Sandra Godinho

Paulista radicada no Amazonas, é graduada e mestre em Letras. É membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB), e tem dez livros publicados.

Conto de Sandra Godinho: O pecado (Qualquer desmatamento mata!)

Um conto sobre a hipocrisia que incendeia a floresta e a alma

O ouro como isca, o fogo como destino. 'O Pecado' mergulha na mente de quem vê a Amazônia apenas como território de conquista e impunidade. Arte: Loan Bastos/Amazônia Latitude.
O ouro como isca, o fogo como destino. 'O Pecado' mergulha na mente de quem vê a Amazônia apenas como território de conquista e impunidade. Arte: Loan Bastos/Amazônia Latitude.
O ouro como isca, o fogo como destino. 'O Pecado' mergulha na mente de quem vê a Amazônia apenas como território de conquista e impunidade. Arte: Loan Bastos/Amazônia Latitude.

O ouro como isca, o fogo como destino. 'O Pecado' mergulha na mente de quem vê a Amazônia apenas como território
de conquista e impunidade. Arte: Loan Bastos/Amazônia Latitude.

O fogo surgiu no lugarejo durante o sermão do padre Antônio. Não é bom que o homem esteja só e eu ali, teso e fiel no abafado da igreja, sentado no segundo banco, aspirando cinzas, acoitado entre a esposa e o filho enquanto a jovem, no banco à minha frente, vestida de preto a despeito do calor infernal, faiscou o loiro falso quando mexia os cabelos, gemendo as ancas no genuflexório, e fazendo crescer nas calças meu desejo, que ainda era só meu.

Minha mente se perdeu entre os suspiros de um sexo delirado, arranhando os ouvidos como prenúncio de um tempo de novas arrelias nos lençóis, com a mulher ali adiante enquanto a esposa ao meu lado ouvia, contida, a litania cristã e o curumim saracoteava feito bicho carpinteiro sem se assentar no banco. Todos concentrados na contemplação, só eu permaneci em esplendor.

A contrição me obrigou a ajoelhar sobre o genuflexório. Foi quando as panturrilhas delineadas dela saltaram, cheias das maciezas, desenhando um mapa de perdição bem na minha frente, sem respeito ou pudor com um pai de família como eu. Pode um pai de família sofrer tanta tentação? Assim, do nada, e justo na hora da missa? Até mesmo para o diabo seria aviltante, mas esse vivia sempre atentando.

A consciência me tangeu a mente junto ao sermão do religioso, preocupado em semear fiéis. Tinha gente que sabia viver em delírio e tentação, não eu. Sou um homem com fome de devorar o mundo. A reprovação ficou reverberando na boca do padre diante do altar, na voz dos fiéis, nos santos que me olhavam da parede ou dos altares; tudo pairou naquele silêncio indiscreto e intencional.

Após a hóstia recebida e o abraço selado da paz, me despedi do padre travando uma guerra interior. Fiz-lhe uma mesura enquanto o pequeno Gabriel se aproximava da pia para se persignar com a água benta, porque criança gosta de novidade e Clemência lhe faz todas as vontades. Digo que ela vai estragar o moleque, arruinar minha criação austera, mas ela repetiu o gesto santo, também se persignando. Me vi compungido e forçado a fazer o mesmo, como fiel devoto da santa Igreja. O dízimo e as contribuições que o digam.

E, de novo, o diabo atentou com aqueles cabelos aloirados caindo em cascata, me forçando à derrocada cristã, a moça passando ao largo de nossa santa família, imitando nosso gesto tão pouco santificado, meneando a cabeça para um cumprimento cortês. Um sorriso que me pareceu lascivo, mas não o bastante. A loirice abusada retornou à nave à procura do padre que se despedia dos fiéis, com alguns deitando um dedo de prosa e outros pedindo bênçãos. De longe, o religioso acenou ao meu menino, que retribuiu, mas foi puxado por Clemência pelo braço.

Só eu fiquei parado, pisando sonhos pelo caminho, arranhando a terra com maus pensamentos latejando nas têmporas, já sabendo do próximo pecado, um a mais, na lista extensa, e do grande esquema a ser montado para que o ato pudesse ser cometido, clandestino e em segurança. O homem tem alma de bicho e eu sempre fui bicho o suficiente, enxergando coxas até dentro d´água, homem sem virilidade não é homem.

Fiz o sinal-da-cruz. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Uma mesura discreta direcionada ao crucifixo no altar e já estou fora do templo, respirando as cinzas, com o joelho ainda travado por ter ficado ajoelhado por tanto tempo.

Foi, assim, com o ânimo enegrecido que voltei à fazenda. Deixei de ser gente de bem, amansada pela fé, sufocada pela religião e pela seca ancestral. Julho prometia altas temperaturas em época de deitar a mata, coivarar o restante dos gravetos, limpar o terreno para novos cultivos ou pastagens, o de costume. Pedi a Lourival que soubesse do padre o nome e o paradeiro da moça, com a desculpa de lhe devolver um dos brincos que, supostamente, teria caído e que, supostamente, seria de ouro. O ouro sempre foi impura isca.

Compraria os olhos, depois o corpo inteiro, que é assim que as coisas funcionam, o dinheiro sepultando o mundo. Quem não gosta de luxo? Foi assim que a pesquei do escuro das minhas funduras para dentro de um poço cheio de malinação e sacolejos, com o sorriso tinhoso de quem quer oferecer o seu melhor. Não tive como recusar a saliência de Amaralinda. O desejo, estrondeando dentro de mim, é que me fez ganhar alma.

Pedi a Clemência que levasse Gabriel para comprar o balão; o garoto havia me pedido tantas vezes durante as férias, que não pareceria suspeito.. Chamei Lourival e ordenei: dê o tempo de uma hora, depois põe fogo em tudo. O balão ia vadiar pelo céu enquanto a quentura das pernas golpeariam Amaralinda no leito conjugal.

Foi assim, com a escuridão, que fiz desaparecer a decência. Tive alma de bicho em corpo selvagem, me renovei da aridez com a chama que dominou os lençóis. Só a mata não se renovou, com tanta chama bailarina sufocando, e logo se apagou cinzenta, como se nunca houvesse existido, porque o fogo não admite controle, ele corcoveia, galopa, desvalida as rezas. As de Clemência não deram conta das acontecências dentro daquelas paragens, houve fazendeiro que perdeu tudo: casa, homens e boiada. Mas era tarde para os que se arrependem.

Julguei por bem me confessar, só o padre entenderia meu pecado. Qualquer religioso sabe das fraquezas humanas, da sandice dos machos que nunca se assenta e precisa ser sempre posta à prova. Eu confessaria a traição; a pobre Clemência não merecia, tão digna e lesa, vivendo nesse lugar nenhum, onde as autoridades nunca marcam presença, nesse apoucado de vida, sempre pela família, sempre para os outros, como se não tivesse vida própria. Que virtude há em nunca ser gente? Que fosse animal, de quando em quando. Mas não. Minha mulher ia morrer para não ser semente. Não era como a mata, que sempre se renovava.

Ano que vem, vamos ver tudo se repetir, os pecados, as coivaras, as cheias, as vazantes, os rios inchando e minguando como toda vida nesse tempo em que nada anda, brisa ou pensamento. Os homens vivem a cometer os mesmos erros, sem aprender que há outro tempo correndo debaixo das horas. Os gemidos de Amaralinda, que falta irão me fazer! O padre vai entender meu desvio. A culpa é de Clemência, que nunca se renova. Já a mata segue seu ciclo. Supostamente.

Sandra Godinho é graduada e mestre em Letras. É membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB). Com Orelha lavada, infância roubada (2018), recebeu Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019), e com Verso do reverso (2019) ganhou o Prêmio Regional de Melhor Livro de Contos da Cidade de Manaus. Seu romance Tocaia do Norte (2020) venceu o Prêmio Cidade de Manaus 2020 e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021. Outra obra sua, A morte é a promessa de algum fim, recebeu o Prêmio Cidade de Manaus 2021, e também o Prêmio Focus Brasil NY/AILB 2022. Tem ainda dois romances finalistas do Prêmio Leya de 2021 e 2022, Memórias de uma mulher morta e A Secura dos ossos.

Montagem de página, Revisão e Edição: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

Você pode gostar...

Acesse gratuitamente

Deixe seu e-mail para receber gratuitamente a versão digital do livro e ampliar sua leitura crítica sobre a Amazônia e o Brasil.

Download Livro

Este conteúdo é parte do compromisso da Amazônia Latitude de tornar visíveis debates e pesquisas sobre a Amazônia e o Brasil. Continue explorando conteúdos no site e redes sociais e, se quiser fortalecer esse trabalho independente, considere apoiar via pix: amazonialatitude@gmail.com.

Translate »