Cantos sagrados: experiências de conexão entre humanos e Encantados por meio do som e da vibração
Este texto integra a chamada “Pensando a Amazônia pela Encantaria” e apresenta um relato espiritual baseado em experiências de estados de consciência expandida

A pesquisadora e terapeuta Dra. Susanne Boerner em vivência sonora de reconexão com os saberes da floresta e os Encantados por meio
de cantos sagrados. Foto: Franka Leehr.
Inglês
Somos seres multidimensionais e todos indígenas da Terra. Nascida na Alemanha nesta vida, vivi por seis anos no Brasil e no México. Sentindo-me fortemente conectada com a Amazônia, carrego a sabedoria da curandeira e vidente de uma vida passada, na qual cresci na Amazônia como uma menina Indígena, cercada pela floresta e seus espíritos.
O dom da cura foi transmitido para mim na outra linha do tempo por minha avó indígena. Naquela vida, eu tive a visão de um espírito Jaguar como sinal de perigo, que alertava sobre o iminente extermínio do meu povo. Para protegê-lo, o dom sagrado de cura foi escondido pela minha avó e pelos Encantados através das linhas do tempo, para ser recuperado em outra vida.
Nesta vida atual, passei por uma longa jornada de despertar espiritual, iniciação xamânica e treinamento com os Mundos Encantados para recordar meu chamado, meus dons e estar a serviço de todos os mundos. Também recebi os cantos sagrados e as frequências de cura por meio dos meus ancestrais amazônicos para me comunicar com os Encantados. Essa missão de cura e reconexão agora precisa ser levada adiante para que a semente que foi plantada possa florescer.
Os Encantados se revelaram durante várias cerimônias em que me reconectei com os espíritos dos meus ancestrais amazônicos e com meu amigo de infância, o boto-cor-de-rosa. Senti a dor coletiva do boto-cor-de-rosa devido à escravidão, ao apagamento da memória e à repressão.
No entanto, também me conectei com os Outros Mundos na dimensão superior do amor e da alegria. Os Encantados pediram para que os humanos os lembrassem com amor, reverência e respeito, reconhecendo sua existência e realizando cerimônias de cura por meio da alegria e da celebração, fortalecendo assim a aliança de amizade entre humanos e os Mundos Encantados.
A travessia e o pedido de permissão
A seguinte contribuição foi coescrita com os Encantados por meio de estados de consciência expandida. A autora se conectou com os Mundos Encantados para recordar e orientar sobre a mensagem que os Encantados desejavam transmitir nesta contribuição. O texto assume o formato de uma viagem xamânica na dimensão dos Encantados, na qual os cantos sagrados foram entoados como frequências e as transmissões foram faladas em voz alta e gravadas.
Além disso, os Encantados guiaram a autora a registrar e compartilhar alguns cantos sagrados como formas de conversa sagrada não verbal. Eles lembraram da importância de reequilibrar a Terra e o Cosmos e de guiar a relação entre humanos e Encantados de volta à amizade e à harmonia.
Os cantos sagrados de cura foram gravados com a autorização dos Ancestrais e dos Encantados durante cerimônias realizadas especificamente para esta contribuição. As frequências de cura que foram canalizadas para a comunicação com os mundos Encantados durante a viagem xamânica também foram transcritas.
A seguir o relato se dará em primeira pessoa, valorizando a experiência vivida durante a viagem xamânica e apontando a melhor forma de difundir a mensagem recebida:
Ai rai i ke ne. Ai rai i ke ne. Ai rai i ke ne. – Sinto meu coração e o plexo solar irradiando calor. Posso sentir a energia, o amor e a conexão emanando para fora. Vejo-me em uma canoa. Ai ne kae te o. Vejo animais passando, uma grande tartaruga. Sou convidada a segui-los. O beija-flor está comigo como meu guia. Sou convidada a fechar os olhos e sou puxada por um redemoinho de luz e faíscas que me leva ao mundo dos seres encantados. Viajo por rios e cachoeiras. Cachoeiras começam a fluir.

Navegação pelas águas da Amazônia: a canoa como ponto de partida para a travessia sensível e a conexão com os seres encantados. Foto: Susanne Boerner/Acervo pessoal.
Sou orientada a aguardar para pedir autorização. Peço aos Encantados autorização para poder entrar em seu mundo e transmitir qualquer orientação que tenham para nós, para ajudá-los a serem lembrados com respeito e compartilhar sua sabedoria, assim fortalecendo a aliança entre eles e os humanos e honrando sua existência. Peço autorização para escrever com e através deles e para transmitir a mensagem que desejam compartilhar.
Raine raine. Raine raine. Raine raine. Raine raine. Raine raine. Vejo-me em uma sala guiada pela silhueta de um grande leão. É uma câmara de transmissão. Rainde rainde he. Vejo um enorme papagaio. Sou chamada a entrar. Rainde rainde he.
A linguagem que brota do coração
Não é fácil para os Encantados falar da maneira como os humanos falam. A comunicação deles não é falada, é sentida. Transmitir a informação assim exige que os humanos abram o coração e se conectem com os sentidos emocionais. Portanto, pedem que encontremos novas maneiras de nos comunicarmos uns com os outros e com tudo ao nosso redor, com a natureza. Pedem para nos lembrarmos de como nos comunicar, de como falar, para que possamos nos conectar por meio da frequência.
Vejo uma árvore com redes, energia entrando no solo conectando tudo. Haiararã. Haiararã. Haiararã. Haiararã. Vejo a energia viajando ao longo dessas linhas de conexão, vibração, consciência, consciência em movimento. Vejo duas mãos enormes: “Sem medo, venha com amor.” Raire raire konekahio.
Nem todos conhecem mais os cantos sagrados. Pergunto como ensinar outros humanos a se comunicar novamente quando não lembram. Watehe watehe: deixe a flor crescer do coração. Deixe a flor crescer do coração. Vejo muito roxo e azul. Deixe as plantas repousarem no coração, deixe a flor crescer do coração. O florescer vem do coração. O florescer vem do coração. A linguagem do coração é universal, além do tempo e do espaço.
A voz do boto e as frequências sagradas
Peço para me conectar com o boto-cor-de-rosa para qualquer orientação que ele possa ter. Ae ra ke ne ne. Ae ra ke ne ne. Ara o arã. Ara o arã. Ara o anwe, a ko na je. Jo a ka ro kã. Ele me pede para apresentar esta contribuição tanto em escrita quanto em canto sagrado:
Warone warone. Karajo karajo. Wahe wahe. Orajo wahika orajo wahika. Nanone nano ne, nanone. Harã harã harã he no ne, harã kaja waro kane. Harã harã, awarekajo awarekajo rake. Hano hano he kairoka haro kane haro kane. Wahere wahere, korajo kane, korajo kane he ja. Karo karo, wahe jo kare, ho ne ho ne wakajore, hojaka hojaka, wajore wajore kajora, wahejorake rake, wahejorake rake, wahejorake rake, wahejorake rake, he he.
Hanto ja, hanto ja je. Hantoja he he. Hantoja he he. Hantoja he ‘he. Hantoja he he. Ware koa wareko. Ware konane, ware konane heja. Ajarone ajarone, ajarone wahe joke. Arone arone. Kajawa hejo kajawaje.”
A mensagem do Mundo Encantado para os humanos é voltar a trabalhar com as frequências divinas do som e da vibração; é assim que vocês se conectam. Sejam brincalhões e conectem-se através da alegria. Não se esqueçam da dor dos seres encantados, mas re-equilibrem o todo trazendo lembrança, alegria e celebração na energia do amor para curar as dores antigas.
Nós, como humanos, somos convidados a ajudar as novas gerações a lembrar, a transmitir o legado, a ensinar aqueles que estão chegando a serem guardiões do futuro, guardiões do passado, guardiões dos Outros Mundos.

Dra. Susanne Boerner à beira das águas em vivência ritual com tambor para a entoação e o registro dos cantos sagrados. Foto: Franka Leehr.
O retorno e a missão de partilha
Rainde rainde he. Rainde. Rainde he he. Pergunto se há alguma outra orientação que desejam me mostrar. Eles me pedem para cantar. Querem trazer frequências, vibrações de cura. Pergunto se precisam de algo de nós. Pedem para trazer as crianças, trazer as crianças. Encantar suas mentes e corações. As pessoas precisam escutar, escutar com o Coração. Haio reke. Hairo heke naja.
Eu agradeço. Kora korawa hete janowa kojo. Ake harã ra rã. anone anone warã. anone waro ne warã. Anone waro ne warã. Anone waro ne warã. Arake nahã nahone, arane koja ro kã. Sinto meu coração brilhar novamente e muito amor sendo transmitido, a bela e pura energia do amor.
Sou orientada a não ter medo e a usar minha voz, a compartilhar essa energia de conexão com a humanidade. Arane korã. Arane korã. Wanona kare jo. Para pedir às pessoas que se sentem e simplesmente escutem, e que se conectem com o Coração e com a Frequência. Para ensinar as pessoas a se conectarem novamente com a Frequência. Arara karo. Arara karo hane. Araheke. Araheke kehe he he.
Mmmm. Ahe nahe no he ne. Ahe nahe nohe ne. Ahe nahe nohe ne. Ahe nahe no he ne. Anonehe he. É som, frequência, vibração. Nenhuma linguagem é necessária para transmitir a verdade, para transmitir a partir do coração. Transmitir a interconexão de tudo o que existe. Amor, amor puro, alma pura, mente pura.
Agradeço a todos os seres pela orientação e ao colibri por me guiar e peço para retornar, agradeço por todo o amor recebido. Ahe nahe kahere. Arone koja nano.
Nota 1: O coração é um portal de conexão entre dimensões. Energia, tecnologia vibracional e sons são usados nos espaços cerimoniais como antigas frequências de cura que são transmitidas por meio de cantos, som, frequências, sílabas e padrões de linguagem que interagem diretamente com o campo energético coletivo e a geometria sagrada. Durante esse processo, a consciência é harmonizada por meio da vibração do amor através de campos energéticos vibratórios e frequências que equilibram, transmutam e curam. Esses também se movem pelo corpo contornando a mente pensante e guiando corpo/mente/espírito e todas as nossas relações de volta à harmonia, em uma conversa sagrada e sentida com plantas, rios, seres encantados e humanos.
Nota 2: Abrir-se para vivenciar essa experiência a partir dos contato com os cantos sagrados transmitidos em cerimônias e uma viagem xamânica permite conhecer as encantarias amazônicas e os saberes da floresta de mais de perto para acessar mediante tecnologias (energéticas) humanas e não humanas fragmentos valiosos de práticas de cuidado transmitidos por saberes ancestrais para diferentes pessoas em diferentes lugares e espaços do mundo.
Susanne Boerner atua como curandeira xamã e como professora assistente na Faculdade de Geografia, Ciências de Terra, na Universidade de Birmingham, Reino Unido. Curandeira xamã: White Owl Shamanism. Email: whiteowls
Edição, Revisão e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón
