Castanha-do-pará: um tesouro da sociobiodiversidade amazônica
Uma jornada no coração do castanhal e o modo de vida dos extrativistas que sustentam a floresta

Extrativista na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, na Terra do Meio, Xingu/Pará, com o jamanxim (cesto de transporte)
após a coleta dos ouriços. A árdua jornada da castanha começa aqui. Foto: Flávio Barros.
“A farinha e as panelas estão separadas. As redes e cordas também. Os jamanxins já foram colocados na canoa. O carote com o combustível, o facão, a lona, o pé-de-bode e a espingarda já se encontram no jeito. Tudo pronto para seguirmos viagem amanhã cedo rumo ao castanhal”, relata Herculaninho, da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, na Terra do Meio, Xingu/Pará. Ali, vivenciei uma das experiências mais incríveis: sentir a vida e o trabalho pulsando no interior de um castanhal, no coração da Floresta Amazônica.
Quem consome a castanha-do-pará, facilmente encontrada em supermercados, feiras ou lojas de conveniência, mal imagina o percurso desse fruto precioso até chegar em nossos lares. Poucos conhecem as complexas circunstâncias da atividade desenvolvida pelos extrativistas. No contexto particular da Unidade de Conservação, a jornada de coleta deste fruto singular da nossa sociobiodiversidade dura entre 8 e 15 dias, mas esse tempo é variável, dependendo de fatores como a organização dos grupos familiares e as condições climáticas.
A ida ao castanhal é um acontecimento. Todo um planejamento é realizado, envolvendo as famílias que se unem para os dias de coleta. Esposas, crianças, cachorro, papagaio, macaco – ninguém fica para trás. Após horas de viagem pelo rio, atravessando igapós e furos, as famílias chegam aos barracões. Essas casas rústicas, com esteios fincados no chão e cobertura de palha, servem de abrigo, onde cada equipe se acomoda.
Aos homens, cabe a missão de coletar os ouriços, dedicando também tempo para caça e pesca. Afinal, mulheres e crianças permanecem nos barracões e necessitam de proteína. As mulheres, por sua vez, cuidam das crianças, preparam a comida e vigiam os abrigos. As crianças, com sua alegria, encantam a floresta brincando, correndo, jogando bola e se banhando no rio. Elas e suas mães evitam o ambiente hostil da mata, onde serpentes, onças, seres sobre-humanos e outros perigos podem estar em seu encalço.
No castanhal, o trabalho inicia com a busca pelos ouriços espalhados pelo chão. Com o “jamanxim”, preso às costas e fixado na cabeça por uma tira de fibra vegetal, e o “pé-de-bode” em mãos, os extrativistas coletam as “bolas de castanha”, despejando-as diretamente no cesto. Ao encher o jamanxim, caminham até o local de ajuntamento, formando uma montanha de ouriços. Em seguida, com a ajuda de um facão, iniciam a árdua e arriscada tarefa de abri-los, pois a casca do fruto é extremamente resistente, e um descuido pode levar à mutilações. Curiosamente, araras e cutias são exímias em quebrar os ouriços com maestria e rapidez.

Canoa carregada e atracada, pronta para a viagem de volta. Os sacos de 60 kg com as castanhas são transportados pelo rio, seguindo o curso d’água até o local de lavagem e secagem. Foto: Flávio Barros.
Uma vez extraídas, as castanhas são colocadas em sacos plásticos de 60 kg, transportados até o rio para lavagem e posterior secagem ao sol. Todo esse processo ocorre sob o calor úmido da floresta, em meio às incômodas picadas de formigas, carapanãs e outros insetos perturbadores que não dão sossego aos ribeirinhos-castanheiros. É fundamental também saber o momento certo da coleta, pois a queda de um ouriço do dossel da floresta pode ser fatal. As castanhas são colhidas do chão, não das árvores. É o tempo da natureza que dita o ritmo, não o do homem.
A castanheira e seus aliados
A castanheira (Bertholletia excelsa) é uma espécie vegetal de incontestável relevância, tanto para a humanidade quanto para os processos ecológicos da floresta. Poucos sabem, mas existe uma espécie de sapo (Adelphobates castaneoticus) que só se reproduz no interior do ouriço vazio, seja por castanhas consumidas por araras ou cutias, ou retiradas pelos extrativistas.
Esses ouriços oferecem um ambiente úmido, com reserva d’água, propício para a continuidade da espécie. Sem o ouriço na mata, o que seria desse sapo? As cutias, ao enterrarem as castanhas para consumo posterior, auxiliam na dispersão, pois frequentemente esquecem onde estocam os frutos. Os castanhais são também um reflexo primoroso do manejo humano, que moldou a paisagem amazônica em um processo antigo e cheio de beleza, dada a importância desse elemento da biodiversidade para as populações ameríndias. Foi a domesticação que nos legou esse alimento único.
Fruto do inverno amazônico, sua safra é rápida e intensa, variando de região para região. No Pará, geralmente ocorre de janeiro a abril, com floração entre setembro e fevereiro. As árvores podem atingir até 50 metros de altura, destacando-se por sua beleza e imponência. Cada gigante dessa produz, em média, 30 ouriços por ano, e cada ouriço pode gerar cerca de 16 castanhas. Anualmente, uma castanheira produz aproximadamente 500 castanhas. A frutificação inicia-se entre 8 e 12 anos, dependendo de diversas condições naturais. Dada sua importância, é uma espécie protegida por lei, especialmente no Brasil, Bolívia e Peru.

Herculaninho ao lado da pilha de ouriços, representando o volume de produção de uma safra. Cada ouriço contém em média 16 castanhas. Foto: Flávio Barros.
Conhecida como “carne vegetal”, a castanha-do-pará é rica em proteínas (12 a 17%), gorduras saudáveis, ferro, cálcio, zinco e grandes quantidades de metionina, fornecendo energia e combatendo diversas doenças. Entretanto, o selênio merece destaque, um mineral que auxilia na prevenção do câncer e no combate a vários vírus. Além de alimento, é valorizada como remédio e madeira nobre. Seus usos alimentares incluem sorvetes, cremes, farinha, leite vegetal, doces, bombons, óleos e o consumo in natura ou torrada.
Cozinheiros e chefs têm criado receitas inovadoras com esse componente da sociobiodiversidade amazônica, mas as receitas tradicionais dos povos e comunidades continuam presentes no cotidiano familiar. Pratos como macaco capelão ou suco de taperebá misturados ao leite da castanha são iguarias garantidas nos territórios de comunidades tradicionais e dos povos indígenas.
A identidade da castanha-do-pará é inegável. Embora presente em diversos estados da Amazônia brasileira e países pan-amazônicos, seu nome, amplamente difundido no Brasil e no exterior, remonta ao Brasil colonial. Naquela época, o Grão-Pará, através do porto de Belém, era o principal exportador do fruto para a Europa e outras regiões do Brasil.
Atualmente, o estado do Amazonas é o maior produtor desse bem valioso. Com uma vida útil que pode ultrapassar 500 anos, esperamos que as autoridades ambientais brasileiras continuem a proteger essa nobre gigante. Mais do que isso, que não negligenciem os castanheiros-extrativistas e seus territórios produtivos, que, por meio de suas sabedorias ancestrais, ajudam a preservar essas árvores, gerando renda, alimento, remédio e colaborando com o equilíbrio climático global e os processos ecológicos locais.
Flávio Bezerra Barros é doutor em Biologia da Conservação (2011) pela Universidade de Lisboa, Portugal; mestre em Ciências Biológicas (Zoologia) pela Universidade Federal da Paraíba; graduado em Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. É professor associado do Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares da Universidade Federal do Pará. Atua como docente-pesquisador nos Programas de Pós-Graduação em Agriculturas Amazônicas e Antropologia. Participa ainda como professor permanente no Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Universidade do Estado de Mato Grosso.
Revisão, edição e Montagem de Página: Juliana Carvalho
Diretor de redação: Marcos Colón
