Liderança negra na crise climática: saberes ancestrais apontam o caminho
Jovens quilombolas, povos de terreiro e periferias articulam tecnologias tradicionais e estratégias intersetoriais para construir uma transição justa e garantir direitos territoriais.

Saberes que atravessam gerações: a juventude amazônida atua como o elo vital entre a sabedoria ancestral e as práticas contemporâneas
de sustentabilidade, protegendo a floresta e o amanhã. Imagem: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
Em meio à crescente crise climática global, as juventudes afrodescendentes e grupos tradicionais como quilombolas e povos de terreiro emergem como protagonistas na busca por soluções. Utilizando saberes ancestrais e estratégias intersetoriais, estas comunidades promovem a justiça climática, lutando por direitos territoriais e ambientais.
O tema chegou a ser debatido no painel “Juventudes afrodescendentes e justiça climática: tecnologias ancestrais e estratégias intersetoriais dos quilombos, terreiros e periferias para o enfrentamento à mudança global do clima”, realizado no Pavilhão do Brasil na Green Zone. O espaço destacou o papel fundamental desses jovens, buscando fomentar o diálogo sobre como os saberes tradicionais podem guiar a construção de respostas eficazes para os desafios climáticos, ressaltando que, enquanto o mundo procura saídas, muitas já se encontram enraizadas nas vivências e práticas dessas populações.

Painel “Juventudes afrodescendentes e justiça climática”, realizado no Pavilhão do Brasil na Green Zone, destacando o protagonismo desses jovens. Foto: Amazônia Latitude.
A abordagem dessas comunidades transcende a simples adaptação, buscando uma transformação sistêmica. A valorização de suas práticas ancestrais representa um caminho para a resiliência e a sustentabilidade. O poder desses projetos comunitários tem conquistado o reconhecimento de iniciativas como o edital “Sementes Ancestrais”, que visa dar visibilidade e suporte a líderes. Fica claro que as respostas para a crise climática não estão apenas em inovações tecnológicas de ponta, mas no conhecimento acumulado por gerações. A juventude amazônida, em particular, demonstra que a floresta é um repositório de saberes aplicáveis à contenção dos efeitos das mudanças climáticas.
Israel Hounsou, doutorando em educação pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e natural do Benin, traz uma perspectiva fundamental para o debate, ancorada na filosofia africana. “Para falar isso, eu vou falar apenas uma palavra: Ubuntu. O que significa Ubuntu? ‘Eu sou porque nós somos’. É, para entender isso, é que o que eu sou é o que o meu pai, o meu irmão, a minha irmã também é, entendeu? Quando a gente entende isso, a gente tem que respeitar o meio ambiente, a natureza, o lugar onde nós vivemos, porque sem esses espaços, nós não existimos. Qualquer mudança de clima vai prejudicar diretamente a nossa saúde, o nosso bem-estar e nossas maneiras de fazer as coisas”, afirma.
Hounsou critica as lógicas capitalistas e o impacto das “novas tecnologias” que, segundo ele, aniquilam a natureza. A necessidade de repensar o consumo é enfatizada como ponto central para o cuidado ambiental.
O doutorando aborda, ainda, a intersecção entre políticas públicas e educação como pilares para a mudança. Ele questiona a estrutura curricular vigente, apontando para a ausência de perspectivas afrodescendentes e afrocentradas.
Quando a gente fala de políticas públicas e educação, pensamos no que estudamos em nosso currículo. Como podemos ter um currículo hoje sem uma questão afrodescendente ou afrocentrada? Infelizmente, as matérias, os livros, toda a academia é voltada para o Norte global. Isso não pode mais ser permitido. Precisamos urgentemente de novas políticas de ensino e currículos que incluam autores africanos e sul-americanos para pensarmos em como preservar a natureza, fazer uma transição justa, e mudar nossas atitudes.”
Israel Hounsou, doutorando em educação e natural do Benin, compartilha a essência do Ubuntu: “Eu sou porque nós somos”. Uma filosofia que nos convida a respeitar a natureza e repensar nosso consumo para um futuro mais justo. Foto: Acervo pessoal.
A força da natureza
A jovem quilombola e afro-religiosa Kézia Valadares, do Quilombo de Jambuaçu (Moju/PA), compartilha a perspectiva de quem vivencia a ancestralidade:
Falar sobre justiça climática, justiça racial, sobre clima, é falar sobre essa juventude afrodescendente. Me conectar enquanto uma jovem de terreiro, enquanto uma jovem quilombola, é falar sobre essa ancestralidade que pulsa no sangue e nos espaços que vêm de longe, que não param por aqui. Para nós, povos tradicionais, não existe falar de clima sem falar na natureza, porque a natureza que nos sustenta.”
