Corporeando: A terceira Maria

Aqui começa a história da terceira Maria, Maria do Socorro, filha de Maria do Livramento.

O corpo que pesca é o mesmo corpo que reza. Mergulhe na história de Maria do Socorro, a pescadeira que conversa com as águas e foi escolhida pela Cabocla Mariana para guiar o Cereré. Uma jornada sobre ancestralidade e o poder das manualidades e encantariedades. Arte: Fabrício Vinhas.
O corpo que pesca é o mesmo corpo que reza. Mergulhe na história de Maria do Socorro, a pescadeira que conversa com as águas e foi escolhida pela Cabocla Mariana para guiar o Cereré. Uma jornada sobre ancestralidade e o poder das manualidades e encantariedades. Arte: Fabrício Vinhas.
O corpo que pesca é o mesmo corpo que reza. Mergulhe na história de Maria do Socorro, a pescadeira que conversa com as águas e foi escolhida pela Cabocla Mariana para guiar o Cereré. Uma jornada sobre ancestralidade e o poder das manualidades e encantariedades. Arte: Fabrício Vinhas.

O corpo que pesca é o mesmo corpo que reza. Mergulhe na história de Maria do Socorro, a pescadeira que conversa com as águas e foi
escolhida pela Cabocla Mariana para guiar o Cereré. Uma jornada sobre ancestralidade e o poder encantariedades. Arte: Fabrício Vinhas.

A história de Maria do Socorro, começa no ventre de sua mãe, era a terceira barrigada de Maria do Livramento, que logo após o casamento engravidou, e o seu marido? passava dias sumido!

Maria teve uma gravidez de muita tristeza, além de ter sido obrigada a casar com um homem que não tinha simpatia, morava distante da família, longe do rio e do seu terreiro, que era cheio de frutas nectarinas, além da tristeza que assolava sua alma.

Passava por momentos de privação alimentar, caiu doente e não conseguia levantar-se para ir ao retiro de farinha, sem a farinha d’água que é base da alimentação, podendo fazer mingau, caldos, beiju, pirão, caribé. Farinha é alimento e é também remédio.

A fome passava a ser uma realidade, a menina que estava em seu ventre parou de mexer, a barriga ficou murcha, sua mãe, Maria das Dores, parece que sentia que a filha e a neta estavam precisando de ajuda, esperou o marido sair de viagem para cidade, e mandou seu curumim mais novo levar uma galinha gorda para Maria do Livramento.

Achou Maria deitada na esteira de junco, com os olhos murchos, só as lágrimas escorrendo, o olho nem piscava na mesma pisada. O curumim saiu correndo para avisar a mãe, que cuidou de chamar a tia Joana, parteira experiente.

Ao chegarem, Maria das Dores foi logo para o fogão de barro fazer um caribé, já tia Joana começou tratar de Maria, que percebeu que a curumim que estava no seu ventre não mexia mais. A recomendação era procurar o Pajé, o tio Tevino, para tratar Maria do Livramento. Precisava das encantarias para salvar mãe e filha. Livramento, através das rezas e do caribé sagrado de sua mãe conseguiu se levantar. Foram na busca do Tio Tevino.

O sítio dele era florido e rodeado das plantas, espadas de são Jorge, espadas de Iansã e saias de Mariana. Ao entrarem, exalava o cheiro de defumação e do cigarro de Tauary, que entrevava pelas narinas e acalmava a alma. Ele estava dentro do quarto, pediu para sua mulher dar um caldo para Maria do Livramento, disse que mandou fazer um caldo de peixe matupiri porque sabia que iam chegar e estava as esperando.

Maria estava muito debilitada, e só sussurrava para não deixar a curumim morrer dentro dela. Começou os preparos para o Cereré1Cereré é um ritual espiritual realizado por curandeiros e praticado pela comunidade do igarapé Castanhal– Acará, no Pará, na Amazônia. O ritual envolve o uso de penachos e maracás, além de bebidas preparadas com ervas e raízes da floresta. Por meio de cantos e danças, cultuam-se as entidades da mata, como caboclos e encantados, fortalecendo a cura, a proteção e a relação espiritual com a natureza. de Maria do Livramento. O pajé pegou o seu maracá com semente de tento, as sementes de pau Brasil, bem miudinhas para fazer um som fino, para a curumim ouvir dentro do ventre.

Maria apegada a sua santa de Fé Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, prometendo dar o nome da sua filha de Maria do Perpétuo Socorro.

O Cereré começou. No penacho maracá chamavam pela encantada que trata do sagrado feminino, a Cabloca Mariana, a arara cantadeira. Dentre cânticos e unguentos, veio em socorro.

Quando cheguei arriou uma chuva com sol e a curumim chorou dentro da barriga de sua mãe. Fiz recomendações pela boca do kavalu, Tio Tevino, para Maria do Livramento:

— Eu estou nessa família há muitos anos. Muito antes de você nascer, muito antes da dor virar costume. Fui eu quem ajudou teu bisavô a não cair nos feitiços de sedução da sinhá. Fui eu quem soprou juízo quando o perigo vinha bonito demais.

Foi essa mulher de alma boa, dessas que parecem gente comum, mas andam acompanhadas de proteção, que deu carona a vocês. Tinha os cabelos todos brancos, cumpre missão antiga. Essa criança que você carrega é nossa, eu ajudei a encontrar seu curumim, ela é do povo das encantarias, do povo que vive entre os viventes e os não viventes. Ela vai viver, escuta o que estou te dizendo; ela vai viver.

Quando ela nascer, com sete dias você traz aqui para eu benzer. E a cada sete anos traz de novo, minha filha, para eu ver como ela está crescendo. Não deixa ela se afastar das matas, isso é importante. Bota essa criança para ouvir a voz dos ventos, são eles que dizem a direção de seguir e, principalmente, a direção de parar.

Eu subo agora para o encante, mas não vou embora. Nunca vou. Enquanto isso, você vai com tua mãe para o sítio dela. Teu pai não vai te mandar de volta, porque teu corpo já está doente demais e até ele vai entender o limite. Fica lá até tua filha nascer.

Eu sei que você quer chamar a menina de Maria Mariana. Eu sei. Mas o homem que não tem nada — nem terra, nem cuidado, nem fé — não vai deixar. Não se apega ao nome. Nome também muda de roupa para sobreviver. E quando você escutar um canto que parece vento virando ave, sou eu te lembrando que você não está sozinha”.

Maria do Socorro não recebeu o nome de Mariana porque seu pai não deixou, já que não gostava dessas coisas de encantarias, e as encantarias também não gostavam dele, certeza.

Maria do Livramento, para tentar cumprir a promessa, deu o nome da menina de Maria do Socorro, em homenagem à santa e à cabocla. Nasceu de um parto muito difícil, sua mãe ficou oito dias de trabalho de parto. Tia Joana foi chamada. Mesmo com todos os seus rezos e chás, não estava conseguindo trazer a criança, que parecia que não queria nascer, agarrada no útero da mãe.

Maria do Livramento já estava perdendo as forças e, para piorar, o marido estava sumido e não havia subido para colocar a fralda na cumieira da casa, o que dificultava o parto. Só que, de repente, Tia Joana baixou a cabeça e começou a girar e cantar para as turcas encantadas:

Turcas encantadas

Elas vieram da Turquia

Princesas Fidalguias

Guia lindeza que reluzia

Um farol que nos guia

Saíram fugindo pelo mar

As índias desejavam chegar

Os ventos sopraram para outro lugar

E nas águas da Amazônia foram parar

Nas praias dos lençóis maranhenses

Renasceram para iluminar

Jarina, Herondina, Mariana

Embalam tambores de Mina

A maresia e o balanço do mar

As encantadas passaram amar

Os aflitos transfiguravam-se para cuidar

Encantadas não experimentaram a morte

Pois a sua vida é a própria sorte

 

Passam a ser guia, nos dar o norte

No portal da Amazônia foi seu aporte

Arara cantadeira, mulher curandeira

Guia das parteiras cabocla verdadeira

Mariana era menina quando foi para o encante

Mas nas gírias é a mãe pulsante

Guia das mulheres viajantes

Dos mares da solidão oscilante

Mulher por Mariana se torna vibrante

Mariana, Mariana, arara cantadeira

Mariana, Mariana, curandeira

Mariana, Mariana, Guia das parteiras

Mariana, Mariana, turca nadadeira

Mariana, Jarina, Herondina embalam tambor Mina

No Pará são pajelança peregrina

Curam mulheres e meninas

Princesas encantadas ultramarinas

Caboclas Flexeiras de linhagens fina

Já se sabia que eu estava na sua coroa, minha morada é mar, MAR-IA-NA, sempre vinha ajudando nos partos, sou curandeira, nadadeira da solidão das mulheres que pariram sem os maridos, sozinhas, ou que precisavam do meu axé.

Quando a curumim começou a nascer, o cordão umbilical estava laçando duas voltas no pescoço. A menina nasceu muito miúda, parecia que não ia viver. Abriu o berreiro tão grande que o choro se ouvia de longe, para todos saberem que Livramento tinha parido.

Aos sete dias, Maria do Socorro pegou no choro tão grande que nem o peito acalmava. Era um choro de dor, enjoado. Foram na tapera do pajé que, lembrou que tinha pedido, e no colo de sua encantada Arara Cantadeira, Maria do Socorro parou de chorar e adormeceu.

Foi crescendo, junto com a mania que tinha de prosear com o vento e brincar com as águas. Sua mãe sabia que esse vento vinha das praias dos lençóis, lá no Maranhão.

Socorrinha falava com as encantarias. Quando sumia dos olhos da mãe já se sabia que ou estava na beira do Igarapé ou embrenhada nas matas. As crianças na Kilombo/Aldeya eram curumins, não tinham divisão de roupas ou brincadeiras por serem meninas ou meninos, eram só crianças. Todas brincavam de correr, nadar, pescar, futebol, pega-pega, e todas tinham suas obrigações e tarefas na comunidade.

A divisão era curumins, mocidades, maduros e mais velhos e, até chegar a mocidade, eram iguais com as mesmas tarefas e mesmas brincadeiras. Mas Maria do Socorro tinha gostos mais específicos de contemplação à natureza por horas. Ficava mundiada. Um estado de encatamento profundo.

Maria do Socorro foi ficando grande pescadeira de zagaia, dessas que calculam a velocidade do peixe só no olho. Ao sentir o deslocamento do peixe, já jogava a zagaia um pouco a frente, conforme o tamanho do peixe. À distância, ia jogando. Um cálculo matemático complexo. Mesmo assim, acertava no meio.

No começo, os homens não queriam levá-la para a pescaria de borqueio, diziam que não era lugar de mulher. Mas, quando eles chegavam no rio, ela já estava lá, com sua canoa na água, seu corpo pronto e reza afiada.

Com o tempo, foram percebendo: quando ela não ia, o rio fechava, o peixe sumia, a rede voltava leve. Quando estava, o peixe aparecia.

Tiveram que aceitar, não por bondade, mas porque era ela que conhecia as marés, as luas e os tempos da pescaria. Talvez porque se dedicava a ser pescadeira de verdade, talvez porque sua pescaria não era só técnica – era reza forte.

Ela escutava os sons das marés e o silêncio do mato e, aos poucos, foi aprendendo um tiquinho dos mistérios da pesca.

Na sua canoa bem pequenina, remava manso, às vezes demorava quatro horas. Colocava uma pedra na ponta da linha e jogava no rio quando o sol ficava bem em cima da sua cabeça. Sentia na linha a vibração dos peixes, como se eles falassem consigo por dentro da água, dizia com exatidão onde tinha peixe grande. Se fosse peixe miudinho ou peixe ovado, não autorizava, nem na piracema.

A natureza se conecta com a gente quando a gente a deixa falar. Tem que entender os resguardos. A pesca de borqueio era o acontecimento da comunidade: o rio, os açaizeiros nas margens, os pescadores em suas canoas em volta, fazendo um grande círculo de canoas às margens. Homens que ficavam em silêncio, pois o silêncio era fundamental, se não o peixe se espalhava. A técnica era pegar o cardume e cercar os peixes.

