Ficar ou partir: a escolha que redesenha os territórios amazônicos
Entre partir, ficar e voltar, jovens da Amazônia reconfiguram seus caminhos — e os territórios que deixam para trás

Gabriel Reis em São João de Pirabas (PA). Filho de pescador, migrou para Belém em busca de trabalho, refletindo as
mudanças nas trajetórias de jovens na Amazônia. Foto: Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.
Mamãe, eu vou embora.”
Não é uma frase que se diz de repente. É daquelas que ficam embuchadas na garganta, como farinha d’água seca, que custa a descer.
Ela vai sendo construída em silêncio, entre a falta de oportunidade, o desejo de “melhorar de vida” e a sensação de que o futuro está em outro lugar. Quando finalmente sai, já carrega uma decisão difícil: partir sem saber exatamente o que se vai encontrar, e o que se deixa para trás.
Em São João de Pirabas, município paraense, a decisão de partir nunca é individual. Ela atravessa casas, silêncios e rotinas que precisam se reorganizar na ausência.
Socorro Santa Brígida, apicultora e mãe de Thiago, lembra que a saída do filho foi marcada por uma mistura de sentimentos. “Foi uma mudança de tristeza e surpresa. A gente nunca tinha se separado. Deu uma dor no coração.”
A ausência, segundo ela, não se limitava à distância física. “Era uma saudade intensa. Da rotina, das conversas… uma sensação de ninho vazio. Foi difícil se acostumar.”
Mesmo diante do impacto, o apoio à decisão veio acompanhado de expectativa. “Foi difícil, mas era pra melhora dele. A gente sempre foi muito próximo, se falava de tudo.”
Durante o período em que o filho esteve fora, a preocupação era constante. “Eu imaginava como era a vida dele lá. Morando sozinho, distante da família… pra mim era complicado”, desabafa. O retorno, por outro lado, foi vivido como alívio.
Quando ele decidiu voltar, foi uma alegria. Ele vinha pra perto da gente. Todo mundo ficou feliz.”
O retorno de Thiago reúne gerações em torno da mesma casa, mas não apaga as marcas do tempo fora. Foto: Acervo pessoal.
Nem todos, no entanto, seguem o caminho da partida. Victor Manuel Fonseca, de 26 anos, mora em Santarém Novo, município vizinho. Como muitos jovens da região, ele já considerou sair. Mas decidiu permanecer.
Eu já pensei várias vezes em ir embora em busca de oportunidade. Mas não é fácil. Pra sair, a gente precisa deixar a família, deixar tudo.”
Quando o futuro parece estar fora
Em muitos territórios da Amazônia, essa decisão não é excepcional, é recorrente. Jovens saem em busca de trabalho, estudo ou simplesmente de uma possibilidade de futuro que parece não caber onde cresceram. A saída não acontece apenas por falta de renda, mas por um conjunto de limitações estruturais: infraestrutura precária, poucas oportunidades de qualificação, acesso limitado a serviços básicos.
Dados do Censo Agropecuário de 2017, do IBGE, já indicavam transformações no perfil da população rural brasileira, com redução da presença de jovens na gestão das propriedades e mudanças na dinâmica de sucessão.
Ao mesmo tempo, a permanência se torna cada vez mais difícil de sustentar como projeto de vida. A expansão da conectividade intensifica esse processo: o jovem passa a consumir, em tempo real, imagens de outros modos de vida, outras possibilidades de renda, outras formas de reconhecimento.
Entre o cotidiano que vive e o mundo que vê, abre-se uma distância que nem sempre é possível atravessar permanecendo. Esse movimento pode ser compreendido à luz do que Milton Santos descreve como desigualdade na produção do espaço, em que diferentes territórios oferecem condições desiguais de acesso a trabalho, renda e infraestrutura, fazendo com que a mobilidade deixe de ser apenas escolha e passe a ser, muitas vezes, necessidade.
Essa desigualdade também aparece de forma concreta no mercado de trabalho. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE mostram que, no 4º trimestre de 2025, estados de origem desses fluxos apresentavam níveis elevados de informalidade: 57,3% no Maranhão e 56,7% no Pará, enquanto em destinos recorrentes, como Santa Catarina, esse índice era de 25,7%. O contraste ajuda a explicar por que, para muitos jovens, permanecer deixa de ser uma opção viável.

O contraste entre os níveis de informalidade revela dinâmicas estruturais que orientam os fluxos migratórios entre territórios com menor oferta de trabalho formal e regiões que concentram oportunidades. Arte: Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.
Somado à isso, estudos sobre juventude rural no Brasil, como os desenvolvidos pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), indicam que a permanência no campo está diretamente ligada a condições concretas de vida, como trabalho, renda, acesso à terra, educação e políticas públicas, mostrando que permanecer no território não depende apenas da vontade, mas das condições que tornam essa permanência possível.
Chegar não é simples
A ideia de que “fora” há melhores condições de vida também faz parte desse movimento. Em muitos casos, há, de fato, mais possibilidades de renda. Mas o que nem sempre aparece no cálculo é o custo de vida, a precariedade inicial e o tempo necessário para construir alguma estabilidade.
Ao sair, muitos jovens encontram um cenário contrastante ao que imaginaram. O acesso a mais oportunidades pode vir acompanhado de custos mais altos, relações mais distantes e uma sensação constante de deslocamento.
Em cidades onde não têm família, rede de apoio ou referências próximas, a adaptação nem sempre é simples. Há, ainda, um outro tipo de enfrentamento, mais silencioso, mas igualmente presente: o estranhamento cultural.
A forma de falar, os hábitos e a origem passam a funcionar como marcadores de diferença. Não são raros os relatos de jovens do Norte que, ao migrarem, enfrentam comentários sobre o sotaque, expressões regionais ou modos de viver. Em redes sociais e reportagens, denúncias de preconceito linguístico e regional evidenciam como essas diferenças são frequentemente transformadas em estigma.
Tradição, trabalho e ruptura geracional
A adaptação a outras localidades envolve mais do que encontrar trabalho. Ela exige lidar com formas de viver, falar e se relacionar que nem sempre dialogam com aquilo que foi aprendido desde cedo.
Essa adaptação não acontece apenas no trabalho, ela atravessa o corpo. O que se ouve muda. O que se come muda. O que se fala também.
O carimbó e o tecnobrega vão ficando para trás, enquanto outros ritmos ocupam o cotidiano, como o samba, o sertanejo ou o vanerão. O açaí, que em muitos territórios organiza a própria refeição, passa a ocupar o lugar de sobremesa. Preparos como o tacacá deixam de fazer parte do dia a dia, substituídos por outros sabores, outras rotinas, outras formas de viver.
Não é só uma troca. É um deslocamento de referências. Palavras que fazem sentido no território, palavras que dizem mais do que dizem, perdem espessura fora dele. Como se parte do mundo que elas carregam só pudesse existir plenamente mais perto da linha do Equador.
Na antropologia amazônica, autores como Eduardo Viveiros de Castro (2002) ajudam a pensar o território não apenas como espaço físico, mas como um conjunto de relações, práticas e modos de existir. Fora dele, não é apenas o corpo que se desloca, é o próprio mundo que precisa ser reorganizado.
Expressões como “muão”, “avuado”, “rancho”, “mermã”, “nam” passam a soar quase como língua estrangeira dentro do próprio país, não porque deixem de existir, mas porque deixam de circular com o mesmo sentido, no mesmo ritmo, no mesmo corpo.
Essa ruptura também atravessa as relações com o território de origem. Atividades tradicionais, muitas vezes aprendidas na convivência familiar, passam a ser vistas como pouco viáveis ou insuficientes diante das exigências econômicas.
O filho do pescador nem sempre quer, ou pode, continuar sendo pescador. Não por falta de valor, mas porque as condições de permanência se tornam cada vez mais difíceis de sustentar.
Diante disso, uma pergunta ecoa, baixa, mas insistente, entre os mais velhos: quem herdará o roçado, a tarrafa, o saber trançar, catar, fazer, quem vai continuar o que ainda resiste?

Pescador em São João de Pirabas (PA). Atividades como a pesca, transmitidas entre gerações, seguem estruturando modos de vida — mas enfrentam desafios crescentes para se manter como possibilidade para os mais jovens. Foto: Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.
Quando a transmissão se fragiliza
A continuidade desses saberes depende não apenas da vontade individual, mas das condições que permitem que eles existam como forma de vida. Em muitos territórios, a transmissão dos conhecimentos sempre aconteceu no cotidiano, no trabalho compartilhado, na convivência entre gerações, na repetição de práticas. Quando esse cotidiano se rompe, a transmissão também se fragiliza.
A saída dos mais jovens altera não apenas a dinâmica econômica, mas o próprio modo como o conhecimento circula. O que antes era aprendido no fazer passa a depender de iniciativas pontuais, nem sempre suficientes para garantir continuidade.
Os dados ajudam a dimensionar esse processo. O Censo Agropecuário de 2017, do IBGE, já apontava o envelhecimento da população rural no Brasil: mais de 60% dos responsáveis por estabelecimentos agropecuários tinham mais de 45 anos, enquanto a participação de jovens com menos de 35 anos seguia em queda.
Não se trata de desaparecimento imediato, mas de uma mudança mais sutil: práticas que permanecem, mas com menos gente para aprendê-las, menos tempo para exercê-las e menos condições para que se sustentem como forma de vida.
Essa relação entre permanência e conservação também aparece em análises do MapBiomas e em pesquisas do IPAM. Levantamentos recentes indicam que áreas sob manejo tradicional, como Terras Indígenas e territórios de comunidades tradicionais, concentram as menores taxas de desmatamento da Amazônia. Em 2022, por exemplo, essas áreas representaram cerca de 1,4% da área total desmatada no Brasil, mesmo ocupando extensas porções do território.
Quando quem aprende deixa de ficar, não é apenas uma atividade que se enfraquece, é o próprio sistema de cuidado com o território que perde continuidade.
Ir longe: trabalho, ruptura e retorno
Em São João de Pirabas, essa trajetória ganha nomes e rostos.
Thiago foi embora ainda jovem. Decidiu ir para Santa Catarina em busca de uma oportunidade depois de um ano desempregado após concluir o Ensino Médio. A saída, como em muitos casos, não foi planejada em detalhes, foi resposta imediata a uma ausência concreta.
Do outro lado do país, a vida seguiu em torno do trabalho e da adaptação a um cotidiano completamente diferente daquele em que cresceu. Ao contrário do que planejava, não conseguiu juntar bens, o salário tinha que pagar aluguel, alimentação, água, energia e outros gastos. O retorno, no entanto, não encerra o percurso.
No começo foi bem desafiador, porque não é o fato que a gente chega numa cidade nova, com emprego, que consegue rápido. Passa um sufoco até que consegue. Foi diferente do que eu imaginava, as pessoas eram hospitaleiras, fiz amizades. Mas eu decidi voltar por conta da saudade da comida, da minha família. Minha família pesou muito na minha decisão de voltar.”
Depois de um período fora, Thiago decidiu voltar, mas isso não significa simplesmente retomar de onde parou. Entre o que se viveu fora e o que permanece no território, instala-se um descompasso.
A cidade continua sendo a mesma, mas quem retorna já não é. De volta à terra natal, ele constituiu família e hoje pensa se os filhos terão que sofrer com a mesma falta de oportunidades e o distanciamento de quem amam.
“Se não melhorar a educação, se não tiver emprego, fica tudo igual. Daqui há alguns anos vai ser eu me despedindo do meu filho, preocupado com o que ele tá comendo, com quem ele tá andando. Eu quero que ele tenha uma profissão boa, acesso à saúde, mas eu morando aqui, eu gostaria que ele ficasse”, desabafa.
Ir perto: outras formas de deslocamento
Nem todo deslocamento atravessa o país. Em muitos casos, ele acontece dentro da própria região.
Gabriel Reis, também de São João de Pirabas, seguiu um caminho diferente. Filho de pescador, tentou inicialmente permanecer na atividade, mas não se identificou com a rotina. Optou por sair e buscar trabalho em Belém, onde hoje trabalha em uma grande rede de supermercados. “Eu tentei seguir a pesca, mas não deu. Caí na maré três vezes, quase morri. Fiquei com trauma”, conta.
A saída para Belém veio como necessidade e adaptação não foi imediata.
Vim em busca de melhora, de trabalho. No começo não me adaptei, mas com o tempo a gente vai se acostumando. Pirabas é bom de viver. Mas Belém é onde a gente vem atrás de trabalho. Sinto falta das amizades, dos peixes, da família.”
O retorno ainda aparece como possibilidade na vida do jovem de 19 anos, mas condicionado à realidade econômica. “Penso em voltar, sim. Mas tem a questão do trabalho, que lá não tem”, esclarece.
Sobre a pesca, a visão também mudou: “É uma profissão perigosa. Só de sair e deixar a família já é difícil, ainda mais indo pro alto mar.”
A escolha de não seguir a atividade do pai não é isolada. Ela revela uma transformação mais ampla nas formas de trabalho e nas expectativas de futuro.
Em muitos territórios, atividades tradicionais deixam de ser percebidas como caminhos viáveis, não por falta de valor, mas pelas condições cada vez mais difíceis de sustentá-las como forma de vida.
No caso de Gabriel, a pesca não deixou de ter significado, mas deixou de se apresentar como possibilidade concreta de futuro.
Em Pirabas, sua mãe, Cleia, acompanha esse percurso à distância. A saída do filho não representa apenas uma mudança geográfica, mas uma reorganização da vida familiar, marcada pela ausência, pela adaptação e pela tentativa de manter vínculos mesmo com a distância.
