Da casa de forno à festa de São Benedito: o saber culinário do Beiju Chica em Santarém Novo (PA)

Saberes que passam de geração em geração e se fortalecem entre o forno, a fé e a comunidade.

Dona Graça, referência no preparo do Beiju Chica, mantém vivo um saber transmitido entre gerações. Foto: Taissa Corrêa/Amazônia Latitude.
Foto: Luiz Corrêa/Amazônia Latitude.
Dona Graça, referência no preparo do Beiju Chica, mantém vivo um saber transmitido entre gerações. Foto: Taissa Corrêa/Amazônia Latitude.

Dona Graça, referência no preparo do Beiju Chica, mantém vivo um saber transmitido entre gerações. Foto: Taissa Corrêa/Amazônia Latitude.

A partir de uma experiência etnográfica realizada em 2024, na cidade de Santarém Novo, no Pará, este ensaio apresenta o preparo do Beiju Chica, uma iguaria da culinária amazônica paraense feita a partir da mandioca. Mais do que um alimento, o Beiju Chica é guiado pelo saber e pela experiência de Dona Graça, reconhecida na comunidade por seu domínio no preparo dessa tradição.

Seu conhecimento foi aprendido com outras mulheres de sua família, transmitido entre gerações e aperfeiçoado ao longo de décadas. Hoje, Dona Graça se afirma como uma importante guardiã e transmissora desse saber, profundamente ligado ao sistema alimentar local. O Beiju Chica, nesse contexto, constitui uma prática ancestral que articula modos de vida, memória e religiosidade, especialmente no âmbito da festividade de São Benedito.

Na cidade, poucas pessoas ainda se dedicam à produção do Beiju Chica. Segundo Dona Graça, isso se deve, por um lado, à existência de outros tipos de beiju mais consumidos e, por outro, ao fato de que muitas gerações anteriores faleceram sem repassar esse conhecimento. Diante desse cenário, Dona Graça assume o compromisso de ensinar o que aprendeu, especialmente às novas gerações.

Sua atuação contribui diretamente para a continuidade dessa tradição, presente no cotidiano alimentar de muitos moradores de Santarém Novo. Nesse sentido, Dona Graça pode ser compreendida como uma educadora orgânica e guardiã de um saber alimentar coletivo, cuja transmissão é fundamental para a preservação dos hábitos culturais locais. O Beiju Chica é consumido em períodos específicos, como a Semana Santa e a festividade de São Benedito, reforçando seu valor simbólico.

Mais do que um alimento, o Beiju Chica integra um sistema de significados que ultrapassa o ato de comer, conectando memória, identidade e pertencimento comunitário.

Na casa de forno, o preparo do beiju articula trabalho, tradição e convivência comunitária.Foto: Luiz Corrêa/Amazônia Latitude.

Na casa de forno, o preparo do beiju articula trabalho, tradição e convivência comunitária.
Foto: Taissa Corrêa/Amazônia Latitude.

A festa de São Benedito e a dimensão simbólica da comida

A festividade de São Benedito é organizada pela Irmandade de Carimbó de São Benedito, no Barracão — um espaço considerado patrimônio comunitário. Durante onze noites, realiza-se o carimbó em homenagem ao santo, em uma tradição que ultrapassa dois séculos.

A festa mobiliza toda a cidade e articula diferentes matrizes culturais, reunindo influências europeias, afro-brasileiras e indígenas. No entanto, é a devoção que estrutura a dinâmica da celebração. Devotos e promesseiros assumem a responsabilidade de organizar uma noite de festa em agradecimento por graças alcançadas, oferecendo gratuitamente comidas e bebidas à comunidade.

Nesse contexto, a comida ocupa um papel central. Mais do que sustento, ela expressa relações de reciprocidade, partilha e devoção, constituindo um elemento fundamental da experiência festiva.

O Beiju Chica na dinâmica da festa

A produção do Beiju Chica está profundamente vinculada à festividade de São Benedito. Durante a celebração, os alimentos são distribuídos em diferentes momentos do dia. Pela manhã, na alvorada, são oferecidos café, frutas, pães, bolos, sucos e o próprio Beiju Chica. À noite, a comunidade se reúne para o jantar, que inclui pratos como maniçoba, vatapá, sopas, mingaus, gengibirra1Bebida feita à base de gengibre, açúcar e aguardente. e, novamente, o Beiju.

Assim, o alimento se faz presente em toda a estrutura da festa, não apenas como consumo, mas como elemento de sociabilidade. Trata-se de um verdadeiro banquete coletivo, que articula devoção, celebração e convivência, fortalecendo os vínculos comunitários.

A transmissão do saber culinário garante a continuidade do Beiju Chica em Santarém Novo.Foto: Luiz Corrêa/Amazônia Latitude.

Na casa de forno, o preparo do beiju articula trabalho, tradição e convivência comunitária. Foto: Taissa Corrêa/Amazônia Latitude.

A casa de forno: espaço de produção e convivência

É na casa de farinha — também chamada de casa de forno — que Dona Graça coloca em prática seus conhecimentos ancestrais. O espaço, de chão batido, é aberto e marcado pela presença constante de fumaça, calor e cheiros característicos. Trata-se de um ambiente propício não apenas para a produção de alimentos, mas também para a convivência.

Grande parte do trabalho é realizada manualmente, com o auxílio de instrumentos como o forno de bronze aquecido à lenha, o catitu (triturador elétrico), o tipiti e a peneira de palha, além de utensílios simples como facas e talas de madeira. Esses elementos refletem tecnologias tradicionais amplamente presentes na culinária amazônica, evidenciando a influência indígena, ribeirinha e cabocla na região.

O processo de preparo

O preparo do Beiju Chica começa com a colheita da mandioca na roça. Após a coleta, a raiz é lavada, descascada e triturada no catitu. Em seguida, a massa é prensada no tipiti para a retirada do líquido — o tucupi. Já seca, a massa é peneirada, temperada e levada ao forno.

É à beira do forno que o Beiju Chica ganha forma. Dona Graça espalha a massa peneirada sobre a superfície quente, moldando-a com uma tala de madeira. Em seguida, adiciona o recheio — uma mistura de erva-doce, coco e queijo ralado — e dobra a massa ao meio. Após tostar um lado, vira-se o beiju para assar o outro, finalizando o processo com cortes que garantem a textura crocante.

O preparo do Beiju Chica envolve técnicas tradicionais transmitidas ao longo de gerações.Foto: Luiz Corrêa/Amazônia Latitude.

O preparo do Beiju Chica envolve técnicas tradicionais transmitidas ao longo de gerações.
Foto: Taissa Corrêa/Amazônia Latitude.

Sociabilidade e trabalho coletivo

O preparo do Beiju Chica é, essencialmente, uma prática coletiva. Embora Dona Graça seja a principal referência, o processo envolve familiares, vizinhos e pessoas que encomendam a produção.

Enquanto alguns auxiliam diretamente na feitura, outros contribuem alimentando o forno, retirando os beijus prontos ou organizando a produção. Ao mesmo tempo, o espaço se transforma em um ambiente de convivência, onde se compartilham conversas, histórias e afetos, geralmente acompanhados de café.

A casa de forno, assim, se consolida como um espaço de produção e sociabilidade, onde o trabalho manual se entrelaça com a vida comunitária.

Mais do que alimento, o Beiju Chica é partilha, memória e expressão da vida comunitária.Foto: Luiz Corrêa/Amazônia Latitude.

Mais do que alimento, o Beiju Chica é partilha, memória e expressão da vida comunitária.
Foto: Taissa Corrêa/Amazônia Latitude.

O Beiju Chica pode ser compreendido não apenas como uma iguaria regional, mas como uma prática cultural que reúne saberes, técnicas e relações sociais. Seu preparo envolve processos específicos — como moer, secar e torrar — que refletem conhecimentos acumulados ao longo de gerações.

Mais do que isso, sua produção mobiliza vínculos afetivos, encontros intergeracionais e dimensões religiosas, especialmente no contexto da devoção a São Benedito.

Nesse sentido, o Beiju Chica não se limita ao ato de cozinhar. Ele é partilhado desde o momento de sua preparação até sua distribuição nas festividades, configurando-se como um elemento central na construção de relações sociais e na preservação da memória coletiva.

Sua riqueza simbólica não se encerra na feitura: ela permanece nos afetos, nas práticas culturais e nas expressões de fé que atravessam a vida comunitária, afirmando o Beiju Chica como um marcador sociocultural e religioso de grande relevância.

Sônia Cristina de Albuquerque Vieiraé docente da Escola de Aplicação da Universidade Federal do Pará (EAUFPA); Doutora em Ciências Sociais (ênfase em Antropologia) pela UFPA.
Luiz Fernando de Assunção Corrêa
é graduando em Ciências Sociais e bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) e Extensão (PIBEX) da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Taissa Corrêa
é fotógrafa e divulgadora cultural independente.
Viviane Odine de Sousa
é graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Diretor de redação:
 Marcos Colón

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