‘Estamos em uma encruzilhada’, diz Ane Alencar sobre a COP28 e os combustíveis fósseis

Exploração de petróleo na margem equatorial do Brasil é uma das contradições do país Foto: Marcos Colón/Pisar Suavemente na Terra | Montagem: Fabrício Vinhas

Exploração de petróleo na margem equatorial do Brasil é uma das contradições do país
Fotos: Marcos Colón/Pisar Suavemente na Terra. Montagem: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude

Ameaçada pelo lobby do petróleo, a Conferência das Partes 28 (COP28) chega nesta quinta-feira (7) ao fim da primeira semana em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Entre os acontecimentos de maior repercussão para o Brasil está a entrega do antiprêmio Fóssil do Dia, na segunda-feira (4), após o país anunciar a entrada no grupo Opep+, um clube que reúne grandes exportadores de petróleo, como Rússia, México e Malásia.

Para comentar sobre os primeiros sete dias de COP, as principais contradições do Brasil e as questões que envolvem a floresta amazônica, a Amazônia Latitude entrevistou a cientista Ane Alencar, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), que acompanha em Dubai as negociações. Para ela, as principais questões dessa COP são os combustíveis fósseis, e a redução do desmatamento na Amazônia em contraponto ao aumento da destruição no Cerrado.

Ane Alencar é geógrafa, tem mestrado em Sensoriamento Remoto e Sistema de informação Geográfica pela Universidade de Boston e doutorado em Recursos Florestais e Conservação pela Universidade da Flórida. Atualmente, é diretora de Ciência do Ipam, onde trabalha há três décadas estudando a relação entre fogo, mudanças de uso da terra e mudanças climáticas. Faz parte das redes Mapbiomas, Seeg, Painel Científico para a Amazônia e Fulbright Amazônia, onde tem atuado de forma colaborativa para o entendimento das principais ameaças relacionadas ao fogo.

Confira abaixo a entrevista.

Amazônia Latitude: Quais as principais contradições do Brasil nesta COP?

Ane Alencar: O Brasil vem para essa copa com resultados muito positivos em várias áreas. O principal é a redução do desmatamento, com um pacote muito importante no que diz respeito à proteção das florestas, e alavancando isso para o mundo com o lançamento de vários programas, como o programa de conservação das florestas e mecanismo de pagamento para conservação. O país vem muito bem posicionado. Porém, o que todo mundo tem falado, e que de fato é uma questão que precisa ser avaliada, é o que dizem ser a principal contradição do país, que é essa essa linha de continuar investindo na prospecção de combustíveis fósseis.

O mundo inteiro sabe que a gente precisa fazer um phase out [eliminação gradual]. Ou seja, precisa ter uma meta, um fim para o uso de combustíveis fósseis. E isso é para todos os países. É uma lição de casa para todos, incluindo o Brasil, é claro. O que é uma contradição de, ao mesmo tempo que vem para a COP com resultados muito palpáveis, também traz essa possibilidade de uma possível prospecção no que diz respeito à extração de combustíveis fósseis e a entrada na OPEP+. Isso deixa a gente com uma sensação de que essa agenda precisa se alinhar muito mais.

Quando você se refere à redução do desmatamento, quais dados citaria principalmente?

A principal fonte de emissão de gases do efeito estufa no Brasil é a conversão de vegetação nativa, principalmente no desmatamento da Amazônia, que é onde há  um estoque de carbono maior. A gente ainda tem desmatamento do Cerrado muito alto, e isso é uma fonte de preocupação também, mas em termos de redução de emissões, com certeza o principal foco desse primeiro momento do governo parece ter sido combater o desmatamento na Amazônia, onde houve uma redução importante.

Quando a gente olha os números do Prodes, temos uma redução de 22%. Mas quando a gente olha os números do Deter, essa redução foi muito maior em comparação ao mesmo período do ano passado, mais de 40%, pelo menos, até outubro. Isso mostra realmente a dedicação desse governo, principalmente do Ministério do Meio Ambiente com apoio do presidente. Porque, sem isso, seria muito mais difícil reduzir o desmatamento.