“Não foi fácil, até porque ele foi morar em outra cidade, cidade grande. Meu medo era de amizade errada, assalto, acidentes … aquela preocupação que toda mãe tem. Mas fico feliz por ter conseguido um trabalho pra se manter”, afirma a matriarca. “A mudança foi um vazio que ficou por não ter meu filho perto de mim”, completa.
Sair para estudar: projeto de vida

Karem cursa medicina fora da Amazônia. Para muitos, acessar o Ensino Superior exige um deslocamento que envolve adaptação a novas realidades sociais. Foto: Acervo Pessoal.
Nem todos os deslocamentos são movidos apenas pela busca por trabalho. A educação também é fator decisivo em muitos casos. No Maranhão, trajetórias semelhantes se desenham a partir do acesso ao Ensino Superior. Karem Izabella Moura deixou Imperatriz, sua cidade natal, para cursar medicina em Goiânia.
A mudança, nesse caso, não é apenas geográfica, ela redefine expectativas, vínculos e possibilidades de retorno.
“Lá tinha pouca vaga, a nota de corte era muito alta. Eu estava concorrendo com gente de escola particular, e meu ensino foi todo público. Pra mim, era muito difícil”, justifica.
A aprovação pelo ProUni abriu uma possibilidade, mas não resolveu tudo. A mudança foi marcada por incerteza e instabilidade. Além disso, mais do que a distância, o estranhamento revelou diferenças profundas. Na universidade, Karem se deparou com uma realidade distante da sua.
Quando eu vim, eu não sabia onde ia ficar. Passei por várias casas, fiquei de favor… teve lugar que não deu certo, tive que sair. Até conseguir me organizar, foi muito difícil. A realidade também é outra. Meus colegas falam de viagens, de férias fora do país… coisas que são completamente fora da minha realidade.”
A experiência dialoga com o que Jessé Souza aponta sobre a reprodução das desigualdades no Brasil. O sociólogo enfatiza que trajetórias educacionais são profundamente marcadas pela origem social, o que faz com que o acesso ao ensino superior exija, para muitos jovens, deslocamentos mais longos, mais caros e mais incertos.

Em sala de aula, Karem divide a rotina com colegas de diferentes realidades. A formação fora do território amplia possibilidades, mas também evidencia desigualdades de origem e acesso. Foto: Acervo pessoal.
Nesse contexto, a adaptação de Karem não foi apenas acadêmica: “Eu tenho dificuldade de me encaixar. Às vezes parece que eu sou a chata do rolê.”
Ainda assim, a escolha de permanecer fora segue ligada a um objetivo claro.
Eu amo minha cidade. Quero voltar sempre, ver minha família. Mas não me vejo crescendo profissionalmente lá. É um lugar que precisa muito de médicos, mas não tem condições. Falta estrutura, tem muito atraso de salário, muita dificuldade.”
A fala dela evidencia que o problema não é falta de vínculo e sim de estrutura. Entre o desejo de retorno e a necessidade de se qualificar, o caminho se mantém fora. Karem entende o deslocamento como um investimento no futuro: “Eu acredito que preciso sair dessa bolha pra crescer. Não quero ser uma médica que só cumpre função. Quero entender o que estou fazendo e cuidar de verdade.”
O território que perde, importa
Ao mesmo tempo em que jovens deixam seus lares em busca de oportunidades, um movimento oposto se consolida. Empresas que atuam na Amazônia frequentemente enfrentam dificuldades para encontrar profissionais qualificados, especialmente em funções técnicas e de liderança.
Em São João de Pirabas, essa realidade se manifesta de forma concreta. Gabriel Bala, empresário e gerente de um dos maiores supermercados do município, aponta que a escassez de mão de obra atinge áreas estratégicas do próprio funcionamento da economia local.
Segundo ele, setores como açougue, panificação e gestão concentram algumas das maiores dificuldades de contratação. Ainda assim, a saída dos profissionais não é regra, mas acontece quando surgem oportunidades fora.
“Já tivemos casos de profissionais que saíram em busca de melhores condições. Um açougueiro, por exemplo, recebeu proposta de uma rede de Santa Catarina e foi. Quando alguém performa bem e recebe uma oportunidade superior ao que podemos oferecer, a gente incentiva que progrida”, afirma.
Diante desse cenário, o empresário explica que a estratégia tem sido formar profissionais dentro do próprio território. “A gente busca desenvolver as pessoas aqui mesmo, com plano de crescimento. Hoje temos lideranças que começaram como operadores de caixa e estão sendo preparados para gerenciar loja”.
Ainda assim, a limitação não está apenas na qualificação individual. Para quem permanece no território, essa limitação é vivida no cotidiano.
Victor Manuel Fonseca, de Santarém Novo, aponta que a permanência depende diretamente das condições oferecidas. O acesso à licenciatura através de um programa de interiorização do Ensino Superior fez toda a diferença na sua trajetória.
O Forma Pará abriu uma oportunidade que eu não tinha. Quando surgiu a chance de estudar aqui, eu agarrei. Isso fez diferença pra eu ficar.”
Aos 26 anos, ele é técnico em Agroecologia e atua na área agrícola. Para Victor, é possível construir uma vida no campo, mas não sem preparo.
E hoje, o jovem para construir uma vida trabalhando no campo, na agricultura principalmente, é uma visão que tem que ter maturidade, que tem que ter um estudo, um estudo na área, mas sim, dá para sobreviver, sim, em relação ao campo. Porque hoje o campo é o que dá a sustentabilidade para a mesa das pessoas, das famílias. E hoje se tu vender uma galinha, uns ovos, produzir, tem saída, tem venda. Então, até mesmo plantio de açaí, plantio de outras variedades, tem rentabilidade.”
Ainda assim, ele reconhece os limites: “O que falta é oportunidade e mais acesso ao conhecimento. Muitos jovens acabam indo porque não veem alternativa.”

Victor (à direita), ao lado do pai e do irmão, em área de produção familiar em Santarém Novo (PA). A permanência no campo passa pela combinação entre conhecimento técnico, apoio familiar e condições concretas de sustentar a vida no território. Foto: Acervo pessoal.
Relatórios do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) indicam que a saída de jovens de áreas rurais é um fenômeno recorrente em contextos onde atividades tradicionais são pouco valorizadas economicamente. Ao mesmo tempo, experiências ligadas à agroecologia, como as articuladas pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), mostram que a permanência se torna mais viável quando há inovação e valorização do território.
Gabriel Bala acredita que o principal obstáculo é estrutural.
O que falta em Pirabas é alternativa. É um município que não incentiva novos negócios, que não atrai investimentos. Nossa economia gira muito em torno da prefeitura, de programas sociais e aposentadoria. Isso limita as possibilidades e faz com que muitos jovens procurem outros caminhos.”
Um movimento maior que histórias individuais
Em alguns casos, a saída não se sustenta. Há jovens que retornam depois de meses ou anos sem conseguir construir o que imaginaram. Voltam sem poupança, sem estabilidade e, muitas vezes, com a sensação de ter interrompido algo sem conseguir substituir por outra coisa.
O movimento de ida e volta não aparece, na maioria das vezes, com a mesma visibilidade com que se fala da migração. Mas ele existe, e marca trajetórias inteiras.
Em algumas regiões, esse deslocamento acontece de forma quase coletiva. Empresas de transporte registram períodos de maior fluxo, com ônibus lotados de pessoas que deixam suas cidades em busca de trabalho em outros estados. Dados do IBGE mostram que estados do Sul e do Centro-Oeste têm concentrado os maiores fluxos migratórios, enquanto Pará e Maranhão seguem entre os que mais perdem população.

Rotas como Belém–Santa Catarina evidenciam um fluxo constante de deslocamento de trabalhadores em busca de melhores condições de vida. Reprodução de Redes Sociais.
Entre partir e permanecer
Quem fica também enfrenta uma escolha. Permanecer implica lidar com a continuidade de atividades muitas vezes pouco valorizadas e mal remuneradas, além da responsabilidade de manter práticas e saberes que sustentam a vida no território.
Quando um jovem sai, não é apenas uma pessoa que parte, é uma possibilidade de continuidade que se fragiliza.
Partir não é abandono. Ficar não é fracasso.
A frase “mãe, eu vou embora” não encerra uma história. Ela inaugura um deslocamento que continua a produzir efeitos, na família, no território e na forma como uma geração inteira imagina seu lugar no mundo.
Para mães como Socorro e Cleia, esse movimento é vivido entre a espera e o retorno, entre a ausência que se alonga e a esperança de que, em algum momento, o caminho leve de volta.
Entre partir e permanecer, o que está em jogo ultrapassa a ideia de mobilidade: é a possibilidade de construir futuro sem romper completamente com aquilo que sustenta a vida.
Como sugere Ailton Krenak, trata-se também de diferentes formas de continuar existindo no mundo, modos de vida que persistem mesmo quando as condições para permanecer se tornam cada vez mais frágeis.
Referências
Texto, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

