A comunidade amazônica que venceu as grandes petroleiras compartilha seus segredos
Líderes indígenas brasileiros contrários à expansão petroleira viajaram ao Equador para conhecer de perto como o povo de Sarayaku enfrentou a indústria e impulsionou mudanças legislativas em todo o mundo

A praça central de uma aldeia de Sarayaku na selva amazônica do Equador. Crédito: Rodrigo Buendia/AFP via Getty Images.
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Guisel Marworno e Wagner Karipuna desciam pelo rio Bobonaza tendo como trilha sonora o ronco do motor da canoa. Os líderes indígenas brasileiros iam em busca de ajuda.
No ano passado, a estatal brasileira Petrobras começou a prospectar petróleo em alto-mar perto de seus territórios costeiros. A perspectiva de um boom petroleiro já está transformando a cidade vizinha de Oiapoque, onde a chegada de novos moradores aumenta a pressão sobre as terras indígenas, ameaçadas também pela poluição e pelas mudanças climáticas.
Em toda a Amazônia, 31 milhões de hectares de territórios indígenas e de comunidades locais se sobrepõem a áreas que os governos delimitaram para a exploração e produção de petróleo e gás, uma superfície aproximadamente do tamanho da Polônia. Os projetos extrativos — fundamentalmente incompatíveis com a cultura e as concepções espirituais de muitas comunidades indígenas — costumam ser apresentados como fatos consumados. As empresas chegam respaldadas por advogados de alto nível, grandes investimentos e promessas de crescimento econômico. As comunidades, com muito menos recursos, veem-se obrigadas a navegar por sistemas jurídicos desconhecidos enquanto tentam se manter unidas diante de uma pressão cada vez maior.
Os povos de Guisel Marworno e Wagner Karipuna, os Galibi-Marwornos e os Karipunas, há gerações defendem seus territórios — solo da floresta amazônica, extensos manguezais e pântanos — frente a incursões de pequena escala de caçadores, madeireiros e traficantes de animais silvestres. Mas nunca tinham se deparado com um projeto de semelhante envergadura e rapidez, respaldado além disso por todo o poder do governo brasileiro.
Por isso se dirigiam a Sarayaku. No início dos anos 2000, o povo kichwa de Sarayaku enfrentou uma petroleira e conseguiu expulsá-la de seu território. Sua resistência também contribuiu para impulsionar o movimento mundial pelos direitos da natureza: a ideia de que os ecossistemas são seres vivos com direitos jurídicos inerentes, como o de existir e se regenerar.
Os líderes brasileiros não viajavam sozinhos. Faziam parte de uma delegação de cerca de duas dúzias de pessoas procedentes de distintos pontos da Amazônia e de outras regiões, entre elas advogados e outros líderes indígenas que trabalham para conseguir que os governos reconheçam esses direitos. A iniciativa era organizada pela Aliança Global pelos Direitos da Natureza, uma rede internacional de organizações, comunidades e indivíduos que promove o reconhecimento da natureza como sujeito de direitos nos sistemas jurídicos.
Para Natalia Greene, diretora mundial da Aliança, Sarayaku é o coração do movimento: uma comunidade cujas vitórias demonstraram o que os direitos da natureza podem significar na prática.

Natalia Greene, directora mundial de la Alianza Global por los Derechos de la Naturaleza, habla con una delegación de activistas por los derechos de la naturaleza a lo largo del río Bobonaza en ruta hacia Sarayaku. Foto: Katie Surma/Inside Climate News.
Na canoa logo atrás iam duas ganhadoras do Prêmio Goldman, um dos principais prêmios de defesa do meio ambiente: a ativista colombiana que luta contra o fraturamento hidráulico Yuvelis Morales Blanco e Mari Luz Canaquiri Murayari, do povo kukama, da Amazônia peruana, que em 2004 conseguiu um reconhecimento judicial histórico: que o rio Marañón e seus afluentes fossem declarados sujeitos de direitos. Ambas tinham vindo para trocar estratégias e estudar as vitórias de Sarayaku.
Na margem, mais à frente, os líderes de Sarayaku os esperavam.

Natalia Greene (à esquerda) e a vice-presidenta de Sarayaku, Abigail Gualinga, encontram-se no centro de uma das aldeias de Sarayaku. Foto: Katie Surma/Inside Climate News.

