Como evitar o colapso da Amazônia: zerar perda de florestas e restaurar áreas desmatadas

Foto: Sébastien Goldberg / Unsplash

Este artigo foi originalmente publicado na Agência Bori e no Nexo Políticas Públicas.

Em 2021, o Painel Científico da Amazônia (SPA – Science Panel for the Amazon) composto por mais de 200 cientistas publicou seu primeiro relatório, no qual fica evidente que a Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, está perdendo resiliência (ou seja, capacidade de persistir diante de distúrbios) e pode estar se aproximando de um colapso.

Se por um lado, existe a possibilidade de uma catástrofe, por outro, a Amazônia representa inúmeras oportunidades para um futuro sustentável, economicamente promissor e justo do ponto de vista socioambiental. Essas oportunidades, no entanto, dependem de políticas públicas que promovam a resiliência socioambiental da Amazônia, e o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva já deu indicações de que a proteção da Amazônia será central em seu governo.

As informações científicas compiladas pelo SPA apontam duas ações estratégicas para a agenda socioambiental brasileira: (1) zerar a perda de florestas até 2030, combatendo o desmatamento e os fatores de degradação, como o fogo e extração insustentável de madeira; e (2) promover a restauração florestal nas fronteiras de desmatamento (sul e sudeste da Amazônia), em grande escala e com a participação dos povos indígenas e comunidades locais. Mas, por que essas duas ações são tão fundamentais para manter a Amazônia resiliente?

Para responder a essa pergunta é preciso compreender como a floresta e a chuva interagem e estão conectadas através de um efeito dominó: quanto mais chuva, maior é o potencial da floresta se manter, e quanto mais floresta, mais estável é a chuva. A chuva é o principal fator que molda a resiliência da floresta amazônica. Se, por exemplo, houver redução da quantidade total ou aumento da variabilidade da chuva devido ao aquecimento global ou à diminuição da cobertura de florestas pelo desmatamento, a floresta poderia persistir até um certo ponto, a partir do qual mudaria radicalmente em estrutura e funcionamento, e adquirindo uma nova configuração permanente. Esse ponto, denominado tipping point ou ponto de não-retorno pode ser cruzado e o ciclo descrito acima ser quebrado principalmente porque em média um terço da chuva que cai na Amazônia é gerada pela própria floresta, reciclada pelas árvores. Por isso, a perda de floresta tem como consequência a redução de chuva, o que por sua vez acelera ainda mais a perda de floresta. Esse mecanismo de retroalimentação manteve a floresta resiliente por milhões de anos. A redução de florestas por desmatamento pode enfraquecer esse mecanismo e diminuir a resiliência sistêmica da Amazônia como um todo.

A Amazônia atua como um dos pilares do sistema climático global mantendo o balanço de energia e alimentando as circulações atmosféricas em escala global, através da absorção de gás carbônico e do bombeamento de umidade para a atmosfera. Assim, o colapso parcial ou total da Amazônia terá efeitos significativos tanto regionalmente, com a diminuição do aporte de umidade para porções dos Andes, Pantanal e na bacia do Rio da Prata, ou seja, afetando inclusive as atividades agropecuárias na região; quanto em escala global, aumentando a temperatura de equilíbrio do planeta, e tornando-o muito mais quente do que a espécie humana jamais vivenciou.

Em 2016, o cientista Carlos Nobre e sua equipe da Universidade de São Paulo usaram um modelo para entender como a floresta amazônica interage com o clima regional e encontraram um resultado preocupante – o desmatamento acima de 20-25% da área total do bioma, somado a aquecimento de 2.5oC, poderia representar um ‘ponto de não retorno’ a partir do qual mais da metade do bioma sofreria degradação e um colapso irreversível. A conclusão é de que cada hectare de floresta perdida desestabiliza silenciosamente um pouco mais a Amazônia.

Nos últimos anos, as taxas anuais de desmatamento vêm aumentando, principalmente desde 2019 quando o governo atual começou a desmontar as políticas de fiscalização e proteção de Terras Indígenas e Unidades de Conservação que o país havia construído nos governos anteriores. Desde então, o Brasil, que engloba aproximadamente 60% do território da Amazônia Legal, tornou-se um dos obstáculos ao avanço da agenda climática, pois o colapso da Amazônia diminuiria ainda mais as chances de alcançarmos a meta de 1.5-2.0o C de aumento na temperatura global, em relação à era pré-industrial.

Na história das sociedades, crises, como as que vivemos nos últimos anos, costumam abrir janelas de oportunidade para propostas transformadoras. As duas ações propostas pelo Painel Científico para a Amazônia (eliminar a perda de florestas e restaurar florestas em áreas degradadas ou desmatadas) podem atuar em sinergia, fortalecendo a resiliência da Amazônia e promovendo uma nova economia sustentável para o Brasil. Assim, a partir de janeiro de 2023, o próximo governo deverá encarar essa agenda como prioridade.

Bernardo M. Flores é ecólogo, pesquisador de pós-doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina. Seu trabalho busca compreender como as mudanças globais alteram a dinâmica e resiliência dos ecossistemas.
Marina Hirota é cientista do sistema terrestre, professora e pesquisadora da Universidade de Santa Catarina. Estuda, de forma interdisciplinar, a dinâmica de sistemas complexos, com foco particular em sistemas socioecológicos localizados na América do Sul tropical.
Erika Berenguer é ecóloga, pesquisadora sênior nas universidades de Oxford e Lancaster na Inglaterra, onde busca compreender os efeitos da extração madeireira e do fogo na floresta amazônica.
Os autores contribuíram com capítulos 19, 21 e 24 do Amazon Assessment Report 2021, relatório do Painel Científico para a Amazônia.
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