As curvas de um rio sem fim

Livro de Verenilde Pereira é possivelmente um dos mais importantes livros não lidos das quatro últimas décadas

O assombroso romance “Um rio sem fim“, da amazonense Verenilde Pereira, foi publicado (e praticamente soterrado) em 1998, em um tempo bastante anterior a esse acolhimento sazonal (e de certa forma purgativo) da literatura ativista afrobrasileira e indígena, em curso nos dias de hoje, e ficou 25 anos praticamente desconhecido do leitorado mais inquieto.

Para que reencontrasse seu destino um dia, a autora saiu por Manaus deixando esperançosamente exemplares em bancos de praça, em pontos de ônibus. De algum modo, funcionou. Lentamente, o livro volta a ocupar seu lugar de direito, mas é preciso que isso se dê também retroativamente, há uma dívida a ser paga nesse caso.

Um rio sem fim” ocupa mais do que apenas um lugar de membro do clube da literatura maiúscula e singular: é possivelmente um dos mais importantes livros não lidos das quatro últimas décadas no Brasil.


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A manauara Verenilde Pereira narra nele, num híbrido inusitado de romance, reportagem, ensaio e tese antropológica, o cotidiano recente – em meados dos anos 1980 – de uma missão salesiana instalada no norte do estado do Amazonas, um tipo de protetorado comandado por um bispo italiano, o maneirista Dom Matias Lana, e a comunidade de internas indígenas de sua missão, de diferentes idades e origens, que se forma ao longo dessa influência, da tentativa de ensinar na marra conceitos como pudor, fidelidade, matrimônio.

Escritora Verenilde Pereira, autora de "Um rio sem fim"

Autora amazonense Verenilde Pereira

Por uma cruel coincidência, há uma epidemia letal no meio de tudo, 60 pessoas deitadas lado a lado gemendo, suor e larvas escorrendo de furúnculos na pele, urubus no interior das malocas, um rio de diarréia, dezessete meninas e 10 meninos apartados de suas famílias. As narrativas dos indígenas, suas premonições, encantamentos e saberes, são engolfados diariamente pela ética puritana dos padres estrangeiros. O autoritarismo etnocêntrico e seu efeito na vida dos deserdados da civilização é o tema central do livro, mas há outro muito acima dessa camada política – o feminino.

Verenilde Pereira rejeita o uniforme de amaciadora de consciências culpadas com sua literatura. Também não há frase vulgar em “Um rio sem fim”, não há senso comum, não há clichê ou capitulação ao exotismo de exportação. A prosa escorre de forma imagética, em tocaias visuais e num ritmo de poesia, com parescência às vezes com as iluminações da poesia de Manoel de Barros.

A escritora, que nasceu gigante, estudou o processo colonizador não apenas territorial, mas também emocional e intelectualmente – assim como o antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a baía da Guanabara, o naturalista Alfred Russell Wallace detestou Manaus com seus igarapés e pontes. Embora pareça fora da esfera das influências, o romance tem uma informação literária que não raro evoca obras seminais de João Guimarães Rosa, José Saramago e Virginia Woolf.

Em torno de uma profusão de personagens-maria (Maria Assunção, Maria Rita, Maria Índia, Rosa Maria), a autora processa um espantoso curso integral de educação sentimental do Brasil espoliado. Só que contemporâneo. Descreve como as crianças indígenas educadas pelos missionários eram castigadas por misturar eventualmente português e latim, por não conseguir pronunciar certas palavras corretamente, por urinar na cama, como sentiam febre por não conseguirem comer nos horários pré-determinados pelos missionários para as refeições, por não fazer as tranças para não passar piolhos para as outras crianças, como os indígenas lutavam para se locomover com as roupas e os sapatos desproporcionais das doações que eram obrigados a usar.

“Quatro crianças que, apesar das intensas aulas de catecismo e das missas rezadas em latim, ainda riam às escondidas – como alguns adultos e velhos – quando os padres oravam de braços abertos diante de Jesus crucificado”. A questão afroindígena, na literatura de Verenilde, não é um nicho, uma circunstância. Trata-se da própria essência de sua condição.

Por meio da saga de aculturação indígena, recolhida no trabalho de inventariar os registros de uma missão religiosa no coração da selva, a escritora/pesquisadora trata das questões do homem universal, como se enxergasse também o povo francês face a Luís XVI e a Marat e Robespierre ou o povo palestino frente ao poderio avassalador de Israel. “Nós baixamos cabeças sob nossos joelhos”, conclui a personagem (ou a autora).

Retrato em preto e Branco de Verenilde Pereira, autora de "um rio sem fim"

Juventude da escritora

A protagonista Maria Assunção representa um duplo desafio para os padrões dos catequizadores (e dos colonizadores): ela é mestiça, tem sangue caboclo e indígena. É preta e é do mato ao mesmo tempo. Exuberante e selvagem ao mesmo tempo. Ao contrário das outras Marias, ela não teme o degredo, não tem a ligação sanguínea com a terra, não sabe do que sentir saudade, caminha sobre a dor e a humilhação com aparente indiferença. Abraça o estrangeiro com tal desarmamento que desnorteia as suas fundações colonialistas e o automatismo da apropriação.

Maria Assunção é uma representação do Brasil moderno, com uma diferença em relação aos heróis sem caráter: tem a consciência do feminino, nutre-se dessa consciência, reflete sobre sua condição. Já Rosa Maria, a protagonista da protagonista, é o Brasil que nasceu para ser aniquilado, humilhado. “E o homem extremamente belo percorre seu corpo com o olhar, procurando o que ainda seria possível saquear daquilo – nem mais uma faísca para ser apagada, nem mais um dente para que se possa extrair”. O homem diante da natureza exaurida, o homem minerador, o homem e seus rios de mercúrio sexual, o homem e suas necessidades predatórias.

Meninas a quem trabalhos de amas são impostos, meninas menores obrigadas a cuidar de meninas brancas mais velhas que elas mesmas: flutuando entre os destinos dessas meninas, a autora se faz presente como a amaldiçoada tomadora de notas, a recolhedora dos cartões portais do holandês que um dia olhou macacos ali, a entrevistadora, a intelectual que preferiria ser neutra, mas que é inapelavelmente uma das meninas, parte da narrativa, usando a metalinguagem como uma boia no rio.

A própria condição de pesquisadora é incorporada ao romance. “Ela não serve sequer como objeto capaz de contribuir com a academia. Seu discurso não é coerente”. Ela não elege um destino favorito entre os que se apresentam, nem o do indígena anteriormente isolado, Lauriano, nem o dela mesma, escritora que virou manchete de jornal e recebeu prêmios.

Obrigada a lembrar, Verenilde Pereira (filha de mãe negra e pai indígena do povo Sateré Mawé), de 66 anos, reflete sobre o papel do autor frente a esse envolvimento com o que narra, sua responsabilidade decisiva. “O que, enfim, ocorreria sempre, como agora, quando tento, absurdamente, retirar o vazio desconexo que os civilizadores sempre conseguiam encontrar nas páginas dela”.

Aí está também um pouco da atitude da crítica literária face à literatura que não chancelaram para chegar até ali, que não teve “permissão”. Muitas vezes, a autora, evidentemente erudita, revela uma pontuação peculiar, um jeito de requerer pausa que não é usual, que receberia reprimendas de um revisor desavisado, mas que encontra sentido em sua estilística.

“O índio Tomás, o pajé que nunca respondeu a ninguém que o chamava por esse nome e que nunca ofereceu aos missionários mais do que resmungos quando estes se aproximavam morreu pedindo conselhos de cobras que ele via enroladas nos caibros ou, em ondulações no espaço”. A vírgula antes das “ondulações no espaço” é deliberada, mas não se trata nem de erro nem de estratégia, nem de uma decomposição revolucionária dos hábitos arraigados da língua. Essas coisas aparentam ser, antes de tudo, abrigos, um lugar de influxo, um refúgio.

À frente de tudo, persiste um esmegma de resistência no coração do romance. Verenilde não nomeia isso, mas é algo que se manifesta como uma persistência da consciência da liberdade, da inocência e da intuição contra a submissão e a humilhação. É da convocação do leitor que a autora se nutre e de que se funda a sua literatura.

A resistência da cultura, da reza, das visões da cosmogonia, como ela se processa no ambiente mais violento da aculturação, tudo isso é um processo invisível. É preciso uma atenção e sensibilidade descomunais para enxergar suas estratégias, e a autora consegue. Não há dramaticidade no ritmo da literatura de Verenilde, ao menos não a dramaticidade artificial, com ritmo da literatura convencional, os pulsos dos que se assombram com o que desconhecem.

Verenilde está de tal modo íntima das suas visões que estas, aparentemente, não carecem de desníveis emocionais – tudo é uma massa de sofrimento longamente absorvida e impressa na carne. Mas ela cerra os dentes ao identificar a luta, e esse é o cerne de tudo. “Para isso também servem as histórias, atear fogueiras”, observa Verenilde em “Um rio sem fim”.

 

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