Paradoxo na Amazônia: chuvas volumosas e água potável em falta

A rotina diária entre floresta e cidade em Tabatinga, em meio às fronteiras de Brasil, Peru e Colombia.
Foto: Marcos Colón / Amazônia Latitude

  • O Norte do Brasil tem os piores índices de saneamento do país, com pouco mais da metade dos domicílios ligados à rede de abastecimento de água
  • Mais de 4 milhões de pessoas precisam buscar suas próprias fontes de água todos os dias
  • A falta de acesso afeta principalmente as mulheres
  • Em comunidades estudadas, 8 em cada 10 casas captam e armazenam a água das chuvas para diferentes usos, incluindo beber e cozinhar
  • Em alguns casos, a água dos rios é consumida após ser apenas decantada e coada em um pano comum

Um paradoxo é um argumento contraditório ao senso comum, que por vezes não parece verdadeiro. Como no paradoxo do mentiroso: “Esta afirmação é falsa”. Porém, fora do contexto filosófico sobre situações hipotéticas, os paradoxos também cercam nossa realidade. No paradoxo das águas amazônicas, falta água potável na região com a maior disponibilidade hídrica do planeta.

O Norte do Brasil tem os piores índices de saneamento do país, com pouco mais da metade dos domicílios ligados à rede de abastecimento de água –e a maioria destes, nas cidades. Mais de 4 milhões de pessoas precisam buscar suas próprias fontes de água todos os dias. A falta de acesso afeta principalmente as mulheres, que comumente são as responsáveis por carregar e tratar as águas nas residências.

A água é utilizada para diversas finalidades – cozinhar, limpar, lavar, beber. E quando as águas não fluem por uma torneira, as louças, roupas e corpos precisam ser levados até os rios e lagos ou as suas águas carregadas até as residências. O brasileiro consome em média cerca de 150 litros de água por dia. Em um local sem acesso à distribuição de água, isso representaria 10 baldes de 15 kg sendo carregados em distâncias que podem ser superiores a 500 metros. Para evitar isto, fontes alternativas são utilizadas.

Na Amazônia Central, diversas comunidades ribeirinhas vivem em meio às águas, sem acesso a sistemas de abastecimento de água. Em comunidades estudadas, 8 em cada 10 casas captam e armazenam a água das chuvas para diferentes usos, incluindo beber e cozinhar. As volumosas chuvas desta região somam cerca de 2500 litros por metro quadrado ao longo de um ano –mais intensas e frequentes em torno de abril e menos da metade deste volume por setembro. Porém, enquanto a maioria (73%) destes domicílios possuem reservatórios de água, apenas 35% têm capacidade para mais de 100 litros por pessoa. Ou seja, estas famílias dependem das chuvas frequentes para não sofrer com a falta de água.

Enquanto comunidades maiores têm algum tipo de abastecimento centralizado, as pequenas dependem das soluções individuais. As que vivem mais próximas (até 26 km) de centros urbanos costumam utilizar a água de poços –o que não garante a qualidade para beber. E quando não conseguem coletar a águas de poços, nem das chuvas, a única fonte de água são os rios e lagos amazônicos –que possuem muito sedimento ou matéria orgânica.

O tratamento domiciliar das águas (ou seja, feito dentro de cada casa) é uma atividade rotineira das comunidades amazônicas. Porém, o hipoclorito (cloro) –método mais comum de desinfecção de água no Brasil– é utilizado em pouco mais da metade dos domicílios. Em alguns casos, a água dos rios é consumida após ser apenas “assentada” (decantada) e coada em um pano comum.

A Agenda 2030 da ONU tem como lema “não deixar ninguém para trás”. E um de seus objetivos visa o acesso universal e equitativo a água potável e segura para todas e todos. Em meio ao desmatamento, doenças tropicais negligenciadas, pirataria e outros problemas amazônicos, pode parecer paradoxal que alcançaremos este objetivo nos próximos oito anos. Mas este sonho deve guiar os nossos esforços até o último dia.

Este artigo foi publicado orginalmente na Agência Bori e não representa, necessariamente, a opinião da Amazônia Latitude.
Leonardo Capeleto de Andrade é pós-doutorando no Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas (CEPAS), do Instituto de Geociências (IGc) da Universidade de São Paulo (USP) e Pesquisador Associado do Grupo de Pesquisa em Inovação, Desenvolvimento e Adaptação de Tecnologias Sustentáveis (GPIDATS) do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM).
Maria Cecilia Rosinski Lima Gomes é pesquisadora do GPIDATS e coordenadora do Programa de Qualidade de Vida (PQV) do IDSM.
Print Friendly, PDF & Email

Você pode gostar...

Translate »