Tucumã: pertencimento, resistência, memórias e ontologias amazônidas
Dos quintais do Pará às mesas do Maranhão, Miguel Picanço investiga como o fruto da tucunzeira molda saberes ancestrais, curas populares e o sentido de ser Amazônia.

O banquete da existência. Na Amazônia, a comida é o fio que tece o tempo, unindo gerações sob a sombra das palmeiras e o brilho do tucumã.
Este ensaio é uma ode ao que nos sustenta e ao que nos define como território vivo. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
O tucumã (Astrocaryum vulgare) ou simplesmente tucum, como é popularmente conhecido pelos caboclos e caboclas, é muito mais que um fruto silvestre da Amazônia Atlântica paraense. Ele é símbolo de identidade, resistência e memória coletiva das populações que habitam naqueles territórios. Do cacho ao anel, do uso medicinal ao espiritual, o tucum representa a interseção viva entre natureza, cultura e memória.
Emaranhando o cotidiano das comunidades rurais, como as do nordeste do Pará, esse fruto carrega em si um repertório de saberes, sabores e práticas que marcam gerações. Da alimentação ao artesanato, do uso medicinal ao espiritual, o tucum está enraizado na cultura local de maneira profunda e multifacetada.
Historicamente, práticas associadas ao cultivo, colheita, preparo e consumo do tucum foram sendo transmitidas oralmente, consolidando um patrimônio imaterial que resiste o tempo e aos projetos que tendem a padronizar a vida e os gostos, inclusive alimentares. Personagens como dona Ana Rizete e dona Dolores, com suas narrativas e saberes tradicionais, são guardiãs dessa memória coletiva. O tucum, nesse contexto, não é apenas alimento: é história viva, é marca de pertencimento, é elo entre o passado e o presente.
![Diferentemente de Araí, no Maranhão, particularmente nas comunidades rurais como na de Barão de Tromaí – localizada no Município de Cândido Mendes, no nordeste daquele estado – ainda se come a iguaria. Por lá, o bicho tem nome próprio – Gongo - e ocupa lugar fulcral no gosto alimentar daquela gente. É o que afirma dona Maria Dolores:[...] quando o tucum envelhece, eles quebram a amêndoa, tiram o bicho e torram em uma frigideira. E, quando fica bem torradinho, pode pegar ele e salpicar no tempero: sal e limão e come. Tem gosto de tocinho, é muito gostoso" (Dolores, informação verbal, 2022). Maria Dolores é professora de língua portuguesa e nativa de Barão de Tromaí, onde vive ainda hoje. É mãe de Mary Pereira, que também é nativa do município e por lá viveu até os 14 anos de idade. Hoje, habita em Ananindeua, na região metropolitana de Belém e é professora doutora em Educação. Mary me contou que o tucumã ocupa um lugar especial em sua vida, que sua trajetória em Barão de Tromaí foi marcada pela intensa presença do fruto: Quando eu morava lá no Maranhão até os meus 14 anos, a gente se reunia a tarde, eu com minha mãe e meu pai e ele pegava um paneiro e um facão e íamos atrás do tucumã. Onde ele apanhava o tucumã e ele quebrava e a gente comia o miolinho verde. Era nosso lazer, nossa diversão e ao mesmo tempo nossa alimentação. Então, eu amava. Até hoje, toda vez que eu vou lá eu procuro onde tem tucumã pra eu comer. Eu gosto muito, é uma delícia. […] todo mundo na minha comunidade gosta do tucumã verde". (Pereira, informação verbal, 2022). Em relação ao Gongo, essa prática alimentar dos maranhenses é antiga e, por isso mesmo, constitui-se em importante ativador das memórias afetivas daquela gente, conforme pode ser notado nas narrativas do professor doutor e filósofo Lincol Serejo e de sua esposa, Josefa. […] Eu tenho lembranças de quando era menino, criança, até 12 anos, eu me lembro que eu ia com meu tio pro interior do Maranhão, mais precisamente, para um lugarejo chamado Santa Bárbara, na cidade de São Vicente de Ferrer. Me lembro que naquela época não havia energia elétrica, era a lamparina e às vezes nós íamos para a roça e eles tiravam o Gongo e eles comiam. A princípio, eu ficava meio assim, mais depois comecei a comer e gostei. Comíamos cru" (Serejo, informação verbal, 2022). Assim como Lincol, dona Josefa também teve experiências com o Gongo. Segundo ela, a iguaria era comida muito apreciada pelos moradores da comunidade de São José, no município de Itapecuru Mirim, no centro-oeste maranhense. Lá, quando criança, ela comia o Gongo frito com farinha de mandioca, o comia como farofa também. A iguaria era ordinariamente apreciada. Assim como no Maranhão, pelo Pará o tucumã continua a ativar as memórias afetivas, conforme pode ser notado no relato da paraense e professora Franciléia Martins: Eu lembro que quando nos íamos visitar o vovô Tiago, o pai da minha mãe, que morava lá em São Miguel do Guamá. Então, ele morava literalmente dentro do mato. Então nos descíamos na beira da pista e tínhamos que entrar na mata até chegar na casa do vovô e pelo meio do caminho ia catando as frutas, e uma delas era o tucumã". (Martins, informação verbal, 2022). O valor do tucum vai além de sua função alimentar. Estudos científicos apontam seus benefícios à saúde, tendo em vista que é rico em ômega 3, vitaminas A, B1 e C, cálcio e proteínas. Seu uso se expandiu para a indústria cosmética, resultando em cremes e produtos capilares. Além disso, de sua amêndoa produz-se biojoias, como anéis — artefatos impregnados de forte simbolismo histórico e cultural. Os anéis de tucum são tomados de histórias e carga simbólica: Também conhecido como anel de coquinho, anel de coco e tucum, o surgimento do acessório e seu material representa muitos significados há muitas décadas atrás. A história inicial do anel de tucum nasce no tempo do Império do Brasil, com início no século XIX. Na época, a realeza usava jóias de metais e ouro, enquanto que escravos e indígenas criaram o chamado anel de tucum. Os senhores de engenho e as sinhás, em seus matrimônios usavam anéis de ouro, mas os escravos o faziam com o anel de tucum" (Pinheiro, 2021). Na década de 1960, com a Teologia da Libertação, o anel ganhou novo significado como símbolo da fé cristã. Mais recentemente, passou a ser adotado como um marcador de identidade LGBTQIA+, sendo usado, por exemplo, no polegar por mulheres lésbicas (Pinheiro, 2021). O tucumã como território comestível; uma breve mirada antropológica Na colheita partilhada, o fruto deixa de ser apenas alimento para se tornar o veículo de um saber ancestral que se renova nas mãos de quem cresce com o pé no chão da floresta. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude. Cabe situar o tucumã no campo da Antropologia da Alimentação, o que implica compreendê-lo para além de sua dimensão botânica ou nutricional. O fruto da palmeira Astrocaryum vulgare emerge como operador simbólico, marcador de pertencimento e mediador de relações sociais. Conforme argumentam Fischler (2011) e Contreras (2011), comer é um ato biocultural: alimenta-se o corpo, mas igualmente se alimentam identidades, memórias e sistemas classificatórios. Nesse horizonte, o tucumã constitui-se como “comida identitária”, pois sua ingestão reafirma vínculos com o território amazônida e com uma história coletiva compartilhada. As narrativas de dona Ana Rizete, dona Dolores e demais interlocutores evidenciam aquilo que Mintz (2003) denominou de “significado social do alimento”. O tucum não é apenas recurso alimentar de subsistência; ele organiza experiências, temporalidades (“antigamente”), práticas de transmissão intergeracional e modos específicos de manejo da natureza. O empalhamento, o enterramento e a feitura do vinho configuram técnicas socialmente aprendidas, inscritas em saberes tradicionais que articulam conhecimento ecológico local e experiência sensível. Trata-se, portanto, de um sistema culinário situado, que integra coleta, transformação, consumo e memória. Ao mesmo tempo, o tucumã participa da construção de uma ecologia das práticas, no sentido proposto por Ingold (2015). O fruto não é um objeto passivo explorado por sujeitos humanos; ele integra uma malha de relações que envolve pessoas, animais, insetos, solo, clima e temporalidade. A larva (gongo), os porcos que se alimentam sob as tucunzeiras, a fumaça dos caroços queimados para afastar carapanãs — todos esses elementos compõem um campo relacional no qual natureza e cultura não se apresentam como domínios apartados. O tucum, nesse sentido, não apenas “está” no território; ele participa ativamente da tessitura da vida amazônica. A Antropologia da Alimentação também ajuda a compreender os sistemas de classificação envolvidos nas práticas descritas. Como argumenta Douglas (1991), os alimentos são organizados segundo esquemas simbólicos que definem pureza, perigo e comestibilidade. O “bicho do tucum” ou gongo, por exemplo, revela a relatividade cultural do gosto. O que para alguns pode causar estranhamento, para as comunidades de Barão de Tromaí ou São José constitui iguaria valorizada e ordinária. Tal aspecto dialoga ainda com a reflexão de Bourdieu (2007) sobre o gosto como construção social: preferências alimentares expressam trajetórias, hábitos e pertencimentos de classe e território. No caso do X-caboquinho, reconhecido como patrimônio cultural de Manaus e amplamente difundido no Amazonas, observa-se a transição do tucum de alimento rural de subsistência a ícone gastronômico urbano. O sanduíche, típico das terras manauaras, exemplifica aquilo que Contreras e Gracia (2011) chamam de processos de patrimonialização alimentar, nos quais práticas locais passam a ser reinterpretadas como símbolos de identidade regional. O tucum, nesse contexto, circula entre o quintal, a feira e o mercado turístico, reafirmando sua capacidade de reinvenção. Outro aspecto fundamental refere-se ao anel de tucum. Enquanto artefato produzido a partir da amêndoa do fruto, ele condensa dimensões históricas e políticas. Durante o Império, contrapôs-se simbolicamente aos anéis de ouro da elite; na década de 1960, foi ressignificado pela Teologia da Libertação como sinal de compromisso com os pobres; mais recentemente, tornou-se marcador identitário em diferentes movimentos sociais. Aqui, o tucum extrapola o campo alimentar e transforma-se em signo político, evidenciando que os alimentos — e seus derivados — participam da produção de imaginários coletivos. Do ponto de vista da memória, este texto dialoga com a noção de “memória gustativa” explorada por Fischler (2011): os sabores são poderosos ativadores de lembranças e pertencimentos. As cenas de infância — catar tucum no caminho para a casa do avô, beber água do cacho verde, comer vinho com farinha — configuram verdadeiros arquivos sensoriais. Comer tucum é, portanto, atualizar uma territorialidade vivida. A comida opera como dispositivo de rememoração e continuidade identitária. Ademais, o relato evidencia a multifuncionalidade do fruto: alimento humano e animal, remédio fitoterápico, cosmético, matéria-prima para biojoias e instrumento arquitetônico (esteio, cerca). Essa integralidade de usos remete a economias morais da floresta, em que o aproveitamento total do recurso expressa ética de cuidado e reciprocidade com o ambiente. Tal perspectiva distancia-se da lógica extrativista predatória e aproxima-se de cosmologias nas quais a floresta é parceira, não mera fonte de matéria-prima. Assim, à luz da Antropologia da Alimentação, o tucumã revela-se cultura alimentar da Amazônia porque articula três dimensões fundamentais: (1) sistema de saberes e técnicas transmitidos oralmente; (2) marcador identitário e afetivo que vincula pessoas ao território; e (3) objeto simbólico capaz de circular entre o rural e o urbano, entre a subsistência e o patrimônio, entre o alimento e o artefato político. Ele constitui, portanto, um patrimônio vivo, cuja força reside não apenas em seus valores nutricionais, mas na densidade de sentidos que produz. Refletir sobre o tucum é, em última instância, refletir sobre a própria Amazônia enquanto territorialidade vivida. Através dele, observa-se como natureza, cultura e memória se entrelaçam numa mesma trama relacional. Alimentar-se de tucum é alimentar-se de história, de ancestralidade e de pertencimento. É nesse movimento que o fruto se consagra como expressão emblemática da cultura alimentar amazônica. Entre as frutas amazônidas, o tucum ocupa um lugar de destaque nas minhas memórias afetivas. Na comunidade de Araí, onde vivi até os doze anos de idade, muitas vezes o tucum foi nosso único alimento. Degustava-o com farinha ou com mingau de farinha lavada. Mas minha preferência sempre foi o vinho de tucum, com muita farinha. Sempre que retorno à minha terra, durante o inverno amazônida, embrenho-me na mata à sua procura. A trajetória do tucum pelas trilhas amazônidas e maranhenses é, também, a trajetória das populações que dele fizeram — e continuam fazendo — um elemento central de suas vidas. Sua presença constante nas feiras, nos quintais, nas panelas e nas lembranças das pessoas revela o quanto o fruto é mais que um recurso natural: é um marcador cultural e afetivo. O tucum atravessa o tempo como símbolo de resistência, abundância e reinvenção. As práticas que envolvem o tucum — do empalhamento ao vinho, do X-caboquinho ao óleo do bicho — demonstram o potencial desse fruto como eixo integrador entre saberes tradicionais e possibilidades contemporâneas. Além de suas propriedades nutricionais e medicinais, sua força simbólica e estética ecoa em movimentos sociais, na produção de biojoias e na afirmação de identidades diversas. É essa capacidade de gerar sentidos que torna o tucum um patrimônio vivo da Amazônia. Por fim, ao refletir sobre o tucum, também se reflete sobre o valor da memória, da oralidade e da ancestralidade. Preservar o conhecimento sobre o tucum é, em última instância, preservar modos de vida, resistências históricas e visões de mundo que desafiam a lógica da homogeneização cultural. O tucum nos ensina que alimentar o corpo é também alimentar a alma — com história, com afeto e com pertencimento.](https://www.amazonialatitude.com/wp-content/uploads/2026/03/A-Astrocaryum-vulgare-ergue-se-imponente-protegida-pelos-espinhos-que-deram-origem-ao-seu-nome-tupi-e-que-historicamente-serviram-como-ferramenta-de-costura-para-os-povos-originarios.webp)
A Astrocaryum vulgare ergue-se imponente, protegida pelos espinhos que deram origem ao seu nome tupi e que, historicamente, serviram como ferramenta de costura para os povos originários. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.
Do cacho ao anel: itinerâncias territoriais e culturais do tucumã
A origem etimológica do termo tucum “[…] deriva do idioma tupi e significa ‘agulha para costura’. A espécie recebe esse nome porque os indígenas brasileiros utilizavam seus espinhos para costurar” (Pinheiro, 2021). Fruto da tucunzeira, Astrocaryum vulgare, palmeira amazônida, que pode alcançar até dez metros de altura, possui caule e folhas repletos de espinhos, e produz cachos com inúmeros frutos ovoides.
Segundo dona Ana Rizete, natural da comunidade de Araí, em Urumajó, nordeste do Pará, residente em Ananindeua há mais de três décadas, existem dois tipos principais de tucum: o vermelho/laranja e o cará. Este último, diferentemente do primeiro, possui coloração amarelada e, conforme relata, sabor marcante. Para ela, é “mais doce que o vermelho, mais apreciado e mais raro”.

A sociobiodiversidade da palmeira em cores à esquerda, o tucum cará, com sua coloração amarelada, sabor doce e raridade; à direita, o tucum vermelholaranja, mais comum e vibrante. Foto Miguel PicançoAmazônia Latitude.
Independentemente da variedade, é inegável a centralidade do fruto na vida cotidiana das populações do Norte do Brasil, especialmente nas comunidades rurais da Amazônia Atlântica, onde se destaca não apenas como alimento, mas também como símbolo cultural e identitário.
O tucumã é notável entre os frutos amazônidas pelo sabor inconfundível, mas também, como mencionado, pela tonalidade singular, que transita entre o amarelo e o vermelho/laranja. Essa coloração intensa não só embeleza as florestas e estradas dos territórios amazônidas, como também colore feiras e mesas locais. Para além da estética, o tucumã é um fruto saboroso, versátil e essencial no repertório alimentar dessas bandas do norte brasileiro.
Com polpa fibrosa e pegajosa, pode ser consumido de diversas formas: in natura, em sucos, vinhos, saladas, tapiocas e, notadamente, no famoso sanduíche manauara, o X-caboquinho. Essa iguaria é tão valorizada na capital amazonense que, em 2019, foi reconhecida como Patrimônio Cultural e Imaterial de Manaus.
Conforme observa-se na fotografia, os ingredientes do X-caboquinho são:
- Lascas de tucumã
- Queijo coalho
- Banana pacovã madura
- Manteiga
O preparo consiste em fritar as fatias de banana pacovã, derreter o queijo coalho, dourar o pão na manteiga, e, por fim, montar o sanduíche com queijo, banana e tucumã. Cabe ressaltar que o X-Caboquinho, também pode ser feito de goma de mandioca, como uma tapioca, potencializando assim sua carga ancestral.

O encontro de duas ancestralidades: a goma da mandioca e a polpa da palmeira. Quando o tucumã recheia a tapioca, o rito do café da manhã reafirma territórios que precedem a própria ideia de cidade. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.
Tal como em Manaus, nas comunidades rurais da Amazônia Atlântica, o tucum continua sendo amplamente consumido, dada sua multifuncionalidade. Dona Ana Rizete (2022) relata:
Pra mim, o tucum ou tucumã, no nosso interior nós conhecemos como tucum, é um dos alimentos mais completos de nossa região. Antigamente, nós matávamos a fome com ele. E dele se aproveitava de tudo. Começando pela árvore que servia de esteio, que as pessoas tiravam para levantar casas, ranchos e pra fazer cercas.”
A expressão “antigamente” refere-se ao período entre as décadas de 1970 e 1980, quando dona Ana ainda era menina em Araí. O tucum era utilizado desde o cacho verde: extraía-se a água de dentro do fruto, apreciada principalmente por crianças.
Cortávamos o cacho e ficávamos sentados na beira do caminho tomando água de tucum. Antes de amadurecer, também partíamos o tucum para comer a polpa. Na época, chamávamos de ‘catarro do tucum’, muito gostoso, por sinal” (Rizete, informação verbal, 2022).
Após amadurecido, o tucum era consumido com farinha de mandioca ou com mingau.

A tríade do cotidiano: o tucumã recém-lascado, a crocância da farinha d’água e o café quente. Um rito de comensalidade que organiza as manhãs e sustenta o corpo para o trabalho no roçado ou na cidade. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Conforto e território. A combinação do tucumã com o mingau representa a doçura e a sustância da mesa amazônida, onde o tempo da natureza dita o que se põe na tigela. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.
Os frutos podiam ser colhidos do chão, já amolecidos, ou “amaciados” em casa, por dois métodos tradicionais: empalhamento e enterramento. No empalhamento, segundo dona Ana, “forrava-se um paneiro com folhas de guarumã1Guraumã: Ischnosiphon arouma, planta nativa das Amazônias, socioculturalmente utilizada na arte de traçar e tecer paneiros, tipitis, peneiras, etc., colocávamos os tucuns, fechávamos o paneiro e deixávamos em um canto da casa. Uma semana depois, estavam prontos para o consumo”.
O processo de enterramento, por sua vez, tinha como finalidade produzir o tucum vinhoso, ideal para o preparo do vinho. Após enterrado por cerca de uma semana, o fruto adquiria o ponto ideal de fermentação.
Importa saber que o tucum se encontra vinhoso quando está quase em um estado inicial de apodrecimento. Esta é uma condição própria para a feitura do vinho, o qual se fazia assim:
Raspava-se a fibra do fruto com uma colher, inclusive com a casca, depois colocava em uma vasilha, como um alguidar, com um pouco de água. E com as próprias mãos ia-se amassado as fibras até que a polpa se separasse do caroço e do bagaço, como chamávamos. Depois desse processo, colocava-se mais água, coava-se em uma peneira, para posteriormente adoçá-lo com açúcar, a gosto. Pronto, o vinho estava pronto e era degustado com farinha de mandioca” (Rizete, informação verbal, 2022).
Dona Ana relembra a figura de tia Macina, reconhecida como profunda conhecedora dos saberes tradicionais do tucum, sendo referência no empalhamento e enterramento do fruto.
O tucum também nutria os animais. Aves recebiam a polpa cortada, e porcos se alimentavam diretamente do fruto caído sob as tucunzeiras. Os caroços, por sua vez, eram queimados no inverno para espantar insetos como as carapanãs2Carapanã: Culex quinquefasciatus, carapanã” é um nome popular e pode se referir a diferentes espécies de mosquitos, especialmente dos gêneros: Culex, Anopheles, Aedes.. “Depois de consumir, guardávamos os caroços. À noite, queimávamos dentro de um caqueiro e a fumaça afugentava os insetos” (Rizete, informação verbal, 2022).
Para além de fonte de fumaça, dos caroços do fruto, quando quase apodrecidos, nasce uma larva conhecida como bicho do tucum.

O “bicho do coco” é um pilar da segurança alimentar em territórios tradicionais. Ele simboliza uma inteligência de manejo que não desperdiça e que encontra na biodiversidade a resposta para a subsistência. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

O ciclo da palmeira não termina no consumo da polpa. O bicho-do-tucumã, larva que se desenvolve no interior do endocarpo rígido, é uma fonte histórica e vital de proteína e gordura para comunidades tradicionais da Amazônia. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

A mão ribeirinha não apenas segura; ela reconhece o tempo exato da metamorfose. Esta imagem materializa a “pedagogia da lasca”, um saber manual que entende o ciclo da palmeira e transforma o gorgulho em alimento nobre. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.
Era de costume dos araienses coletar os referidos bichos e levá-los ao fogo em uma frigideira. À medida em que iam sendo fritos, emanavam um óleo, usado principalmente para hidratação capilar, especialmente nos cabelos das mulheres. O óleo deixava os cabelos sedosos, brilhosos e bonitos, como explica dona Ana e reforça dona Júlia Ribeiro, que também reconhece suas propriedades fitoterápicas.
A minha mãe não fica sem o óleo do bicho do tucum. Ela dizia que era bom para curar as dores nas pernas, nas veias, era bom para reumatismo. Quando alguém sofria algum baque, fazia massagem com o óleo pra sarar” (Ribeiro, informação verbal, 2022).
Afora isso, os bichos de tucum constituíam-se em uma saborosa iguaria muito apreciada, uma vez que depois de fritos e da retirada do óleo, eles ficavam como um torresmo. Na atualidade essa prática alimentar mantém-se apenas nas memórias dos mais antigos de Araí, não se come mais torresmos do bicho do tucum. Contudo, ele continua “povoando” os repertórios alimentares dos paraenses, particularmente daqueles de alguns territórios marajoaras os quais compartilham o gosto pela farofa do bicho.

A comida cabocla não é folclore; é a prova de um sistema de vida que entende a floresta como despensa e templo. O tucumã personifica a autonomia de um povo que colhe, cria e resiste. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.
Diferentemente de Araí, no Maranhão, particularmente nas comunidades rurais como na de Barão de Tromaí – localizada no Município de Cândido Mendes, no nordeste daquele estado – ainda se come a iguaria. Por lá, o bicho tem nome próprio – Gongo – e ocupa lugar fulcral no gosto alimentar daquela gente. É o que afirma dona Maria Dolores:
[…] quando o tucum envelhece, eles quebram a amêndoa, tiram o bicho e torram em uma frigideira. E, quando fica bem torradinho, pode pegar ele e salpicar no tempero: sal e limão e come. Tem gosto de tocinho, é muito gostoso” (Dolores, informação verbal, 2022).
Maria Dolores é professora de língua portuguesa e nativa de Barão de Tromaí, onde vive ainda hoje. É mãe de Mary Pereira, que também é nativa do município e por lá viveu até os 14 anos de idade. Hoje, habita em Ananindeua, na região metropolitana de Belém e é professora doutora em Educação. Mary me contou que o tucumã ocupa um lugar especial em sua vida, que sua trajetória em Barão de Tromaí foi marcada pela intensa presença do fruto:
Quando eu morava lá no Maranhão até os meus 14 anos, a gente se reunia a tarde, eu com minha mãe e meu pai e ele pegava um paneiro e um facão e íamos atrás do tucumã. Onde ele apanhava o tucumã e ele quebrava e a gente comia o miolinho verde. Era nosso lazer, nossa diversão e ao mesmo tempo nossa alimentação. Então, eu amava. Até hoje, toda vez que eu vou lá eu procuro onde tem tucumã pra eu comer. Eu gosto muito, é uma delícia. […] todo mundo na minha comunidade gosta do tucumã verde”. (Pereira, informação verbal, 2022).
Em relação ao Gongo, essa prática alimentar dos maranhenses é antiga e, por isso mesmo, constitui-se em importante ativador das memórias afetivas daquela gente, conforme pode ser notado nas narrativas do professor doutor e filósofo Lincol Serejo e de sua esposa, Josefa.
[…] Eu tenho lembranças de quando era menino, criança, até 12 anos, eu me lembro que eu ia com meu tio pro interior do Maranhão, mais precisamente, para um lugarejo chamado Santa Bárbara, na cidade de São Vicente de Ferrer. Me lembro que naquela época não havia energia elétrica, era a lamparina e às vezes nós íamos para a roça e eles tiravam o Gongo e eles comiam. A princípio, eu ficava meio assim, mais depois comecei a comer e gostei. Comíamos cru” (Serejo, informação verbal, 2022).
Assim como Lincol, dona Josefa também teve experiências com o Gongo. Segundo ela, a iguaria era comida muito apreciada pelos moradores da comunidade de São José, no município de Itapecuru Mirim, no centro-oeste maranhense. Lá, quando criança, ela comia o Gongo frito com farinha de mandioca, o comia como farofa também. A iguaria era ordinariamente apreciada.
Assim como no Maranhão, pelo Pará o tucumã continua a ativar as memórias afetivas, conforme pode ser notado no relato da paraense e professora Franciléia Martins:
Eu lembro que quando nos íamos visitar o vovô Tiago, o pai da minha mãe, que morava lá em São Miguel do Guamá. Então, ele morava literalmente dentro do mato. Então nos descíamos na beira da pista e tínhamos que entrar na mata até chegar na casa do vovô e pelo meio do caminho ia catando as frutas, e uma delas era o tucumã”. (Martins, informação verbal, 2022).
O valor do tucum vai além de sua função alimentar. Estudos científicos apontam seus benefícios à saúde, tendo em vista que é rico em ômega 3, vitaminas A, B1 e C, cálcio e proteínas. Seu uso se expandiu para a indústria cosmética, resultando em cremes e produtos capilares. Além disso, de sua amêndoa produz-se biojoias, como anéis — artefatos impregnados de forte simbolismo histórico e cultural.
Os anéis de tucum são tomados de histórias e carga simbólica:
Também conhecido como anel de coquinho, anel de coco e tucum, o surgimento do acessório e seu material representa muitos significados há muitas décadas atrás. A história inicial do anel de tucum nasce no tempo do Império do Brasil, com início no século XIX. Na época, a realeza usava jóias de metais e ouro, enquanto que escravos e indígenas criaram o chamado anel de tucum. Os senhores de engenho e as sinhás, em seus matrimônios usavam anéis de ouro, mas os escravos o faziam com o anel de tucum” (Pinheiro, 2021).
Na década de 1960, com a Teologia da Libertação, o anel ganhou novo significado como símbolo da fé cristã. Mais recentemente, passou a ser adotado como um marcador de identidade LGBTQIA+, sendo usado, por exemplo, no polegar por mulheres lésbicas (Pinheiro, 2021).
O tucumã como território comestível; uma breve mirada antropológica

Na colheita partilhada, o fruto deixa de ser apenas alimento para se tornar o veículo de um saber ancestral que se renova nas mãos de quem cresce com o pé no chão da floresta. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.
Cabe situar o tucumã no campo da Antropologia da Alimentação, o que implica compreendê-lo para além de sua dimensão botânica ou nutricional. O fruto da palmeira Astrocaryum vulgare emerge como operador simbólico, marcador de pertencimento e mediador de relações sociais. Conforme argumentam Fischler (2011) e Contreras (2011), comer é um ato biocultural: alimenta-se o corpo, mas igualmente se alimentam identidades, memórias e sistemas classificatórios. Nesse horizonte, o tucumã constitui-se como “comida identitária”, pois sua ingestão reafirma vínculos com o território amazônida e com uma história coletiva compartilhada.
As narrativas de dona Ana Rizete, dona Dolores e demais interlocutores evidenciam aquilo que Mintz (2003) denominou de “significado social do alimento”. O tucum não é apenas recurso alimentar de subsistência; ele organiza experiências, temporalidades (“antigamente”), práticas de transmissão intergeracional e modos específicos de manejo da natureza.
O empalhamento, o enterramento e a feitura do vinho configuram técnicas socialmente aprendidas, inscritas em saberes tradicionais que articulam conhecimento ecológico local e experiência sensível. Trata-se, portanto, de um sistema culinário situado, que integra coleta, transformação, consumo e memória.
Ao mesmo tempo, o tucumã participa da construção de uma ecologia das práticas, no sentido proposto por Ingold (2015). O fruto não é um objeto passivo explorado por sujeitos humanos; ele integra uma malha de relações que envolve pessoas, animais, insetos, solo, clima e temporalidade. A larva (gongo), os porcos que se alimentam sob as tucunzeiras, a fumaça dos caroços queimados para afastar carapanãs — todos esses elementos compõem um campo relacional no qual natureza e cultura não se apresentam como domínios apartados. O tucum, nesse sentido, não apenas “está” no território; ele participa ativamente da tessitura da vida amazônica.
A Antropologia da Alimentação também ajuda a compreender os sistemas de classificação envolvidos nas práticas descritas. Como argumenta Douglas (1991), os alimentos são organizados segundo esquemas simbólicos que definem pureza, perigo e comestibilidade. O “bicho do tucum” ou gongo, por exemplo, revela a relatividade cultural do gosto. O que para alguns pode causar estranhamento, para as comunidades de Barão de Tromaí ou São José constitui iguaria valorizada e ordinária. Tal aspecto dialoga ainda com a reflexão de Bourdieu (2007) sobre o gosto como construção social: preferências alimentares expressam trajetórias, hábitos e pertencimentos de classe e território.
No caso do X-caboquinho, reconhecido como patrimônio cultural de Manaus e amplamente difundido no Amazonas, observa-se a transição do tucum de alimento rural de subsistência a ícone gastronômico urbano. O sanduíche, típico das terras manauaras, exemplifica aquilo que Contreras e Gracia (2011) chamam de processos de patrimonialização alimentar, nos quais práticas locais passam a ser reinterpretadas como símbolos de identidade regional. O tucum, nesse contexto, circula entre o quintal, a feira e o mercado turístico, reafirmando sua capacidade de reinvenção.

Reconhecido como patrimônio cultural de Manaus, o X-Caboquinho é a síntese da transição do tucumã do quintal para a mesa urbana. Onde o queijo coalho e a banana pacovã encontram o “ouro alaranjado” da palmeira. Foto: Turismo Aqui via Youtube.
Outro aspecto fundamental refere-se ao anel de tucum. Enquanto artefato produzido a partir da amêndoa do fruto, ele condensa dimensões históricas e políticas. Durante o Império, contrapôs-se simbolicamente aos anéis de ouro da elite; na década de 1960, foi ressignificado pela Teologia da Libertação como sinal de compromisso com os pobres; mais recentemente, tornou-se marcador identitário em diferentes movimentos sociais. Aqui, o tucum extrapola o campo alimentar e transforma-se em signo político, evidenciando que os alimentos — e seus derivados — participam da produção de imaginários coletivos.
Do ponto de vista da memória, este texto dialoga com a noção de “memória gustativa” explorada por Fischler (2011): os sabores são poderosos ativadores de lembranças e pertencimentos. As cenas de infância — catar tucum no caminho para a casa do avô, beber água do cacho verde, comer vinho com farinha — configuram verdadeiros arquivos sensoriais. Comer tucum é, portanto, atualizar uma territorialidade vivida. A comida opera como dispositivo de rememoração e continuidade identitária.
Ademais, o relato evidencia a multifuncionalidade do fruto: alimento humano e animal, remédio fitoterápico, cosmético, matéria-prima para biojoias e instrumento arquitetônico (esteio, cerca). Essa integralidade de usos remete a economias morais da floresta, em que o aproveitamento total do recurso expressa ética de cuidado e reciprocidade com o ambiente. Tal perspectiva distancia-se da lógica extrativista predatória e aproxima-se de cosmologias nas quais a floresta é parceira, não mera fonte de matéria-prima.
Assim, à luz da Antropologia da Alimentação, o tucumã revela-se cultura alimentar da Amazônia porque articula três dimensões fundamentais: (1) sistema de saberes e técnicas transmitidos oralmente; (2) marcador identitário e afetivo que vincula pessoas ao território; e (3) objeto simbólico capaz de circular entre o rural e o urbano, entre a subsistência e o patrimônio, entre o alimento e o artefato político. Ele constitui, portanto, um patrimônio vivo, cuja força reside não apenas em seus valores nutricionais, mas na densidade de sentidos que produz.
Refletir sobre o tucum é, em última instância, refletir sobre a própria Amazônia enquanto territorialidade vivida. Através dele, observa-se como natureza, cultura e memória se entrelaçam numa mesma trama relacional. Alimentar-se de tucum é alimentar-se de história, de ancestralidade e de pertencimento. É nesse movimento que o fruto se consagra como expressão emblemática da cultura alimentar amazônica.
Entre as frutas amazônidas, o tucum ocupa um lugar de destaque nas minhas memórias afetivas. Na comunidade de Araí, onde vivi até os doze anos de idade, muitas vezes o tucum foi nosso único alimento. Degustava-o com farinha ou com mingau de farinha lavada. Mas minha preferência sempre foi o vinho de tucum, com muita farinha. Sempre que retorno à minha terra, durante o inverno amazônida, embrenho-me na mata à sua procura.
A trajetória do tucum pelas trilhas amazônidas e maranhenses é, também, a trajetória das populações que dele fizeram — e continuam fazendo — um elemento central de suas vidas. Sua presença constante nas feiras, nos quintais, nas panelas e nas lembranças das pessoas revela o quanto o fruto é mais que um recurso natural: é um marcador cultural e afetivo. O tucum atravessa o tempo como símbolo de resistência, abundância e reinvenção.
As práticas que envolvem o tucum — do empalhamento ao vinho, do X-caboquinho ao óleo do bicho — demonstram o potencial desse fruto como eixo integrador entre saberes tradicionais e possibilidades contemporâneas. Além de suas propriedades nutricionais e medicinais, sua força simbólica e estética ecoa em movimentos sociais, na produção de biojoias e na afirmação de identidades diversas. É essa capacidade de gerar sentidos que torna o tucum um patrimônio vivo da Amazônia.
Por fim, ao refletir sobre o tucum, também se reflete sobre o valor da memória, da oralidade e da ancestralidade. Preservar o conhecimento sobre o tucum é, em última instância, preservar modos de vida, resistências históricas e visões de mundo que desafiam a lógica da homogeneização cultural. O tucum nos ensina que alimentar o corpo é também alimentar a alma — com história, com afeto e com pertencimento.
Referências
Texto: Miguel Picanço
Arte: Fabrício Vinhas
Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón
