Carnaval das Águas: rio, cordões e memória viva na Amazônia Tocantina
Em Cametá, o Carnaval não se explica, se sente pelo balanço das marés. O acervo fotográfico do agente cultural e ativista Bimba Neto revela a alma de Cametá, no Pará: uma festa que é, antes de tudo, um ato de soberania ribeirinha.

O Rio Tocantins como avenida: A chegada monumental do cortejo das águas ao cais de Cametá, reafirmando a força da cultura ribeirinha.
Foto: Bimba Neto/Amazônia Latitude.
Entre máscaras ancestrais e barcos que desafiam o horizonte, o povo cametaense reafirma que a alegria é o território que ninguém consegue privatizar. Há mais de 150 anos, as águas que sustentam a vida transformam-se em uma avenida líquida para o Carnaval das Águas, uma das manifestações culturais mais autênticas e longevas da Amazônia.
Enquanto o asfalto das metrópoles silencia, o rio ferve com cerca de 50 embarcações que partem das ilhas em direção à sede do município, funcionando como verdadeiros carros alegóricos flutuantes decorados com a iconografia da mata.

Cerca de 50 embarcações transformam o Rio Tocantins em um palco de resistência cultural durante o Carnaval das Águas. Foto: Bimba Neto/Amazônia Latitude.
O Carnaval das Águas é organizado por cordões e blocos que atuam ao longo do Rio Tocantins e de seus afluentes. Esses grupos possuem lideranças próprias e são formados por pessoas das comunidades ribeirinhas que, meses antes do calendário oficial do carnaval, iniciam ensaios, confeccionam fantasias, produzem máscaras e preparam as embarcações que irão compor o cortejo.
Com todo um preparativo interno, a festa começa nas ilhas e vilas muito antes de chegar à sede municipal. Durante o período inicial, os barcos partem das comunidades levando músicos, brincantes e foliões mascarados que dançam em cima das embarcações ao som de marchinhas tradicionais, banguê, samba de cacete, ritmos afro-amazônicos.
O percurso pelas águas já constitui apresentação: cada parada em trapiches ou localidades ribeirinhas é ocasião para encenações, comédias e interação com o público. À frente da brincadeira, surgem alguns personagens como o velho e a velha, o primeiro e o segundo palhaço, porta estandartes e outros personagens que encenam situações inspiradas no cotidiano ribeirinho. Esses personagens organizam o ritmo da apresentação. A performance alterna música e fala, dança e sátira, criando um jogo cênico que mistura humor, memória e crítica social.

Nas imagens, o Rio Tocantins assume seu papel de protagonista, sendo o espaço onde a memória coletiva se renova. Foto: Bimba Neto/Amazônia Latitude.
Quando a programação oficial do carnaval inicia, as embarcações com seus cordões chegam à sede do município em cortejo e desembarcam na orla para realizar suas apresentações. É nesse momento que se integram ao chamado carnaval multicultural cametaense, quando os blocos desfilam diante de um público ampliado e passam a compor a agenda oficial local.
Entretanto, a chegada à orla não marca o começo da festa, mas uma etapa de um processo que se desenvolve nos rios e nas comunidades. O Carnaval das Águas se constrói na circulação entre ilhas e afluentes, na organização interna de seus cordões e na continuidade das lideranças que sustentam a tradição. Mais do que um desfile, trata-se de uma prática cultural coletiva que articula memória, identidade e crítica social, mantendo viva uma das expressões mais significativas da cultura ribeirinha amazônica.
Entre os cordões tradicionais está o Cordão Última Hora, do Rio Tentém, além de grupos como Linguarudos de Santana, Bicharada do Juaba e os Bambas da Folia, que compõem o mosaico carnavalesco do território. A historicidade dessa manifestação tem sido objeto de pesquisa. No artigo O federalismo brasileiro e a proteção dos direitos culturais: o caso do Carnaval das Águas de Cametá – PA1CICHOVSKI, Patrícia Kristiana Blagitz; BRITO, João Gabriel dos Santos. O federalismo brasileiro e a proteção dos direitos culturais: o caso do Carnaval das Águas de Cametá – PA. Anais do CONPEDI, 2022., Patrícia Kristiana e João Gabriel dos Santos Brito caracterizam o Carnaval das Águas como tradição ribeirinha centenária, ressaltando sua continuidade histórica e relevância sociocultural no Baixo Tocantins.
Pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal do Pará, como a dissertação de Renan Souza D’Oliveira (2019)2D’OLIVEIRA, Renan Souza. Este sim, veio para alegrar toda a gente: visualidades artísticas do Cordão Última Hora do Carnaval das Águas, Cametá (PA). Dissertação (Mestrado em Artes) – Universidade Federal do Pará, 2019., que analisa as visualidades artísticas do Cordão Última Hora, evidenciam que a festa se estrutura a partir de uma produção estética coletiva que envolve máscaras, figurinos, música e performance transmitidos entre gerações. Esses estudos reforçam que o Carnaval das Águas não é evento episódico, mas prática cultural consolidada, enraizada na territorialidade ribeirinha. A centralidade do rio não é elemento cenográfico: ela organiza o modo de circulação, encontro e apresentação dos cordões. Navegar é condição de existência da festa.
Patrimonialização e desafios contemporâneos

