corpos encantados, mandingas y contracolonialidade
práticas de encantamento y mandingas como tecnologias complexas de reexistência contra o projeto de domesticação e esgotamento dos corpos-territórios

As práticas de encantamento, as medicinas tradicionais e as mandingas como chaves de cura e retomada do pertencimento cosmológico.
Arte: FabrÍcio Vinhas/Amazônia Latitude.
ao se depararem com mundos onde não há a fragmentação da mente y corpo, tampouco a ilusão hierárquica do masculino sobre o feminino ou a desconexão da vida humana em relação a tudo o que constitui o Cosmos, os invasores implantaram em nossos territórios o conceito de um deus único, universal, onipresente y onipotente que vigia y pune aquelas y aqueles que o desobedecem y se entregam ao encantamento através do corpo integrado às emoções y às forças da natureza.
traduzindo isso como “manifestações diabólicas”, se implementou mecanismos autoritários para um suposto controle sobre as forças naturais, y logo, também, sobre a natureza humana, atingindo profundamente a noção de si y do pertencimento cosmológico, tornando a vida uma esteira de produção de culpa, incompletude, consumo, desigualdades y servidão condicionada.
é através do medo dos corpos encantados, projetado pela religiosidade institucional colonial que fundamenta o capitalismo y o patriarcado euro-cristão, que se deferem as constantes tentativas de destruição do que é orgânico y a desconexão com a Terra y o Todo ainda nos dias de hoje.
seja pela perseguição y violência física ou através da estratégica sedução cognitiva de nossos sentidos y sentires – nos retirando de nossas subjetividades não-autocentradas em prol de um estado de apartamento, sensorialmente adormecidos y recompensados através de diferentes vícios y estímulos – produziram sobre nossas vidas inúmeros sintomas y doenças psicoespirituais dos mais diferentes níveis, criando dissociações em favorecimento do avanço do roubo de pertencimento comunitário à terra y da construção de um legado amplo por um Bem-Viver que beneficia a continuidade da vida como um todo.
o disciplinamento através da tomada das capacidades de se experienciar y aprender através dos sentidos é um dos meios para o objetivo de desencantar, distorcer y manter o ser como ferramenta de exploração contínua.
o tempo linear y a punição do erótico
o colonialismo engoliu o estado natural ao criar o tempo linear como ferramenta para a garantia de uso da força de trabalho para além dos ciclos da natureza y das reais necessidades humanas, em proveito da manutenção do sistema de acúmulo através do domínio y da inferiorização de povos y reinos (animal, vegetal, mineral y fungi).
dentro desta mentalidade, se atualiza constantemente a perseguição, o silenciamento y o extermínio material y simbólico dos corpos que manifestam o estado lascivo, desobediente y vadio y aos sentidos que rejeitam a escravização y a supremacia imperialista intelectual, “espiritual”, ética y estética.
não à toa, é nessa mesma cultura que mulheres são punidas ao exalarem o erótico; impedidas de criar, prosperar y descansar pelas múltiplas jornadas de trabalho não-ou mal remuneradas; sofrem com a violência obstétrica como castigo pelo prazer y por gerar vida dentro de um projeto necropolítico; sendo alvos de múltiplas formas de violência, tal como os biomas y seus guardiões visíveis y invisíveis são tratados há cinco séculos neste extenso território invadido.
em contraponto a todo esse projeto massivamente destrutivo y produtor de insanidades, nós, povos da terra, vivemos y recriamos práticas de encantamento, não admitindo a separação matéria—espírito, mantendo um legado ancestral que tem o cosmos como organismo vivo primordial, nos mantendo em relação comunitária constante com o mais-que-humano; rompendo y desmobilizando a racionalização colonial, criando y recriando outros caminhos y destruindo lógicas escravagistas, racistas, misóginas y especifistas a cada ritualística.
através dos profundos saberes científicos-espirituais que portamos y transmitimos por gerações, nossas práticas propiciam a criação de cotidianos comunitariamente abundantes, saudáveis y prósperos. a entrega espiritual que nos mantém integrados em uma só teia de existência y a experienciação do viver através de valores civilizatórios fundamentados na ancestralidade y na visão originária do mundo, mantém em movimento a extensa Roda da Vida que sustenta nossas existências na devida ordem cósmica.
encantarias como tecnologias de defesa
as práticas de encantamento y suas encantarias que se espalham como sementes por todo esse território são tecnologias complexas, refinadas durante milênios pelos mais diversos encruzamentos potencializadores, y que se mantêm vivas na contemporaneidade; memorizadas, desenvolvidas y salvaguardadas por gerações de linhagens inspiradas pela unidade cósmica que nos engendra, estruturadas a partir de lógicas próprias, devidamente sofisticadas y validadas por experimentações contínuas através dos tempos.
elas nos servem como chão, bússola, medicina, alimento, arma y defesa contra a pestilência implantada em nossos corpos-territórios durante esses cinco séculos de silenciamento y dominação física, mental y espiritual pactuados em ciclos de guerras incessantes contra a diversidade de manifestações plurais da existência; abrem campos de trégua, percepção y comunicação com o não-visível que também integra y sustenta a teia de povos da qual somos parte y que mantém o Céu seguro apesar dos pesares.
é através de nossas medicinas, mandingas y feitiços que nos integramos continuamente às espirais que dão origem à existência humana y mais-que-humana, nos reconectando à ancestralidade, nos divinizando y honrando o Grande Útero-Mítico-Originário, possibilitando caminhos para o Bem-Viver que há tanto plantamos a cada chão fundamentado pelos encantados.
como profundos aprendizes y porta-vozes dos reinos vegetal, mineral, animal y fungi, guardamos em nossas crôas, cuias y patuás ramas, cascas y sementes que possibilitam o reflorestamento y o cuidado em cada chão assentado. entoamos em nossas cantigas y danças o chamado de retorno das águas primordiais revoltosas que possibilitam o reviver dos espíritos guardiões da vida nessa Terra.
territórios de reexistências múltiplas
dividimos nossos corpos com seres encantados que trazem à nossa dimensão mítica saberes de valores inestimáveis que transformam nosso ser y nossas comunidades em territórios de reexistências múltiplas; capacidades estas que escapam de qualquer tentativa de racionalização y domínio do projeto colonial y que, a cada ponto de força firmado, impossibilitam o avanço das lógicas de escassez y desencanto.
temos os solos de nossos biomas como substratos de alta fertilidade para nossas raízes, favorecendo nossos fluxos y partilhas a cada encruzilhada de mata, rio ou rua y confluindo através de experiências alquímicas enriquecidas pelas trocas de saberes.
mantemos nossas escritas atemporais em pontos riscados, difundimos curas multidimensionais pela fumaça de nossas chanducas y baforamos aguardentes que reanimam y reencantam aquelas y aqueles que se dispõem a beber de nossas águas com respeito y comprometimento com o legado ancestral que representamos.
conduzindo cada vez mais pessoas ao processo de reintegração com a natureza y à ação prática conjunta de se relacionar y manter viventes nossas sagradas fontes manifestadas nas mais diferentes folhas, seixos, bichos y vozes que interligam a tessitura ancestral, a encantaria y seus reinos são portais que possibilitam acesso ao mundo onde existem muitos mundos.
mas para adentrar tem que se saber que toda mata é chão feiticeiro y que nem todos são bem-vindos. há de se fazer muito trabalho para desmantelar a praga colonial que cada corpo-território desencantado carrega em si, exigindo de quem chega que se desarme em nossas porteiras y se permita sentir o que tiver que sentir para iniciar o seu processo de cura y reaprendizado do viver, sob o ordenamento promovido por seres y maestrias historicamente subestimados y subjugados pelas fantasias y o imaginário colonialistas.
*Nota da Editora: Em respeito à autonomia intelectual, artística e espiritual de Ara Ọyatanilé, a Revista Amazônia Latitude optou por preservar integralmente a formatação, a sintaxe e a grafia propostas pela autora em seu manuscrito original. O uso sistemático da consoante “y” em substituição à conjunção aditiva “e”, bem como a abertura dos parágrafos com iniciais minúsculas, não constituem desvios mecânicos de revisão, mas sim escolhas políticas e estéticas intencionais de linguagem. Trata-se de uma estratégia de ruptura com as normas gramaticais hegemônicas, alinhada ao próprio conceito de contracolonialidade defendido abertamente ao longo do manifesto.
Ara Oyatanilé é liderança espiritual, erveira, comunicadora, pesquisadora multidisciplinar autônoma, multiartista y terapeuta corporal naturopata. tem a sua vida dedicada ao legado dos ancestrais y encantados de mata y ao ato devocional às Grandes Mães Originárias.
Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón
