Modernistas e pajés contra a polícia da Belle Époque amazônica

Entre o rigor da ciência europeia e a repressão policial, como a literatura modernista de Belém salvaguardou a memória e os saberes da pajelança cabocla.

Pajés, policiais e modernistas: O conflito entre o modelo civilizatório europeu e os saberes afro-amazônicos no subúrbio de Belém. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
Pajés, policiais e modernistas: O conflito entre o modelo civilizatório europeu e os saberes afro-amazônicos no subúrbio de Belém. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
Pajés, policiais e modernistas: O conflito entre o modelo civilizatório europeu e os saberes afro-amazônicos no subúrbio de Belém. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

Pajés, policiais e modernistas: O conflito entre o modelo civilizatório europeu e os saberes afro-amazônicos no subúrbio de Belém.
Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

Na passagem do século XIX para o XX, e nas primeiras décadas deste, um elemento identificava tanto pais e mães de santo quanto pajés em Belém: a perseguição sistemática por parte do aparelho de Estado e seus dispositivos de controle. Ainda, pelos representantes de um modelo majoritário e “modernizante” de cidade, que viam nessas figuras um entrave à civilização.

Essa perseguição foi denunciada por José Carvalho: “condenado pelo padre romano e pela polícia civil o Pagé (sic) tem sido, até hoje, não só perseguido, como ridicularizado. A intolerância religiosa, se pudesse, já os teria queimado, todos. A medicina civilizada afinaria pelo mesmo tom” (Carvalho, 1930, p. 30). Note-se que o autor elenca a polícia, a igreja e a medicina — instituições que, em diferentes campos, se pretendiam incorporadas à modernidade.

A ciência branca contra o mistério do subúrbio

Avenida Tito Franco (atual Almirante Barroso): O eixo de modernização que ligava o centro "civilizado" aos subúrbios de Belém. Era por estas vias que a polícia e a medicina oficial avançavam sobre os territórios de pajelança. Foto: Divulgação / Mostra "Belém da Memória" via G1.

Av. Tito Franco (atual Almirante Barroso): O eixo de modernização que ligava o centro “civilizado” aos subúrbios de Belém. Por estas vias a polícia e a medicina oficial avançavam sobre os territórios de pajelança. Foto: Divulgação / Mostra “Belém da Memória” via G1.

No que diz respeito à medicina — método de cura adotado pelas elites do centro em oposição à ancestralidade dos pajés do subúrbio —, a literatura de Dalcídio Jurandir revela esse conflito. Alfredo, protagonista do ciclo romanesco do autor, vive o dilema entre os dois mundos.

De um lado, o paterno: o conhecimento científico cujo “livro de Chernoviz” não foi capaz de salvar seu irmão mais velho, Eutanásio, que estava a morrer no fim do romance Chove nos Campos de Cachoeira (1941). De outro, o lado materno, que segundo ele mesmo se tratava de: uma “família ligada a feitiçarias, a encantados, a ervas maravilhosas” (Jurandir, 2004, p. 188). Alfredo está cindido entre a ciência branca do pai e o mistério afro-amazônico da mãe. Segundo Figueiredo, o Chernoviz tratava-se de um:

Diccionário de Medicina Popular [1.ed., 1848] de autoria do Dr. Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, publicado em dois volumes com 2.296 páginas e 423 ilustrações. Esse livro foi muito popular na época, aparecendo, regularmente, e em anúncios de venda nos periódicos de Belém […] (Figueiredo, 1996, p. 200).

Desta forma, a medicina, ciência moderna da cura, consagrada a partir da Europa, era valorizada, enquanto a pajelança era perseguida. Em Belém do Grão-Pará, a personagem que mais representa as encantarias de pajelança, elementos comuns a esse universo, e ligadas ao universo Afrorreligioso, rasurando a modernidade da cidade, é o menino Antônio, chamado de feiticeiro por Libânia, ambos personagens do romance Belém do Grão-Pará.

Das páginas policiais ao “crime” de curar

Um exemplo emblemático de que o Chernoviz ocupava as páginas de propaganda enquanto a pajelança ocupava as páginas policiais está na matéria de O Imparcial de 1935, com o título: “Raptou a moça para curar-lhe contra os bichos do fundo”. A notícia narrava a queixa contra o pajé Domingos dos Santos.

O dr. Samuel Mc-Dowell, chefe de Polícia, em officio que remetteu ao sr. comissario da villa do Pinheiro, apresentou o cidadão Raymundo Furo, morador em Queimadas, Bahia do Sol, que vae alli com o fim de formular queixa contra o conhecido “pagé” Domingos dos Santos, o qual, no dia 5 do corrente, sob o pretexto de curar a sua filha contra os “bichos do fundo”, raptou a mesma, indo morar no igarapé da Pirahyba, naquela Villa (O Imparcial, 14 de novembro de 1935).

