Utopias Amazônicas #05 | Edna Castro — Epistemologias da floresta e o combate ao colonialismo verde
“Nunca vi a Amazônia tão em perigo como nesse momento”: a professora emérita da UFPA destrincha as engrenagens do neoextrativismo 4.0 e alerta para os riscos do avanço do colonialismo verde sobre a autonomia dos povos

Na quinta entrevista da série Utopias Amazônicas, a socióloga Edna Castro discute como reconstruir as formas de imaginar o amanhã
a partir das vivências e saberes da floresta. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
Pensar o amanhã possível exige, antes de tudo, a coragem de nomear o presente pelo que ele é.”
A premissa conduz o quinto capítulo da série Utopias Amazônicas, dedicada a debater as perspectivas dos ensaístas reunidos na obra homônima. A entrevistada, Edna Castro, é professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA) e um dos nomes mais influentes do pensamento crítico decolonial latino-americano.
Doutora pela Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais e com pós-doutorado pelo Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS), ambos em Paris, Edna Castro atua no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) e nos programas de pós-graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido e em Sociologia e Antropologia da UFPA. Sua trajetória institucional inclui ainda a presidência da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR) e da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS).
Entre suas publicações mais influentes figuram Decolonialidade e Sociologia na América Latina (2018), Pensamento Crítico Latino-Americano (2019), o clássico e autobiográfico Travessias: o percurso intelectual de uma socióloga na Amazônia (2024), além da coautoria em Povos Indígenas do Alto Rio Negro e dominação colonial (2024).
O trabalho de Edna Castro destaca-se também por uma intersecção singular entre a rigorosa pesquisa acadêmica e a linguagem cinematográfica, tendo dirigido os documentários Fronteira Carajás (1992) — que expõe os impactos socioambientais do grande projeto minerador na região — e Marias da Castanha (1987), focado nas relações de trabalho fabril em Belém.
No livro Utopias Amazônicas, a socióloga assina o artigo “Utopias Amazônicas: para ser possível amanhã”. O ensaio toma como ponto de partida a crise ecológica global contemporânea para propor o que define como “outras epistemologias e racionalidades”, defendendo a urgência de reconstruir as formas de imaginar o futuro a partir das vivências da Amazônia.
Confira a entrevista na íntegra:
Amazônia Latitude: Professora Edna, seja muito bem-vinda ao LatitudeCast.
Edna Castro: É um prazer eu poder participar desse projeto tão bonito que é do livro Utopias Amazônicas. E eu gostaria muito de falar sobre a Amazônia, realmente desse contexto de utopias.
Amazônia Latitude: Professora, começamos com a pergunta que fazemos a todos os autores e autoras dessa série. O que é a utopia amazônica para você? E eu não me refiro àquela utopia canônica, mas como você escreve que a utopia que busca é integrada às raízes da Terra, é comprometida com o bem-estar de todas e de todos, diferente daquelas que o iluminismo fomentou, pela razão, com a verdade universal. O que é essa outra utopia e como ela se distingue das utopias do pensamento ocidental?
Edna Castro: Eu penso a utopia é uma crítica ao pensamento ocidental. Primeiramente, eu acho que o artigo procura contribuir com a crítica à razão ocidental e colonial a partir das experiências sociais vividas na Amazônia. Pensar as vozes dos lugares, os olhares, as percepções e o rico imaginário das populações amazônicas, que são atores sociais que conseguiram produzir a vida e a exuberância dessa floresta por milhares de anos, e que faz com que seja uma das riquezas que nós encontramos no mundo de hoje. O planeta tem esse manancial de povos, de línguas que pensam a história a contrapelo de processos de dominação. E eu acho que isso é fundamental para se entender a sociedade de hoje numa perspectiva de uma crítica da sociedade ocidental, porque as utopias que emergem, ou seja, os sonhos coletivos que estão sendo construídos a cada tempo, eles estão conectados com todo um processo de dominação que os coloca no outro lado dos atores, dos protagonistas da vida.
