SBPC entrega megafone às vozes (científicas ou não) da Amazônia

Programação reúne ciência, saberes da Amazônia e suas contribuições para os grandes desafios mundiais sobre clima, economia e sustentabilidade

Abertura da SBPC no Theatro da Paz. Foto: Raoni Figueiredo/Agência Pará
Abertura da SBPC no Theatro da Paz. Foto: Raoni Figueiredo/Agência Pará
Abertura da SBPC no Theatro da Paz. Foto: Raoni Figueiredo/Agência Pará

De 7 a 13 de julho, a Amazônia é a sede da ciência brasileira. Pesquisadores de diversas áreas e lugares participam da 76ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Foto: Raoni Figueiredo/Agência Pará

O encontro realizado pela terceira vez na Universidade Federal do Pará (UFPA) acontece no lugar escolhido como cidade-sede da Conferência da Organização das Nações Unidades sobre as Mudanças Climáticas (Cop 30), marcada para 2025, em Belém do Pará; quando os olhos do mundo se forçam a ver o que há de novo na maior floresta tropical do globo.

Conhecendo a Amazônia

Ao longo dos séculos, o lugar batizado de “Amazônia” recebeu muitos nomes e títulos. “Celeiro do mundo”, “maior floresta do planeta” e “maior reserva de água doce da Terra” são apenas alguns deles.

No entanto, o que as fotografias mais tradicionais da região não mostram é que, em meio a esse “verdevagomundo” da famosa imagem da “floresta latifoliada serpenteada por rios do tamanho de mares”, há muito mais: comunidades tradicionais; civilizações milenares, complexas e tecnológicas; biodiversidade incomensurável; habilidades e expertises; narrativas e culturas com uma profunda conexão com a natureza, que são foco de pesquisas de diversas áreas do conhecimento, produzidas por cientistas de muitas nacionalidades.

Mas se a Amazônia sempre atraiu pesquisadores por sua multiplicidade de interesses, o que torna a 76ª Reunião da SBPC, realizada em Belém, tão especial? 

É que, desta vez, a ideia é não apenas falar sobre a Amazônia e redescobrir esse lugar pelo olhar criterioso da Ciência, mas mostrar que, mesmo no campo científico, é preciso dar visibilidade às descobertas de quem vive aqui. Àqueles estudos, teorias e ensaios que têm o “DNA brasileiro e amazônico”. 

Para o anfitrião do evento e reitor da UFPA, Emmanuel Zagury Tourinho, a participação de amazônidas na SBPC é fundamental e “esta reunião será um espaço privilegiado para a integração da ciência feita na Amazônia com a comunidade científica nacional, o que é muito importante, pois, nossa base de conhecimento na Amazônia cresceu muito nos últimos anos, mas ainda tem pouca visibilidade nacional.

Vista aérea do Campus Guamá da UFPA, onde ocorre o SBPC. Foto: Thiago Pelaes/Divulgação UFPA

Vista aérea do Campus Guamá da UFPA, onde ocorre a SBPC. Foto: Thiago Pelaes/Divulgação UFPA

O que a Amazônia pensa e oferece?

O diferencial deste encontro, portanto, é a tentativa de colocar em foco o que os amazônidas falam, descobrem e pensam sobre a região famosa no mundo todo. Não à toa, o tema do encontro é “Sustentabilidade, ciência e cultura em Belém”. 

Com a palavra, os cientistas e os saberes da Amazônia e como eles podem contribuir para os grandes debates mundiais. 

“Nós precisamos de um novo contrato social com a natureza. […] Não se trata de abrir mão de tudo, mas de fazer uma compensação e alcançar um equilíbrio que beneficie todos. Ninguém tem que salvar o planeta. O planeta se salva muito bem sem a gente. A verdade é que se a gente sumir, o planeta terá uma bênção. Mas nós queremos manter nossa espécie, então, temos que saber lidar com isso”, defende Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação do Brasil e atual presidente da SBPC.

Prédio Mirante do Rio, na UFPA, onde ocorrem os minicursos e oficinas do evento.

Prédio Mirante do Rio, na UFPA, onde ocorrem os minicursos e oficinas do evento. Foto: Alice Palmeira/Arquivo Pessoal

E há muito a ser dito

Da última vez que a SBPC foi realizada na capital paraense, em 2007, 70% das pesquisas produzidas sobre a Amazônia eram conduzidas por estrangeiros e publicadas em revistas internacionais. Na época, o então presidente da Sociedade, Ennio Candotti, já apontava a necessidade de incentivar os brasileiros a estudar a região.

“Ele defendia, como nós defendemos hoje, um desenvolvimento sustentável e justo, que incorpore os conhecimentos tradicionais das populações que habitam e manejam essas terras há milênios”, aponta Renato Janine.

Mas um levantamento liderado pelo físico Carlos Henrique de Brito Cruz, revela que, nos últimos anos, o Brasil se tornou o principal responsável pela produção de conhecimento sobre a Amazônia. Das 20 instituições que mais estudam a região, 16 são “verde e amarelas”. A UFPA aparece em segundo lugar neste ranking, atrás apenas da Universidade de São Paulo (USP).

O reitor da federal paraense, Emmanuel Tourinho, ressalta que a colaboração de instituições e pesquisadores amazônicos na busca por esse protagonismo e diversidade inspirou a criação de um consórcio lançado recentemente entre as universidades amazônicas.

Este centro integrado busca produzir conhecimento de forma abrangente, considerando todas as dimensões dos problemas ambientais da região, mesclando olhares científicos com a vivência amazônica e esse olhar faz muita diferença no conhecimento produzido.

Tenda SBPC Jovem, onde ocorre parte da programação do evento. Foto: Alice Palmeira/Arquivo Pessoal

Tenda SBPC Jovem, onde ocorre parte da programação do evento. Foto: Alice Palmeira/Arquivo Pessoal

Da Amazônia para o mundo

Nem sempre, quando se discute a necessidade de conservação da floresta, do rio, para garantir o equilíbrio climático, se pensa que aqui vivem milhões de pessoas. Mas não há nenhuma forma de conservar a floresta, se não forem garantidas as condições de vida dessas populações da Amazônia”, acredita Emmanuel Tourinho. 

O importante papel dos povos da floresta na preservação ambiental do bioma amazônico, assim como discussões mais recentes como a exploração petrolífera na Foz do Amazonas e a regulamentação do mercado de créditos de carbono estão na pauta da edição 2024 da SBPC. 

Cada um deles, abordado em apresentações científicas e nos debates que buscam atrair diversas parcelas da sociedade em um convite aberto para todo interessado em saber mais sobre a região e falar sobre ela. Desde os vizinhos da universidade, na periferia de Belém; a representantes de povos e comunidades tradicionais; líderes comunitários e de associações; políticos e representantes públicos; passando por ONGs e também pela iniciativa privada. Todos são bem-vindos neste evento gratuito.

Abrir esse debate é uma forma da sociedade tentar interferir nessas decisões. Afinal, ela é quem paga as contas. O que são as mudanças climáticas? Quantas pessoas sabem o que é isso? Então a pessoa vai olhar a programação e dizer ‘eu não entendo isso’ e os nossos pesquisadores e cientistas estarão lá, com disposição, para explicar para o público” e também para ouví-lo, aponta Cláudia Linhares Sales, secretária-geral da SBPC e coordenadora geral do evento. 

Tendas Paneiro e SBPC Cultural, onde ocorrem as programações alimentícias e culturais. Foto: Alice Palmeira/Arquivo Pessoal

Tendas Paneiro e SBPC Cultural, onde ocorrem as programações alimentícias e culturais. Foto: Alice Palmeira/Arquivo Pessoal

Um aquecimento para a COP 30

Compreendendo que esse diálogo, quanto mais amplo for e quanto mais diverso conseguir se tornar, será essencial para a continuidade dessas “conversas sociais”, especialmente sobre a necessidade do Brasil assumir uma postura com metas mais ousadas para sequestrar carbono da atmosfera, reduzir a poluição e mitigar o aquecimento climático, apesar de a comunidade científica não estar otimista quanto a possibilidade do Brasil atingir as metas de Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, em inglês) e, assim, reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 48% até 2025.

Para Cláudia Linhares Sales, a 76ª SBPC é uma resistência, uma maneira da comunidade científica e da sociedade se prepararem e anteciparem essas discussões que serão fortalecidas na COP 30 e, até lá, amadurecer a reflexão junto com as vozes da Amazônia e seus saberes, científicos ou não.

Para acompanhar a programação completa acesse o site do evento.

Produção: Raisa de Araújo
Revisão e produção: Glauce Monteiro
Montagem da página e acabamento: Alice Palmeira
Direção: Marcos Colón

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