A ativista colombiana antifragmentação Yuvelis Morales Blanco (à esquerda) e Mari Luz Cañaquiri Murayari, da comunidade kukama no Peru, visitam o Equador em agosto. Foto: Katie Surma/Inside Climate News.
“As empresas nunca perdem”
Patricia Gualinga, de 57 anos, estava parada na margem do Bobonaza, com o murmúrio da floresta às suas costas. Vestia um longo vestido azul e branco e o cabelo preto, preso em um rabo de cavalo, chegava-lhe à cintura. Observou os visitantes por alguns instantes e logo esboçou um sorriso largo e caloroso. A líder kichwa, uma das defensoras mais conhecidas da comunidade, há décadas luta para proteger seu território e empoderar as mulheres que vivem nele. Para Patricia, ambas as lutas são inseparáveis.
Patricia acredita que a Terra tem uma energia feminina que as indústrias extrativas danificam quando contaminam o território. Também tem visto como a extração de recursos pode alimentar a divisão, o alcoolismo e a violência contra as mulheres nas comunidades indígenas. Seus próprios familiares lhe contaram casos de violência sexual perpetrados por trabalhadores do setor petroleiro.
Pisando suavemente a terra, Patricia conduziu Guisel Marworno, Wagner Karipuna e o resto do grupo até o centro de Sarayaku, uma clareira ovalada cercada por casas de madeira e edifícios comunitários. No interior de uma longa estrutura de madeira, as paredes estavam cobertas de fotografias do conselho de governo de Sarayaku, conhecido como Tayjasaruta.
Muito antes de se adaptarem às estruturas jurídicas impostas pelo Equador, os habitantes de Sarayaku viviam organizados em clãs familiares que se autogovernavam com líderes tradicionais. À medida que aumentava a pressão das indústrias extrativas, criaram um conselho para se relacionar com o Estado sem renunciar aos seus processos tradicionais de tomada de decisão nem aos seus valores culturais.
No centro desses valores está a convicção de que o território é um sistema vivo e interconectado formado por seres visíveis e i nvisíveis. Sarayaku chama sua relação recíproca com esse sistema de Sumak Kawsay, ou Bem Viver.
A vice-presidenta Abigail Gualinga deu as boas-vindas aos visitantes, seguida pelos responsáveis de saúde, educação, economia, transporte e outros departamentos de Sarayaku. Depois, Patricia tomou a palavra.
Começou com um documento fundamental: o título de propriedade do território de Sarayaku. Em 1992, os membros das sete comunidades de Sarayaku exigiram que seus direitos fossem reconhecidos e foram até a capital para recolher os documentos, convencidos de que eles lhes proporcionariam segurança. Quatro anos depois, o governo, que se reservou direitos sobre os recursos do subsolo, autorizou uma petroleira argentina a perfurar o território. Nos mapas oficiais, as terras ancestrais das comunidades passaram a figurar como Bloco 23.
Guisel Marworno e Wagner Karipuna estavam sentados na primeira fila, ouvindo atentamente as palavras traduzidas por um intérprete. Eles também têm direitos reconhecidos sobre seus territórios, mas, no caso deles, a disputa gira em torno dos impactos atuais e futuros das perfurações nas áreas vizinhas.

Homens kichwas de Sarayaku desfilam por Puyo, Equador, em agosto durante o Fórum Social Pan-Amazônico, exigindo que os governos respeitem seus direitos. Foto: Katie Surma/Inside Climate News.
Sarayaku há muito tempo era conhecida por sua feroz independência. Tanto, explicou Patricia, que os militares a assinalavam com um ponto vermelho em seus mapas. Em 2002, a petroleira entrou no território escoltada pelo Exército equatoriano.
Sarayaku se organizou. Seus habitantes atrapalharam as operações sempre que puderam, lançaram uma campanha internacional e rejeitaram as tentativas de dividir a comunidade. Sua resistência pacífica recebeu como resposta uma violenta repressão. Nem as mulheres e as crianças ficaram de fora. Segundo documentos judiciais, quatro líderes teriam sido torturados.
Nem os ministérios equatorianos de Meio Ambiente e de Relações Exteriores, nem a Procuradoria-Geral quiseram comentar a respeito.
Após meses de resistência do povo de Sarayaku, a petroleira se retirou em 2003. Mas deixou enterradas por todo o território toneladas de explosivos, vestígios de seus trabalhos de prospecção. Sarayaku teve que arcar com as consequências.
“As empresas nunca perdem”, disse Patricia. Todos assentiram com a cabeça.
Enquanto Sarayaku lutava para que os explosivos fossem retirados, o governo apresentava seus habitantes como um obstáculo ao desenvolvimento, uma comunidade pobre que se intrometia no caminho do progresso, disse Patricia.

