A dança do absurdo nos contos de Thiago Roney
Autor amazonense lança Com o Rio negro na Boca, coleção de histórias curtas na qual examina a implicação das relações familiares nas pororocas éticas de nosso tempo

As pororocas éticas do nosso tempo: Em Com o Rio Negro na Boca, Thiago Roney joga na sala de estar da classe média brasileira
os medos, os peitos desertos e os segredos represados nos atos mais ordinários do cotidiano. Foto: Divulgação.
Como na imemorial canção de Belchior, Na Hora do Almoço (1971), o livro Com o Rio Negro na Boca – Contos Reunidos, de Thiago Roney, coloca na sala de estar da classe média brasileira alguns dos seus medos, dos seus peitos desertos, suas mãos fechadas e seus mais recônditos segredos.
Autor amazonense de refinada tessitura literária e obra sólida, Thiago Roney volta ao conto com, basicamente, duas proposituras em mente: moldar uma dramaturgia literária dos códigos familiares cotidianos e prestar um tributo à tradição do absurdo (algo que faz com reverência de fã, como nas citações do polonês Witold Gombrowicz, do irlandês Samuel Beckett ou do romeno Eugène Ionesco).
Apesar das saudações à tradição do teatro e da literatura internacionais, Com o Rio Negro na Boca nunca se afasta do interesse pelas aflições da classe média brasileira contemporânea: a roleta do emprego, a ambição de consumo, os novos anzóis tecnológicos, a incomunicabilidade. E, muito destacadamente, a angústia crescente dos filhos dessa classe média face ao chamado seco do mercado, do pragmatismo e do burnout.
Com um leve verniz de realismo fantástico, mas sem fazer do artifício uma trincheira, Thiago conduz o leitor por um porto de mães com grande senso de artesanato literário. Uma narrativa fluvial, bonita e escorreita, deslizando por entre transições de ancestralidades e ecos de tradições.
Seus contos articulam a presença da mãe em múltiplas circunstâncias, imprensada às vezes entre a responsabilidade total e a responsabilização irrestrita. O autor já começa pelo mais desafiador dos relatos, colocando-se, como narrador, na pele de uma mãe, a exemplo do que Chico Buarque fez em Meu Guri.
Os contos do volume abordam um tipo de violência represada nos atos comezinhos do cotidiano, uma raiva que pode explodir ou não, e cujas repercussões também resultam represadas. Há histórias em que Roney se vale da ambiência meio surda de uma visão espacial, uma metáfora do espaço físico que ilumina o espaço interno, como em A Casa Tomada, de Julio Cortázar.
Como se trata de um gênero de concisão e sprint moral, o conto, é preciso ter cuidado quando se escreve sobre ele porque senão podemos cometer spoilers.
É curioso como o autor vai enredando o leitor. Ele vai construindo a complexidade dos contos ao substituir progressivamente o trivial pelo fabuloso, que se imiscui com normalidade na narrativa. Mas é sempre no trivial que estão as chaves da leitura – da mãe que pede a Deus, como quase todas as mães do povo, à mãe que vive para emoldurar a existência do pai, mas com exímia consciência do que resultará disso. Já os filhos são o novo desafio: asfixiados por um mundo sem respostas, voltam à mãe como úteros em recusa em busca da vagina original, como a vagina voyeurística de Gustave Courbet. Homens lambem restos de relacionamentos entre espasmos de Piazzolla e lembranças da mãe morta.
Há filhos que são como o personagem Washington, aquele filho trotskista criado pelo humorista Chico Anysio, que aprendeu sobre a mais-valia e a exploração do homem pelo homem e acabou se tornou militante doméstico, intramuros. Há filhos cuja sensibilidade (e abandono existencial) os empurra para a ruptura absoluta. “Não chore, preciso de toda a minha coragem para morrer aos vinte anos”.
Desenrola-se um fio condutor que vem quase camuflado em todos os contos, um anúncio de desarticulação do conforto doméstico. Um dos textos, O Tabelião Dela, mistura a alienação de Bartleby, de Herman Melville, com algo que parece o choque de um diagnóstico da Síndrome de Ela, a doença neurológica, ao descrever o abismo de uma paralisação paulatina da vontade, uma ausência física, um vácuo a ser preenchido na existência.
A “Boca do Rio” a que o autor alude aborda o sentido semântico do termo, a foz ou desembocadura de um curso d’água fluvial, mas também remete àquilo ao qual fomos conduzidos, por decisão ou displicência, e é essa realidade que nos abraça agora. “O diálogo nunca foi o forte de nossa família”, diz um personagem. Esse diagnóstico, aparentemente muito básico, explica muito da sociedade brasileira moderna, que culmina com a descoberta do fascismo no seio da família, a revelação da intolerância violenta em meio às festas de churrasco e cerveja.
Há também um inventário de um mundo em desaparição, mas sem o componente da autocomiseração, do fatalismo. “As fotos pularam da porta do banheiro para as telas translúcidas dos computadores”. Brandindo um estilo literário que abraça todas as leituras, cristalino, sem salamaleques ou truques, Thiago Roney busca um tipo de reconciliação com a tradição do conto brasileiro mais popular dos anos 1970, como Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos. Ao mesmo tempo, como é amazonense, equilibra-se sobre as palafitas de uma outra memória, distante do Leblon, mas intimamente perto do coração selvagem.
Thiago Roney nasceu em Boa Vista, Roraima, e vive em Manaus, Amazonas, desde o primeiro ano de vida. Professor e escritor, é licenciado em Matemática, pela Universidade Federal do Amazonas, e em Letras, pela Unesa. Mestre em Letras e Artes, pela Universidade do Estado do Amazonas, e doutor em Literatura, pela Universidade de Brasília. Publicou dois livros de contos: O estouro da artéria de um cavalo húngaro (2013) e A merda do mundo (2015), coautoria com Arcângelo Ferreira, o livro de poesia O drone de Yebá Buró – um poema cosmopolítico (2022) e o livro de crítica literária Realismo dos fantasmas da periferia: o pensamento do realismo mágico (2025).

Com o Rio Negro na Boca
Autor: Thiago Roney
Ano: 2026
Idioma: Português
Editora: Valer
Texto: Jotabê Medeiros
Revisão, Edição e Montagem da página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón
