Miguel Picanço

Pós-doutor em Antropologia da Alimentação, pela Universidad de Barcelona. Doutor em Ciências Sociais pela UNISINOS, com estágio doutoral pela Universidad de Barcelona (UB). Autor de livros sobre cultura alimentar amazônica e professor da rede pública na SEDUC e na SEMEC. Pesquisador do grupo Alere (CNPq) e membro da Associação Brasileira de Antropologia, atua nos campos da Antropologia Visual e da Antropologia da Alimentação.

Comida Cabocla: A casa do forno como ancestralidade e resistência dos povos amazônidas

Descubra como o saber-fazer da mandioca preserva identidades e enfrenta as ameaças ao modo de vida dos povos da floresta

No mundo-vida da mandioca, a Casa do Forno — também chamada de casa de farinha ou retiro — ergue-se como um espaço emblemático, um território de saber-fazer e de transformação da matéria em comida. Fotos: Miguel Picanço. Arte: Fabrício Vinhas.
No mundo-vida da mandioca, a Casa do Forno — também chamada de casa de farinha ou retiro — ergue-se como um espaço emblemático, um território de saber-fazer e de transformação da matéria em comida. Fotos: Miguel Picanço. Arte: Fabrício Vinhas.
No mundo-vida da mandioca, a Casa do Forno — também chamada de casa de farinha ou retiro — ergue-se como um espaço emblemático, um território de saber-fazer e de transformação da matéria em comida. Fotos: Miguel Picanço. Arte: Fabrício Vinhas.

No mundo-vida da mandioca, a Casa do Forno ergue-se como um espaço emblemático,
um território de saber-fazer e de transformação da matéria em comida. Fotos: Miguel Picanço. Arte: Fabrício Vinhas.

Nos territórios do comer e do viver amazônidas, especialmente no Pará, a mandioca e seus repertórios alimentares ocupam um lugar de notável relevância sociocultural, histórica e econômica. Trata-se de uma cultura alimentar que, para além de nutrir o corpo, organiza, sustenta e performa identidades, histórias e formas de habitar nos mundos amazônidas.

Não por acaso, a antropóloga Berta Ribeiro (2013) reconheceu a mandioca como o mais importante alimento legado à humanidade pelos povos ancestrais. Domesticada pelas populações ameríndias da Amazônia brasileira há cerca de 8 mil anos, muito antes da invasão dos colonizadores europeus, ela se tornou um pilar da subsistência e das culturas alimentares dessa banda do Norte brasileiro, assegurando, desde então, a soberania e a segurança alimentar dos povos das florestas, e quiçá dos povos das cidades.   

Cinco séculos após os primeiros contatos coloniais, a cultura alimentar da mandioca segue pulsante, presente e resistente, na vida e nas mesas dos paraenses. Nos territórios como a capital Belém e a região bragantina, a mandioca segue soberana. Particularmente na condição de farinha, ela ocupa uma centralidade simbólica e prática, sustentando e mobilizando redes de sociabilidade, hábitos de comensalidade e modos de vida que atravessam gerações (Picanço, 2018).

Na Casa do Forno, o saber ancestral transforma a raiz em vida. Entre o calor do fogo e o movimento do rodo, a mandioca deixa de ser planta para se tornar história, identidade e o sustento que pulsa no coração do Pará. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Na Casa do Forno, o saber ancestral transforma a raiz em vida. Entre o calor do fogo e o movimento do rodo, a mandioca deixa de ser planta para se tornar história, identidade e o sustento que pulsa no coração do Pará. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

O ventre da metamorfose: Casa do Forno, instituição socioalimentar

No mundo-vida da mandioca, a Casa do Forno — também chamada de casa de farinha ou retiro — ergue-se como um espaço emblemático, um território de saber-fazer e de transformação da matéria em comida. É nela que a mandioca se metamorfoseia em uma multiplicidade de comidas: farinha d’água, farinha seca, farinha lavada, tapioca, goma, tucupi, beijus e outros sabores que circulam entre feiras, mercados, casas e celebrações paraenses. Aqui, mais que alimentos, são comidas: portadoras de afetos, de histórias e de encontros.

Nesses territórios amazônidas, caboclos e paraenses conferem à mandioca e suas comidas um valor que transcende o biológico e o econômico, alcançando o campo do simbólico e do existencial. A Casa do Forno, nesses contextos, não é apenas uma estrutura física, mas uma instituição socioalimentar, que atravessa a história da brasilidade desde seus primórdios. Ela resiste aos ciclos colonizatórios, aos modelos predatórios do agronegócio e às políticas que incentivam o desmatamento da floresta.

Mais que uma casa, é um ventre. Como descreve Marcena (2012), a Casa do Forno é a “maternidade da farinha”, o lugar onde a mandioca é “parida”, onde as comidas ganham corpo, sabor e história. Um verdadeiro laboratório de transformação, onde o cru vira cozido (Lévi-Strauss, 1991), o amargo se torna doce e o invisível se materializa em forma de cheiro, textura e memória gustativa.

