Conto de Sandra Godinho: Só-nata
Entre a confissão e a culpa, o retrato visceral da moralidade corrompida

O que se esconde no silêncio de um confessionário quando as aparências são deixadas do lado de fora? 'Só-nata',
o novo conto de Sandra Godinho mergulha nos abismos da moralidade e da culpa. Arte: Amazônia Latitude.
Em nome do Pai.
O demônio vem escavando a minha carne, padre Antônio, por isso quero me confessar. Não é coisa fácil para um chefe de família, o senhor sabe. Não tenho o costume de perder missa, sou um fiel cristão que só vive para os seus. À exceção dos fins de semana, quando saio com meus amigos, que ninguém é de ferro.
Mas o demônio vem me atentando, padre, esfregando sua vontade em mim, na minha pele, só para testar a fé no Senhor. É a víbora com seu veneno. Eu me recolho em casa, antes de dormir, rezo o terço todas as noites pra afastar a tentação. Já disse pra minha mulher que homem como eu tem poucos por aí, que ela tirou a sorte grande. Eu também tirei, ela me deu uma família linda. Um filho macho como eu, para carregar o meu nome. Podia querer mais?
Mas aí o cão atenta… ah, ele atenta, padre. Não pode ver um homem de bem que já vem por fora, driblando toda a retaguarda, só pra pôr a fé do camarada à prova. O Senhor é testemunha como eu tenho resistido aos rabos-de-saia. Quando os amigos me convidam para afogar as misérias bebendo com as prostitutas ou consumir a vontade de vadiar em cama alheia, esse tipo de fome que vem para devorar a gente, eu digo não. Na maioria das vezes. Quase sempre.
Em nome do Filho.
Quero a Luz, padre. De verdade, é só o que eu quero. Que ela me livre do caos do mundo. Do mundo, não. De mim, padre. Eu sou um homem bom, mas tenho um lado obscuro. Quem não tem?
Pro senhor ter uma ideia da minha bondade, em casa uso a punição de vez em quando, pra mulher e filho não afracarem. Faço os dois se ajoelharem em grão de milho por duas horas, feito minha mãe fazia comigo. Dai a César o que é de César. E a Deus o que é de Deus.
Homem que é homem não chora, não mostra fraqueza, tem de se fortalecer na fé. Homem que é homem não é mesquinho com o dízimo, só com a esposa, que essa só sabe fazer conta, não é padre? Em casa, é só no cabresto e no caderno para anotar as contas. O que pagou e o que falta pagar. Castigo é pra botar ordem na casa. Sou um homem de bem, padre, meu Deus está acima de tudo.
E do Espírito Santo.
— Não é bom que o homem esteja só, senhor Calixto, o Senhor nos diz. Ninguém deve viver na solidão. Respeite aquela que tomou por esposa. Vai e não torne a pecar — digo.
Filho-da-puta, penso. Toda semana a mesma tentação, o mesmo pecado e a mesma penitência. Trinta ave-marias, trinta pais-nossos e um glória-ao-pai. É mais um a pagar penitência, isso eu posso entender. A carne é fraca e no confessionário, abafado, a gente confessa só o necessário, fica logo com vontade de sair porque aqui está quente demais, aqui é um inferno, ou só eu me sufoco? Já vai melhorar. É a idade. E o magistério, que me deu essa nave que começa a encher de fiéis para a próxima missa, e a mesma homilia, e os mesmos pecados, e as mesmas desculpas.
E eu vejo alguém novo, um jovenzinho, ao lado da mãe no primeiro banco. Um rosto de quase anjo, inocente e ajoelhado na fé, só as asas de fora, sem nada por baixo a não ser a infância. Tão tenro para coroinha. É só assuntar com a mãe, insinuo se não quer servir ao padre e à Santa Madre Igreja, digo ser da vontade de Deus. Com sorte…
Ao me persignar, ganho o ânimo de sair à porta da igreja e, na escadaria, olhar a praça e o rio à frente, notar que está baixando, um pouco a cada dia. É época da vazante, quando ele finge secar, um rio murcho assim como todo mundo. Lá dentro, a estátua do santo, a cruz do altar, os fiéis acendendo velas e se benzendo com a água santa na pia batismal enquanto eu lanço os olhos em direção ao menino para as despedidas, alheio às desumanidades, minhas tanto quanto às dos demais. Mas é tão jeitosinho, o pequeno.
Livrai-me do mal, meu Senhor. Vou me confessar, prometo, ainda hoje, com o irmão Pedro – ah, isso vou. E, antes de deitar minha consciência no travesseiro, usar o cilício.
Amém.
Sandra Godinho é graduada e mestre em Letras. É membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB). Com Orelha lavada, infância roubada (2018), recebeu Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019), e com Verso do reverso (2019) ganhou o Prêmio Regional de Melhor Livro de Contos da Cidade de Manaus. Seu romance Tocaia do Norte (2020) venceu o Prêmio Cidade de Manaus 2020 e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021. Outra obra sua, A morte é a promessa de algum fim, recebeu o Prêmio Cidade de Manaus 2021, e também o Prêmio Focus Brasil NY/AILB 2022. Tem ainda dois romances finalistas do Prêmio Leya de 2021 e 2022, Memórias de uma mulher morta e A Secura dos ossos.
Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

Sandra Godinho