Micheliny Verunschk e a literatura como ponte entre mundos e tempos

Micheliny Verunschk
Micheliny Verunschk | Foto: Renato Parada. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude
Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk | Foto: Renato Parada. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude

Em 1820, um botânico e um zoólogo alemães vieram ao Brasil e levaram para a Europa quase 10 mil plantas e animais. Nessa mesma bagagem, os cientistas alemães levaram duas crianças. A história dessas crianças foi revisitada pela escritora e historiadora Micheliny Verunschk dois séculos depois de seu acontecimento.

No livro “O som do rugido da onça” (Companhia das Letras, 2021), a escritora conta o episódio do sequestro da menina Iñe-e do garoto Juri, que cruzaram o Atlântico, foram exibidos em exposições científicas pela Europa e tiveram um destino trágico.

“O som do rugido da onça” foi vencedor do maior prêmio literário brasileiro, o prêmio Jabuti, em 2022, na categoria Romance Literário. É o primeiro livro de uma série ainda em construção, mas que Micheliny gosta de chamar de “trilogia do mato”. “É uma trilogia que pensa o Brasil a partir desses lugares das violências fundantes do Brasil. A violência colonial, a violência de viés da intolerância, a intolerância religiosa, a intolerância com o corpo do outro, com a existência do outro”, revela a autora.

Para Micheliny, a literatura é um instrumento de criação de mundos, que constrói pontes entre realidades distintas. “Se puder existir alguma função para isso que fazemos, é essa, construir pontes. Construir pontes entre eu e o outro, construir pontes entre mundos, construir pontes entre tempos”, conta.

“Os mundos que me interessam são os mundos do outro. (…) Me interessa a vida de quem sofreu violência do Estado, quem sofreu a violência de gênero, quem sofreu a violência por conta da sua origem”, afirma, sobre o caráter social de suas obras.

Neste episódio do LatitudeCast do especial Pensando na Amazônia pela Literatura, Micheliny Verunschk apresenta o livro “O som do rugido da onça” e revela qual é o papel da literatura na voz das histórias da Amazônia.

Confira agora o episódio do LatitudeCast com Micheliny Verunschk:

Amazônia Latitude: Como você está hoje?

Micheliny Verunschk: Hoje a gente está muito triste aqui no Brasil com a notícia da morte do Nêgo Bispo. O nosso cenário intelectual, cosmológico, perde bastante com essa partida, mas, ao mesmo tempo, estamos muito gratos por vivermos o mesmo tempo que esse grande pensador, gratos por toda a sua contribuição.

Micheliny, na página 46 do livro “O som do rugido da onça”, há uma passagem que fala sobre “O Temperamento do Índio”.

Essa passagem é do Viagem pelo Brasil, do Spix e do Martius, 1823.

Você pode comentar um pouco sobre essa percepção dos alemães, mas também refletindo um pouco sobre a própria perspectiva do Nêgo Bispo, que sempre tentava descolonizar? Por que essa passagem foi relevante para você, e como você traduziria isso para os dias de hoje?

Os europeus, quando chegam a esse imenso continente, ao qual deram o nome de América, encontram uma coisa que acho que os perturbou de uma forma muito impressionante. Eles se depararam com uma alteridade radical. Eles não estavam preparados para isso. Esses povos com não apenas corpos, mas com existências, crenças, modos de estar no mundo muito diferentes da sua.

Você só protege, eu penso, aquilo que você conhece e que você ou ama ou passa a amar. Não foi o caso do colonizador. Ele chega aqui com um pensamento de destruição dessas alteridades, de homogeneização de pensamentos, de corpos, de existências. E isso chega lá do passado até os dias de hoje não como um acidente, mas como um projeto, de invisibilização, de destruição, de não compreensão dessas outras formas de existir, de pensar, de amar, de comer, de viver o mundo.

Nesse sentido, o pensamento contracolonial do Nêgo Bispo se levanta como um pensamento insubordinado, como um pensamento que reorganiza ou busca reorganizar esses olhares que não dão conta do outro.

Micheliny Verunschk | Foto: Renato Parada

Em diversos momentos de “O som do rugido da onça”, você ressalta a importância da comunicação, da necessidade de ter voz. No caso das crianças, quando são sequestradas da Amazônia, elas não conseguem mais se comunicar. De certa forma, podemos afirmar que o livro resgata, dá ao menos um pouco de voz à história de Miranha e Juri. Qual o significado disso para você como autora?

Eu costumo dizer que esse livro é, também e principalmente, sobre a linguagem. Quando essas crianças são arrancadas de seus povos, de suas famílias, de sua cultura, elas passam por um silenciamento radical e absoluto. Eles não falavam nem o português, nem o Nheengatú, que é a língua geral. Eles não falavam o alemão, que é para o lugar onde eles foram, e não falavam uma língua que os fizesse ser compreendidos e compreender o outro.

A menina Miranha, que no livro recebe o nome de Iñe-e, não podia se comunicar com o menino do povo Juri, porque eles eram de povos diferentes e eles falavam línguas diferentes. Então o processo de silenciamento dessas crianças é perverso e radical.

O livro vai nesses lugares de tentativa de recuperação, não da linguagem perdida exatamente, mas de uma humanidade que foi negada a essas crianças e que vem sendo negada ao longo dos séculos, àquele que é diferente.

Além do português e do alemão, que ocasionalmente aparece, vamos ter palavras do Nheengatú, da língua Miranha, palavras inventadas que vão dar voz também a outras instâncias de existência, como o rio, a própria onça e outros animais.

No livro “O som do rugido da onça”, existem várias personagens, e a Josefa tem um papel importante na trama — ela conecta a história com o Brasil de hoje. Você poderia falar um pouco sobre essa personagem, e como você decidiu que ela precisaria existir no livro?

Antes, vou abrir um parênteses: considero escandaloso que saibamos espanhol, inglês, alemão, japonês, até finlandês, russo, mas tão pouco das línguas originárias.

Outro dia me perguntaram por que eu não coloquei um glossário no “O som do rugido da onça”, e eu respondi: “isso foi uma escolha muito lúcida da minha parte, foi uma escolha racional, porque se eu consegui acesso a essas palavras, ao significado delas, o leitor, qualquer pessoa pode conseguir”. Trata-se de uma provocação, de um convite em direção ao outro.

Sobre a Josefa, eu construí essa personagem como uma metáfora do Brasil. Muitas vezes, me perguntaram se ela era uma personagem autobiográfica. Não é, embora eu empreste para ela coisas e fatos que aconteceram comigo.

Primeiro, ela tenta fugir de sua própria história. Ela é uma mulher migrante que sai do norte do país e vem para o sudeste, e percebe essa saída como uma fuga de sua própria história.

E a história de Josefa é uma reconexão, não com uma identidade, no sentido de algo fixo, mas como algo móvel, como uma pluralidade. Então Josefa empreende uma jornada da heroína que precisa sair do seu lugar, precisa se afastar para ver em perspectiva, para se reconhecer e reconectar.

Sua história foi concluída não no “O som do rugido da onça”, mas em uma outra publicação, que é a Revista Morel, editada pelo Ronaldo Bressane, na qual, há umas duas edições, eu publiquei um conto, um spin-off, que conta o que acontece com a personagem depois que ela volta ao Brasil. No livro não cabia, era outra história.

Ao ler seu livro, eu percebi várias camadas de história. Me lembrou o escritor espanhol Javier Cercas. Todos os livros dele fazem essa solda entre história e ficção. Em “Soldados de Salamina” (Biblioteca Azul, 2012), ele faz essa construção de um evento histórico e vai tecendo isso, como você, belamente, fez no seu livro. Existe uma preocupação ao contar o lado da história das crianças indígenas. E foi possível perceber, também em livros anteriores, que você abrange as minorias. Qual é a importância dessa abordagem para você como autora? Sua trajetória como historiadora tem influência nessa abordagem ou não?

Eu poderia, como muitos escritores, por exemplo, escrever sobre a minha vida, fazer autoficção e transitar entre personagens, eventos e fatos muito próximos de mim. Isso não é uma crítica a quem faz isso, que fique muito claro. Mas seria algo muito chato para mim, muito restrito, porque eu acho a minha vida muito chata. A vida de uma mulher branca com alguns privilégios, algumas violências, como toda mulher. Mas isso me deixaria desconfortável, porque não me interessa a minha experiência pessoal nem experiências próximas.

Não acho que a literatura tenha uma função social, que a literatura tenha que ser panfletária. Mas, como um instrumento de criação de mundos, os mundos que me interessam são os mundos do outro. Me interessa o mundo da criança, o mundo do adolescente, que, inclusive, são os meus personagens favoritos, os adolescentes, essa faixa etária. Me interessa a vida de quem sofreu violência do Estado, a violência de gênero, a violência por conta da sua origem. É sobre isso que eu escrevo. Esse é o meu material.

Sobre a minha prática como historiadora, ela é muito mais uma prática literária do que historiográfica, vamos dizer assim. Porque eu fui fazer História, e, obviamente, não estou dizendo que a História é fabulação nem ficção, mas me dá um material profundo e rico para a compreensão da literatura que eu faço. Então, mesmo nos meus romances, que não são de ficção histórica, há um flerte com o gênero.

O professor Durval Muniz tem um livro, “A invenção do nordeste e outras artes” (Cortez, 2018). Ele fala justamente dessa relação história-literatura e coloca ambas no mesmo patamar, no mesmo nível.

“A invenção do nordeste” é um livro de formação para mim. Não só para mim, mas é um livro importantíssimo para a minha compreensão tanto da literatura quanto da História, como também dessa questão do lugar. De que lugar você fala, de que ponto de vista você escreve.

Qual foi a importância de retratar a Amazônia de uma maneira autêntica na sua narrativa? Você teve algum desafio especial, particular, ao compor essa narrativa?

Voltando para os europeus e suas formas de ver a América, quando eles chegam nesse continente, ao Brasil, e isso é muito curioso, as representações que fizeram foram muito espetaculosas, vamos dizer assim.

Obviamente, era uma natureza, uma exuberância a qual eles não tinham acesso, e isso é compreensível. Mas esse olhar do espetáculo, com o passar do tempo, foi ganhando contornos fabulares mesmo. Isso foi acentuando um olhar exotizante sobre o Brasil. Isso, ao longo dos séculos, ainda permanece, seduz tanto quem conta quanto quem fotografa, quem representa. Isso sempre me causou um espanto e um incômodo.

Então, representar a Amazônia, ou o nordeste, ou qualquer lugar, por esse viés quase que folclorizante, de uma ficção do lugar do extraordinário, sempre me pareceu pouco generoso, porque coloca lugares e pessoas no lugar do espetáculo.

Eu tomei muito cuidado de que, por um lado, representasse muito bem as múltiplas cosmologias dos povos originários, que são cosmologias e não lendas. Isso é muito importante, as pessoas [dizem]: “ah, as lendas amazônicas”. São cosmologias, modos de estar no mundo, refinados, sutis, que nada tem a ver com o espetáculo.

Do contrário, seria uma forma de continuar separando, trazendo o outro para a experiência do zoológico, um zoológico conceitual. E não era isso, de forma alguma, que eu queria.

Quando li seu livro, pensei no João Cabral de Melo Neto. Ele era muito meticuloso, detalhista, cuidadoso em cada frase. Você tem esse esmero. Contar histórias nos leva a explorar outros possíveis, outros mundos. E aí vem essa grande chamada do Ailton Krenak, que é “Histórias para adiar o fim do mundo”. De que maneira “O som do rugido da onça” nos ajuda não somente a adiar o fim do mundo, mas a contar outras histórias?

De fato, Cabral foi e é meu mestre. Ele diz uma coisa a qual eu tento seguir religiosamente, fervorosamente. No poema “Alguns Toureiros”, ele fala sobre ter a palavra mais certa, mais exata, e ele fala em não perfumar sua flor, não poetizar seu poema.

Voltando à sua pergunta, no livro “A queda do céu” [Companhia das Letras, 2015], do Davi Kopenawa e Bruce Albert, em algum momento, o Kopenawa diz que os brancos só sonham com eles mesmos, e que uma das estratégias para manter o céu bem costurado em seu lugar é preciso que os brancos possam sonhar com todos.

“O som do rugido da onça”, de certo modo, é uma resposta tanto a essa provocação do Kopenawa quanto à provocação do Krenak, no sentido de adiar o fim do mundo. A minha tentativa de resposta é sobre sonhar junto e sobre modos de adiar o fim do mundo.

“O som do rugido da onça” foi o primeiro livro de uma trilogia que você está escrevendo. Como você apresentaria essa trilogia? Como ela se conecta com o nosso Brasil contemporâneo?

Essa trilogia, que tenho chamado de “trilogia do mato”, é composta pelo “O som do rugido da onça”, “Caminhando com os mortos” [Companhia das Letras, 2023] e o livro que estou escrevendo agora, que espero que muito em breve, esteja na mão do leitor.