E Maria, no meio, segurando a linha e remando lentamente.

Maria do Socorro, nunca dizia em voz alta, mas sabia que não pescava sozinha. Quando entrava no rio, sentia o corpo da água reconhecendo o seu corpo. Era eu, Mariana, que vinha antes do peixe. Às vezes, era um arrepio no braço, às vezes um frio no fundo da barriga, às vezes o silêncio ficava mais gostoso, como se o mundo tivesse respirando pelo diafragma. Era eu passando.

Diziam que ela andava com a encantada do mar, e andava mesmo. Não como quem manda, mas como quem respeita. Ela não chamava pelo nome, não batia pé, não fazia desafio. A reza era quieta, feita de atenção que escutava, quando a linha pesava sem puxar ou quando a água vibrava sem vento, sabia: ali tinha peixe grande, ali o fundo estava aberto.

Na pescaria de borqueio, ela sentia o povo do fundo rodeando as canoas. Não era medo, era presença. Os homens falavam pouco nesses dias. O remo entrava na água quase sem barulho. As mãos batiam na superfície no ritmo certo, e os peixes pulavam como se fossem chamados pelo nome antigo deles.

Sabia a hora de parar. Sabia quando o rio já tinha dado o que podia dar. Bastava a linha ficar bem esticada, tensionada, e pela vibração sentia o tamanho dos peixes no cardume.

Era só jogar a rede, e os peixes vinham, pulavam para dentro das canoas, com a batida das mãos dos homens na água tinha hora que não se sabia o que era peixe o que era homem.

Não existe poesia mais linda do que a pesca de borqueio. As canoas vinham e cercavam o cardume. Os homens pulavam na água, batiam os braços com força na água, e os peixes saltavam. Era tanta gaitada alta que até os que não tinham dentes riam de boca aberta. Ela também pulava, feliz, batendo na água, vendo o peixe jorrar como uma mina viva. Era assim que ela pescava, não era só peixe que eu trazia, era equilíbrio, era acordo, era respeito com o que não se vê, mas sustenta tudo.

O rio também ria. As gotas de água subiam para o alto, pareciam chuva que não vinha do céu, mas de dentro do rio, molhando quem estava na canoa. Era fartura. Era o tempo em que gente, peixe e rio estavam conectados e harmonizados.

Eu levantei os olhos de Mansa Musa quando a sedução era armadilha, abri a estrada da fuga de tua mãe quando o chão parecia fechado. Sigo contigo, entre o visível e o invisível.

Não era só na pescaria que Maria do Socorro Crescia, bolou no ventre de Maria do Livramento ao chorar, é minha filha de pegação e de Tia Joana. Do Socorro teve um ponto cantado e criado para o nascimento, ponto que canta a história, a nossa história, Turcas Encantadas.

É mulher, pescadeira, cererezeira. Ainda não sabe, mas, escolheu e foi escolhida para conduzir o Cereré. Aprendeu a ser sendo e a pescar pescando. Seu ser individuado, saúdo e rezo ao seu Ori sagrado. Seu fazer é de manualidades, intelectualidades e encantariedades. Agora, é tempo das mulheres. Tio Tevino é kavalu que precisa descansar o corpo. Já foi companheiro de nós do encante, foi uma criança enjeitada pela família porque nasceu com as pernas curtas e tortas, foi deixado para morrer e nós o resgatamos, e encontramos uma mãe sem filho para um filho sem mãe, e ele desenvolveu. O dom foi passado de Jurema Preta para Maria do Socorro.”

Shirlene Santos é Doutoranda em Sociologia e Antropologia pela UFPA, Mestra em Educação Profissional e Tecnológica-PROFEPT, Bacharela e licenciada plena em Ciências Sociais-UFPA. Professora da rede estadual do Ceará. Sob o nome poético Arara Cantadeira, é versadeira da Amazônia e mulher de terreiro.

Arte: Fabrício Vinhas
Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

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