Isso é um resultado para se mostrar agora, mas o desmatamento do Cerrado é a próxima pedra no sapato, que precisa ser encarado. O Cerrado é um bioma diferente da Amazônia no que diz respeito às medidas que precisam ser tomadas para reduzir o desmatamento, porque é uma região onde a principal legislação, o Código Florestal, acaba sendo menos restritivo do que é para a Amazônia. Isso favorece, abre uma uma brecha no que diz respeito à quantidade da área a ser desmatada legalmente.

Os esforços precisam ir além do comando controle, passando pela melhoria da governança das autorizações, do engajamento do setor privado nesse processo e de incentivos à produção sustentável. E isso vai ser bem importante, inclusive para o setor agropecuário, que cada vez mais está vendo o peso reputacional de estar produzindo em um país que também tem dito que a conservação é importante.

Em um contexto onde o abandono dos combustíveis fósseis é o passo prioritário, como a Amazônia chega nesse debate?

Essa contradição é importante. Estamos discutindo aqui uma necessidade de realmente pôr um fim no uso de combustíveis fósseis, na extração deles, então a própria COP tem discutido bastante como reduzir o uso desses combustíveis. Mas não apontar um phase out é uma contradição nesse contexto que a Amazônia também surge como uma possível frente de expansão da exploração de combustíveis fósseis na costa do Amapá.

O momento contraditório é esse. A gente quer que o Brasil reduza suas emissões de gases do efeito estufa, que cumpra o seu papel, que é de liderança nessa área climática, através da conservação ambiental. Mas o país precisa também investir bastante na questão energética. Precisa focar e ampliar seus investimentos em energias renováveis, e o petróleo na foz do Amazonas talvez não seja a melhor saída.

Para a Amazônia, o que significa a entrada do Brasil na Opep+ em 2024?

É justamente essa contradição. É claro que a floresta em pé traz muitos benefícios para além do estoque de carbono.

Ampliar as emissões de CO2 através da exploração e da queima de combustível fóssil não vai ser a melhor solução para o clima e vai acabar impactando indiretamente nos esforços de conservação da Amazônia.

Uma possível ampliação da exploração de combustíveis fósseis pelo Brasil vai aumentar a quantidade de gases do efeito estufa e a participação desse tipo de emissão na matriz de emissões do país. Isso, por sua vez, ajudará a agravar o processo do aquecimento global, que impacta as florestas. Traz secas severas, eventos extremos, e coloca em risco todo o investimento em redução de desmatamento, em conservação, porque a floresta também se degrada com secas extremas. Um clima mais seco, com maior eventos extremos, têm um impacto grande sobre a conservação, e todos os ganhos são postos em cheque.

Qual o papel da Amazônia, dos ambientes degradados e antropizados no contexto amazônico, para o sequestro do carbono global, tendo em conta que 20% da Amazônia já está desmatada e os outros 80% também estão alterados?

A Amazônia tem um papel que vai além da manutenção dos estoques de carbono. Uma floresta sadia, madura, tem um balanço de absorção. Ela acaba absorvendo um pouco mais de carbono do que emitindo e também tem outros serviços ecossistêmicos, com a evapotranspiração, que tem um efeito de resfriamento da terra.

Se a gente tem uma floresta que está cada vez mais impactada pelo fogo, pela ação humana, pela fragmentação, desmatamento, aquela floresta vai acabar tendo reduzido seu potencial de absorção de carbono. Ela vai acabar emitindo mais do que absorvendo, que já é o que acontece em partes da região Sudeste da Amazônia. Isso é muito preocupante porque, em um clima aquecido, pode ser que todos esses eventos, esses distúrbios causados pela seca, causados por mais fogo, vão ampliar o potencial de emissão das florestas que deveriam estar absorvendo mais CO2 se estivessem íntegras, e longe desses vetores de degradação.

Como o aquecimento global põe em risco a reprodução da biodiversidade amazônica? Se esquentar demais, o que acontece?

Neste ano, nós temos visto muito claramente quais são os possíveis impactos de um clima mais quente, de um período mais seco. Tem sido muito didático, infelizmente. O que pode acontecer em um bioma onde uma seca extrema leva à mortandade de milhares de animais aquáticos, por exemplo. Porque, num rio, alguns graus a mais mudam toda a composição química da água, e isso afeta a possibilidade de essas espécies permanecerem vivas.

Nós vimos várias cenas chocantes do impacto nos rios nos lagos aquecidos. Mas isso foi o que a gente conseguiu ver. Imagina o que a gente não conseguiu? Não conseguimos calcular ainda o impacto de um evento como esse e temos que dar as condições para que esses estoques possam se recuperar. É claro que existem várias políticas públicas relacionadas, mas temos que entender melhor quais são esses impactos para pensar, por exemplo, na questão do defeso, que agora vai ser mais importante do que nunca, porque a mortandade de peixes foi muito grande, nunca vimos nada desse tipo.

E o pior é que, mesmo começando as chuvas agora na Amazônia, já está previsto que esse El Niño continue com um impacto grande e que o período chuvoso seja um pouco mais seco do que o normal, não sendo talvez capaz de suprir o nível dos rios, e com a possibilidade da próxima estação seca ser ainda pior. Temos que nos preparar, não só para lidar com esses desastres ambientais, mas também para não fazer deles desastres sociais e econômicos ainda maiores.

Por que o terceiro setor defende o abandono mais rápido dos combustíveis fósseis?

Quando a gente olha para as matrizes de emissões do mundo, os combustíveis fósseis são, de longe, a principal fonte. Existem tecnologias que podem substituir o uso dessa fonte de emissão em escala. Mas, para isso, é preciso investimento e vontade política – e estamos falando de vontade política mundial, das grandes forças.

Não é só o terceiro setor que defende, mas todos aqueles que querem ver um planeta mais saudável e entendem que a gente precisa mudar a principal fonte de energia do mundo. Precisamos investir em tecnologia, para que as energias alternativas e de menor emissão realmente ganhem escala e a gente possa reduzir as nossas emissões.

Os cientistas estão avisando: nós precisamos reduzir nossas emissões em mais de 40% para conseguir chegar em alguns anos com menos aumento de temperatura, e os esforços tem que ser nesse sentido.

É possível esperar que essa COP estimule de forma clara e direta metas nacionais mais ambiciosas para a redução das emissões de gases do efeito estufa?

Ela deveria fazer isso. O que a gente tem esperado do relatório do Balanço Global a partir dos compromissos do Acordo de Paris é que, de fato, os países se deem conta de que estamos em uma encruzilhada. E, para sair dela, nós precisamos de compromissos sérios e de ambição. Sem isso, nós todos vamos estar em uma situação muito difícil e a conta já está chegando, para vários países, inclusive os desenvolvidos. Por isso que, agora, o tema de perdas e danos ganha uma proporção ainda maior nesta COP. É importante a gente entender que este é o momento, porque daqui a dois anos todos vão ter que apresentar seus novos compromissos e eles precisam de fato ser levados a cabo para que a gente consiga evitar o pior.

Estamos num momento em que precisamos dessa redução efetiva das emissões, ao mesmo tempo em que temos o planeta em guerra. Enquanto a gente deveria estar reduzindo o uso de combustíveis fósseis, nós estamos gastando mais e sem nos comprometer em colocar uma luz no fim do túnel para esse uso. É essa a encruzilhada.

Texto e produção: Emily Costa
Revisão: Filipe Andretta
Arte e montagem do site: Fabrício Vinhas
Direção: Marcos Colón

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