Então, eu vejo a utopia como um movimento contínuo de sonhar, de imaginar algo compartilhado, algo coletivo, como um projeto coletivo de construção da sociedade. E, a partir daí, perguntar se ainda temos tempo de reinventar o olhar para valorizar a vida e, como diz o livro, permitir que se pense na possibilidade ainda de salvar o planeta dessa crise ambiental, dessa crise climática, e adiar o fim do mundo.
Amazônia Latitude: E é muito importante, porque você abre o artigo dizendo que vivemos “a emergência de uma crise ecológica sem precedente”, que nos permite, que nos convoca a pensar e buscar “outras epistemologias para compreender e interpretar o nosso tempo”. O que significa isso concretamente, buscar outras epistemologias? E por que você afirma que é preciso esse olhar daqui de experiências milenares que conseguiram produzir a riqueza e a exuberância que é a Amazônia?
Edna Castro: É uma conversa, portanto, com o contexto social, político, econômico no qual vivemos hoje e um contexto geopolítico, porque entendo que as sociedades atuais vivem uma situação de policrise. Nós vivemos múltiplas crises neste momento que se sobrepõem. É uma crise política, é uma crise econômica, do próprio modelo de economia capitalista, mas também é uma crise ética, é uma crise civilizatória, que vejo com o aumento da violência, aumento de guerras, a necessidade das nações se digladiarem, uma tensão da construção de uma nova ordem no mundo.
E é nesse contexto também que as tensões das grandes corporações, da economia, se efetivam. E a Amazônia, longe de ser uma região distante, está no centro da geopolítica mundial, no meu entender ela está no centro das crises econômicas, como um interesse particular de nações e da própria crise política mundial, de dominação de novos territórios, de ocupação e utilização de outros recursos naturais.
Esse contexto que eu falo, é um contexto de transformações socioambientais que tem colocado em questão essa própria ordem, digamos, mesmo que contraditória, que esteja sujeita a muitas críticas, essa ordem mundial existente hoje.
De certa forma, significa que a perspectiva de análise precisa recorrer a outras formulações teóricas. E se contrapondo, inclusive, à ciência canônica, à ciência tradicional, à ciência que nós nos formamos, porque é uma ciência marcada por uma sociedade que tem outros contextos históricos, outros desafios, que é a sociedade ocidental. Dizendo assim, me desculpe de uma maneira mais genérica, do ocidental. E que desconheceu ao longo do tempo as possibilidades de outros povos pensarem o seu futuro, pensarem a sua vida e a construção das sociedades.
Quando falo de novas epistemologias, primeiro é considerar que o mundo é mais diverso do que nós imaginamos. Há uma diversidade de conhecimento, há uma diversidade de saberes, portanto, há uma diversidade também de culturas e de epistemologias para olhar, para analisar, para compreender esse mundo.
Essa compreensão que parte, portanto, do reconhecimento da diversidade do mundo, que essa diversidade não é simplesmente cultura relacionada ao folclore, relacionada à música, mas é um complexo que vai dar cultura a um pensamento teórico, a uma formulação de epistemologias, ou seja, de conhecimentos, e conhecimentos que têm fundamento, conhecimentos que têm sistematização. Então, essa análise nos leva, portanto, a pensar numa sociedade pluridiversa.
É nessa direção que falo que epistemologias, vejo isso a partir do local onde as pessoas vivem, e que o local não é só um território vazio, um território geográfico, mas é um território pleno de saberes, pleno de conhecimentos, e pleno também de cultura, de música e de capacidade de fazer com que a vida humana seja capaz de ser reproduzida lá dentro da floresta, lá na beira de um rio, ou de um igarapé, ou numa montanha, ou numa região mais árida, mas que, daqueles lugares, a vida está sendo reproduzida. E se está sendo reproduzida, novas gerações nascem, instrumentos são criados para a produção da própria vida. Significa que há um pensamento importante, profundo, que permite com que esses povos tenham vivido milênios de anos e continuem ainda presentes, resistentes na cena mundial de hoje. É nessa perspectiva que pensamos a revisão paradigmática.
Amazônia Latitude: No seu artigo, você faz alusão a três perspectivas epistemológicas. A primeira é reconhecer a insuficiência das teorias que nos informam para dar conta da diversidade e da experiência social do caso do mundo amazônico. Posteriormente, faz essa conexão belíssima, que chama a atenção para categorias de colonialidade do poder, dialogando com o Quijano, para entender esse racismo, essa racialização e a violência como dimensões desse crescimento econômico. Essa última categoria que é a inversão do olhar no sentido de reconhecer essas realidades comportadoras de sentido, que às vezes escapam do entendimento de um contexto da experiência social vivida ali na região, no caso aqui da Amazônia.
E é muito interessante que essas epistemologias que a professora alude no seu texto também nos fazem questionar algumas nomenclaturas ou gramática, ou a gente podia chamar essa nova gramática do capitalismo, que é usar esse conceito de extrativismo, neoextrativismo ou bioeconomia. A professora explica que, embora o nome mude, a lógica permanece. Como explicar que, décadas depois das primeiras denúncias, esse modelo persiste, como o próprio artigo menciona, de pilhar do crescimento econômico?
Edna Castro: Eu acho que a história das sociedades, das Américas, mostra todo esse caminho da colonialidade, da colonização, aliás, e todos esses cinco séculos. Eu chamo muito a atenção do Aníbal Quijano por causa do projeto da modernidade e colonialidade, que eu acho que tem sentido para se entender melhor esse universo, o universo temporal do século, mas também espacial. Na relação tempo-espaço, é que nós vamos perceber que, ao longo desse tempo, sempre houve uma contestação, mas ao mesmo tempo uma dominação do modelo de desenvolvimento. O desenvolvimento é uma dimensão muito importante da análise porque ele está conectado ao progresso, está conectado ao crescimento econômico. Então, quando a gente fala de desenvolvimento, ele se tornou uma ideologia, uma crença. A crença em que? A crença no progresso, a crença que sempre será melhor. Mas nós precisamos contextualizar que esse crescimento e essa crença de um desenvolvimento capitalista, de um desenvolvimento que, na sua lógica, na sua continuidade, ele mantém as duas grandes lógicas do capitalismo, que já vem desde a análise de Marx, que é o movimento de acumulação e de concentração.
Então, esses movimentos são contínuos e eles tendem, portanto, ao crescimento. As Américas permitiram a grande aventura ocidental, europeia, por exemplo, a se tornar o centro do mundo, a se tornar um continente com um protagonismo extraordinário que não tinha antes da chegada dos europeus às Américas. E o que se vai observar ao longo desse tempo é um enriquecimento que tem a ver com o saque ocorrido ao longo do tempo, da madeira. Hoje não temos o pau-Brasil no Brasil, mas encontramos o pau-Brasil, por exemplo, em alguns lugares da Europa, quando você visita bibliotecas, prédios antigos. Enfim, estou dando esse exemplo, mas poderia ser o ouro, poderia ser a madeira, poderia ser a borracha da Amazônia. Enfim, esse processo é uma lógica que é contínua, é o mote do desenvolvimento do capitalismo.
O que nós observamos, [é] que é importante fazer uma crítica à racionalidade do capital, que é uma racionalidade construída dentro da sociedade ocidental. E quando eu falo nesse primeiro ponto, que foi reconhecer a insuficiência das teorias, ela se completa com essa relação colonial de utilização dos recursos de uma região para outra região, no caso das Américas para a Europa. E as sociedades latino-americanas sempre estiveram engajadas, de uma maneira ou de outra, em contestar também esse processo. Acho que temos uma literatura riquíssima que fala da colonialidade, que fala do empobrecimento das sociedades das Américas, que fala na desigualdade, porque a desigualdade é parte desse projeto, é parte da lógica. Não existe desenvolvimento sem desigualdade, não existe desenvolvimento sem pobreza. O que muda um pouco é essa relação. A diferença nessa relação entre riqueza e pobreza, que pode ter nuances diferentes, porém a lógica é a mesma.
E hoje nós vivemos na América Latina, vivemos na Amazônia, um momento singular de extrema exploração dos recursos naturais. Todo o processo desde a borracha e, mais recentemente, com a construção dos grandes projetos econômicos, as hidrelétricas, as estradas, imensas estradas, como Transamazônica, BR-163, Belém-Brasília, rasgando em direção ao norte e trazendo essa fronteira de recursos, incorporando a economia nacional e a economia internacional. Esse processo intensificou a exploração do recurso, exploração da floresta, dos rios, enfim. Então, hoje, nós analisamos o atual modelo de desenvolvimento capitalista, que é o sistema-mundo moderno e colonial, como um modelo de intensificação da base de exploração inicial da colonização, que é o próprio extrativismo.
O extrativismo é a extração de matérias-primas e o deslocamento dela em grandes volumes para outras regiões. Pode ser uma exportação nacional para outras regiões do Brasil, pode ser uma exportação internacional. A exportação internacional é o grande mercado, é o grande mercado de compra dos produtos da Amazônia. Esse é um eixo importante das cadeias produtivas. Outro eixo é a pecuária, é a produção de grãos, a produção de commodities que não têm valor integrado em sistemas locais de produção, e não há uma agregação. São matérias-primas ou pouco processadas que são extraídas para gerar riqueza fora da região e fora do país.
Esse modelo, nós estamos caracterizando como modelo extrativista. Eu chamo mesmo neoextrativista. Por quê? Porque esse NEO é no sentido de que há novos processos tecnológicos embutidos na atividade de produção de soja, de grãos, ou da exportação de gado, de carne, e a tecnologia é uma tecnologia 4.0 ou mais de intensificação.
Nós temos uma Amazônia que, mesmo que ela esteja sendo apresentada ao mundo na cor verde e apresentada como lugar da riqueza econômica, da riqueza, digamos assim, do planeta patrimonial, e que ela vai ser preservada, o que acontece na realidade é assustador. Porque é uma extraordinária invasão em múltiplas direções, não é um detalhe, para a produção de commodities. Então, a Amazônia é este lugar e é um lugar da produção da violência. Então, essa Amazônia precisa estar na pauta. Essa Amazônia é a realidade que não pode ser silenciada, obscurecida, quando se fala, por exemplo, em preservação da natureza, em desenvolvimento, porque ela emerge todo o tempo na cena social, política e econômica da região.
Amazônia Latitude: E entre esses vocabulários que foram criados nessa nova, digamos, gramática, a professora escreve que a bioeconomia no imaginário e nas narrativas de agências internacionais desponta como uma renovação de conceitos de sustentabilidade. Mas que, no fundo, é não mais que um discurso, uma política de mercado. Existe alguma versão da bioeconomia pensada a partir dos povos amazônicos ou esse conceito é completamente irrecuperável?
Edna Castro: Olha, esse conceito emerge dentro de um debate sobre como salvar a floresta e a bioeconomia emerge nesse contexto, de que tem possibilidade de salvar a floresta, mas no momento em que possa usar o recurso […] A primeira ideia central é usar o recurso. Isso aí não saiu da mesma lógica de que existem recursos, eles são oportunidades econômicas de desenvolvimento. A bioeconomia não é um termo, não é uma gramática utilizada pelas populações que vivem na Amazônia. Ela é um termo criado. Utilizar a biodiversidade e transformá-la em economia, numa economia que seja economia com oportunidade de crescimento. A prova dessa origem foi o apelo a grandes empresas [ao] desenvolverem as cadeias produtivas daquilo que existe na Amazônia como produção da biodiversidade, mas claro, numa escala econômica.
Quando falamos da escala capitalista, de mercado, saímos da economia local. Nós passamos para o outro patamar da economia, que é a economia de mercado. Aí você não tem como controlar, nem o Estado controla, porque ela tem uma dimensão que é das lógicas econômicas da produção, da acumulação e da concentração de renda, de poder. Esse tema é muito complexo porque ele é uma narrativa muito sedutora. Ela percorre os espaços, ela tem uma repercussão muito grande porque alerta outras pessoas que estavam até desatentas de que ali tem um manancial a ser explorado. Só que ele tem uma cor pintada de verde.
Há uma desconstrução, sim, desse conceito. E o debate também na academia passa agora por uma outra gramática, que é uma sociobioeconomia. Quer dizer, a partir de uma sociobiodiversidade, tratando a sociobiodiversidade, colocando a sociedade como importante, porém levando em consideração a biodiversidade e a economia.
Algumas gramáticas estão surgindo, tentando reconfigurar o conceito, reconfigurar essa expressão. A crítica à biodiversidade permanece, acho que é importante. Mas o que eu poderia dizer, que me toca mais de perto, é que há uma multiplicidade de experiências, muitas vezes pouco visíveis, que estão ocorrendo em toda a Amazônia, que já têm uma tradição de ocorrer, por sinal, já existem sistemas agroflorestais há muito tempo na Amazônia, talvez muito antes dos 500 anos de colonização, 500 e poucos anos de colonização, porque esses povos já existiam e eles tinham seus sistemas de produção alimentar, que contavam com a riqueza da floresta, com as sementes, com as plantas, com os cipós, enfim, com os peixes, os animais. Esse modelo agroextrativista e florestal é o modelo que caracteriza a riqueza e a vida, a reprodução econômica das populações que viveram e que vivem na Amazônia hoje.
Aí que eu queria chamar a atenção, porque a lógica impregnada nesse modelo, nesse sistema, é a lógica de preservação alimentar. Então, eles produzem dentro de uma escala, que é uma escala da reprodução da vida. É a escala em que você colhe o açaí para alimentação e uma parte para venda. Mas não é uma escala econômica, não é uma escala de mercado. Aí que vem a questão que as pessoas não querem discutir, que é uma outra, que a bioeconomia tal qual proposta era uma bioeconomia da escala.
Então, quando você fala do açaí, que é uma grande cadeia econômica tradicional e fundamental na alimentação, na dieta alimentar dos povos amazônicos […] o açaí hoje faz parte de uma economia mundial. Ele faz parte de uma cadeia altamente sofisticada que você encontra nos Estados Unidos, você encontra em outros países e ela se difunde de uma maneira muito rápida dentro de uma produção de commodities. Você está exportando commodities do açaí, não é mais apenas da soja ou do minério. E há uma tendência, a curto prazo, há uma tendência de sua expansão.
E a mesma coisa nós poderíamos falar de uma série de outros produtos que entraram, mesmo produtos imaginários, porque tem produtos que são as imagens, a imagem da Amazônia, a imagem do verde, a imagem da priprioca, ou a imagem da andiroba, que às vezes não é a andiroba que está embutida no produto, mas é a imagem de uma semente que tem propriedade de cura de uma série de doenças e que era tradicionalmente presente na cultura tradicional e que hoje a sua imagem é vendida junto com outros produtos que não são exatamente o que vem da floresta. Sofisticando, melhorando, inovando na área de uma socioeconomia que já existia, não é uma coisa nova, mas agora como uma espécie de buscar o protagonismo num debate intenso e cuja força do mercado se impõe de uma maneira extraordinária, e que as populações locais já estão percebendo que estão perdendo espaço no seu próprio campo cultural do conhecimento tradicional.
Essa tensão está presente, você encontra isso em inúmeras reuniões dos grupos de camponeses, reuniões de populações tradicionais, povos indígenas, que estão correndo para fazer valer as suas histórias, os seus conhecimentos, porque estão sendo apropriados de uma maneira, digamos assim, extrativista. Eu vejo isso como a mesma lógica extrativista, e que circula dentro de camadas crescentes, crescentes também no poder, e que escapa um pouco ao controle deles.
Isso é um novo momento da Amazônia, de tensões e de conflitos também. E que, na minha leitura, é o mesmo processo de luta que tiveram os povos tradicionais para sobreviver ao longo desses séculos.
Amazônia Latitude: O que eu percebo é que nessa questão da temporalidade, porque o tempo da Amazônia, como nós sabemos, a temporalidade, ela respeita esse tempo de reprodução da natureza, caminha dentro de uma outra lógica. E com todos esses adventos tecnológicos, como o avanço dessa tecnologia pode se apropriar outra vez dessa própria temporalidade, do saber da região e transformá-los em recursos sem que esses povos tenham nenhum benefício local sobre essa própria temporalidade?
Edna Castro: Bom, minha tendência é dizer que eu acredito que sim, mas a realidade me mostra que é bem difícil ser. Eu acho que há um movimento, não digo uma tendência, mas um certo movimento de aprendizagem por parte de organizações, organizações indígenas, organizações de camponeses, pequenos produtores rurais, que trabalham em pequena escala, de se atualizarem, de inovarem tecnologias, por exemplo, de agrofloresta.
Agora, é na temporalidade amazônica, e essa temporalidade está sendo o tempo todo desafiado pelos avanços que ocorrem no mundo. E como a Amazônia está no mundo global, ela está no mercado internacional, ela está no espaço global, então ela é pressionada por todo esse processo de mudança altamente tecnológico, por exemplo, o uso de drones para semeadura, para a coleta, para a análise de solo, de água etc., que as grandes empresas de agricultura utilizam. Então, essa defasagem que existe entre a grande escala e os atores da pequena escala é que tende a crescer. E isso me preocupa muito porque eu acho que a Amazônia entrou num momento de enorme inflexão. E eu chego a dizer que essa floresta não resiste 30 anos. Incrível que se possa pensar nisso, mas o avanço do desmatamento, que não é só o desmatamento clássico que nós nos acostumamos a analisar, mas é o uso desse território de outras maneiras, como, por exemplo, agora, todo o interesse de terras raras, o interesse de certos recursos que a Amazônia tem, ou o potencial que possa ter, tudo isso leva a confrontar as temporalidades.
É uma temporalidade que corre o tempo todo contra o tempo e que cria tecnologias para a redução do tempo, para vencer os grandes espaços, como, por exemplo, toda a mudança que houve na comunicação da navegação, na navegação de grandes volumes de recursos para grandes distâncias. Foi uma revolução.
Quer dizer, essas temporalidades elas são temporalidades em disputa e isso faz com que a sociobiodiversidade praticada pelas populações todos esses milênios ela se enfraqueça. Isso aí é uma coisa que me parece evidente. E como teria resultado, como pensar o amanhã dentro desse contexto? E como não pensar o amanhã dentro desse contexto? Também tem que ver isso.
O que nós podemos apostar é o que sempre nós apostamos, que é a luta pela autonomia dos povos, a luta pela liberdade de processos, a luta pela multidiversidade existente no mundo e o reconhecimento. Pelo menos dentro da academia, eu acho que o papel que nós temos que fazer como a primeira lição e a primeira obrigação de quem está na academia é ajudar a entender esses processos, é fazer uma desconstrução dos processos de dominação, porque é uma forma de contribuir com as lutas, as lutas autênticas que partem daquela sociedade, que é importante para aquelas sociedades.
Também significa que esse tipo de análise que se faz, crítica, o pensamento crítico, uma análise crítica desse processo, mostrando onde estão as dominações e o destino, o futuro que se percebe, nos levou também a pensar uma ciência pública, uma ciência política, e eu hoje reivindico, não se pode pensar em ciência abstraindo o sentido a dimensão do político. A ciência é política, deve ser política e eu passo a advogar isso porque eu acho que o pesquisador o professor, o acadêmico estudante de doutorado, mestrado, que está se tornando pesquisador, tem a obrigação primeira de pensar a sociedade no contexto da relação de poder que atravessa. E como o poder, ele produz esse poder do sistema-mundo colonial capitalista que nós vivemos, ele já provou por todos esses séculos que ele não pode conviver com a igualdade, ele convive com a desigualdade social, com a exclusão, com a violência como condições fundamentais do desenvolvimento. Desenvolvimento de uns, não desenvolvimento de todos.
Em síntese, essas cosmovisões do sistema-mundo capitalista, embora com as suas diferenças, as lógicas são as mesmas, do enriquecimento, da concentração de dinheiro, de poder, elas são inconciliáveis. As populações tradicionais, os povos, a sociedade civil, não têm como conciliar com essa visão, porque o contraponto da conciliação seria uma permanência na desigualdade e uma contínua subordinação à decisão e ao controle do outro.
Então, o grande embate que as sociedades travam, no fundo, em síntese, se dirigem ao embate entre a dominação e o direito a pensar, a sonhar, dos demais dentro daquela sociedade.
Eu acho que essa tensão vai aumentar e as lutas sociais vão aumentar também. A minha esperança, portanto, é depositada nessa capacidade, essa força coletiva de contrarrestar, como foi feito no Haiti, como Cuba faz até hoje, como tantas sociedades no mundo resistem em nome da dignidade, em nome do sonho, em nome da esperança e em nome do futuro.
Amazônia Latitude: Professora Edna, a gente vai chegando ao encerramento. Foi muito importante o que a professora aludiu, porque durante o artigo a professora usa o conceito de resistências, reexistências, para falar das lutas dos povos amazônicos. Vai narrando e descreve uma diversidade impressionante de formas de organização, como você mencionou agora nessa última pergunta. E, ao mesmo tempo, a professora é implacável, durante o artigo, com as chamadas soluções baseadas na natureza, na qual escreve que “são soluções fantasiosas, pinceladas de verde, que potencializaram ainda mais o desastre florestal ao obscurecer os reais agentes e os interesses de lucros de grandes empreendimentos envolvidos”.
O que a gente observa no artigo é que o capitalismo verde não protege a floresta, ele a colonializa com a nova linguagem ou gramática. Mas ainda assim, o título do seu artigo – “Para ser possível o amanhã” – a professora escreve sobre ser capaz de pensar e agir em direção a rupturas e de escutar ideias e vozes portadoras de um novo mundo. Depois de tudo que a gente conversou aqui, do neoextrativismo, as falsas soluções, o amanhã ainda é possível? E se ele é possível, de onde vem essa possibilidade? O que precisa acontecer para que ela se torne real?
Edna Castro: Primeiro, esse esforço de decodificar o poder, desconstruir essas narrativas poderosas sobre a restauração da floresta, sobre a preservação da floresta, que são, na verdade, o colonialismo verde. Nós estamos debatendo agora, após COP30, qual foi o legado que trouxe da COP30 realizada na Amazônia em novembro do ano passado? Nos defrontamos com esse avanço, muitos recursos para projetos de ONGs que acabaram de se fazer e de repente viraram salvadoras ou protetoras da floresta e estão pegando recursos para aplicar. E acho que a gente tem que pensar que atores seriam, eu coloco como os atores mais envolvidos da sociedade civil, das organizações, não queria dizer que são só povos indígenas ou povos tradicionais, usando essa categoria muito genérica, ou afrodescendentes, mas queria dizer também os povos urbanos, os trabalhadores, as pequenas vilas, cidades. Eu acho que elas precisavam ter um trabalho político de alertar, de consolidar, e eu acho que a gente pode ainda ter, e eu acho que passa pela interpretação política, a consciência política. Não sou militante em si, a não ser militante dessa perspectiva ecológica, e eu vejo que a força que se pode ter vem daí, mas as lutas serão muito intensas, porque eu nunca vi a Amazônia tão em perigo como nesse momento pós-COP 30.
Eu acho que agora talvez seja a pior configuração de uma autonomia ou de uma autodeterminação dos povos que vivem nas Amazônias, porque eu quero fazer questão de estender aos outros países, porque a crise, a situação, tem as mesmas dimensões do extrativismo.
Amazônia Latiude: Professora Edna Castro, muito obrigado por essa conversa. Foi um prazer tê-la aqui conosco no LatitudeCast.
Edna Castro: Obrigada também pelo convite e desejo que você continue com esses podcasts que são muito importantes e sucesso para Utopias Amazônicas, um livro muito lindo.
A força do pensamento de Edna Castro deixa uma reflexão profunda que sintetiza o propósito central de toda a série:
A utopia não é um lugar que não existe, é o lugar que o poder colonial tentou apagar. E os povos da Amazônia, em sua tecelagem milenar de saberes, práticas e resistências, nunca deixaram de habitá-lo. O amanhã possível não será construído pelos mercados de carbono, pelos fundos de pensão europeus, nem pelos discursos verdes do capitalismo que financia o desmatamento enquanto vende sustentabilidade. Ele será construído a partir das reexistências, desses povos que atravessaram o tempo com a força de quem sabe que a floresta e a vida são a mesma coisa.”
O ensaio completo da professora Edna Castro, intitulado “Utopias Amazônicas: para ser possível amanhã”, está disponível no livro Utopias Amazônicas, publicado pela Ateliê Editorial.
Produção e Direção: Marcos Colón
Roteiro: Lucas Monteiro e Marcos Colón
Edição de áudio: Lucas Monteiro
Revisão, Edição e Montagem de Página: Juliana Carvalho
