Os EUA querem os minerais da América do Sul e ambientalistas temem as consequências

A busca por um maior acesso a minerais essenciais pode agravar a violência e intensificar a mineração e a militarização nas comunidades e nos ecossistemas amazônicos

Female environmental defenders march on Aug. 21 in Puyo, Ecuador, calling on governments to respect their rights and the rights of nature. Credit: Katie Surma/Inside Climate News.
Women marching: Female environmental defenders march on Aug. 21 in Puyo, Ecuador, calling on governments to respect their rights and the rights of nature. Credit: Katie Surma/Inside Climate News.
Female environmental defenders march on Aug. 21 in Puyo, Ecuador, calling on governments to respect their rights and the rights of nature. Credit: Katie Surma/Inside Climate News.

Mulheres em marcha: Defensoras ambientais marcham em 21 de agosto em Puyo, Equador, exigindo que os governos respeitem seus direitos
e os direitos da natureza. Foto: Katie Surma/Inside Climate News.

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O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, chegou à América do Sul esta semana trazendo uma mensagem conhecida: os Estados Unidos querem acesso aos minerais e uma presença militar ampliada na região.

Essa agenda tem sido bem recebida por governos de direita recém-eleitos na Colômbia, no Equador e no Peru, que chegaram ao poder com a promessa de combater as organizações criminais transnacionais com mãos de ferro.

No entanto, na Amazônia, em outras florestas, nos páramos de alta altitude e em outras áreas visadas para a mineração —, essas políticas estão causando o medo de que a violência se agrave. A mineração tem sido apontada repetidamente como o setor mais associado a assassinatos de defensores ambientais, pessoas que atuam de forma pacífica para proteger a natureza e seus territórios.

Rubio iniciou sua viagem pela Colômbia, na terça-feira, onde se reuniu com o presidente Abelardo de la Espriella, um ex-advogado criminalista que se autodenomina “O Tigre”. Os dois governos assinaram um acordo sobre minerais e cooperação nuclear civil, apresentando os pactos como parte de um esforço mais amplo para estreitar laços econômicos e de segurança.

Secretary of State Marco Rubio (left) and Ecuador’s Foreign Affairs Minister Roberto Kury shake hands after a press conference in Quito on Wednesday. Credit: Inside Climate News.

O secretário de Estado Marco Rubio (à esquerda) e o ministro das Relações Exteriores do Equador, Roberto Kury, apertam as mãos após uma entrevista coletiva em Quito, na quarta-feira (09). Foto: Inside Climate News.

Segundo o Departamento de Estado, o acordo prevê que os dois países financiem projetos de extração e processamento mineral no prazo de seis meses. O texto também estipula que os governos se comprometerão a apoiar esses projetos por meio de empréstimos, seguros, investimentos de capital, medidas para facilitar os trâmites administrativos, uma tramitação simplificada das licenças e mais mecanismos voltados à proteção do mercado, como as revisões por motivo de segurança nacional.

O governo Trump tem apresentado constantemente a mineração — e a aquisição de minerais que considera “críticos”, como prata e cobre — como um imperativo de segurança nacional, com o objetivo de contrapor-se  domínio da China em minerais críticos.

O Departamento de Estado dos EUA não divulgou a íntegra do acordo e direcionou a Inside Climate News para uma ficha informativa. Um porta-voz do órgão afirmou, por e-mail, que os Estados Unidos estão comprometidos com acordos de minerais críticos que sejam “transparentes, regidos por normas e mutuamente benéficos”. A mineração ilegal prejudica os trabalhadores e o meio ambiente, afirmou o porta-voz, acrescentando: “O melhor caminho para combater a mineração ilegal é por meio da mineração legal”.

O porta-voz não respondeu a questionamentos sobre se o acordo inclui compromissos de respeito aos direitos humanos, incluindo o direito internacionalmente reconhecido dos povos indígenas ao consentimento prévio, livre e informado sobre projetos que afetem suas terras — ou se o pacto leva em conta os direitos da natureza, reconhecidos pelos tribunais da Colômbia, no Peru e no Equador.

De acordo com uma análise original da Inside Climate News, ano passado, o Departamento de Estado apagou críticas a abusos contra direitos indígenas de seus relatórios anuais de direitos humanos.

Na Colômbia, a mineração está se expandindo para muitos territórios indígenas já desestabilizados por grupos armados. Mario Erazo Yaiguaje, líder do povo Siona e ex-governador do resguardo Buenavista, um território indígena de propriedade coletiva situado em Putumayo, afirmou que as guardas indígenas — grupos comunitários formados para proteger a terra diante da inação do governo — têm sido cruciais no combate à mineração ilegal.

“Nós, povos indígenas, temos levantado a voz em defesa de nossa autonomia”, afirmou Erazo Yaiguaje.

Frequentemente, os conflitos por terras, as indústrias extrativas e o crime organizado convergem nos mesmos territórios.

A Colômbia tem sido historicamente o país mais letal para defensores ambientais. Pessoas que se opõem à imposição da mineração, do petróleo, da agricultura industrial e da extração madeireira enfrentam ameaças, agressões e assassinatos por parte de organizações criminais e, em alguns casos, de forças estatais, segundo organizações de defesa e supervisão dos direitos humanos. Uma dessas ONGs, a Global Witness, identificou o assassinato de 48 defensores do meio ambiente na Colômbia em 2024.

O desmantelamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) por parte do governo Trump pôs fim às programas que financiavam iniciativas na Colômbia para fortalecer redes de proteção a defensores ambientais.

“O risco é que agora existam três presidentes alinhados a Trump na Alta Amazônia e que o secretário de Estado, Marco Rubio, esteja voando de um lado para o outro tentando fechar acordos temerários que, em essência, permitem a extração em grande escala de minerais da maior floresta tropical do planeta, lar de milhões de indígenas, berço da biodiversidade e uma das últimas esperanças para conter a crise climática”, afirmou em Mitch Anderson, diretor-executivo da Amazon Frontlines, organização sem fins lucrativos focada em direitos indígenas e conservação.

E acrescentou: “Para o governo Trump, a Amazônia é apenas um espaço verde em um mapa que eles gostariam de rebatizar como ‘Selva da América’ para, em seguida, drená-la, desmatá-la e destruí-la”.

Durante coletiva de imprensa na quarta-feira (09), De la Espriella afirmou que a Colômbia deseja investimentos nos setores de energia e infraestrutura e fará o que for necessário “em termos de disciplina fiscal, segurança jurídica, eficiência e melhora nas condições de investimento”.

A declaração parece ser uma referência aparente ao sistema de solução de litígios entre investidores e Estados (ISDS), que oferece proteções controversas a corporações multinacionais e tem permitido que essas empresas exijam indenizações vultosas dos governos. O antecessor de De la Espriella, junto ao governo Biden, havia tomado medidas para limitar as proteções a investidores entre os dois países. Graças aos laudos do ISDS, algumas empresas de petróleo, gás e mineração já obtiveram mais recursos dos governos do que qualquer outra indústria.

De la Espriella também busca ampliar a cooperação com Washington na área da segurança. Ele pediu a Rubio aeronaves, drones, radares, inteligência e outras ferramentas para combater grupos armados.

A combinação entre a expansão acelerada da mineração e um maior envolvimento militar tem alarmado as organizações da sociedade civil que atuam junto a comunidades que sofrem com as atividades extrativistas. Elas argumentam que tais políticas aumentam a probabilidade de  perseguição aos ambientalistas — especialmente quando os governos apresentam a mineração como um imperativo de segurança nacional.

O Equador, onde Rubio desembarcou na quarta-feira (09), é um exemplo claro, segundo organizações de direitos humanos.

O presidente Daniel Noboa fez da militalização para combater o crime organizado o eixo central de sua campanha eleitoral de 2025. Seu governo também tem impulsionado mudanças constitucionais e legais para acelerar a mineração e permitir o envio de tropas militares para proteger esses projetos. Como exemplo, pode-se citar a substituição das licenças ambientais por autorizações de mineração genéricas e mais permissivas; a realocação do Ministério do Meio Ambiente para o Ministério de Energia e Minas; e a aprovação de leis para o envio de tropas a zonas estratégicas de mineração.

Essas políticas têm se desdobrado ao mesmo tempo em que se intensifica a repressão contra manifestantes e líderes contrários à mineração.

Durante uma resposta militar a uma greve nacional liderada por organizações indígenas em 2025, pelo menos três pessoas foram mortas, entre elas um defensor de territórios indígenas.

O governo Noboa também abriu investigações criminais contra dezenas dos principais ativistas ambientais e indígenas do país, congelando as contas bancárias de 61 desses líderes. Isso tornou quase impossível a atuação de alguns grupos.

Na última terça-feira, Rubio falou publicamente que o Equador é um dos parceiros mais próximos dos Estados Unidos na região em matéria de segurança. “Creio que há mais coisas que podemos fazer com eles”, declarou Rubio, destacando oportunidades econômicas e militares.

Em março, as forças militares estadunidenses e equatorianas bombardearam conjuntamente o que classificaram como acampamento de narcotraficantes próximo à fronteira com a Colômbia. Moradores locais e grupos de direitos humanos afirmaram que o alvo era, na verdade, uma fazenda de laticínios. Os exército dos EUA também afundaram embarcações na costa do Equador que, segundo alegam, estariam envolvidas no tráfico de drogas, uma das operações militares mais amplas dos EUA no Caribe e no Oceano Pacífico, que resultaram em pelo menos 227 mortes. Advogados especializados em direito da guerra classificaram essas mortes como execuções extrajudiciais, por ocorrerem fora do âmbito de conflitos armados.

Um porta-voz do Pentágono declarou em comunicado: “Não temos conhecimento dos ataques, nem da participação das forças de Comando Sul dos EUA”. Um relatório conjunto dos inspetores gerais do Pentágono e do Departamento de Estado publicado no início deste ano documentou alguns dos assassinatos.

“O Comando Sul dos Estados Unidos conduz operações marítimas sob autoridades legais estabelecidas e exige de suas forças aos mais altos padrões de profissionalismo, segurança e cumprimento das leis estadunidenses e internacionais”, acrescentou o porta-voz no comunicado.

Sobre o fortalecimento da parceria militar entre EUA e Equador, a organização Human Rights Watch afirmou que “ambos os países têm cometido graves violações dos direitos humanos, impulsionadas por sua insistência em enquadrar seus confrontos com os grupos do crime organizado como um conflito armado”.

Nos últimos 18 anos, os equatorianos têm sido pioneiros em leis e políticas ecológicas inovadoras, consagrando os direitos da natureza em sua Constituição de 2008 e votando expressivamente em plebiscitos para encerrar operações petroleiras em parte da floresta amazônica e proibir a mineração perto de Quito. As comunidades indígenas têm estado na vanguarda desses avanços.

Indigenous leaders from the Ecuadorian Amazon march through Puyo, Ecuador, on Aug. 21 in opposition to the expansion of oil, mining and other extractive industry projects in the rainforest and surrounding ecosystems. Credit: Katie Surma/Inside Climate News.

Líderes indígenas da Amazônia equatoriana marcham em Puyo, no Equador, em 21 de agosto, em oposição à expansão de projetos de petróleo, mineração e outras indústrias extrativistas na floresta tropical e nos ecossistemas do entorno. Foto: Katie Surma/Inside Climate News.

“Nós, como Nação Kichwa de Pastaza, declaramos em nosso estatuto que nosso território é sagrado — como kawsak sacha, um território vivo, um ser vivo com consciência e sujeito de direitos —, livre de todas as formas de extrativismo, incluindo mineração, extração de petróleo e outras atividades”, afirmou em um comunicado Luis Canelos, presidente dessa nação indígena no Equador.

Questionado durante coletiva de imprensa na terça-feira passada, na Colômbia, sobre a percepção de que os interesses do governo dos EUA consistem na extração de recursos e no envio de tropas para a América Latina, Rubio respondeu que a região “está muito melhor fazendo parceria com os Estados Unidos” do que com a China, a Rússia ou o Irã.

Rubio terminou sua viagem no Peru para consolidar a cooperação na área de segurança com a presidenta Keiko Fujimori, cujo governo também aposta numa atuação dura contra o crime organizado.

Daniela Andrade, coordenadora da Amazon Frontlines no Peru, afirmou em um comunicado que as comunidades locais do país enfrentam um governo que busca expandir e legalizar a mineração, flexibilizar proteções ambientais e debilitar os processos de consulta com as comunidades indígenas.

“[Estamos sofrendo] uma verdadeira invasão de mineração ilegal fora de controle, com um aumento alarmante de pontos críticos de emergência”, disse Andrade. “Quase todas as bacias hidrográficas em Loreto se transformaram em zonas vermelhas, marcadas pela violência, o desmatamento, o tráfico humano e a perseguição constante a quem defende o território e a natureza.”

E acrescentou que “as máfias da mineração operam debaixo de um manto de impunidade devido ao conluio direto de autoridades e poderes políticos em todos os níveis do Estado”.

Este texto foi publicado em colaboração com a Inside Climate News.

Katie Surma é repórter da Inside Climate News, onde foca em direito e justiça ambiental internacional. Antes de se juntar ao ICN, exerceu a advocacia, especializando-se em litígios comerciais. Também escreveu para várias publicações, e suas reportagens já apareceram no Washington Post, USA Today, Chicago Tribune, Seattle Times e The Associated Press, entre outros. Katie tem mestrado em jornalismo investigativo pela Walter Cronkite School of Journalism and Mass Communication da Universidade Estadual do Arizona, um LLM em direito internacional e segurança pela Faculdade de Direito Sandra Day O’Connor da mesma universidade, um Juris Doctor (JD) pela Universidade Duquesne, e é bacharel em História da Arte e Arquitetura pela Universidade de Pittsburgh. Katie vive em Pittsburgh, na Pensilvânia, com seu marido, Jim Crowell.

Tradução, Revisão, Montagem de página e finalização: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

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