam mergulhar junto aos botos. Da margem do rio, onde estava, com as pernas dançando dentro das águas escuras, a mestiça observava a marca da última enchente na estaca de madeira da palafita. Tropeçou numa viagem só dela, locomovendo-se aos limiares de outro mundo, seu mundo, longe da solidão das matas, do marasmo das estações, desse deslizar de secas e enchentes que não a embalavam. Que eles a levassem dali.

Luara acenou, acreditando que chegaria a algum lugar, um onde deixaria de morrer. Imaginava-se debandando desse mundo verde, do barulho de água caindo das cachoeiras, do rio que agora perdia a imensidão, encolhido com a última estiagem. Nem a Missão em que fora criada a interessava. O Negro não lavava prantos, nunca lavou, o Negro é o próprio luto. Nunca via nada. Nem os padres que nunca lhe trouxeram paz. Ela também não viu as armas escondidas dentro da voadeira, perto da proa, sob o olhar atento do timoneiro, junto à munição restrita do exército. Luara só pesava a lentidão aguda do tempo.

Os homens, dentro da voadeira, riram da ribeirinha. Ignoraram-na depois, simulacro de índia que sempre acreditava em pajé e feitiço. Índio era ser preguiçoso, sem inteligência. O que saberia fazer com tanto ouro debaixo dos pés? Cientes da desimportância da jovem, retornaram a eles mesmos, às explosões de seus esquemas e explorações, aos olhos experientes de tantas mortes. Farejaram algum peixe sendo moqueado nas cercanias e se preocuparam. Tinham de dominar o território antes que grupos rivais o fizessem.

A lavra estratégica garantia boa quantidade de ouro. Políticos, empresários e autoridades sabiam e o extraíam. Por que não as facções? No banzeiro solitário do rio, avistaram uma arara vermelha pousar no telhado em ruínas da Missão. A velha torre alteada entre a copa das árvores. Paraíso perdido. Os homens na voadeira não viram as versões de um passado mal contado, os milhares de batismos impostos às crianças indígenas desaldeadas; algumas, retiradas pelos próprios missionários das tribos isoladas a que pertenciam. Era preciso doutrinar, acabar com a imoralidade e maus costumes do povo pagão, forçando a conversão disfarçada sob a égide de generosidade cristã. Ninguém notou a perda de identidade, de língua e de costumes.

Nativos e nativas, ao não se reconhecerem como indígenas, se perdiam. Ninguém reparou a viscosidade no meio dos lençóis das jovens, atacadas por aquilo que acreditavam ser impossível, homens do sacerdócio. Sempre à noite. Calada. Sempre calada e surda enquanto missionários puniam. O costume de mentir das jovens, tão desavergonhado; e rechaçado a qualquer custo pelo bem da moralidade católica. Os homens não viram os missionários, tão elevados em seus princípios, tropeçando na própria catequese. Só enxergaram as escadas da palafita, a medida da última enchente na madeira, a menina balançando as pernas dentro da água, acenando um adeus.

A arara se espantou e levantou voo. O mormaço súbito, e exagerado para a época. As cãibras nas pernas de Luara, cansadas de enfrentar a corrente. Aos poucos, a bruma branca foi dominando o ar, engolindo a floresta, pondo fim ao devaneio da jovem e ao delírio dos homens dentro da voadeira, sem deixar brecha para o sol.

Cessou o barulho das cachoeiras, abafado pelo alarido dos bichos que dominou os barrancos do rio e se calou na alvura da prainha, encurralado. O cenário de brancura se espraiava tanto quanto o calor. Tão imaculado! Haviam chegado ao céu ou ao inferno? A jovem, os missionários, os garimpeiros, todos no mesmo limbo? O crepitar e as folhas chamuscadas os alertaram para o perigo; encontravam-se em processo (in)civilizatório: alguém ateara fogo na mata. Um grileiro, um traficante, um fazendeiro. Vá lá saber?

Os bichos debandavam. Luara retirou as pernas da água escura, agora quente. Buscou ajuda na Missão em que tinha morado tantos anos com a mãe, velha nativa desaldeada que morrera de malária e à mingua, sem receber a extrema-unção. Encontrou a porta da missão fechada. Gritou. Insistiu no grito. E ainda gritava quando as nuvens escarlates envolveram suas mãos em uma última prece.

Em outubro, Sandra Godinho foi entrevistada no LatitudeCast. Ouça o episódio completo:

 

Sandra Godinho é graduada e mestre em Letras. É membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB). Com “Orelha lavada, infância roubada” (2018) recebeu Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019), e com “Verso do reverso” (2019) ganhou o Prêmio Regional de Melhor Livro de Contos da Cidade de Manaus. Seu romance “Tocaia do Norte” (2020) venceu o Prêmio Cidade de Manaus 2020 e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021. Outra obra sua, “A morte é a promessa de algum fim”, recebeu o Prêmio Cidade de Manaus 2021, e também o Prêmio Focus Brasil NY/AILB 2022. Seu mais recente romance é “Estranha entre nós”, publicado em 2022. Tem ainda dois romances finalistas do Prêmio Leya de 2021 e 2022, “Memórias de uma mulher morta” (inédito) e “A Secura dos ossos”.
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