Storytelling, cuidado e abundância no filme ‘Pisar Suavemente na Terra’

Kátia, cacica do povo Akrãtikatêjê, durante as gravações do documentário "Pisar Suavemente na Terra". Foto: Marcos Colón/Amazônia Latitude

Kátia, cacica do povo Akrãtikatêjê, durante as gravações do documentário “Pisar Suavemente na Terra”.
Foto: Marcos Colón/Amazônia Latitude

No dia 26 de março, o filme “Pisando Suavemente na Terra”, de Marcos Colón, foi apresentado durante o Princeton Environmental Film Festival, na Princeton Public Library.

O documentário foi introduzido pelo professor Rob Nixon, afiliado do Princeton Environmental Institute nas humanidades ambientais.

 

Foi maravilhoso ter um gostinho completo do que vejo como a trilogia amazônica de Marcos Colón. Tínhamos “Muito Além de Fordlândia”, que abordou a incursão dos latifúndios de seringais na Amazônia há alguns anos. Hoje, tivemos a honra de ver o segundo filme dessa série, “Pisar Suavemente na Terra”, e depois de assisti-lo duas vezes, eu só gostaria de destacar algumas das principais considerações sobre o filme.

Partindo de um comentário que o xamã indígena brasileiro Ailton Krenak faz, de que é “o futuro é ancestral”, o que pode parecer um tanto analítico e precisa ser destrinchado. A maneira como eu leio no contexto do filme é que as pessoas que foram descartadas como pertencentes ao passado podem fornecer alguma orientação imaginativa e ética para o futuro.

E isso diz realmente sobre o esforço imaginativo das artes, o contar histórias, a construção de imagens e sobre compreender o futuro através do passado. Os líderes indígenas que falam neste filme compartilham suas críticas às ideias de desenvolvimento e progresso que pouco lhes trouxeram, exceto a ruína. Então, esse é o sentido geral de “o futuro é ancestral”.

Há outra forma pela qual Krenak está falando claramente sobre as maneiras pelas quais, para que suas culturas sobrevivam, eles precisam ficar ligados aos seus costumes ancestrais. Não é que as culturas não possam mudar –porque culturas antigas, como todos os ecossistemas, estão sempre em estado de fluxo. No entanto, eles não podem mudar na velocidade com que a mudança está sendo imposta a eles.

E assim, uma ameaça apresentada no filme que realmente se destacou foi a ameaça de assimilação cultural. Não se trata de pureza cultural ou da ideia de que as culturas indígenas são nobres, mas simplesmente do poder das forças globalizantes que estão impactando essas culturas. Em um exemplo muito fundamentado, uma das líderes [Kátia, cacique do povo Akrãtikatêjê] fala sobre como, ao pintar o rosto da maneira tradicional, ela se sente fortalecida, mas seus filhos se sentem constrangidos com a pintura.

E nesse momento de constrangimento, há uma barreira cultural que a faz sentir-se empoderada, enquanto seus se sentem estranhos, e talvez até enfraquecidos. Então, como manter uma continuidade cultural suficiente diante de forças como os latifúndios, a mineração de ouro e o desmatamento que estão mudando a cultura e as oportunidades das pessoas que vivem lá?

Como fica claro no filme, foi feito sob as restrições da pandemia de covid. Uma das maneiras pelas quais eu acho que o filme conecta a ideia de saúde pública com a saúde ecológica de uma forma que expressa os valores da justiça ambiental é o fato de que essas comunidades indígenas na Amazônia sofreram muitas mortes por covid. Eles, de certa forma, sofreram com o pior da modernidade em termos de centros de processamento de grãos, a dragagem dos rios e todos esses empreendimentos maciços sobre os quais eles não têm controle.

Mas quando se trata de atendimento, de recursos hospitalares, eles foram ignorados. E essas são as duas fases da modernidade: uma das quais os desempoderou e se apropriou de suas terras e rios, e a outra, cujo acesso foi dado de forma inadequada e discriminatória. Então, a meu ver, o tema do cuidado em torno da covid e o tema do cuidado em relação ao meio ambiente convergem neste filme.

A ideia de abundância, como descreve um dos porta-vozes indígenas, está ligada à ideia de contenção. Você não pode ter a abundância da floresta sem algumas restrições culturais sobre o quanto se pode usar dessa floresta e o quanto se deve deixar para as gerações futuras.

O ponto final que gostaria de abordar sobre este filme são duas coisas que realmente me interessaram. O que realmente me interessou foi o fato de ser sobre a bacia amazônica, que fica no Brasil, na Colômbia e no Peru. Então, de certa forma, este filme é sobre os sistemas ecológicos que transcendem as fronteiras nacionais. Isso também é exposto em alguns dos visuais do filme, quando tomadas aéreas transmitem uma sensação de sinuosidade do rio em relação a outros visuais de muitas linhas retas, como as estradas e a dragagem do rio em sua superfície.

Assim, há diferentes perspectivas visuais neste filme que expressam um progresso linear bastante brutalizado em relação ao sinuoso rio que generosamente sustentou as culturas indígenas.

Paro por aqui. É um filme encantador.

Rob Nixon é professor do Currie C. & Thomas A. Barron Família em Humanidades e Meio Ambiente. Também é afiliado do Princeton Environmental Institute nas humanidades ambientais. Ele é autor de quatro livros, sendo o mais recente Slow Violence and the Environmentalism of the Poor, ganhador do American Book Award e três outros prêmios. Contribui frequentemente com o jornal New York Times. Seus textos já figuraram no The New Yorker, Atlantic Monthly, The Guardian entre outros.
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