O Cordão Bola Preta, fundado em 1940, é um marco cronológico de uma história que pertence ao povo e se manifesta com vigor nas águas. Foto: Bimba Neto/Amazônia Latitude.
Nos últimos anos, lideranças dos cordões, mestres, brincantes e agentes culturais têm articulado a busca pelo reconhecimento do Carnaval das Águas como patrimônio cultural imaterial do Brasil. A reivindicação, mais que um título formal, envolve a necessidade de políticas públicas de salvaguarda, financiamento contínuo e registro sistemático que garantam a permanência da manifestação diante das transformações sociais e econômicas que afetam as comunidades ribeirinhas.
A patrimonialização, nesse contexto, deve aparecer como instrumento de proteção, mas também exige cuidado. O reconhecimento institucional não pode deslocar o protagonismo dos cordões nem transformar a festa em produto desvinculado de sua base comunitária. O desafio está em assegurar visibilidade e apoio sem comprometer a autonomia das lideranças que sustentam o Carnaval das Águas há mais de um século.
Ao transformar o percurso pelas águas em espaço de criação e encontro, o Carnaval das Águas reafirma identidades e modos de viver no território amazônico. Sua continuidade depende menos do calendário oficial e mais da organização permanente dos cordões e das comunidades que o mantêm vivo. É nessa articulação entre tradição, território e ação coletiva que reside sua força histórica e cultural.
O registro de Bimba Neto documenta a vivacidade de uma cultura que se recusa a ser silenciada. Nas imagens, o Rio Tocantins assume seu papel de protagonista, sendo o espaço onde a memória coletiva se renova e insiste em correr, em ser correnteza. Cada estandarte serve como um marco cronológico de uma história que pertence ao povo ribeirinho e que se manifesta com vigor nas ruas e águas de Cametá, imune às tentativas de apagamento.

A força dos Fofós: figuras mascaradas que preservam o mistério de sua identidade enquanto resistem à padronização dos circuitos comerciais. Foto: Bimba Neto/Amazônia Latitude.

A tradição se mantém viva no ritmo do Samba de Cacete e nas coreografias que atravessam gerações. Foto: Bimba Neto/Amazônia Latitude.

Máscaras que carregam mais de 140 anos de história e o orgulho de pertencer ao território amazônico. Foto: Bimba Neto/Amazônia Latitude.

Personagens do carnaval das águas, o velho, a velha e primeiro palhaço. Bloco Os Atentados da folia de tentenzinho. Foto: Bimba Neto/Amazônia Latitude.

A arte nasce da necessidade de respirar e se mostrar em um mundo que tenta cercar o que é comum. Foto: Bimba Neto/Amazônia Latitude.

A continuidade que flui: no brilho do olhar de quem herda a tradição, o Carnaval das Águas se renova sob o teto de cores de Cametá. Foto: Bimba Neto/Amazônia Latitude.

Nas ruas de Cametá, o Carnaval das Águas ganha terra firme através dos Fofós e seus trajes de fitas coloridas, que mimetizam o balanço da mata e do rio. Foto: Bimba Neto/Amazônia Latitude.
Darcielly Cardoso é treinela de Capoeira Angola pela escola Malungo. De nome artístico Darcica, é educadora da cultura popular, produtora cultural, feminista, professora de história e pesquisadora cultural. Integrante do grupo de carimbó Balanço da Maré. Mestra em Educação e Cultura pela UFPA. Batuqueira no Boi Bumbá Labioso, dançarina de carimbó e Samba de Cacete em Cametá. Agente Territorial de cultura do Pará.
Fotos: Bimba Neto
Edição e montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón
