A natureza das figuras tortas
Entre a natureza silenciosa e o abuso infantil, uma mãe ribeirinha atravessa o colapso do afeto, da culpa e do pertencimento

“Torna a ensaboar as panelas, inquieta com a vida.” Foto: Scott Umstattd/Unsplash.
Ela se afasta da porta do quarto e se abanca na pia repleta de panelas e de louças do almoço, ainda por lavar. Não quer escutar os gemidos lá de dentro, então se atraca ao sabão e à esponja, ferindo com força o material frio e insensível das vasilhas para esperar a passagem do tempo, esse infinito sem começo nem fim, tentando se enquadrar na paisagem que vê da janela da palafita, o rio correndo manso.
Não consegue se encaixar na paisagem de quietude. À medida que os gemidos se pronunciam e alcançam seus ouvidos sofridos, ela se apressa e se aferra à espuma espessa que se aloja entre seus dedos, a gosma pegajosa que lava o sujo dos dias, com o corpo já desalinhado da alma. Os sons humanos, quase imperceptíveis; ainda assim, audíveis. Ela não sabe o que pensar ou se ainda pensa, mais afeita aos descaminhos que ao destino, mais afeita aos grunhidos abafados do quarto que a passarinhada ciciando no quintal, revirando gravetos, folhas, a ordem reinante. A voz? Mãe. Onde? Por todo lugar, uma voz que se impõe. Ela seca as mãos no pano de prato, mas segue espumosa. É o trânsito possível dentro do repertório de desejos dele, dentro da casa que já não é refúgio. Quem mandou se amancebar nos matos e nos descampados? Quem mandou dançar diante da boca do abismo?
Quando viu seu homem pela primeira vez, surgido de dentro dos arbustos como a aparição de um encantado, soube que estava enfeitiçada e que ele chamaria a desgraça. O peito nu, reluzente sob o sol, e o suor pingando dos músculos a cegaram. Logo ela, que se achava esperta, que atravessava os anos como quem atravessa a guerra, com olhos inquietos, pescoço de mil voltas e ouvidos curiosos para tudo que a cercava, porque no isolamento das matas, é sempre guerra e resistência. Perdida dentro da aventura, teve sorte com o apuro do moço e, naquela lonjura, esquecida na mata, soube que se achava, pois só quem está perdido é capaz de se achar. Veio-lhe o contentamento. Foi esta figura torta que a imobilizou, foi esta visão de alento que a fez dançar com os demônios e a convidou para caminhar com ele. Juntos, com os passos ajustados ao vento, ao desejo, aos rostos, aos cruzamentos, eles seguiram, até ele pronunciar pela primeira vez a palavra que continha toda sua existência – companheira – é o que ela seria dali em diante.
Então se encaixou dentro dos braços dele, dentro dos seus desejos e, em passividade aparente, em luminescência disfarçada para não chamar maus olhares, ajeitaram-se entre quatro paredes. Ele a deitava sobre a relva, ela lhe dava apelidos. Ele a punha na canoa para sentir as águas, ela o enlaçava com pernas inquietas, aguardando-o recuperar a fala.
Juntaram os silêncios e as solidões, que dentro das matas o tempo anda lento e as mulheres logo formam uma nação, com seus muitos filhos. Mas filho mesmo ela teve só um, uma, a menina que lhe saiu do corpo antes do tempo certo. Oito meses e já querendo viver, malformada e com cara de desagrado. Ela era feliz assim, no meio do mato, na beira do rio, dentro da canoa ou da casa com seu homem. Não aguardava o dia amanhecer; antes, amanhecia para o dia. Não esperava que o sol lhe sorrisse; antes, sorria para o sol, naquela lonjura de léguas sem-fim. Sorria para os passarinhos, para os calangos no terreiro, para as palavras que bebia diretamente da boca dele. Agora…
Onde, mãe? Por trás da porta do quarto, o canto vazio. Por trás dos olhos, o cansaço e o assombro em igual monta, naquela casa que já foi o mundo todo. Seu contentamento faz tempo que foi embora. O tempo é um rato que tudo rói, dá e tira na mesma medida, dá e tira na mesma agonia. Nas poucas vezes que consegue abraçá-lo, busca nele um afeto antigo, que já não encontra. Torna a ensaboar as panelas, inquieta com a vida. Com a mão cheia de sabão, deixa escapulir o vasilhame que cai próximo do ralo que suga a sujeira, mas que não leva a mágoa nem os escombros. Ela pragueja ao lembrar do pesado encargo de se sujeitar a estes descaminhos.
Culpou os matos. São os matos que recolhem nossa natureza, vigiando do alto nossa parecença com os bichos. Ela perdia as delicadezas à medida que a filha crescia, botava peito e criava curvas, belas e opulentas, já aos doze anos. Ele acendeu os excitados sentidos a cada olhadela na cria. A cada incessante vigília, o lobo se sujava de desejo. Ela esmoreceu, desmoronou, ruiu. Ela toda doída, vivendo de rastros e de restos, tantos que enriqueceu de misérias. Não havia orações que chegassem nem voz que bastasse.
Os abraços se arrefeceram de vez, porque quando ocorriam cabia neles toda sua frustração. A desavença entrava pelas brechas da casa que já não era refúgio, da casa que absorvia diferentes versões de uma mesma história. Seu homem passou a viver de indelicadas falsidades; esta verdade desalinhou seu dia, estrondou sua noite, até que escapuliu do leito numa hora em que a escuridão mordeu a lua. Foi quando ela ouviu o gemido do quarto ao lado pela primeira vez. Ela segue ensaboada.
Novos gemidos surgem num tom mais alto. Ela não sabe precisar se de prazer ou de dissabor; quer unir pelas bordas este bordado bruto de hipocrisia, quer despejar desculpas enquanto mantém por dentro o raciocínio primário e tão propenso a insultos. Filha da puta. Ela abandona a louça, ainda por lavar, corre em direção à margem, e assim se mantém até alcançar a canoa. Salta para dentro dela só pelo desvario, só para não deixar a raiva consumir a razão. Ela é um corpo em desventura, imaginando seu homem esfregar delicadezas no corpo mirrado da menina e lamenta estas fantasias que sombreiam os cantos da sua alma. Filha da puta. Ela se lembra, mas já não escuta. Ela se lembra, mas já não vê. Senta na rabeta, dá a partida no motor e se afasta da beira, com sua espantosa capacidade de alheamento. Desliza pelas águas com a saudade alfinetando o peito, saudade de onde ela e ele eram um lugar.
Ela pragueja, enquanto a canoa vai engolindo o rio, deixando atrás de si um rastro de espuma, lava branca riscando a calmaria como uma cicatriz sobre a pele, e lamenta: ele bem que podia ser esse tipo de gente que se embriaga para se divertir, diz, com a boca desdentada, no meio do nada. E avança, em prudente impassibilidade, sabe que o coração é um músculo gasto, capaz de sufocar raivas e garras, que fala em idioma próprio, com voz de silêncio que só ele entende. Ela segue desnudando a paisagem, irritada com esta corresponsabilidade adquirida, desliza e segue o fluxo, sem notar nas margens a agitação das árvores que se curvam ao vento.
Sandra Godinho é graduada e mestre em Letras. É membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB). Com Orelha lavada, infância roubada (2018), recebeu Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019), e com Verso do reverso (2019) ganhou o Prêmio Regional de Melhor Livro de Contos da Cidade de Manaus. Seu romance Tocaia do Norte (2020) venceu o Prêmio Cidade de Manaus 2020 e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021. Outra obra sua, A morte é a promessa de algum fim, recebeu o Prêmio Cidade de Manaus 2021, e também o Prêmio Focus Brasil NY/AILB 2022. Tem ainda dois romances finalistas do Prêmio Leya de 2021 e 2022, Memórias de uma mulher morta e A Secura dos ossos.
Montagem de página e acabamento: Alice Palmeira
Revisão: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

Sandra Godinho