Revista Amazônia Latitude abre chamada para trabalhos sobre a encataria da Amazônia

Serão aceitos artigos, entrevistas, ensaios, resenhas, crônicas, pesquisas, fotogalerias, vídeos e outras expressões artísticas. Confira o regulamento.

Pensando a Amazônia pela Encantaria. Arte: Fabrício Vinhas / Amazônia Latitude.
Pensando a Amazônia pela Encantaria. Arte: Fabrício Vinhas / Amazônia Latitude.
Pensando a Amazônia pela Encantaria. Arte: Fabrício Vinhas / Amazônia Latitude.

Pensando a Amazônia pela Encantaria. Arte: Fabrício Vinhas / Amazônia Latitude.

Diante da invasão, do utilitarismo extrativista e dos embates que rasgam a floresta e afogam as vozes tradicionais, a Amazônia convoca um retorno às suas raízes mais profundas. O ano de 2026 deve ser marcado pelo Resgate da Encantaria como nossa bússola de identidade, soberania e pertencimento territorial.

A Encantaria não é lenda; é o princípio estético e ético que define a relação do ser amazônico com seu lugar. Pensando nisso, a Revista Amazônia Latitude — ISSN 2692-7446 (Impresso) | 2692-7462 (Online) — abre nesta sexta-feira (26) uma chamada pública para o envio de trabalhos voltados à Encantaria da Amazônia. As contribuições integrarão a edição especial da série Pensando a Amazônia pela Encantaria. Os materiais serão publicados de forma contínua ao longo de 2026 e podem ser enviados até o dia 31 de março para o e-mail: amazonialatitude@gmail.com.

A Encantaria é a manifestação espiritual e religiosa afro-ameríndia que estrutura o universo simbólico caboclo, ribeirinho e de matriz africana (Mina, Terecô) na Amazônia, especialmente nos estados do Pará e Maranhão.

Na visão amazônica, o mundo não é dividido apenas entre o Céu (dos deuses cristãos) e a Terra (dos vivos). Existe uma terceira dimensão, sagrada e viva: a Encantaria. Do Reino dos Encantados emergem as forças que regem a vida, a saúde e o destino. É a cidade submersa, a ilha misteriosa, o coração da mata. Os “encantados” não são espíritos de mortos; são seres que não morreram, mas se transformaram ou “encantaram” — um ato de metamorfose para um plano superior e invisível.

Os Encantados formam famílias complexas: indígenas e caboclos (Boiúna, Iara, Jurupari); africanizados (Caboclos-de-Mata e Caboclos-do-Mar); figuras históricas/reais (reis e princesas de origem europeia/moura, como Dom Sebastião, as Princesas Turcas Mariana, Jarina, que se encantaram na região).

Eles habitam os elementos primários do bioma, como o fundo dos rios, os lagos, as florestas densas e os morros. Essa interconexão sacraliza o ambiente, transformando cada paraná ou igarapé em um portal e um limite a ser respeitado, tornando a destruição do ambiente um ato de profanação.

A Encantaria é o que confere a identidade cultural única da região, pois ela nasceu da simbiose entre o homem e a natureza fluida da Amazônia.

O poeta e ensaísta João de Jesus Paes Loureiro confere a definição mais potente dessa ligação, tratando a Encantaria como o coração da Poética do Imaginário Amazônico. “Encantarias são como o Olimpo da Amazônia. Só que no fundo do rio”, alerta. Chama, assim, atenção para a ideia de que a Amazônia projeta seus deuses e mitos para debaixo das águas, estabelecendo um panteão cultural inteiramente dependente de seu ambiente hidrográfico.

Para Paes Loureiro, o imaginário, o mito e a poesia emergem do “rio da linguagem” e do “tronco submerso em sua encantaria.” O sujeito ribeirinho e caboclo, ao criar essas narrativas, torna-se “criador e criatura das encantarias que sustentam seu sentido original.”

A adesão à Encantaria oferece um modo de vida não-utilitarista, onde a floresta e o rio são sagrados e cheios de poder, e não apenas recursos a serem explorados. É a lente pela qual os povos tradicionais compreendem o mundo, dando sentido à memória e à sua resistência contínua.

O Desafio de 2026 é inverter a tempestade. É reencantar com a sacralidade do bioma amazônico, produzir narrativas, artes e saberes que reforçam a identidade e a existência dos Encantados; é defender a Amazônia da insensibilidade e do esquecimento através da cultura e da poesia.

Serão aceitos artigos, entrevistas, ensaios, resenhas, crônicas, pesquisas, fotogalerias, vídeos e outras expressões artísticas. Podem participar antropólogos, pesquisadores, professores, jornalistas, ativistas, ambientalistas e agentes comunitários, benzedeiras, erveiras, rezadeiras, curandeiras, pajés, praticantes de religiões afroindígenas, mestres de músicas tradicionais (carimbó, siriá, lundu, boi-bumbá, bumba meu boi, tambor de crioula), mestres da tradição oral (contadores de histórias, poetas, repentistas) e lideranças comunitárias, tanto da Região Amazônica quanto de outras localidades, desde que a temática central seja a encantaria amazônica.

Processo de seleção e submissão

Após a submissão, os materiais passarão por avaliação da Comissão Editorial e do Conselho Editorial da revista, considerando critérios como originalidade, pertinência ao escopo da revista, adequação aos eixos temáticos propostos e conformidade com as normas editoriais.

Especificações para envio:

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Enviar os seguintes dados no corpo do e-mail:

  • Nome completo e idade;
  • Instituição de Ensino e Pesquisa (ou mencionar se é pesquisador autônomo);
  • Nome do orientador (se aplicável);
  • Formação acadêmica (graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado);
  • Resumo do trabalho (até 500 palavras);

Anexar o conteúdo (texto ou mídia) diretamente no e-mail ou incluir o link de acesso.

Requisitos para produção textual:

  • De 3 a 15 páginas, conforme o gênero textual;
  • Resumo de até 500 palavras, com clareza sobre o objeto geral e os objetivos específicos;
  • Revisão gramatical;
  • Citações em nota de rodapé (quando aplicável);
  • Nota de rodapé com credenciais do(s) autor(es) na primeira página;
  • Fonte Times New Roman, tamanho 12, espaçamento 1,5 (notas em tamanho 10, espaçamento simples);
  • Pode ser de autoria individual ou coletiva (com consentimento de todos os envolvidos);
  • O material não pode ter sido publicado anteriormente.

Eixos Temáticos

  • Encantaria e Território: o papel dos Encantados na sacralização de rios, florestas e igarapés como forma de proteção ambiental e resistência.
  • Narrativas e Oralidade: análise de mitos, contos e cantos como veículos de memória e transmissão de saberes.
  • Pajelança, Mina e Cura: o universo ritualístico da Pajelança, do Tambor de Mina e do Terecô como práticas de saúde e intercessão com os Encantados.
  • Arte e Estética da Encantaria: representações dos seres encantados em artes plásticas, literatura, cinema, fotografia e outras expressões artísticas.
  • Identidade Cabocla e Ribeirinha: a Encantaria como elemento estruturante da identidade social, cultural e de gênero na Amazônia.
  • A Metamorfose: estudos sobre o processo de encantamento (Dom Sebastião, Princesas Turcas) e a relação entre o mundo visível e o invisível.
  • Conflitos e reencantamento: a luta contra o desencantamento (exploração econômica) e o papel da Encantaria como estratégia de luta e resgate identitário.
  • Geografia do Encantamento: análise dos rios, florestas, lagos e montanhas como moradas dos Encantados, e como essa sacralização influencia o uso e a proteção do território (conservação, delimitação, resistência).
  • Fauna e flora encantada: o papel de animais (boto, sucuri, jurupari) e plantas na mitologia e nas práticas de cura ligadas à encantaria.
  • O imaginário das águas: estudos sobre as cidades submersas, os “Fundos” (como o fundo do rio Amazonas) e a influência da hidrografia na Poética Amazônica.
  • Desencantamento e profanação: análise dos impactos do extrativismo, mineração e grandes projetos (hidrelétricas) na desestruturação dos reinos encantados e na cultura local.
  • Poéticas da Encantaria: análise da Encantaria na literatura, na música, no cinema, na fotografia e nas artes visuais como vetor de identidade amazônica.
  • Gênero e encantados: o papel das figuras femininas (iara, princesas) e masculinas (caboclos de guerra, capitães) na hierarquia e nos rituais, e suas implicações nas relações de gênero.
  • Memória e oralidade: formas de transmissão de saberes sobre a Encantaria em comunidades tradicionais, ribeirinhas e indígenas, incluindo contos, lendas e cantos.
  • Sincretismo e matrizes: as intersecções entre o universo ameríndio, as matrizes africanas (Mina, Terecô) e elementos europeus (Dom Sebastião, realeza) na formação do panteão de Encantados.
  • A Pajelança e o Xamanismo: estudo dos rituais, das curas e da mediação entre o mundo visível e o invisível praticados por pajés, curandeiros e guias.
  • Encantaria e Saúde Pública: a interface entre as práticas de cura tradicionais (ervas, benzimentos) e os sistemas de saúde ocidentais.
  • A Culinária Encantada: o papel dos alimentos e ingredientes como oferendas, veículos de força espiritual e elementos de conexão ritualística com os Encantados.
  • Educação e Pedagogia da Encantaria: o uso dos mitos e narrativas encantadas no ensino, na conscientização ambiental e na formação da identidade escolar.
  • Encantaria como estratégia política: o uso da cosmologia e da ameaça dos Encantados como forma de resistência contra invasores, grileiros e a violência no campo.
  • Propostas e reflexões sobre como a arte, a academia e o ativismo podem promover o “Reencantamento” do mundo amazônico como ato de soberania.
  • Comunicação e disseminação: o papel das mídias digitais, do jornalismo e dos documentários na desmistificação e na valorização da Encantaria contemporânea.

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