Florestas em recuperação podem compensar ¼ dos gases de desmatamento

Avanço do Cultivo de soja na regiao de Belterra, Pará compromete o ecossistema da Floresta Nacional do Tapajos. - Foto: Marcos Colón / Amazônia Latitude
Foto da Amazônia

Avanço do Cultivo de soja na região de Belterra (PA) compromete o ecossistema da Floresta Nacional do Tapajós. Foto: Marcos Colón / Amazônia Latitude

  • A recuperação de florestas pode compensar cerca de um quarto das emissões geradas pelo desmatamento em regiões tropicais úmidas, segundo pesquisa recém publicada na revista “Nautre”
  • A pesquisa analisou imagens de satélite da Amazônia, do Bornéu e da África Central
  • O estudo destaca a relevância de se investir na conservação das florestas em recuperação, pois elas são um enorme sumidouro de carbono, apesar de suas lentas taxas de recuperação
  • Os resultados também revelam a importância de se preservar florestas antigas, já que a recuperação das áreas degradadas não retardará a mudança climática sozinha

A recuperação de florestas pode compensar cerca de um quarto das emissões geradas pelo desmatamento em regiões tropicais úmidas, de acordo com um novo estudo.

Essas florestas –também conhecidas como florestas degradadas e secundárias– sofreram algum grau de perturbação por atividades humanas, como desmatamento ou incêndios.

Atualmente elas cobrem cerca de 10% da área de floresta tropical mundial e estão concentrados na Amazônia, no Bornéu (Sudeste asiático) e na África Central.

A nova pesquisa, publicada na Nature, usa dados de satélite para avaliar quanto carbono essas florestas acumulam na vegetação acima do solo e estima o potencial delas para armazenar carbono no futuro.

Os pesquisadores descobriram que florestas secundárias e degradadas em regiões tropicais úmidas armazenaram, em média, 107 milhões de toneladas de carbono (MtC) anualmente entre 1984 e 2018 –o suficiente para compensar 26% das emissões de carbono geradas pela perda de florestas nessas regiões durante o mesmo período.

Além disso, a pesquisa estima que a conservação dessas florestas pode levar a um sumidouro anual de carbono de 53 MtC (milhões de toneladas de MtC).

O estudo afirma que investir na conservação de florestas secundárias e degradadas é essencial, mas adverte que isso não deve ocorrer às custas da conservação de florestas primárias, que “continua sendo a estratégia de mitigação climática mais econômica no setor de uso da terra”.

Recuperando florestas

Os pesquisadores usam o termo “florestas em recuperação” para se referir coletivamente a florestas degradadas e secundárias.

  • Florestas degradadas: aquelas que sofreram qualquer distúrbio induzido pelo homem que levou a uma perda parcial da função ou da cobertura arbórea
  • Florestas secundárias: aquelas que crescem naturalmente em áreas desmatadas

Essas florestas estão localizadas principalmente na Amazônia, em Bornéu e na África central –três regiões que juntas representaram 29% das emissões globais da perda de florestas entre 2001 e 2019.

Mas essas regiões não são significativas apenas pela perda de florestas, diz Viola Heinrich, principal autora do estudo e pesquisadora associada da Universidade de Exeter (Inglaterra).

A recuperação das florestas é importante para a conservação e reposição do carbono armazenado nelas. A pesquisa mostrou que elas também têm outros benefícios ou serviços ecossistêmicos que podem continuar a fornecer se você permitir que as florestas se recuperem.
Viola Heinrich, coautora do estudo

Por exemplo: no Bornéu da Malásia, a pesquisa relata que florestas degradadas “fornecem acesso a água limpa, ar limpo e regulam a temperatura”, enquanto “florestas secundárias mais antigas podem aumentar a biodiversidade tanto em riqueza quanto em diversidade de espécies”.

No entanto, a recuperação das florestas também é afetada pela exploração madeireira, por incêndios e pelas mudanças climáticas.

O monitoramento dessas florestas é crucial para esquemas de financiamento, como a estrutura de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+). É também uma parte fundamental do Global Stocktake, uma revisão global do progresso internacional no cumprimento das metas do Acordo de Paris. Para ser eficaz, o levantamento requer relatórios precisos de todas as fontes e sumidouros de carbono.

O estudo usa imagens de satélite para quantificar o crescimento das florestas em recuperação em três vastas regiões: Amazônia, Bornéu e África Central. Heinrich explica que esse método fornece uma melhor compreensão dos padrões espaciais das florestas e das mudanças ao longo do tempo do que estudos anteriores, que geralmente se concentram em dados coletados em campo.

Ricardo Dalagnol, coautor do estudo e pesquisador de pós-doutorado na Universidade da Califórnia em Los Angeles (EUA), diz que esta é a “primeira vez” que os pesquisadores analisam em larga escala a recuperação de florestas.

Mostramos que [ambas as florestas] ainda podem estar crescendo e podemos quantificar o quanto elas podem contribuir em termos de [sumidouro] de carbono.
Ricardo Dalagnol, coautor

Sumidouros de carbono

Os pesquisadores combinaram dois conjuntos de dados de satélite. O conjunto de dados de florestas tropicais úmidas rastreia a degradação florestal considerando mudanças no uso da terra, como desmatamento, extração de madeira ou outros distúrbios. Eles usaram esse método para mapear a degradação de 1984 a 2018.

Em seguida, utilizando um conjunto de dados de biomassa acima do solo de 2018 –que leva em conta árvores, folhas, grama e toda outra vegetação que cresce acima do solo das florestas tropicais– eles determinam quanto carbono é sequestrado nas florestas tropicais úmidas.

Os pesquisadores também aplicaram modelos de crescimento para determinar como essas florestas podem sequestrar carbono no futuro. Eles estimaram o estoque de carbono das florestas em recuperação em 2018 e modelaram o potencial estoque de carbono até 2030, caso as florestas permaneçam conservadas.

Dalagnol diz que essa modelagem é “uma das inovações” de sua abordagem, permitindo “criar a trajetória de recuperação” das florestas.

O estudo conclui que florestas secundárias e degradadas na Amazônia, Bornéu e África Central armazenaram 107 MtC anualmente durante o período de análise, contrabalançando 26% das emissões de carbono da degradação de florestas tropicais durante esse período.

Os gráficos abaixo mostram o acúmulo de carbono acima do solo em florestas degradadas e florestas secundárias após distúrbios na Amazônia (azul claro), Bornéu (verde) e África Central (cinza). O mapa ilustra as três regiões enfocadas no estudo e sua divisão em florestas primárias (verde escuro), degradadas (verde médio) e secundárias (verde claro).

Acúmulo de carbono acima do solo em função do tempo desde a última perturbação em florestas degradadas (canto superior esquerdo) e florestas secundárias (canto superior direito) para três regiões diferentes: Amazônia (azul claro), Bornéu (verde) e África central (cinza). O mapa (abaixo) mostra a extensão espacial de cada região. Os três gráficos em pizza mostram a porcentagem de cada região ocupada por diferentes tipos de floresta: floresta primária (verde escuro), floresta degradada (verde médio), floresta secundária (verde claro) e outras (amarelo). Fonte: Heinrich et al. (2023).

Heinrich e sua equipe calculam que existem 60 milhões de hectares de florestas secundárias e degradadas em recuperação nas três regiões –cerca de 1,5% da área florestal do mundo. Mas ela destaca que eles desempenham um papel descomunal no sequestro de carbono, absorvendo 5% de todo o carbono absorvido pelas florestas.

O estudo também analisa as taxas de rebrota nas três regiões. Essas taxas podem se alterar devido a variáveis climáticas, como temperatura ou disponibilidade de água. Eles descobriram que em Bornéu as taxas de rebrota foram 45% e 58% maiores do que na África Central e na Amazônia, respectivamente.

Heinrich aponta que essas altas taxas de recuperação em Bornéu fazem sentido porque a ilha é “muito equatorial e geralmente tem mais chuvas do que outras regiões mais amplas”.

Uma possível limitação do estudo é a exclusão de outras áreas tropicais, como América Central, oeste da África e sudeste da Ásia. No entanto, isso teria adicionado mais complexidade a um processo analítico já difícil, diz o Dr. Emilio Vilanova, pesquisador venezuelano de ciências ambientais e florestais que faz parte da Rede Amazônica de Inventários Florestais (Rainfor).

Embora outros estudos tenham analisado a dinâmica do carbono na recuperação de florestas, a maioria deles foi feita em pequena escala, diz Vilanova, que não participou do estudo. Mesmo quando esse tipo de pesquisa é realizado em maior escala, geralmente tem cobertura limitada, dificultando a construção de mapas preditivos globais, acrescenta:

A combinação de [métodos] de fato coloca este estudo em uma posição única e inovadora para ser um recurso-chave em relação aos dados sobre o sumidouro de carbono da recuperação de florestas tropicais.
Emilio Vilanova, pesquisador da Rainfor

Conservando florestas degradadas

Modelando o estoque de carbono das florestas em recuperação até 2030, o estudo conclui que a conservação dessas áreas tem um potencial de sumidouro de carbono de 53 MtC anualmente nas regiões tropicais analisadas.

No entanto, essa projeção não dá necessariamente conta do que aconteceria se o planeta continuar a experimentar condições meteorológicas e climáticas mais extremas, adverte Heinrich.

Por exemplo, os incêndios reduzem significativamente a capacidade de recuperação das florestas.

“Esse é um grande problema na Amazônia, onde incêndios muito grandes afetam a floresta. Eles perdem carbono e a capacidade de recuperá-lo”, diz Dalagnol.

A deficiência de água, um indicador de seca, também afeta a recuperação de carbono das florestas:

Isso ficou evidente em todas as regiões, especialmente na Amazônia e em Bornéu, o que achamos surpreendente porque há um déficit hídrico ou seca muito menos extremo [lá] em comparação com a Amazônia.
Viola Heinrich

O estudo destaca a relevância de investir na conservação das florestas em recuperação, pois elas são um “enorme sumidouro de carbono”, apesar de suas lentas taxas de recuperação.

Os resultados também mostram a importância de se preservar as florestas antigas, diz Dalagnol, já que a recuperação das florestas não ajudará a retardar a mudança climática sozinha.

Nenhum mecanismo global oficial aborda especificamente o estado das florestas em recuperação. No entanto, Vilanova destaca a importância da degradação florestal na agenda internacional:

A degradação florestal é um dos elementos-chave das estratégias de REDD+ implementadas para proteger as florestas tropicais… Embora existam muitas experiências bem-sucedidas em que as florestas tropicais em risco de desmatamento foram protegidas, esses mecanismos tiveram efeito limitado no terreno.
Emilio Vilanova

Heinrich espera que as novas informações sobre florestas degradadas fornecidas pelo estudo possam “esperançosamente…[ser] o primeiro trampolim para conservá-las também”.

Este texto é uma tradução do publicado por Yanine Quiroz no CarbonBrief.
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