Kézia reforça a importância de trazer as tecnologias ancestrais, desenvolvidas nos territórios, para um debate mais amplo, com a juventude atuando como elo. “Falar desse conhecimento ancestral, desses saberes tradicionais debatidos no terreiro e no quilombo, é falar dessa junção de populações tradicionais que caminham juntas há muito tempo. […] Falar sobre territórios é falar sobre as populações que ali estão resistindo há séculos. As populações de terreiro e quilombolas contribuem para a soberania alimentar e climática dentro dos nossos territórios. Na Amazônia, isso é ainda mais profundo. É preciso dialogar e distribuir essas tecnologias ancestrais a partir das nossas juventudes, pois somos o meio desse processo de continuidade da geração avó e da geração mãe”, conclui.
Saberes ancestrais em prática: tecnologias de resiliência
As comunidades quilombolas e povos de terreiro não apenas falam sobre soluções climáticas, elas as implementam ativamente por meio de suas tecnologias ancestrais, que são a base de sua resiliência e soberania. Nos quilombos, por exemplo, os Sistemas Agroflorestais (SAFs) são a principal estratégia produtiva, combinando o plantio diversificado de alimentos (como mandioca, milho, açaí e castanha) para imitar a estrutura da floresta e garantir a soberania alimentar. Esse manejo do solo prioriza métodos sustentáveis, como a agricultura “sem fogo” e a adubação verde, essenciais para manter a fertilidade da terra e a biodiversidade, além de fortalecer a resiliência dos sistemas agrícolas contra as mudanças climáticas.
Os povos de terreiro, por sua vez, demonstram a íntima conexão entre o sagrado e o ecológico, sendo guardiões de conhecimentos profundos sobre a preservação da natureza e o manejo de folhas. A juventude atua como elo nesse processo, garantindo a continuidade da sabedoria de uma geração para outra. Além do campo, há a aplicação de soluções urbanas que promovem a sustentabilidade e a economia circular, como projetos de compostagem de material orgânico e o uso de ecopontos para reciclagem, unindo o conhecimento tradicional a práticas contemporâneas em prol do cuidado ambiental.
Para Régilon Matos, gestor de programas no Fundo Casa Socioambiental, valorizar as produções e particularidades dos territórios, bem como a necessidade de financiamento adequado, é indispensável.
Para mim é uma alegria imensa discutir sobre tecnologias que já são implementadas nos territórios. O mais importante é discutir como o financiamento chega para essas iniciativas. Sabemos que existem várias fontes, mas será que elas estão de fato chegando nos territórios? É importante reconhecer os fundos para a filantropia de justiça socioambiental como mecanismo legítimo para a chegada desse dinheiro na mão de quem faz a diferença.”
A abundância e a beleza dos alimentos, muitas vezes dispostos em preparações cerimoniais, ilustram o papel dos povos de terreiro como guardiões da natureza e o sucesso das tecnologias ancestrais que garantem a vida. Foto: Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.
Os desafios do financiamento
Embora existam diversas fontes de recursos para o clima e o desenvolvimento, as comunidades tradicionais enfrentam frequentemente dificuldades para acessar o financiamento tradicional, seja ele internacional ou governamental. Isso se deve a fatores como a burocracia excessiva, a falta de mecanismos adaptados às realidades e à informalidade dos territórios, e a exigência de processos que desconsideram as particularidades locais.
É neste contexto que o reconhecimento dos fundos para a filantropia de justiça socioambiental se torna indispensável. Esses mecanismos legítimos atuam como intermediários eficazes, garantindo que o dinheiro chegue diretamente nas mãos de quem faz a diferença nos territórios. Estruturas como o Fundo Casa Socioambiental, a Rede Comuá e a Aliança Socioambiental Fundos do Sul – que apoia mais de 50 países do Sul global – são cruciais por integrarem redes e alianças capazes de valorizar o que é produzido e de entender a peculiaridade de cada iniciativa local.
Matos destaca a eficácia e a existência de soluções locais, bem como a importância das redes de apoio: “As soluções já existem e estão sendo implementada s pelas organizações em seus territórios. É crucial reconhecer essas estruturas como fonte de financiamento. É importante valorizar o que é produzido nos territórios e entender a peculiaridade de cada um. Um exemplo é a Circo Ambiental Rádio Favela, em São Paulo, que usa uma bike-som para levar mensagens sobre racismo ambiental nas vielas, uma das muitas formas de tecnologia que os territórios vêm desenvolvendo”.
Edição e Montagem da Página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón


