No Peru, prisão de presidente popular gera revolta reprimida com mortes

Trabalhadores empobrecidos que se viam representados pelo eleito Pedro Castillo são assassinados em atos contra Dina Boluarte e sofrem com os danos ao turismo local

Foto: Maximo Lustosa

Chegamos ao Peru no dia 5 de janeiro para uma viagem que vinha sendo planejada há mais de seis meses. No dia 7 de dezembro, o presidente Pedro Castillo tentou destituir o congresso e acabou preso – seguindo em prisão preventiva desde então. O itinerário turístico conviveu então com as adaptações exigidas pela mobilização que se iniciou contra a derrubada do presidente eleito e contra o congresso.

A luta do povo se alinha com a sua dependência do turismo e mesmo os simpatizantes dos protestos parecem reticentes em tomar posições. Pergunto ao jovem que nos atende no hostel em Cusco e ele diz que não sabe sobre o presidente, mas que é a favor da greve geral que acontece neste 19 de janeiro.

As informações que nos chegam não são suficientes para termos uma ideia mais complexa da real situação do país. Nos últimos quatro anos, foram seis presidentes que não conseguiram terminar seus mandatos.

Paralelos com a política brasileira

De acordo com reportagem de Guillermo D. Olmo para a BBC, a atitude de Castillo foi uma reação contra a votação de vacância do cargo, em andamento no Congresso, que tem se valido deste recurso com frequência. Com este recurso, o parlamento peruano tem conseguido esvaziar a força do Poder Executivo, mantendo pautas que não necessariamente estão em sintonia com os desejos da população.

De alguma forma, é possível fazer uma aproximação com a força do Congresso brasileiro durante o governo Bolsonaro.

Castillo foi o primeiro de esquerda e representante das regiões mais humildes do país a assumir o cargo, sendo que a validação de sua conquista levou mais de seis meses para ser outorgada pela Suprema Corte. No processo de sua destituição, chamam a atenção a velocidade com que sua vice, a atual presidente Dina Boluarte (apelidada Dina Baliarte), aceitou o cargo e os mais de 50 assassinatos resultantes da política que ela adotou para enfrentar os protestos.

O povo representado nas ruas peruanas

Nas ruas de Cusco, onde estamos, a mobilização de camponeses e pequenos comerciantes exige a renúncia da presidenta, um novo congresso e uma nova constituição.

Mulheres trajadas com suas roupas tradicionais, algumas com seus filhos, idosos com mãos calejadas e a pele curtida do trabalho do campo e trabalhadores dos serviços públicos e das lojas locais formam a população que ocupou a praça das Armas e que permanece em marcha pelas ruas da região, com o objetivo de manter o comércio parado e evitar a circulação de carros. Carregam bandeiras do Peru, algumas com o brasão riscado por um X, da Pachamama, que representa a unidade dos povos tradicionais, e das diversas regiões que enviaram representantes para Cuzco.

Todas as províncias do Peru, através das organizações de trabalhadores, enviaram caravanas para a capital do país.

Governo reprime com atiradores protestos no Peru

Embaixo de uma marquise que circunda a praça das Armas de Cusco, um grande painel apresenta a linha cronológica dos protestos, incluindo a relação de assassinados pelas forças oficiais. Em vários canais de comunicação, há a denúncia da presença de franco-atiradores da polícia colocados nas sacadas dos prédios. Além das mais de 50 mortes, há centenas de feridos.

De acordo com o jornalista César Hildebrandt e ainda segundo o artigo de Olmos, foi o primeiro ministro de Dina Boluarte, Alberto Otárola, quem deu a ordem para a polícia atirar para matar.

Protestos terroristas? Morte de policial repercute

Entre os mortos, há um policial e essa morte gerou um grande barulho na mídia, que a utilizou para tratar os protestantes como terroristas.

No esforço por construir essa imagem, a mídia buscou os familiares do policial e tiveram que recuar quando o pai apareceu nas principais redes de televisão dizendo que “por culpa dessa suposta presidenta, entre nós, peruanos, nos estamos matando”.

Especulações sobre interferência internacional

Resta ainda à mídia oficial denunciar uma suposta interferência internacional e insistir no tema do terrorismo para qualificar as manifestações que bloquearam as principais rodovias do país, e até aeroportos, impedindo a principal fonte de renda de boa parte da população, o turismo.

Numa caminhada pelo centro de Lima, uma capa de jornal anunciava o interesse de Evo Morales de anexar Puno à Bolívia. Outro alegava a presença de infiltrados internacionais para que a população se revoltasse.

Como se fosse necessária a participação estrangeira para que os trabalhadores empobrecidos decidissem lutar por melhores condições de vida, uma vez que ainda é atual a clássica frase atribuída ao italiano Antonio Raimondi: “O Peru é um mendigo sentado em um banco de ouro”.

Danos ao turismo pesa na avaliação da população

Por outro lado, a dependência do turismo acaba por influenciar na postura indecisa de alguns dos comerciantes com os quais falamos. Eles apoiam as demandas, mas rejeitam as formas de reivindicação que restou aos manifestantes.

Afirmam que o Congresso precisa mudar, mas consideram que os meios para que isso ocorra não podem gerar medo na população e atrapalhar o turismo, já que boa parte da população trabalha de dia para comer à noite.

Estradas bloqueadas no Peru

Na terça-feira, 17, fomos de Cusco até Ollantaytambo, passando por Chincheros, Maras e Moray. Na noite de quarta, 18, voltando, pegamos um desvio por Huayllacocha e, em seguida, a rodovia 10. Todas as estradas estão cheias de barreiras feitas com pedras. Passamos também por Anta, onde se registrou a morte por disparo de Jlinner Remo Candia Guevara, líder local, com denúncias da ação de franco-atiradores.

Ontem, 19, foi dia de greve nacional e houve mobilizações em todo o país. Em Lima e Arequipa aconteceram cenas de confronto direto entre os manifestantes e as forças policiais.

Em Cusco, onde estamos, várias centrais sindicais e ambulantes descendentes dos povos tradicionais se reuniram na Praça das Armas para exigir a saída da presidente, chamada de assassina pelos manifestantes, e a escrita de uma nova constituição.

Com a postura extremamente manipuladora da grande mídia local, dois canais podem colaborar para uma melhor compreensão do que está acontecendo no Peru são o Wayka.pe e La Base.

Maximo Lustosa é doutor em Literaturas Comparadas – concentração em Hispano-americanas (UFF), graduando em Ciência Política pela Unirio.
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