Festival Rei Sabá: Onde o mar da Turquia encontra o mistério da Amazônia
Entre a história oficial e a cosmopercepção paraense, a encantaria revela uma geografia sagrada que resiste ao tempo

Um encontro com a ancestralidade. Lideranças femininas atuam como guardiãs de uma geografia sagrada que resiste ao apagamento
colonial e à intolerância no nordeste paraense. Foto: Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.
Celebrado há 114 anos, o Festival Rei Sabá é a maior manifestação afrorreligiosa da Região do Caeté, no nordeste paraense. É um território de encontro entre mundos, onde história, espiritualidade e experiência se entrelaçam na paisagem de São João de Pirabas.
Todo dia 20 de janeiro, centenas de pessoas saem da orla do município e atravessam as águas rumo à Praia do Castelo, na Ilha da Fortaleza. O destino é o Complexo Mítico Rei Sabá, um dos principais portais de encantaria da região, onde o visível e o invisível coexistem.
A data coincide com o dia de Oxóssi, o orixá da fartura, e São Sebastião, o mártir da Igreja Católica. Mas, para os praticantes de religiões de matriz africana, a figura central é o próprio Rei Sabá, frequentemente associado a Dom Sebastião.
Na Encantaria, o Sebastianismo ganha força e ressignifica o desaparecimento do Rei Português em terras africanas. Na narrativa do Tambor de Mina e Pena Maracá, o monarca teria se encantado na Praia dos Lençóis, localizada em Cururupu, no Maranhão.

O ato de ‘baiar’ ao som do tambor é uma linguagem de reexistência que confronta o projeto de invisibilidade colonial. Foto: Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.
A travessia do sagrado
Os preparativos do Festival começam dias antes e mobilizam toda uma rede de cuidado que envolve alimentação, hospedagem, vestimentas e organização das giras. A programação inicia no dia 19, com rituais no terreiro e segue com uma caminhada até o Espaço Cultural Maria Pajé, onde acontece a missa.
A celebração reforça o acontecimento com um fio condutor que transita entre os universos religiosos. É o que fica claro na fala de Dom Jesualdo Moura, responsável por celebrar a missa em 2023 :
Desde muito cedo, eu tenho uma afinidade muito boa com o povo de matriz africana. Nunca tive problema. Até porque eu sempre me identifiquei muito com a religião. E, depois, a gente vai fazendo uns estudos e vai compreendendo como funciona. Então, eu me inteirei muito dentro dos terreiros […] e a gente foi pegando afinidade com o povo, foi frequentando as casas, foi celebrando missa […] uns convidavam aqui, outros convidavam ali pra rezar uma ladainha, pra celebrar uma missa e aí a gente acabou recebendo esse título de padre macumbeiro.”

A manutenção do culto ao Rei Sabá repousa no protagonismo feminino e na pedagogia cultural que garante a continuidade civilizatória entre gerações. Foto: Juliana Carvalho.
O Rei perdeu a cabeça
A travessia para a ilha começa ao amanhecer, guiada pela maré. Após cerca de 40 minutos, os visitantes chegam à formação rochosa que representa o Rei Sabá. O local integra a Formação Pirabas, um conjunto geológico com cerca de 23 milhões de anos, onde fósseis, vida marinha e espiritualidade convivem em equilíbrio.
De longe, atravessando parte das ondas de pé, já que as embarcações não conseguem se aproximar, é possível ver a figura de Rei Sabá. Originalmente, a pedra tinha o formato de uma pessoa sentada, com o queixo possivelmente apoiado na mão.
A institucionalização desse espaço sagrado ocorreu oficialmente em 20 de janeiro de 2002, com a inauguração do Monumental Místico Rei Sabá na gestão do então prefeito João Bosco Rufino Moisés (2000-2008).
A instalação dos vultos (imagens sagradas) teria sido uma indicação de um jogo de búzios feito por Flaviana Serrão da Silva, a Maria Pajé, ao prefeito, demonstrando a histórica interseção entre a liderança religiosa e o poder público local na gestão do território (Veras, 2022)1VERAS, Hermes de Sousa. Convivendo com seres encantados: Encontros e percursos da encantaria de Rei Sabá em São João de Pirabas, Pará. 2022..

A oferenda de bebidas e velas no Monumental Místico Rei Sabá materializa o compromisso com o encantado, mesmo diante da degradação do local sagrado. Foto: Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.
Mas esse equilíbrio está ameaçado. Historicamente, o complexo nasceu sob o signo do conflito: a inauguração em 2002 foi precedida por um ato de vandalismo em que a suposta “cabeça” da formação rochosa do Rei Sabá foi arrancada (Melo, 2022)2MELO, Diogo Jorge de. O Castelo do Rei Sabá: patrimônios, geodiversidade e mitopoéticas no Município de São João de Pirabas (PA). Museologia e Patrimônio, Rio de Janeiro, v. 15, n. 1, p. 94-106, 2022.. As imagens de entidades que antes ocupavam o espaço foram destruídas ao longo dos anos e, hoje, poucos elementos permanecem.
Depois desse episódio de “degola”, reformas da prefeitura alteraram a fisionomia do local com o acréscimo de uma base de concreto quadrangular envolvendo a rocha. Essa intervenção mudou a forma da pedra, que, à primeira vista, deixou de lembrar a figura humana sentada.

A base de concreto quadrangular, instalada na gestão Bosco Moisés, alterou a fisionomia da pedra que a natureza esculpiu. Hoje, a estrutura exibe as marcas do tempo e do descaso institucional. Foto: Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.
Embora os vultos tenham sido repostos em 2019, eles não resistiram por muito tempo à degradação e aos ataques. Pelo chão, pedaços das caboclas Mariana, Toya Jarina e Seu Zé Raimundo padecem com a ação do tempo, da maré e da intolerância religiosa. Apenas Iemanjá permanece de pé, também com as marcas do desgaste evidentes. Hygor Casseb, Pai de Santo, lê esse processo como um afastamento das entidades:
Os antigos falavam que, de primeiro, quem vinha de fora ou chegava próximo à pedra do sagrado, já sentia aquela vibração. Hoje em dia as pessoas misturam muito as coisas. Tem o negócio da festa, os ‘bebedeiro’, as pessoas vão desmatando até perto da pedra pra construir rancho. Fora as outras pessoas que circulam por ali e vão jogando lixo ou até fazendo coisas inapropriadas pro ambiente. Aquela força vai se acabando, porque aquilo vai desagradando o encantado que permanece ali. Aquela energia permanente não existe mais na praia, na pedra.”
Não se trata apenas de degradação física. Essa “mutilação” do sagrado é uma forma de tortura simbólica e violência patrimonial que visa deslegitimar o território. A destruição das imagens é um ataque direto à morada do encantado e ao patrimônio material e imaterial da fé afro-indígena.
A persistência das ruínas revela a operação do “Pacto da Branquitude” e do racismo institucional por omissão, onde o Estado negligencia a proteção física do sítio sagrado (Cida Bento, 2022)3BENTO, Cida. O pacto da branquitude. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2022..
Dalvina Costa, a Dona Caçula, observa as mudanças com preocupação:
Pra gente chegar perto da pedra, a gente pedia licença. Era muito peixe, tinha piscina. Peixe branco, rosa, vermelho, caranguejo de várias cores, camarão […] O coração da sereia está rachando. É uma resposta ao descaso diante do sagrado. Tá acabando o respeito.”
O ‘coração da sereia’ rachado simboliza o desgaste do sagrado diante da intolerância e do abandono institucional. Foto: Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.
Para o historiador e produtor cultural Henrique Fonseca, cuja a atuação é focada em Patrimonio Histórico, predomina a sensação de abandono do poder público. Esse ano, os povos de terreiro conseguiram aprovar projetos culturais que levaram atrações de matriz africana para os palcos do Rei Sabá. No entanto, essa não tem sido a realidade vivida nas últimas edições do evento:
Já acompanho a Festa do Rei Sabá há seis anos. A gira hoje está se acabando, tem pouco movimento. Já não tem o mesmo objetivo de antes, que é cultuar o nosso sagrado. Hoje estamos vendo uma festa religiosa se tornando uma festa de cunho político, com bandas tradicionais, não uma festa voltada para o povo da Religião de Matriz africana. O estado laico funciona apenas no papel. Por isso, eu acredito nos relatos de muitos moradores, que dizem que o encantado tenha se afastado.”
Como exemplo, ele cita o fato de haver uma preocupação da gestão municipal em disponibilizar tendas para os shows enquanto os participantes do ritual ficam expostos ao sol e chuva.

O geopatrimônio mítico da Praia do Castelo é a morada física e simbólica do encantado, exigindo proteção contra a negligência e o racismo religioso. Foto: Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.

Todo dia 20 de janeiro, as oferendas são deixadas no Complexo Mítico Rei Sabá como uma forma de pedido, reverência ou agradecimento ao sagrado. Foto: Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.
As belas turcas
A cosmologia do Festival é marcada pela presença das três irmãs turcas: Herondina, Toya Jarina e Mariana.
Relatos como o de Dona Ana Ferreira de Monteiro ajudam a compreender essa dimensão. Ela conta que firmou um acordo com o Rei Sabá para viver na ilha:
Quando eu cheguei lá, fui lá. Falaram que ele era o milagroso. Eu fui lá na pedra e falei: eu quero que você me dê permissão aqui por 30 anos, eu quero viver aqui 30 anos, se Deus me der vida, até 30 anos eu fico aqui. Com 30 anos, eu quero ir embora. Mas eu disse aquilo por dizer.”
Dona Ana pediu autorização e ajuda para plantar um roçado e que não faltasse peixe no seu curral. Ela garante que assim conseguiu criar todos os filhos, sempre levando a oferta do Rei Sabá na pedra. Com o fim do acordo, a família foi convidada pelo encantado a se retirar do local.
São histórias como essa atravessam gerações e reforçam que, em Pirabas, a encantaria não é metáfora. É experiência.

Velas vermelhas e contas de pérolas repousam sobre os vestígios de vultos destruídos. A persistência do ritual sobre as ruínas desafia o projeto de apagamento histórico. Foto: Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.
Um patrimônio vivo

O corpo e o traje como símbolos de uma continuidade civilizatória que confronta o racismo religioso com fé e ancestralidade. Foto: Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.
Em 2024, o Festival do Rei Sabá foi reconhecido como patrimônio cultural e imaterial de São João de Pirabas. Mas o reconhecimento institucional que veio com a Lei Municipal nº 1.052/2024 não dá conta de tudo.
Além de o Portal de Encantaria estar abandonado, os relatos afirmam que o espaço perdeu força, que o próprio encantado se mudou de lá em decorrência de episódios de desrespeito e falta de fé.
Ainda assim, no dia 20 de janeiro, o que se celebra ali não é apenas tradição. É uma forma de existir no mundo. O ato de “baiar” ao som do atabaque e a ocupação da Praia do Castelo são linguagens de “reexistência” que confrontam o projeto de invisibilidade colonial.
Ao final da gira, quando a maré luta contra os barcos que fazem o movimento de retorno, fica no corpo a sensação de ter atravessado um outro plano, onde o real não se limita ao que pode ser explicado.

O respeito entre lideranças simboliza a renovação das linhagens de zeladores e a preservação do saber ancestral. Foto: Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.
*Este conteúdo integra a série especial Pensando a Amazônia pela Encantaria. Os registros fotográficos que compõem este ensaio visual foram realizados durante o trabalho de campo na Ilha da Fortaleza em janeiro de 2023.
Texto, Fotos, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

