O “novo Mato Grosso”: agronegócio brasileiro avança sobre a Bolívia

Enquanto grandes grupos do agronegócio brasileiro miram o leste boliviano, a última ilha de floresta conservada da Chiquitania entra no radar de uma expansão que desafia limites constitucionais e fronteiras nacionais

O avanço do complexo soja sobre o leste boliviano redesenha o mapa da América do Sul, transformando a Chiquitania e o Beni em extensões do modelo produtivo do Mato Grosso e Rondônia. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
O avanço do complexo soja sobre o leste boliviano redesenha o mapa da América do Sul, transformando a Chiquitania e o Beni em extensões do modelo produtivo do Mato Grosso e Rondônia. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
O avanço do complexo soja sobre o leste boliviano redesenha o mapa da América do Sul, transformando a Chiquitania e o Beni em extensões do modelo produtivo do Mato Grosso e Rondônia. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

O avanço do complexo soja sobre o leste boliviano redesenha o mapa da América do Sul, transformando a Chiquitania
e o Beni em extensões do modelo produtivo do Mato Grosso e Rondônia. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

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AgFeed e CNN Brasil Money noticiaram que Eraí Maggi teria adquirido entre 30 mil e 40 mil hectares na Chiquitania, em meio a uma nova onda de interesse do agronegócio brasileiro em expandir-se pelo leste boliviano. O movimento inclui apostas em soja, cana-de-açúcar, pecuária, algodão e infraestrutura, e recoloca uma pergunta central: se a operação poderia envolver a fazenda INPA, uma das últimas grandes ilhas de floresta conservada na região.

O mapa do agronegócio na Bolívia registra um movimento que acende o alerta ambiental. Uma reportagem do veículo especializado AgFeed, repercutida pela CNN Brasil Money, afirmou que Eraí Maggi, um dos maiores produtores de soja do planeta e figura central do grupo Bom Futuro, já teria comprado entre 30 mil e 40 mil hectares na região da Chiquitania. A informação não identifica a propriedade nem traz mais detalhes sobre a operação, mas aponta para um sinal mais amplo e mais preocupante: a Bolívia volta a ser apresentada, a partir do entorno do agronegócio brasileiro, como uma nova fronteira de expansão agropecuária.

Integração comercial e ambiente político

A reportagem surgiu em meio à aproximação entre Bolívia e Brasil, durante uma visita oficial liderada pelo presidente Rodrigo Paz, acompanhado por uma comitiva de ministros e empresários bolivianos. A viagem incluiu a assinatura de acordos com o governo brasileiro e a realização do Fórum Brasil-Bolívia, em São Paulo, espaço em que autoridades e atores empresariais se reuniram em torno de uma agenda de integração comercial, infraestrutura, energia e atração de investimentos.

Não se tratou, portanto, de um encontro meramente protocolar, mas de parte de um ambiente político mais amplo, no qual se discutem corredores logísticos e decisões capazes de reordenar territórios inteiros do leste boliviano.

Nesse contexto, Maggi apresentou uma narrativa especialmente reveladora: a de que a Bolívia representa hoje o que Mato Grosso foi em décadas passadas. A comparação não é inocente. Antonio A. R. Ioris, geógrafo e pesquisador da Universidade de Cardiff, descreve Mato Grosso não apenas como um caso de modernização agroexportadora, mas como uma “fronteira agrícola material e simbólica”, marcada pela concentração da propriedade rural, pela injustiça ambiental e pela expansão de atividades agroempresariais que reintroduzem práticas brutais de apropriação de bens comuns, mercantilização do que antes ficava fora do mercado e até formas extremas de exploração do trabalho.

Lida a partir da Bolívia, essa analogia não soa como uma promessa neutra de desenvolvimento, mas como o anúncio de um modelo territorial.

A imagem do 'desenvolvimento': Colheitadeiras operam em escala industrial no Mato Grosso. É este modelo de monocultura extensiva e alta mecanização que o agronegócio brasileiro projeta reproduzir na Chiquitania boliviana. Foto: Álvaro Rezende/Agência de Notícias MT.

Colheitadeiras operam em escala industrial no Mato Grosso. É este modelo de monocultura extensiva e alta mecanização que o agronegócio brasileiro projeta reproduzir na Chiquitania boliviana. Foto: Álvaro Rezende/Agência de Notícias MT.

Para colocar isso em perspectiva, Mato Grosso — com uma área apenas ligeiramente inferior à da Bolívia — abriga cerca de 10% das florestas do Brasil, mas concentra aproximadamente 20% da perda florestal registrada no país desde 2002. Em outras palavras, em pouco mais de duas décadas perdeu uma área equivalente a cerca de 25% de suas florestas, enquanto a Bolívia perdeu em torno de 15%.

Quando hoje se fala da Bolívia como o “novo Mato Grosso”, isso não remete apenas a uma promessa de expansão agroexportadora, mas também ao risco de uma aceleração ainda maior da fronteira agropecuária e do desmatamento.

Limites constitucionais e o papel do capital privado

O Bom Futuro, no entanto, esclareceu à Revista Nómadas que não tem investimentos corporativos na Bolívia. A própria AgFeed informa que qualquer movimento de Eraí Maggi responderia a decisões pessoais ou familiares, e não a uma operação formal do grupo. Ainda assim, a reportagem destaca a presença ativa de integrantes da família Maggi no fórum empresarial, incluindo filhos, herdeiros e outros acionistas ligados ao entorno do conglomerado.

A precisão corporativa pode ser importante para a empresa, mas não responde à pergunta central: de que maneira se estrutura uma operação entre 30 mil e 40 mil hectares em um país cuja Constituição fixa em 5 mil hectares o limite da propriedade agrária individual?

Sobre seu interesse, Maggi afirmou em outro veículo: “Sei que tem gente se perguntando: ‘o que o Eraí está fazendo na Bolívia?’. E ouvi gente dizer: ‘te vejo aqui e estou assustado; por isso o preço da terra vai explodir’. Eu me senti feliz e triste ao mesmo tempo. Porque a terra é consequência. Ganhar dinheiro é consequência. E nós sabemos o que estamos fazendo lá’”.

É importante lembrar, para dimensionar o peso dessas palavras, que Eraí Maggi é o patriarca de um dos conglomerados mais poderosos do agronegócio brasileiro e mundial, com controle sobre cerca de 1 milhão de hectares. Seu primo, Blairo Maggi — ex-ministro da Agricultura do Brasil e figura central do agronegócio regional — lidera, por sua vez, outro dos maiores grupos sojeiros do planeta, a Amaggi. Por isso, o que Eraí Maggi faz, anuncia ou sugere em matéria de negócios não passa despercebido: é acompanhado de perto por outros grandes atores do agronegócio brasileiro e internacional.

Nesse contexto, seu interesse por terras na Bolívia não deve ser lido como um movimento isolado, mas como um sinal que pode acelerar o interesse e a entrada de novos grupos empresariais brasileiros no país.

Blairo Maggi, ex-ministro da Agricultura, representa a face política e empresarial de um modelo que agora projeta sua influência e logística para além das fronteiras brasileiras, rumo ao leste boliviano. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.

Blairo Maggi, ex-ministro da Agricultura, representa a face política e empresarial de um modelo que agora projeta sua influência e logística para além das fronteiras brasileiras, rumo ao leste boliviano. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.

Infraestrutura e os corredores da “Rota do Coração”

Nos últimos meses, Maggi já participou de reuniões com autoridades bolivianas em espaços ligados à integração regional, infraestrutura e conectividade. Uma das poucas que veio a público foi seu encontro, em janeiro de 2026, com o Ministério de Obras Públicas, no âmbito da Cúpula Internacional de Integração Regional Rota do Coração da América do Sul. Segundo informações oficiais, discutiram-se ali corredores rodoviários, articulação produtiva e integração entre Bolívia, Brasil e Paraguai — todos temas centrais para viabilizar investimentos em territórios onde a infraestrutura não apenas modifica os usos do solo, mas também valoriza a terra em sua área de influência.

O interesse empresarial também se estenderia ao Beni. Segundo a reportagem, grupos agropecuários brasileiros com forte presença na Bolívia já estariam ampliando seus investimentos para áreas próximas a Rondônia, com campos experimentais de soja e cana-de-açúcar, além de operações pecuárias.

A reportagem menciona ainda a família Marchett, uma das que chegaram à Bolívia nos anos 1990, atraída pelo baixo preço da terra, pela fertilidade dos solos, pelos menores custos de produção e pela rápida valorização do mercado fundiário, em um contexto em que a soja oferecia margens de lucro superiores às do Brasil. Segundo a AgFeed, a família controla hoje cerca de 100 mil hectares no país e, para viabilizar novos investimentos em larga escala, essas operações estariam sendo estruturadas por meio de associações familiares ou fundos, em um contexto no qual segue vigente o limite de 5 mil hectares por pessoa física.

No caso da Colômbia, há denúncias de compra de terras por parte do grupo empresarial da família Marchett por meio de sete empresas diferentes, “para ocultar que havia superado o limite de acumulação da UAF e obter subsídios maiores do que os permitidos”.

Um elemento particularmente revelador é que seu representante levou esses fatos ao conhecimento de diferentes instâncias do Estado colombiano, incluindo o então presidente Álvaro Uribe, buscando influenciar mudanças normativas favoráveis a seus interesses. Não se trata, portanto, de atores econômicos quaisquer, mas de grupos regionais com elevada capacidade de incidência política, especialmente na área agrária.

Esse ponto é especialmente importante porque coincide com processos de integração física e de expansão agroindustrial que já estão em curso. A construção da ponte internacional Guajará-Mirim–Guayaramerín, do lado brasileiro, ao custo de US$ 85 milhões, somada a outras discussões sobre conectividade regional, pode reconfigurar profundamente o norte amazônico boliviano e torná-lo muito mais atraente para a expansão agropecuária articulada a mercados, portos secos, rotas de exportação e cadeias de valor transfronteiriças.

Segundo a AgFeed, a família Marchett já impulsiona no Beni um projeto de 60 mil hectares, com campos experimentais de soja e cana-de-açúcar. No mesmo departamento, acrescenta o veículo, terras que chegaram a ser vendidas por apenas US$ 50 por hectare poderiam atingir até US$ 1.500, dependendo do acesso logístico e da infraestrutura disponível.

Esse tipo de obra não pode ser lido apenas como conectividade ou integração física. Em sua pesquisa sobre a geopolítica da soja brasileira, Gustavo de L. T. Oliveira, da Clark University, sustenta que a expansão do complexo sojeiro brasileiro deve ser entendida também como uma forma de projeção de poder econômico e político para além de suas fronteiras.

Nesse marco, ele retoma uma formulação particularmente útil de Mariano Turzi: “as fronteiras nacionais estão perdendo terreno diante de um modelo de organização territorial impulsionado por corporações”, que “reorganiza o espaço geoeconômico de Argentina, Bolívia, Brasil, Uruguai e Paraguai em uma ‘República da Soja’”. Isso dialoga diretamente com o alerta da pesquisadora Marielle Palau sobre os riscos de “paraguaizar” o leste boliviano: “O modelo do agronegócio do Paraguai é de uma agricultura sem agricultores, sem gente, com a terra controlada por poucos empresários”. Lida a partir da Chiquitania e do Beni, a combinação de estradas, pontes, financiamento do BNDES, valorização fundiária e chegada de capital agroindustrial brasileiro se encaixa cada vez mais nessa lógica.

Essa efervescência empresarial ocorre em um contexto de aproximação diplomática e política entre Bolívia e Brasil. Durante a visita, foram realizadas diversas reuniões e firmados vários acordos cujos alcances ainda foram pouco noticiados na Bolívia.

Enquanto os governos celebram a 'integração comercial', grandes grupos sojeiros redesenham o leste boliviano à imagem e semelhança do modelo de concentração fundiária do Mato Grosso. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Enquanto os governos celebram a ‘integração comercial’, grandes grupos sojeiros redesenham o leste boliviano à imagem e semelhança do modelo de concentração fundiária do Mato Grosso. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

O epicentro do desmatamento e o financiamento do BNDES 

Um dos elementos que já apareceu na imprensa brasileira foi a assinatura, por parte do ministro da Agricultura do Brasil, de um acordo de intenção para construir uma estrada de 148 quilômetros ligando Mato Grosso a San Ignacio de Velasco, com possível financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Não se trata de um dado menor: como a Revista Nómadas já reportou, San Ignacio de Velasco tornou-se um dos principais epicentros do desmatamento na Bolívia.

Na Bolívia, o dado mais sensível da reportagem da AgFeed não é apenas o nome do comprador, mas a escala da operação. As 30 mil a 40 mil hectares mencionadas coincidem de forma chamativa com os 30.019 hectares da fazenda INPA, no município de Concepción, uma das últimas grandes ilhas de floresta conservada em plena frente de expansão agropecuária da Chiquitania.

A Revista Nómadas revelou anteriormente que essa propriedade — historicamente manejada sob aproveitamento florestal — teria sido colocada à venda e que diferentes fontes apontavam para um possível interesse do Bom Futuro. Agora, porém, ainda resta verificar se os hectares atribuídos a Eraí Maggi correspondem efetivamente à INPA. A falta de confirmação impõe cautela, mas não elimina a pergunta de fundo.

A floresta do INPA, em toda a sua majestade, núcleo de vida de uma riqueza natural indispensável para a Chiquitania. Foto: Revista Nómadas.

Acordos bilaterais discutem estradas e financiamentos do BNDES na região, enquanto remanescentes florestais como a fazenda INPA entram no radar de conversão para o modelo de monocultura do Mato Grosso. Foto: Revista Nómadas.

Não se trata de qualquer propriedade. A INPA é um bloco contínuo de floresta seca chiquitana que, visto em imagens de satélite, aparece como um grande retângulo verde cada vez mais isolado entre pastagens, colônias agrícolas e áreas desmatadas. Em um raio de 40 quilômetros ao seu redor, a Revista Nómadas registrou a perda de 127.988 hectares de floresta entre 2012 e 2023. Se a operação reportada desde o Brasil corresponder de fato a essa fazenda, não estaríamos falando apenas de uma compra e venda rural, mas da possível mudança de destino de um dos últimos grandes remanescentes florestais da região.

A pergunta sobre a INPA segue em aberto. O que já não parece estar em dúvida é outra coisa: a Chiquitania e o Beni entraram de vez no radar de uma nova onda de expansão agroindustrial brasileira. E quando esse interesse chega acompanhado de estradas, valorização fundiária e discursos de integração, a floresta raramente sai ilesa.

 

Este texto foi publicado em parceria com a Revista Nómadas.

Texto: Roberto Navia e Stasiek Czaplicki Cabezas
Arte: Fabrício Vinhas
Revisão, Edição e Montagem da Página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

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