Páginas de polícia: Recorte do jornal O Imparcial (14 de novembro de 1935) criminalizando a prática da pajelança sob a acusação de rapto para cura de 'bichos do fundo'. Foto: Reprodução / Arquivo Público do Estado do Pará (APEP).

Páginas de polícia: Recorte do jornal O Imparcial (14 de novembro de 1935) criminalizando a prática da pajelança sob a acusação de rapto para cura de ‘bichos do fundo’. Foto: Reprodução / Arquivo Público do Estado do Pará (APEP).

A despeito do “rapto”, o uso de aspas em expressões como “pagé” e “bichos do fundo” mostra como essa realidade sagrada era desacreditada pelo jornal, veículo de comunicação ligado aos grupos majoritários. São os mesmos bichos do fundo que Libânia afirma terem relação com Antônio.

Sobre a palavra “pajé” criou-se uma conotação tão negativa que o termo “curador” passou a ser usado como um eufemismo por deferência. É o que pode ser percebido na exposição de José Carvalho sobre o tema: “Por delicadeza ou deferência, não se o chama pagé (sic); chama-se curador” (Carvalho, 1930, p. 31).

A criminalização estava escrita na lei: o artigo 54 do Código de Posturas de Belém (1880) previa multas para quem se intitulasse pajé ou simulasse curas por “meios supersticiosos”.

Todo aquele que se intitular pajé, curandeiro, ou que a pretexto de tirar feitiços se introduzir em qualquer casa ou receber na sua quem para simular (sic), curas por meios supersticiosos e bebidas desconhecidas, ou para fazer adivinhação, ou outros embustes incorrerá na multa de vinte mil réis, assim como o dono da casa em qualquer dos casos” Código de posturas da câmara municipal de Belém. (Colleção de leis da província do Gram-Pará. Anno de 1880, tomo XLII, 1. Parte. Capítulo IX: p. 244-245).

Dalcídio Jurandir, em Belém do Grão-Pará (1960), utiliza o termo “curador” duas vezes.  Primeiro, na fala de Libânia – “Eu me botava pro mato, e pedia: ‘meus santos, meu mestre curador, me ensinem uma raiz, uma folha, um mato, uma resina, que tire os ais de minha mãe’” (Jurandir, 2004, p. 425). Depois, para descrever a própria personagem – “virgem trespassada de resinas, óleos da selva, benzeções de curador” (Jurandir, 2004, p. 165), mostrando a ligação da tapuia com o universo da pajelança.

Um outro elemento importante a ser destacado nas duas passagens é que o poder dos pajés ou mestres curadores aparecem ligados a elementos da floresta como raízes, paus, folhas, resinas e óleos da floresta, elemento já conhecido tanto dos indígenas quanto das civilizações africanas vindas para a Amazônia.

O Carnaval como território de resistência

Uma crônica em que o rizoma indígena e afrodescendente é percebido é Pagés (sic) da “Cobra Grande”. De Campos Ribeiro descreve uma brincadeira de carnaval em 1933. Criada pela intelectualidade belemense afeita à cultura popular, “ora, para o trato com a Cobra Grande, só um colégio de Pagés (sic). […] e cada componente do grupo alegre se investiu dos ‘Poderes’ de invocador de ‘caruanas’” (Ribeiro, 2005, p. 134). Na referida manifestação, um dos participantes, que assume a identidade de Mestre Paulo, declama:

Sou Mestre Paulo. Comigo

Por qualquer me dá uma palha,

Boto panema o inimigo

Na dobra duma toalha.

Numa tijela de louça

Faço do burro doutô,

Tiro tristeza de moça…

Mestre Paulo é curadô

(Ribeiro, 2005, p. 137).

A palavra “mestre” às vezes remete ao pajé, às vezes à entidade que executa a cura. Merece destaque o fato de que, na capa do folheto, com as falas em forma de redondilhas dos pajés da Cobra Grande, feitas por Ribeiro, figura, segundo este, “um pagé (sic) de verdade a que a polícia deitara mão”.

Isso confirma que, mesmo na década de 1930, os cultos afro-amazônicos eram alvo constante de repressão, como mostra O Imparcial. Assim, até um brinquedo de carnaval assume a dimensão política de resistência à perseguição.

Territórios de encantaria e fumaça

A percepção de que, para Bruno de Menezes, a pajelança se ligava ao universo afro-amazônico pode ser ilustrada na crônica de um outro escritor, admirador e discípulo do poeta, Pedro Tupinambá. Trata-se da crônica A boiúna, que mostra os bastidores daquela brincadeira carnavalesca de 1933.

Apesar de o nosso objeto de análise serem as crônicas de De Campos Ribeiro, a crônica de Tupinambá é importante para ilustrar a ligação de Bruno de Menezes e De Campos Ribeiro com o universo afro-amazônico:

Quando viajamos com o escritor Bruno de Menezes para Manaus, em 1957, mostrou-nos êle seu “Album (sic) de recortes sôbre (sic) assuntos Afro-brasileiros”, despertando-nos a atenção um folheto impresso em 1933, […] intitulado “A BOIUNA” e que trazia na capa de frente um pajé pousando na polícia, ao lado de seus pertences e garrafadas […] (Tupinambá, 1969, p. 101-102).

Capa do livro "Batuque", de Bruno de Menezes, com ilustração de Raymundo Moraes retratando corpos em transe e cobras, simbolizando o rizoma afro-indígena na modernidade paraense. Foto: Reprodução / Acervo Pessoal.

Capa do livro “Batuque”, de Bruno de Menezes, com ilustração de Raymundo Moraes, simbolizando o rizoma afro-indígena na modernidade paraense. Foto: Reprodução / Acervo Pessoal.

Outro elemento que merece atenção é a escolha dos nomes dos pajés tendo em vista que, entre eles, está Mestre Desidério. A personagem do poema Oração da Cabra Preta, de Bruno de Menezes, foi incorporada oito anos depois à segunda edição do livro Batuque. No capítulo A pagelança, da obra País das pedras verdes (1930), de Raymundo Moraes, o autor afirma:

Amores mal sucedidos, negócios mal parados, política mal encaminhada, conduzem as victimas até á barraca do feiticeiro installado nos suburbios e arredores das cidades da Planicie. Em Belém havia um certo Desidério, de saudosa memória, que não só predisse o destino de vários cidadãos, mais ou menos chibantes, como receitou infalíveis banhos de cheiro contra a urucubaca de cavalheiros que não acertaram no bicho (Moraes, 1930, p. 230).

Atente-se para o fato de que o autor afirma que esses pajés se localizam no subúrbio das cidades amazônicas. Ou, como pontua Bruno de Menezes no poema que faz referência à essa personagem, na “rua de arrabalde”. Em dissertação de mestrado dedicada ao estudo de Batuque, de Moraes, mostrou-se que o poema Oração da Cabra Preta, apesar de todos os elementos em rizoma, mantém uma dinâmica da eficácia, herança dos cultos de origem africana (Santos, p. 2007, p. 77-95).

Ainda com relação ao poema bruniano, o poeta inseriu uma oração cujo registro é semelhante ao que Mário de Andrade usou em seu livro sobre músicas de feitiçaria. A principal diferença é que, no poema de Bruno de Menezes, a oração aparece em versos, enquanto nas anotações de Mário de Andrade, é grafada em prosa (Andrade, 1963, p. 124-123).

Um outro texto em que aparece a palavra curador equivalendo ao pajé, e aproximando este dos cultos africanos, é o poema Cachaça:

O teu Pai de Santo,

tua “mãe de terreiro”,

o teu encantado o teu curador

só fazem “trabalho” cuspindo a “chamada”…

(Menezes, 2005, p. 55).

A palavra “chamada”, referindo-se à cachaça sugere que ela é a forma de chamar as entidades que realizam os “trabalhos ou as “curas”. A referida expressão como sinônimo de aguardente é utilizada por Ribeiro (1965) em suas crônicas Aqueles bizarrões extraviados, Ocaso de Ferrabrás e Eram baixos seus coturnos.

Além de mostrar que a cachaça se liga aos grupos e sujeitos minoritários do subúrbio da cidade, ao referir-se a ela como “chamada”, o cronista mostra mais uma vez, assim como Bruno de Menezes e Dalcídio Jurandir, que conhece a linguagem dos terreiros e dos pajés.

Percebe-se, portanto, que, apesar das perseguições aos pajés, as comunidades minoritárias de Belém conseguiram construir territorializações próprias ante a estratificação de uma cidade que buscava, ainda que postiçamente, se modernizar a toque de caixa.

Os três autores modernistas — Bruno de Menezes, Dalcídio Jurandir e De Campos Ribeiro — trazem para o território privilegiado da Literatura essas entidades encantadas, seus corpos, seus cheiros, seus cultos, suas lutas, e cantigas, e toda a sua performance. Suas obras servem como forma de manter a memória e transmitir conhecimentos que foram, por muito tempo, ocultados da narrativa histórica oficial da Amazônia.

Clei Souza é doutor em Estudos Literários e professor de Literatura pela Universidade Federal do Pará, letrista, poeta, contista, crítico literário, e artista visual. Venceu diversos prêmios literários no Pará, entre eles os prêmios Inglês de Souza e Dalcídio Jurandir.  É autor do livro de poemas Poema pássaro e outros versos migratórios (Fundação Cultural do Estado do Pará, 2016) e do livro de contos O suicidado e outras histórias (Mezanino Editorial, 2021).

Arte: Fabrício Vinhas
Revisão, Edição e Montagem de página:
Juliana Carvalho
Diretor de redação:
 Marcos Colón

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