O laboratório de transformação onde o fogo aquece a farinha e a vida. O ralar, prensar e torrar são atos de afirmação da identidade territorial e soberania alimentar. Foto: Miguel Pincanço/Amazônia Latitude.

O laboratório de transformação onde o fogo aquece a farinha e a vida. O ralar, prensar e torrar são atos de afirmação da identidade territorial e soberania alimentar. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Assim, a casa do forno se concretiza como um espaço fundamental na história da mandioca e dos povos caboclos, ribeirinhos e marajoaras do Pará, especialmente nas comunidades do Nordeste do estado. Ali, cada fornada é uma aula prática de pertencimento, onde saberes são ensinados, aprendidos e transmitidos de geração em geração. É uma escola sem quadros, mas com tipitis e gamelas; sem cadernos, mas com farinha quente e goma fresca; sem giz, mas com fumaça, calor e cheiro de memória.

A casa do forno é, portanto, uma instituição de educação alimentar e patrimonial. Um território de ensinamento, onde, ao aprender a ralar, prensar e torrar, também se aprende a viver, a resistir e a afirmar a própria identidade territorial.

A presença de uma roça de mandioca, em qualquer canto da Amazônia paraense, é um sinal claro: ali, nas proximidades, existe uma casa do forno. E, com ela, pulsa a vida: uma família, uma comunidade, um povoado. A casa não habita apenas os entornos da roça; ela desenha e dá cor aos quintais, imprime sonoridades, ritmos e cheiros ao cotidiano das comunidades. Na vila de Araí, por exemplo, situada no meio rural de Urumajó, os quintais são povoações de casas do forno, marcando a paisagem como um testemunho material de resistência.

Sua arquitetura ancestral é fruto do saber acumulado pelos próprios mandiocultores: cinco ou seis metros quadrados, sem paredes, de chão batido e cobertura de palha — ainda que a urbanidade insista em introduzir telhas. Suas estruturas, sustentadas por esteios de tucumã, resistem ao tempo e ao clima, cumprindo ciclos de vida de até duas décadas, sendo renovadas quando a natureza assim exige.

Os artefatos que compõem o interior da casa — gamelas, pilões, peneiras, tipitis, vassouras, rodos, fornos, prensas e, às vezes, o catitu ou o ralo — não são apenas objetos utilitários. São guardiões de memórias, heranças materiais de um saber-fazer que atravessa séculos (Velthem, 2007). Sua importância não se mede por critérios estéticos, mas por sua densidade histórica e patrimonial, representando o elo vivo entre os povos da floresta e a comida que os sustenta.

Artefatos que são guardiões de memórias: o uso do tipiti para a extração do tucupi é um elo vivo entre os povos da floresta e a comida que os sustenta. Foto: Miguel Pincanço/Amazônia Latitude.

Artefatos que são guardiões de memórias: o uso do tipiti para a extração do tucupi é um elo vivo entre os povos da floresta e a comida que os sustenta. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

A luta pela permanência da Casa do Forno

Há, no entanto, um alerta: a cultura da mandioca e a própria existência das casas do forno encontram-se hoje sob ameaça. O avanço do desmatamento, a expansão das pastagens e a imposição das monoculturas — como a soja — vêm empurrando os mandiocultores ao abandono forçado de suas práticas, de suas roças e, sobretudo, de suas casas de forno. Trata-se de uma erosão não apenas ambiental, mas também cultural e civilizatória.

Diante desse cenário de ameaças, a casa do forno emerge como um verdadeiro bastião de resistência sociocultural. Ela não apenas produz farinha e comidas, mas também simboliza um modo de vida profundamente enraizado nas territorialidades amazônidas. Sua permanência é um grito silencioso contra o avanço do agronegócio, contra a grilagem de terras e contra os múltiplos processos que insistem em desfigurar a floresta e silenciar os povos que nela vivem.

Assim, preservar a casa do forno é preservar muito mais do que uma técnica de produção de alimentos: é proteger um patrimônio imaterial, um saber ancestral, uma pedagogia do chão. É defender um modo de existir que mantém a floresta em pé, os territórios vivos e as culturas alimentares amazônicas pulsantes, atravessando os tempos com a mesma força com que o fogo do forno aquece a farinha e a vida de quem dela se alimenta.

Uma escola sem cadernos, mas com farinha quente e goma fresca. Na Casa do Forno, saberes são ensinados, aprendidos e transmitidos de geração em geração. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Uma escola sem cadernos, mas com farinha quente e goma fresca. Na Casa do Forno, saberes são ensinados, aprendidos e transmitidos de geração em geração. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Referências

Texto: Miguel Picanço
Arte: 
Fabrício Vinhas
Revisão: Juliana Carvalho
Montagem da Página: Alice Palmeira
Direção:
 Marcos Colón

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