O engajamento das pequenas solidões
A literatura como ferida aberta e denúncia histórica em Thiago Roney

A literatura contundente de Thiago Roney sob o olhar crítico de Sandra Godinho sobre as violências e os silêncios da História amazônica.
Arte: Loan Bastos/Amazônia Latitude.
Conheci a 24ª Flip, Festa Literária Internacional de Paraty, a maior festa literária do Brasil, como quem escuta o rumor de um rio que carrega muitas vozes, a de Ângela Davis, a de Eva Balthasar e a de tantos outros que fizeram da palavra espelho das injustiças, canto de vozes reprimidas, memória das margens. Sartre e Camus haviam dito que o escritor não pode ser neutro: é testemunha do seu tempo, caçador dos silêncios impostos, delator das tristezas que escorrem das paredes da História.
Tomada por este rumor polifônico, iniciei a travessia pelo livro do escritor amazonense Thiago Roney, Com o rio Negro na boca, publicado e lançado recentemente pela Editora Valer. As 24 narrativas não se contentam em ser apenas contos, mas feridas abertas que ainda sangram, pois trazem como fio condutor a lógica perversa de um mundo herdado por nós, temas como o nazismo, o fascismo, as ditaduras, o vazio da existência, o absurdo e as consequências do sistema capitalista, vêm à tona temperadas por uma crítica social contundente e arrebatadora, afinal, o mundo é uma panela velha usada para cozinhar ruindades.
Ao recriar estes pequenos universos e estas pequenas solidões, Roney nos engaja em relatos densos e recheados de referências, fazendo com que – como matrioskas – seus textos se abram a outros textos, “uma chave que abre um mundo logo se transforma em fechadura de outro”. Linhas e entrelinhas formam mosaicos de interpretações sempre permeados de ironia, humor sádico e simbologia; o cotidiano é tensionado até o limite da normalidade, num realismo aparentemente fantástico. Na dança da impermanência das personagens em cenários inquietantes, distinguimos fisionomias irreconhecíveis. Os mais perversos são os classificadores de carnes — ditadores que chamam violação de conversa e tortura, de terapia.
Terapia cujo “apaziguamento consistia em uma conversa forçada com o cu do índio (leia-se violação). Eles ficavam mais amáveis, assimilavam os costumes dos civilizados depois de uma sessão (leia-se tortura), apesar dos suicídios subsequentes. Era na conversa que se explicava aos Atroaris, aos Kinãs, a maravilha que era uma estrada, a riqueza de uma mineradora, a beleza de uma hidrelétrica”, como se isto dimensionasse a lógica dos nossos governantes, como se isto explicasse os quase 8000 indígenas varridos da pele da floresta para que a rodovia BR-174 fosse construída, a mineradora Taboca fosse implantada e a Hidrelétrica de Balbina, o maior desastre ambiental do Amazonas, fosse erguida e tantos outros descalabros.
Os textos de Roney não fazem concessões. Eles expõem as conjunturas sociais que afligem este palco que é o mundo, este baile de carnes dentro de uma realidade alucinatória. O Negro entra pelas fissuras da cidade velha trazendo seu lado mais maligno, redesenhando perspectivas, pescando mundos sombrios nesta terra moribunda.
O livro de Roney me surpreendeu porque engajar é se posicionar sem esperar por coragens ancestrais. É escrever como quem planta árvores em solo queimado, sabendo que cada palavra pode ser raiz e que cada rio contaminado por ser uma voz.
Sandra Godinho é graduada e mestre em Letras. É membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB). Com Orelha lavada, infância roubada (2018), recebeu Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019), e com Verso do reverso (2019) ganhou o Prêmio Regional de Melhor Livro de Contos da Cidade de Manaus. Seu romance Tocaia do Norte (2020) venceu o Prêmio Cidade de Manaus 2020 e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021. Outra obra sua, A morte é a promessa de algum fim, recebeu o Prêmio Cidade de Manaus 2021, e também o Prêmio Focus Brasil NY/AILB 2022. Tem ainda dois romances finalistas do Prêmio Leya de 2021 e 2022, Memórias de uma mulher morta e A Secura dos ossos.
Thiago Roney nasceu em Boa Vista, Roraima, e vive em Manaus, Amazonas, desde o primeiro ano de vida. Professor e escritor, é licenciado em Matemática, pela Universidade Federal do Amazonas, e em Letras, pela Unesa. Mestre em Letras e Artes, pela Universidade do Estado do Amazonas, e doutor em Literatura, pela Universidade de Brasília. Publicou dois livros de contos: O estouro da artéria de um cavalo húngaro (2013) e A merda do mundo (2015), coautoria com Arcângelo Ferreira, o livro de poesia O drone de Yebá Buró – um poema cosmopolítico (2022) e o livro de crítica literária Realismo dos fantasmas da periferia: o pensamento do realismo mágico (2025).

Com o Rio Negro na Boca
Autor: Thiago Roney
Ano: 2026
Idioma: Português
Editora: Valer
Edição, Revisão e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

Sandra Godinho