Diários de Max Martins: entre dias e dois poemas

  • Paulo Vieira volta-se aos Diários de Max ao investigar mundos representados pelo poeta paraense Max da Rocha Martins em tese de doutorado da Universidade de São Paulo;
  • Para além das palavras, expressão plástica é característica marcante dos Diários de Max Martins;
  • Referência a amigos que não moravam em Belém, mas nunca estavam ausentes, é detalhe marcante nos Diários de Max Martins;

Todas as portas estão abertas. Ou não há portas.

Max da Rocha Martins viveu em Belém, entre 20 de junho de 1926 e 9 de fevereiro de 2009. Muito tem sido publicado acerca de seus poemas. Para além de críticas literárias, traduções ampliam o alcance e a importância de sua obra. Max Martins continua recebendo homenagens por parte de outros autores, que frequentemente destacam a influência da poética dele em seus escritos.

Max também escreveu diários. Um trabalho exaustivo acerca de seus 48 cadernos, compostos de 1982 a 1999, foi feito por outro poeta da mesma cidade. Em sua tese de doutorado, publicada em 2014, Paulo Vieira volta-se aos “‘mundos’ representados nos cadernos de Max”. O quanto as obras humanas saem do anonimato e permanecem vivas depende de elas se tornarem palpáveis para além do espaço que ocupam originalmente. É o que acontece, por exemplo, quando pensamentos se tornam livros e quando livros se tornam outros livros. Paulo Vieira acompanhou os passos de Max em seus cadernos que, iniciados enquanto agenda, ou seja, como tentativa de não esquecer, foram se tornando o próprio inesquecível.

Em 2007, a SECULT/PARÁ publicou um sketch pad, o Diários de Max Martins. Nele, 60 páginas em tamanho A4, escolhidas aleatoriamente entre os dias 1º de maio e 13 de julho de 1997, também homenageiam o poeta. Impossibilitado de alinhavar linearmente uma narrativa, o leitor recebe um convite à liberdade. Na página de 30 de junho, por exemplo, Max citou Sartre: “ouvir música cercado por um montão de pessoas que a gente não conhece e que a escutam com você não tem sentido. A música foi feita para ser escutada por cada um individualmente”. Neste sentido, na medida em que reproduz alguns dos registros gráficos originais, este ensaio é um exercício de observação e de conversa com a poesia cotidiana em que datas são seguidas por outras palavras e imagens, do mais abstrato ao mais concreto que o tempo pode oferecer – e em uma orquestra que se sabe regida por Max.

O primeiro fac-símile de Diários de Max Martins, à esquerda, é uma ampliação de um detalhe de uma outra página, reproduzida do diário original de 1997. À direita, a página completa, de 26 de junho, com marcação transparente indicando o local que foi ampliado.

Uma característica especialmente importante dos diários de Max é justamente sua expressão plástica, representada pelo encontro de palavras e figuras. Em fevereiro de 1991, ele escreveu: “Henry Miller confessou uma vez que gostava mais de aquarelar do que literaturar. Também me sinto assim, as horas passando com as minhas colagens. Terapia”. É ainda neste sentido, de contentamento e busca, que o acompanhamos.

Segundo Vieira, apenas os cadernos escritos em 1984, 1986 e 1987 apresentam poucas colagens. Nas reproduções contidas em Diários de Max Martins, lembretes, cópias de cartas e versos remetem a imagens mentais que se materializam e se transfiguram. Quando tudo se mostra, cabe, a quem olhar, ver. No entanto, se ver é uma criação individual, também mostrar é um recorte do desconhecido. O poeta recorta, ao pé da letra: entre desenhos e pinturas identificamos letras e a partir de letras recriamos colagens.

“Retalha grutas que habitaste”. Exemplo de construção imagem-palavra-imagem.

Escritas íntimas, que não refletem simplesmente acontecimentos, mas experiências, costumam ser acompanhadas por tentativas de aproximação a diferentes movimentos do autor. Diante das páginas que reproduzem os cadernos de Max, ora parece que ele escreve ao lado do que pinta e cola, ora que as palavras deixam espaço para outras formas. Para além de palavras escritas entre cores, como no fac-símile acima, há páginas como a abaixo destacada, com espaço deixado em branco, para além das palavras, como que à espera.

Exemplo de espaço para além das palavras escritas.

Uma característica marcante nas páginas do livro Diários de Max Martins é referente ao foco no presente. Acompanha-se cada momento escrito, pintado, colado em si próprio por meio de uma caligrafia única. Max toma cada dia pelas mãos, com suas constatações e reflexões. Mesmo quando outras épocas surgem, o presente é imediatamente recuperado: “éramos ali um do outro o que quiséssemos”. E, logo em seguida, “mulher escrevendo no caderno. No meu caderno” (s/d). Nossos olhos giram sobre as folhas porque assim aconteceria se lêssemos o planeta. É o movimento circular de um relógio e ele se desprende de linhas, tanto do papel, quanto do horizonte.

“Crâneo”, “virtude”, “corpo”. Exemplo de movimento circular.

As páginas de Max, em suas cores, representam e despertam emoções. Como um poema que, esquecido de ser poema, nos observa. Ainda no fac-símile acima (s/d), do crâneo ao crâneo se passa por virtude e corpo, fala e escuta, ocidente e oriente, tons que se desbotam e se reencontram. “Mit LUFTPOST” – uma nova perspectiva: isto é uma carta e ela será enviada por via aérea. Ela, como nós, integrados porque sentimos.

Max sabia, conforme o fac-símile abaixo, de 11 de junho, que “qualquer idiota pode ser espontâneo (citando alguém)”. Ezra Pound, em uma entrevista, disse que “a mera anotação de uma dor de barriga, ou o simples despejar de uma lata de lixo, não bastam. O jornal estudantil Punchbowl, da Universidade da Pennsylvania, tinha como lema: ‘qualquer cretino de uma figa pode ser espontâneo’” (Cowley, 1968). Espontaneidade e arte podem ser cúmplices, mas uma não se resume à outra.

“Qualquer idiota pode ser espontâneo”: reflexão entre emoção e arte.

A emoção a que Max nos remete com seus poemas se faz presente nas páginas de seus cadernos porque ele próprio existe em ambas as fontes. Dele, as seguintes palavras: “a minha poesia tem uma relação muito veemente com a vida. É poesia-vida, vidapoesia”.

Assim, quando Max se apresenta sob o olhar de um outro, ele o faz em alternância a auto-observações. A transcrição de um telefonema pode ter tal função, como em “Age telefona-me: Pela última recebida de mim, achou que eu não estava bem. Confirmei que não estava bem mesmo” (página de 29 de maio). Cópia de cartas também permitem que isso aconteça. “Sobre a minha mesa para responder: uma carta da Ruth – ‘eu te pedi para gravar o poema A cabana, e te disse que era o único que eu fazia questão, o restante ficaria por tua conta. O que tu fizeste? Gravaste todos os poemas possíveis e imagináveis, menos A cabana. Me diz se isso não é a tua cara?’” (página de 14 de junho). Em outra página do mesmo dia, no fac-símile abaixo, Max escreveu “estar em si” e “num certo ritmo”, retornando tanto ao momento presente quanto à auto-observação.

Exemplo de adoção de postura reflexiva e presentificada.

Ainda quanto a trocas interpessoais, alguns amigos de Max não moravam em Belém, como James Bogan, enquanto outros se mudaram da cidade anteriormente a 1997, como Age de Carvalho, Márcia Costa e Margaret Coelho. Um detalhe especialmente marcante é a referência a essas pessoas que estavam distantes, porém nunca ausentes.

Age de Carvalho é uma presença constante na vida de Max, desde o primeiro encontro entre eles, em 1980. A Fala entre Parêntesis, livro publicado em 1982 enquanto poema escrito a dois, à moda da renga, apresenta os poetas não apenas lado a lado, mas verso a verso. Em 1984, Age de Carvalho passou um ano na Áustria e dois anos depois mudou-se definitivamente para a Europa. Coincidentemente (ou muito pelo contrário), os cadernos de Max perderam as cores, as colagens, exatamente nesse período, conforme citado acima. Talvez aí a função terapêutica de escrever diários tenha sido insuficiente. Por outro lado, também é possível que a restrição às palavras represente a concretização da ausência por meio da matéria mais bruta dos poemas.

O longe e o perto. Em uma única página, de 24 de maio, algumas referências a viagens: “Denise Farias está em Belém”. “Bené [Benedito Nunes] chega hoje de Belo Horizonte”. “Luzia viajou hoje ontem”. Netos e filhas também são citados ao longo das páginas e do tempo: “com os meus netos” (s/d), “dívida com Nazaré” (página de 27 de maio) e “aniversário da Graça” (página de 22 de maio).

O aniversário do próprio Max o remete a seu pai, com a proximidade das datas de morte e nascimento: “19/6 – Papai faz 51 anos de morto. 20/6 Faço 71 anos”, conforme fac-símile abaixo. Em uma página de 10 de julho, Max cita Kafka, que escreveu uma longa carta ao pai, o qual nunca chegou a recebê-la. Max, ao contrário, presenteou pessoalmente amigos com seus cadernos e se alegrou ao ver tornadas públicas reproduções deles, como na exposição “MAX MARTINS – 80 ANOS”, organizada por Vasco Cavalcante e Jorge Eiró, e realizada na galeria do Café da Sol Informática, como evidência Eiró no livro Os Diários de Max Martins: a plástica entre parêntesis, de 2006.

Datas de morte e nascimento: encontro de Max Martins com seu pai.

Entre 1º e 25 de maio, Max escreveu versos que viriam a se tornar o poema Diante de ti. São oito páginas com sequências de versos sem título, já que este possivelmente surge com o final do poema. Diante de ti foi publicado no contexto da coletânea Poemas Reunidos, em 2001, e posteriormente em Colmando a Lacuna de 2015. Em uma página de 10 de maio, uma seta aponta para o “possível poema”. Ali está também uma cópia de um recado de Márcia Costa, relembrando a viagem que, sete anos antes, ela, Margaret Coelho e Max fizeram à Europa.

Poema sendo escrito. A página de 10 de maio é a terceira, da esquerda para a direita, na linha superior.

Vieira ressalta uma página de 2 de agosto de 1997, na qual Max escreveu as palavras “Diante de ti” e “Aqui vai o meu último poema”. Em uma das páginas sem data, reproduzida em Diários de Max Martins e abaixo destacada, Max copiou, ao final, “minha última terra / terra remota mea” (indicando uma relação com Ovídio). Assim sendo, pouco tempo depois, a última terra de um outro era o último poema de Max.

Rascunho de Diante de ti: “minha última terra”.

Ainda nos rascunhos de Diante de ti, conforme o fac-símile abaixo, uma frase está sublinhada e escrita verticalmente, como se olhasse aqueles versos horizontais e deles se diferenciasse: “Há tanta coisa a abandonar”. Mais abaixo, mas também afastada dos versos, a mesma frase aparece riscada e, sob ela, as palavras “A abandonar” foram reescritas e sublinhadas. Futuramente o poema encontraria seu título e um final: “Dói-me feliz o que ainda ignoro – diante de ti”. O poema considerado como sendo o último antecede todos os que não serão escritos, aqueles de quem ninguém sabe e que doem felizes, abandonados.

Rascunho de Diante de ti: “há tanta coisa a abandonar”.

No dia 19 de maio, um outro poema surge. Max escreveu: “Recebo carta e poema novo do Age, ‘Paul’”, o qual posteriormente foi publicado em 2003 por Age de Carvalho em Caveira 41. Na página de 22 de maio, Max repete que recebeu a carta e o poema, acrescentando: “Paul, lance, o poema do Age recebido ontem”. E, abaixo, “Paul Celan”. Celan é um anagrama de Ancel, forma romanizada do sobrenome Antschel, a que Age de Carvalho, em seu poema, acrescentou outra possibilidade: lance. Pode-se dizer também que Paul foi lançado sobre Diante de ti, considerando que este estava sendo escrito.

Em Paul o poeta é, acima de tudo, um pai que dedica seu poema ao filho. Quando Paul fez nove anos, Age de Carvalho escreveu outro poema com o mesmo título, publicado em 2011 em Trans. Neste, a referência a Celan pode ser vislumbrada por meio de um verso solto, em alemão, entre duas estrofes: (Atmen, Amen). Aí se dá a transformação de “respirar” em “amém” por meio da retirada de uma letra.

Recordando a França é um poema de Paul Celan que termina com o verso “estávamos mortos e podíamos respirar” (no original, “wir waren tot und konnten atmen”). Além disso, de acordo com Havryliv, que em 2010 realizada uma análise sobre o poema, Celan utilizava como sinônimos os termos “falar” e “respirar”. Neste poema, então, o ato de respirar – ou de falar (“atmen”), que, em Recordando a França, desafiou a morte, acompanhado pela palavra “amém” (“Amen”), une um aniversário à vida, em sua amplitude – um verso entre parêntesis como a fala entre parêntesis do livro escrito com Max Martins.

Infinitas possibilidades de encadeamento traduzem a prática de escrever, respirar, viver, abençoar os dias conforme Max fazia em seus cadernos, acrescentando formas e cores ao tempo tornado arte. Acrescenta-se uma pergunta: onde começa a poesia, se tudo é poesia? “Busco a Resposta”, diz Max, nos dando a mão.

Referências

Rosângela Araújo Darwich é professora pesquisadora, doutora em Psicologia, psicoterapeuta e poeta, com cinco livros lançados. Possui graduação, mestrado e doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e pós-doutorado pela Universidade de Ciências Aplicadas de Freiburg, na Alemanha. Atualmente é professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da Amazônia. Tem experiência na área de Psicologia Clínica e Social, e de interfaces entre Psicologia e Literatura. É líder do grupo de pesquisa Poesia no Dia a Dia: Grupos Vivenciais e Resiliência no diretório do CNPq.

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