A procura pelos silêncios gritantes

A literatura de Myriam Scotti contra os silêncios, as dores e as fantasias coloniais da Amazônia

Livro de contos Sol abrasador prepara solo fértil, de Myriam Scotti: narrativas que desnudam a complexidade humana, as travessias diaspóricas e a força das mulheres na Amazônia. Imagem: Divulgação.
Livro de contos Sol abrasador prepara solo fértil, de Myriam Scotti: narrativas que desnudam a complexidade humana, as travessias diaspóricas e a força das mulheres na Amazônia. Imagem: Divulgação.
Livro de contos Sol abrasador prepara solo fértil, de Myriam Scotti: narrativas que desnudam a complexidade humana, as travessias diaspóricas e a força das mulheres na Amazônia. Imagem: Divulgação.

Livro de contos Sol abrasador prepara solo fértil, de Myriam Scotti: narrativas que desnudam a complexidade humana,
as travessias diaspóricas e a força das mulheres na Amazônia. Imagem: Divulgação.

Compreender a Amazônia não é apenas abrir os olhos para o verde exuberante que se derrama sobre rios sem fim. É despir o olhar das fantasias coloniais que a pintam como cenário do exotismo, onde árvores, plantas e animais, em força e viço, desafiam o insondável. Esta visão parcial, tão cantada por quem nela pousa apenas de passagem, não revela o rosto verdadeiro da terra amazônica.

Revelar a Amazônia em sua máxima amplitude e complexidade é saber escutar o silêncio das vozes apagadas, é perceber que o vazio demográfico foi inventado pelos governantes, é entender que povos inteiros foram invisibilizados, existências que a História contada pelos dominadores tentou calar, é compreender que eles ainda resistem como raízes que se recusam a morrer.

A Amazônia não é só a floresta: é também memória de exploração, é ferida aberta, é luta que se renova, é território de homens e mulheres que, mesmo soterrados por séculos de esquecimento, continuam a reinventar a vida.

Entender a Amazônia é saber que, dentro de uma sala de aula, cabem mundos inteiros: crianças de diferentes línguas e etnias indígenas, cada uma trazendo no corpo a memória de seus ancestrais. É reconhecer que os rios são estradas vivas, que as vazantes e as cheias são relógios que determinam o compasso dos dias, é perceber que os encantados não são apenas lendas, mas fé e força, sopros invisíveis que empurram ribeirinhos e caboclos, com coragem, até o infinito, é compreender que a Zona Franca e o Distrito Industrial nasceram no coração de uma capital cercada pela selva, mas não s tornou selvagem. Pelo contrário, reuniu gentes de inúmeras terras e fez deles um só chão, uma só população.

Talvez a felicidade seja apenas isto: viver a realidade como quem vive um sonho, caminhar com o sol aquecendo o rosto e suavizando os passos, devido à saudade dos que foram deixados na terra de origem. Talvez isto seja a essência do verdadeiro exotismo que a constitui.

É desse fulgor que se vale a autora Myriam Scotti para alimentar seu livro de contos intitulado “Sol abrasador prepara solo fértil”, é desse caleidoscópio vivo de vidas humanas, cuja complexidade o leitor pode inferir ao longo de 18 histórias, que a autora extrai seu material narrativo.

As personagens de Myriam transitam por estes rios que se conectam a tantas pátrias, Marrocos, Manaus, Parintins, Maués, Nhamundá, Urucará etc., e se irmanam nestas jornadas de “resistência e reinvenção”, enfrentando a floresta, a solidão, os abusos, as secas, as fragilidades despejadas neste cotidiano que transborda e que resseca, porque a água, seja em escassez ou em excesso, “pode endurecer a terra e toda a gente”.

Assim encontramos os judeus de diversas pátrias “que se fazem iguais entre os desiguais”, cearenses que se fazem soldados da borracha, baianos misteriosos que arrebatam os olhares das moças, ribeirinhos e tantos outros tipos em diáspora cruzando estes rios fecundos, incorporando os mistérios do lugar ao seu dia a dia, de modo que não é só o calor a permear os contos de Myriam, mas também a terra, que ora é pátria, ora é apátrida; que ora é promessa, ora infância.

Terra que é lar, corpo que acolhe, ou enterra, nas fissuras do tempo, o despertencimento, a memória, as dores, a solidão. Sol e terra se articulam em tramas de sobrevivência e de abandonos guardados no silêncio das horas, nos cantos sombrios e silenciosos das casas.

Concordo com a escritora Thais Campolina, quando diz – na orelha do livro – que são as personagens femininas a mover os destinos dos demais, a resgatar – em muitas narrativas – o tema da maternidade, tão caro à autora; a lidar com a transformação do corpo feminino em seu rito de passagem à vida adulta, especialmente nestes ermos, a conviver com a solidão dentro de um casamento.

Menção especial faço a O canto de Iara, por trazer o tema da prostituição infantil conduzida pela própria família, nestes interiores banhados pela miséria e pelo desencanto. Neste solo fértil de narrativas repletas de humanidade, Myriam traz o melhor da literatura amazonense, desnudando um pouco deste Amazonas que ainda permanece desconhecido para muitos de nós.

Sandra Godinho é graduada e mestre em Letras. É membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB). Com Orelha lavada, infância roubada (2018), recebeu Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019), e com Verso do reverso (2019) ganhou o Prêmio Regional de Melhor Livro de Contos da Cidade de Manaus. Seu romance Tocaia do Norte (2020) venceu o Prêmio Cidade de Manaus 2020 e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021. Outra obra sua, A morte é a promessa de algum fim, recebeu o Prêmio Cidade de Manaus 2021, e também o Prêmio Focus Brasil NY/AILB 2022. Tem ainda dois romances finalistas do Prêmio Leya de 2021 e 2022, Memórias de uma mulher morta e A Secura dos ossos.

Myriam Scotti nasceu em Manaus (AM). Formou-se em direito pela Universidade Federal do Amazonas, é mestre em literatura e crítica literária pela PUC-SP e, desde 2014, dedica-se exclusivamente à escrita literária. Publicou livros infantis, romances e poesia. Seu romance “Terra Úmida” foi vencedor do Prêmio Literário de Manaus 2020. Em 2021, seu romance juvenil “Quem chamarei de lar?” (Pantograf) foi aprovado no PNLD literário e escolhido pelo edital Biblioteca de São Paulo. Em 2023, lançou o livro de poemas “Receita para explodir bolos” (Patuá). Foi finalista do prêmio Pena de Ouro 2021 na categoria Conto. Em 2024, ficou em segundo lugar na categoria conto do prêmio Off Flip. Myriam é autora de  “Sol abrasador prepara solo fértil“ (Orlando).

Sol abrasador prepara solo fértil

Autora: Myriam Scotti

Ano: 2025

Idioma: Português

Editora: Orlando

 

 

Edição, Revisão e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

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