Chefe Zena do Carmo: culinária saudável e saborosa da Amazônia para o mundo

Chefe de cozinha Zena do Carmo aposta em culinária saudável que aprendeu com sua mãe, na comunidade indígena Cacoal Grande, no Pará. Foto: George Grunen

“Eu trouxe a nossa essência nativa da Amazônia para a galera daqui. Trouxe brilho, sabor e saberes.”
Foto: George Grunen

Durante a infância na comunidade Cacoal Grande, margem esquerda do Rio Amazonas, perto de Santarém (PA), o chefe de cozinha Zena do Carmo, 54, tinha contato com a cozinha junto da mãe –sua maior inspiração na culinária. “Eu já ajudava minha mãe, bem pequenino, junto com meus irmãos, mas fui o único que continuou com os ensinamentos e trouxe isso para minha vida.”

O dom não adormeceu e foi desenvolvido Hoje, com uma carreira de mais de vinte anos, Zena trilhou seu caminho levando a cultura e a culinária da etnia Parintintins para grandes palcos internacionais.

Antes disso, o seu respeito e talento para culinária o levou a trabalhar no Hospital de Campanha de Santarém durante os dias mais complicados da pandemia. “Eu sempre acreditei que a comida tem o poder de cura e, durante o período que passei lá no hospital de campanha, eu usava dessa ferramenta para poder ajudar os doentes.”

Chefe Zena do Carmo cozinhou durante a pandemia no hospital de campanha da Santarém – Foto: arquivo pessoal

Mostrar seus pratos em locais tão distantes de onde nasceu é só um dos frutos que o chefe vem colhendo: em um tour internacional, já visitou países como França e Alemanha, tornando-se o único indígena a participar do empreendimento World Cooking Experience –que conecta turistas gastronômicos com os melhores chefes regionais de cada lugar do mundo.

Zena do Carmo foi reconhecido na França como embaixador internacional da gastronomia nativa do Brasil. Ele também já participou de vários eventos nacionais, sendo inclusive coroado vencedor do concurso Cozinha Tapajós em 2018 com o prato Piráuwasu (peixe com pasta de amendoim).

Amazônia Latitude: O trabalho na culinária é uma forma de expressão para você. Como é que você relaciona essa arte com seu modo de vida e suas raízes?

Zena do Carmo: Eu sou de uma linhagem indígena. Meu pai viveu 93 anos e sempre utilizou essas ferramentas artesanais: pesca, cultivo de plantas, etc. Então eu sempre vivi num ambiente de comida de verdade e de alimentação saudável. Parte muito daí minha inspiração –da minha infância e juventude na comunidade e até hoje.

Eu acho muito importante pesquisar e salvaguardar nossa cultura. Até porque, hoje em dia, é muito difícil você ter esse contato com orgânicos e, falando de outros lugares no mundo, é ainda mais complicado. Então eu vejo essa valorização vinda por meio do meu trabalho, mostrando para o mundo que você pode ter longevidade através da alimentação; que existem maneiras de, sei lá, temperar uma comida sem utilizar industrializados.

Como surgiu o convite para você viajar o mundo mostrando seus pratos? O projeto é novo?

O meu sonho já é velho. Como eu te disse, desde criança tenho esse contato com a comida saudável e sempre trilhei esse caminho. Fui convidado para participar de vários projetos, algumas viagens de divulgação, gravação de podcasts e entrevistas para a TV. Aí veio a pandemia e tudo foi para o online, fiz algumas lives e conversei com uma galera pela internet, mas todo mundo estava com muito medo, né?

E a forma que eu encontrei de enfrentar esse medo foi trabalhar no hospital de campanha [de Santarém]. Lá eu tive a oportunidade de contribuir com o cardápio dos pacientes, levando sempre a ideia da ancestralidade e alimentação saudável.

Cozinhar esses pratos e levar para pessoas em lugares tão longes é uma forma de valorizar sua cultura?

Acredito que sim. Para mim, além de valorizar a minha cultura e a nossa gastronomia nativa, é uma forma de mostrar ao mundo que a gente pode ter mais saúde. É muito legal eu poder dizer que fui condecorado como embaixador internacional da Gastronomia nativa do Brasil. E agora eu recebi o convite para participar de um evento na Alemanha, onde fui o primeiro chefe indígena…. Acho que mostra muito onde podemos chegar.

E como está sendo essa experiência na internacional?

Acho que Deus me recompensou muito com essa oportunidade de poder divulgar o meu trabalho. Eu trouxe a nossa essência nativa da Amazônia para a galera daqui. Trouxe brilho, sabor e saberes. Agora, imagina tudo isso vindo com uma pessoa lá da Amazônia? É bem legal, né?

Eu comecei a mostrar meu trabalho nas redes sociais e foi assim que o pessoal me achou. E olha onde eu estou agora! Vejo que cada vez mais o mundo está buscando uma forma de frear a mortalidade e muito disso vem com a alimentação. E é isso que eu quero fazer: ser um espelho, mostrar que existem outras maneiras de fazer as coisas e nunca deixar de lado minhas heranças ou esquecer o local de onde vim.

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