Ela pensa o Brasil a partir desses lugares das violências fundantes. A violência colonial, de viés da intolerância, a intolerância religiosa, a intolerância com o corpo do outro, com a existência do outro. E, no caso do terceiro livro, uma que vou chamar, parodiando o pensador Manuel Bomfim, de violência como mal de origem. O que posso falar agora é que fala sobre os males de origem que estão na fundação de nosso país.

Na página 65 do seu livro, onde começa com “É fato que os reis constroem castelos”, essa passagem tem uma metáfora forte. Tem uma poesia em sua escrita que daria para fazer um livro de poemas com o extrato do livro.

Você sabe que eu sou poeta, então o “O som do rugido da onça” foi um livro escrito em voz alta, e eu uso vários recursos do trabalho com poesia no sentido de deixar essa prosa mais fluida, mais rítmica. Então você está muito certo em sua leitura.

Você fala que os reis constroem castelos além de pontes, e eu acho que a gente precisa de pontes que nos levem a outros possíveis. Como você acha que a literatura pode construir pontes?

Acho que a literatura constrói pontes. Se puder existir alguma função para isso que fazemos, é essa, construir pontes. Entre eu e o outro, entre mundos, entre tempos.

Qual é a importância de usar a literatura como ferramenta, não só para contar histórias, mas fomentar pontes e, além de tudo, educar um Brasil sobre a própria história?

Acho que isso é uma tarefa cidadã. O Brasil sabe muito pouco de si, sabe muito pouco de sua história, de sua formação. Acho que não só a literatura, mas as artes e as nossas próprias formas de estar no mundo precisam tomar isso como uma tarefa urgente. Até para que não se repitam aberrações como a que tivemos há pouquíssimo tempo, da ascensão do fascismo, de pessoas que se orgulham da estupidez e da ignorância, que pedem por governos opressores e ditatoriais sem nem, ao menos, saber o que isso de fato representa. Então o letramento histórico é uma tarefa cidadã de todos.

Na abertura de “O som do rugido da onça”, na página 7, a passagem da Cosmovisão Miranha me marcou muito. Embora o livro esteja carregado de humanos, como a Miranha, o Juri, a Josefa e todo o arcabouço que você construiu, também está carregado de não humanos. Como você mesma escreveu, é a eles que deveremos prestar contas, e eles cobrarão. Como você vê essa cosmovisão Miranha nos dias atuais, na própria construção do texto, de sua escrita?

A gente pensar nesse mundo em que o céu está prestes a desabar, como Kopenawa diz, e não pensar que esse céu que pode desabar não atinge só os humanos, mas toda uma fina e complexa teia de vida e de relações, é parte de um suicídio diário coletivo.

Convocar esses seres não humanos, suas perspectivas, suas dores, seu interesse na manutenção de um mundo que não é só nosso, que não pertence só aos senhores do antropoceno, é urgente, necessário.

Por isso, os convoco em meu livro, mas também porque seria impossível contar essa história, ao menos para mim, sem colocar esses seres, suas coletividades e individualidades em curso nesse estado de coisas que a colonialidade criou, que o mundo colonial criou e legou para nós como herança.

Não basta pensar no humano, é preciso pensar nessa grande rede. Meus narradores pedem para que se escutem sua voz.

Qual é o rugido da onça que você quer deixar em seus leitores?

Eu acho que o rugido da onça é polifônico. Ele vai falar tanto das injustiças que se cometem contra os povos originários como contra o meio ambiente, como também é um rugido soberano, de resistência e insurgência. É um rugido de raiva santa. Se espalha pelo tempo e espaço.

Por que é importante pensar não somente a Amazônia, mas os biomas brasileiros, pela literatura?

É a nossa casa, não é? A gente tem que cuidar de nossa casa. Nossa casa é o mundo. E, se a gente não cuida, a gente perde. Essa é uma tarefa inadiável. Que o rugido da onça seja escutado, amplificado para além do livro. É uma história de todos.

Micheliny Verunschk é escritora e historiadora, mestre em Literatura e Crítica Literária e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo. Em 2004, foi indicada ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura, com o livro de poesia Geografia íntima do deserto, sendo a única mulher estreante e também a mais jovem a ficar entre os dez finalistas. Seu livro mais recente, O som do rugido da onça, lançado em 2021 é vencedor do Prêmio Jabuti e do Prêmio Oceanos no ano seguinte.

Produção:  Marcos Colón & Vanessa Moraes
Edição do podcast: Vanessa Moraes
Edição de texto: Isabella Galante
Arte e montagem do site: Fabrício Vinhas
Direção: Marcos Colón

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