Patricia Gualinga fala perante o conselho de governo de Sarayaku sobre a longa luta de seu povo contra um projeto petroleiro imposto pelo governo em seu território. Crédito: Katie Surma/Inside Climate News.
“Nós não rejeitávamos o desenvolvimento”, acrescentou. “Estávamos defendendo nosso modo de vida.”
Quando os tribunais equatorianos não ofereceram uma solução, Sarayaku levou o caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos, que em 2012 determinou que o Equador havia violado os direitos da comunidade ao permitir a exploração petroleira em seu território sem consultá-la. Os direitos territoriais de Sarayaku foram uma parte importante da sentença. O tribunal ordenou que o governo os indenizasse financeiramente e retirasse os explosivos.
O caso transcendeu Sarayaku. Sua vitória estabeleceu um precedente histórico sobre o direito dos povos indígenas a uma consulta livre, prévia e informada sobre os projetos que afetam seus territórios. O tribunal também reconheceu a relação especial entre os povos indígenas e seus territórios e ordenou que o governo a respeitasse. As comunidades que antes quase não tinham possibilidades de fazer frente aos governos ou às petroleiras podiam olhar para Sarayaku e descobrir que havia outra opção.
Guisel Marworno e Wagner Karipuna absorviam cada detalhe. Em 2025, suas comunidades e outros dois povos indígenas da região — os Palikur-Arukwayenes e os Galibi Kali’nas — apresentaram uma ação no Brasil para contestar os planos de perfuração do governo.
De pé na frente da sala, Patricia disse aos presentes que valia a pena perseverar em lutas prolongadas.
Para Sarayaku, a sentença da Corte Interamericana foi um reconhecimento de sua dignidade, explicou. O Equador enviou ministros para pedir desculpas, cumprindo assim parte da resolução judicial. Mas ainda há muito a ser feito. Os explosivos continuam lá. Além disso, Sarayaku quer que as reparações do governo incluam o reconhecimento da floresta como um ser vivo titular de direitos.
Em agosto, a comunidade apresentou essa petição à Corte Interamericana como parte do processo contra o governo, que continua aberto.
“Podemos lutar”, disse Patricia aos visitantes, referindo-se a todos eles.
Kawsak Sacha, a Floresta viva
Às quatro da manhã do dia seguinte, duas horas antes de o sol iluminar o céu, José Gualinga, de 62 anos, acomodou-se junto ao fogo em um refúgio com teto de palha e aberto nas laterais, perto da margem do rio. Diante dele fervia uma enorme panela de infusão de guayusa.
O povo de Sarayaku tem utilizado tradicionalmente esta planta, rica em antioxidantes e cafeína, como remédio para os pulmões, para preparar os caçadores e para interpretar sonhos.
A fumaça envolvia José, irmão de Patricia, enquanto contava sobre a incursão de 2002 e a história de Sarayaku. Ele estava acordado, mas sem pressa. O brilho do fogo iluminava sua meia cabeleira escura e a cuia que segurava entre as mãos.
José colocou sua própria vida e o futuro de seu povo nas mãos do conhecimento legado por seus ancestrais, os Tayak. Esse saber ajudou Sarayaku não apenas a expulsar uma petroleira de seu território: também proporcionou à comunidade uma linguagem para explicar o porquê.
No centro dessa visão está a declaração Kawsak Sacha ou Floresta Viva, que José propôs em 2004 depois de passar 18 anos estudando e sistematizando os ensinamentos ancestrais, em busca de conhecimento para enfrentar a crescente pressão dos interesses petroleiros. A declaração explica como o povo de Sarayaku sempre entendeu seu território amazônico: como uma floresta viva e inteligente, e não como um conjunto de recursos que os humanos podem explorar.
Essa ideia contribuiu para que os equatorianos reconhecessem os direitos da natureza na Constituição de 2008. Depois vieram os litígios. No vale de Íntag, no Equador, rãs ameaçadas de extinção tornaram-se a peça-chave de um processo contra a mineração de cobre. Em 2021, o Tribunal Constitucional determinou que as licenças de mineração violavam os direitos da floresta nublada de Los Cedros, aludindo às ameaças à biodiversidade, aos ecossistemas, à água e às comunidades locais. Estas e outras vitórias abalaram as indústrias madeireira e petroleira, cujos direitos haviam prevalecido por muito tempo.
José levantou a cuia e bebeu. No mundo todo, observou, os sistemas jurídicos começavam a reconhecer elementos concretos da natureza — rios, montanhas e lagoas — como sujeitos de direitos. Ele valorizou esses esforços, mas apontou que Kawsak Sacha engloba muito mais: não separa o rio da floresta que o cerca nem dos seres invisíveis que nela habitam.
“Para nós, Kawsak Sacha é tudo”, disse. “É todo o território vivo.”

Natalia Greene (à esquerda), diretora mundial da Aliança Global pelos Direitos da Natureza, entrevista José Gualinga no Fórum Social Pan-Amazônico em Puyo, Equador, em agosto. Foto: Katie Surma/Inside Climate News.
Essa maneira de entender o mundo também determina como o povo de Sarayaku vive na floresta.
“Algumas pessoas perguntam por que ainda caçamos macacos”, explica. “Dizem que os macacos têm direitos. Concordo que devemos proteger o sistema vivo. Mas as pessoas também precisam comer.”
A caça, explicou, nunca consistiu unicamente em tirar um animal da floresta. Requer conhecimento, disciplina e uma relação entre o caçador e o animal. O caçador não entra na floresta simplesmente disparando uma arma. Deve se aproximar do animal por meio dos sonhos e das visões, conectar-se com ele e obter seu consentimento, para que as pessoas possam se alimentar sem alterar o equilíbrio natural da floresta.
“É preciso estar em comunhão com o macaco”, explicou. “O macaco deve transmitir sua energia a você.”
Na opinião de José, muitos humanos perderam a conexão profunda com outras formas de vida. Agora sentem pouco ou nada por outros seres, aos quais veem como objetos desprovidos de espírito.

Um edifício em uma aldeia de Sarayaku está pintado com “Kawsak Sacha”, que significa a “Selva Viviente”. Foto: Katie Surma/Inside Climate News.
Em Sarayaku, onde as coisas não são assim, a comunidade assegura que as plantas e os animais possam se reproduzir. Se as populações diminuem, Sarayaku impõe moratórias à caça, à pesca e à coleta.
Uma profecia dos Tayek dizia que os habitantes de Sarayaku eram o povo do meio-dia: aqueles que continuariam de pé depois que os outros tivessem caído. Muitos tiraram forças dessa ideia.
“Mas resistir é desgastante”, disse.
Sua voz mudou ao falar do custo da luta. O conflito afetou psicologicamente a comunidade. Provocou doenças, medo e traumas. As mulheres e as crianças sofreram as consequências junto com os homens, e o dano persistiu muito tempo depois de os conflitos terem terminado.
Mas a floresta os ajudou a se recuperar. Caminhar sob as árvores, ouvir o rio e participar da vida comunitária, explicou José, permitiu-lhes recuperar as forças.
“A floresta sempre nos devolve a força e o equilíbrio”, disse.
Com as cuias de todos cheias de infusão, José abordou uma questão fundamental para Sarayaku e outras comunidades indígenas: o que significa se desenvolver?
Sarayaku não rejeita o desenvolvimento, afirmou. A comunidade quer melhores sistemas de abastecimento de água, comunicações, atendimento médico e outras comodidades modernas. Mas se desenvolver não pode significar aceitar a definição de progresso dos outros.
“As pessoas dizem que o desenvolvimento significa uma estrada, uma petroleira, uma mineradora”, disse. “Chamam de desenvolvimento o desmatamento e a extração.”
Mas o povo de Sarayaku imagina algo diferente: seguir os princípios da declaração da Floresta Viva e do Bem Viver. Melhorar a vida sem destruir a floresta que a torna possível. O sistema de mutirão comunitário (minga) — trabalho coletivo em benefício de todos — é uma expressão dessa visão. A cada dois meses, trabalham juntos para abrir e manter as trilhas. É um trabalho prático e, ao mesmo tempo, uma forma de preservar os laços que mantêm a comunidade unida.
O povo de Sarayaku não quer reproduzir o modelo das cidades que ficam além de suas fronteiras, onde as casas se amontoam junto às estradas e os assentamentos vão substituindo aos poucos a floresta.
“Queremos nossa própria forma de vida”, disse José.
É assim que o povo de Sarayaku mede a riqueza e a felicidade, explicou: florestas abundantes, rios limpos, terras férteis, fauna silvestre próspera, uma comunidade unida e pessoas sãs e fortes.
A luz do sol do início da manhã já se filtrava pelas frestas da cobertura vegetal. José voltou a erguer sua cuia.
A maior ameaça para o povo do meio-dia, disse, não são apenas as empresas que chegam em busca de petróleo ou minerais. É também a filosofia segundo a qual devem se converter em outra coisa para poder progredir.
Já existem outras formas de sociedade
Naquela noite, durante um jantar à base de peixe e mandioca — alimentos procedentes do rio ou das hortas de Sarayaku —, Guisel Marworno e Wagner Karipuna sentaram-se a uma longa mesa de madeira com seu advogado, Rodrigo Leitão, faixa-preta de jiu-jitsu especializado em defender povos indígenas e outras comunidades contra as indústrias extrativas. Os líderes explicaram como suas comunidades, assim como Sarayaku, haviam construído sociedades baseadas nos saberes ancestrais.

O cacique Wagner Karipuna é um líder dos povos karipuna do norte do Brasil. Foto: Katie Surma/Inside Climate News.

Guisel Marworno é uma liderança do povo Galibi-Marworno localizado na costa norte do Brasil. Foto: Katie Surma/Inside Climate News.
A terra não é apenas um espaço físico, disseram: ela está viva e habitada por seres invisíveis com os quais os humanos devem manter uma relação de reciprocidade e equilíbrio. Os karuanas, por exemplo, são espíritos sagrados que protegem lugares sagrados. Os xamãs mediam entre os mundos, interpretam sinais e identificam desequilíbrios que precisam ser curados. Mas a degradação ambiental pode dificultar esse trabalho.
Essa concepção da natureza como algo vivo pode servir de fundamento para uma sociedade e suas leis, assim como qualquer outra visão de mundo. As comunidades de Guisel Marworno e Wagner Karipuna organizaram-se em torno disso e desenvolveram um sistema de governo baseado em bioeconomias, que incluem a coleta sustentável de açaí, o turismo e a pesca. Segundo Leitão, esses sistemas garantem a segurança alimentar e a autonomia das comunidades, ao mesmo tempo em que protegem a natureza.
Ele também apontou que os planos do governo brasileiro para perfurar em nome do “desenvolvimento econômico” ignoram por completo as economias alternativas que já existem na região. Um vazamento de petróleo poderia apagar gerações de esforços.

O advogado Rodrigo Leitão representa as comunidades indígenas do norte do Brasil afetadas por um projeto petrolífero marinho planejado e apoiado pelo governo brasileiro. Foto Katie Surma/Inside Climate News.
“Não é uma área vazia nem um espaço socialmente desorganizado que espera que um projeto externo lhe dê sentido econômico”, disse Leitão, acima do murmúrio das conversas cruzadas em português, espanhol e inglês. “Aqui não existe nenhum vazio econômico.”
Mas, por defenderem seu modo de vida, Guisel Marworno e Wagner Karipuna sentem-se cada vez mais alvo de ataques. Nos últimos meses, enquanto caminhavam pela cidade de Oiapoque, algumas pessoas os apontavam e zombavam deles, chamando-os de antidesenvolvimentistas por se oporem aos planos de perfuração do governo. Esse tipo de discurso, utilizado também contra Sarayaku, é uma tática habitual para desacreditar os defensores do meio ambiente e, às vezes, precede a violência, apontam os especialistas.
No Brasil, os riscos estão aumentando. Ano passado, o país registrou o dobro de assassinatos de defensores do meio ambiente em relação ao ano anterior, tornando-se o segundo país mais mortífero do mundo para quem protege a natureza de forma pacífica.
Embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha tomado medidas para frear o desmatamento e reforçar a proteção ambiental, a economia do país continua dependente das indústrias extrativas. O apoio do mandatário aos planos da petroleira estatal Petrobras para perfurar em frente à costa de Oiapoque é o exemplo mais recente.
O Inside Climate News entrou em contato com o Ministério do Meio Ambiente do Brasil, mas este encaminhou as perguntas ao Ministério dos Povos Indígenas, que não respondeu. A equipe de imprensa da Petrobras, por sua vez, declarou em nota que realizou reuniões públicas antes de iniciar as perfurações e que mantém canais de diálogo com a cidadania. Em resposta às preocupações sobre a pressão no meio ambiente e sobre os povos indígenas da região, a empresa afirmou que há muitos fatores que influenciam a situação além do petróleo, como a abertura de uma ponte que conecta a Guiana Francesa ao Brasil em 2017.
Ao terminar o jantar, Guisel Marworno e Wagner Karipuna falaram sobre as mudanças inquietantes que seus territórios experimentam como consequência de decisões políticas, tanto nacionais quanto estrangeiras: o calor é cada vez mais intenso, os padrões de chuva estão mudando, as colheitas se perdem, os incêndios avançam mais rápido. O que haviam documentado ao longo do tempo com métodos tradicionais já não se cumpre. A mudança climática ameaça a sobrevivência de seus povos.
“Nosso território é uma extensão do que somos, assim como o são nossa espiritualidade e nossa economia; temos o dever de cuidar da natureza para que ela continue cuidando de nós”, disse Wagner Karipuna.
Uma forma de entender o mundo
Mais tarde, naquela mesma noite, os visitantes instalaram-se em um edifício residencial comunitário perto do rio. A estrutura de madeira ao ar livre erguia-se sobre a margem do rio; no segundo andar, sentia-se a brisa vinda da água.
Aimee Roberson, diretora executiva da ONG Cultural Survival, recostou-se em uma rede e observou o rio através do parapeito. Levava dois dias tentando assimilar como Sarayaku havia traduzido seus valores ancestrais em uma governança capaz de enfrentar governos e empresas.

Aimee Roberson, diretora executiva da Cultural Survival, faz uma pausa para um momento de reflexão em Sarayaku em 17 de agosto. Crédito: Katie Surma/Inside Climate News.
Roberson, que reside no Novo México, pertence à Nação Choctaw de Oklahoma e descende da Nação Chickasaw. Sua perspectiva sobre os muitos problemas enfrentados pelos povos indígenas é simultaneamente global e local. A Cultural Survival colabora com comunidades em todo o mundo e mantém estreitos vínculos com organizações de base. Ao contrário de Guisel Marworno e Wagner Karipuna, Roberson chegou a Sarayaku sem uma opinião definida sobre os direitos da natureza. Não tinha certeza do que eles podiam significar para os povos indígenas. Agora, porém, acredita que a abordagem da comunidade pode ter grande repercussão muito além de seu próprio território.
“O que Sarayaku está fazendo oferece a seus aliados — às pessoas que não são indígenas — uma forma de entender isso”, disse, com o olhar fixo nas árvores. Sentada quase no escuro, em um mundo abalado por crises ambientais, ela se sentia esperançosa.
Temos que encontrar uma forma de avançar em direção ao futuro que seja melhor do que a trajetória que seguimos atualmente. Sarayaku está nos mostrando que talvez ela exista.”
Este texto foi publicado em colaboração com a Inside Climate News.
Katie Surma é repórter da Inside Climate News, onde foca em direito e justiça ambiental internacional. Antes de se juntar ao ICN, exerceu a advocacia, especializando-se em litígios comerciais. Também escreveu para várias publicações, e suas reportagens já apareceram no Washington Post, USA Today, Chicago Tribune, Seattle Times e The Associated Press, entre outros. Katie tem mestrado em jornalismo investigativo pela Walter Cronkite School of Journalism and Mass Communication da Universidade Estadual do Arizona, um LLM em direito internacional e segurança pela Faculdade de Direito Sandra Day O’Connor da mesma universidade, um Juris Doctor (JD) pela Universidade Duquesne, e é bacharel em História da Arte e Arquitetura pela Universidade de Pittsburgh. Katie vive em Pittsburgh, na Pensilvânia, com seu marido, Jim Crowell.
Tradução, Revisão, Montagem de página e finalização: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón
