A gramática da desumanização: por que os editoriais chamam resistência de baderna?
Folha, Estado de São Paulo e O Globo tentam deslegitimar mobilização contra privatização e dragagem no Tapajós.

A gramática do silenciamento: imprensa hegemônica coordenou uma narrativa de criminalização contra a resistência indígena no Tapajós.
Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude..
Quem lê a manchete do editorial da Folha de S.Paulo, sem conhecer o contexto, é levado a supor que o governo tenha recuado diante da pressão de criminosos. Mas não se trata de bandidos. Trata-se de mulheres, jovens, crianças e anciãos dos povos Arapiun, Borari, Kumaruara e Munduruku, das regiões do Baixo, Médio e Alto Tapajós, além de representantes Kayapó e Panará, vindos do Alto Xingu, no Mato Grosso e no Pará. Eles permaneceram acampados durante um mês inteiro, de dia e de noite, sob sol e sob chuva nos domínios da Cargill, em Santarém, para manifestar o seu protesto, fazer ouvir as suas vozes em uníssono. Quase 1.200 representantes dos povos originários da Amazônia numa vigília sem descanso.
São etnias ameaçadas pelo Decreto nº 12.600/2025, que incluía mais de três mil quilômetros de rios amazônicos no Programa Nacional de Desestatização (PND), abrindo caminho para concessões privadas de trechos navegáveis estratégicos ao escoamento do agronegócio e de outros setores econômicos.
A revogação do Decreto pelo Governo Federal não garante que o problema esteja resolvido definitivamente. É preciso muito mais. A história recente da Amazônia mostra que grandes projetos retornam sob novas formas. Belo Monte é um exemplo. A mera suspensão de um empreendimento equivocado não rompe o padrão. E é comum vermos outro exemplo similar surgir logo depois.
É nesse contexto que três dos maiores jornais do país, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e O Globo decidiram enquadrar a mobilização indígena como “vandalismo”, “bandalheira”, “gritaria”, “chantagem”, “baderna”, “truculência”, “força bruta”, “radicalismo” e “obstáculo ao desenvolvimento”.
A gramática da exclusão
As palavras não são neutras. Elas constroem realidade.

A força Munduruku: Alessandra Korap, uma das principais lideranças durante as mobilizações no Tapajós. Sua voz é o contra-argumento vivo à gramática que tenta reduzir a defesa do território a um ‘obstáculo ao desenvolvimento’. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.
Quando editoriais recorrem a essa gramática, não estão apenas descrevendo fatos, mas delimitando quem é racional e quem é irracional, quem age politicamente e quem age por impulso, quem pertence ao debate público e quem deve ser excluído dele.
Desde quando ocupar espaços para reivindicar um direito previsto em tratado internacional ratificado pelo Brasil se torna automaticamente “vandalismo”? Quem decide que a paralisação de um porto é “bandalheira” e não ato político? Por que a interrupção do mercado de soja é chamada de “força bruta”, mas a interrupção dos fluxos vitais de um rio ancestral não é nomeada como “violência”? Por que a pressão popular é classificada como “chantagem”, enquanto a pressão de investidores recebe a respeitável designação de “segurança jurídica”? Por que a “propriedade privada” aparece como valor absoluto, mas o direito originário à terra, reconhecido constitucionalmente, surge como “entrave”?
Os dois jornais tratam o recuo do governo como capitulação à desordem. Evitam, no entanto, o ponto nevrálgico da questão: a obrigação de Consulta Prévia aos povos originários antes da implantação de qualquer projeto não é concessão política, mas dever jurídico. A Convenção 169 da OIT não é retórica militante, e sim norma vinculante. Ignorar ou relativizar essa obrigação não fortalece o Estado de Direito, enfraquece-o.
As palavras têm um poder revelador. Ao dizermos “Gritaria”, subentende-se algo ligado à infantilização. “Bandalheira” e “baderna” evocam descontrole moral. “Radicalismo” desloca o debate da esfera jurídica para a esfera da ameaça. “Truculência” e “força bruta” produzem a imagem de um inimigo interno. Essa construção retórica cria uma inversão silenciosa. Assim, povos que exigem cumprimento da lei passam a ser enquadrados como transgressores da ordem.
A assimetria do “Ambiente de Negócios”
Curiosamente, quando setores econômicos organizam pressão coordenada, cerceiam a tomada de decisões, condicionam investimentos ou impõem chantagens silenciosas ao Estado, o vocabulário raramente é o mesmo. Ninguém fala em “gritaria do mercado”. Ninguém acusa a “força bruta do capital”. A linguagem muda: “confiança”, “previsibilidade”, “ambiente de negócios”. A assimetria é flagrante.
Nos últimos anos, é verdade, a presença de vozes indígenas na imprensa aumentou. Há entrevistas, reportagens, provas de um reconhecimento simbólico. Mas quando a disputa toca diretamente o modelo exportador, a infraestrutura logística e o agronegócio, o enquadramento se altera. A partir daí, não se trata mais de diversidade; trata-se de obstáculo. A tolerância é condicional: vale enquanto não encosta no “money”, no “porto”, na “soja”, no âmago dos interesses em jogo.
O argumento recorrente nos editoriais é que hidrovias significam modernização eficiente e menor emissão de carbono. Essa pode ser uma discussão legítima. O que não é legítimo é tratar qualquer contestação a esse modelo como sabotagem irracional. Desenvolvimento não é dogma técnico, mas escolha política. E escolhas políticas têm custo, quase sempre cobrado dos mesmos corpos e dos mesmos territórios distantes, vulneráveis e alijados do poder.
Aqui entra uma segunda camada, que os editoriais também ignoram: a sequência dos fatos.
A revogação do Decreto nº 12.600/2025 foi publicada no Diário Oficial da União e assinada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin. O decreto chancelado originalmente pelo presidente Lula em agosto do ano anterior incluía os rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização, abrindo caminho para concessões privadas e intensificação do tráfego hidroviário.
Desde o início, os povos indígenas do Tapajós denunciaram dois pontos centrais dessa iniciativa: os riscos ambientais e sociais do projeto e, sobretudo, a ausência de Consulta Livre, Prévia e Informada às comunidades potencialmente impactadas. Durante a COP30, realizada no coração da Amazônia, quando o futuro climático do planeta era debatido sob holofotes internacionais, os povos da própria Amazônia cobraram publicamente um posicionamento do governo contra as hidrovias. O governo anunciou uma “mesa de diálogo” que também não se concretizou.
A Conferência produziu imagens, compromissos, discursos e cartas finais redigidas após longas negociações. Mas, para muitos povos da região, deixou também um vazio, um vácuo de consequências práticas. Enquanto se discutia transição ecológica nos pavilhões oficiais, o projeto de transformação de rios ancestrais em corredores de commodities seguia paralelamente seu curso administrativo.

A ministra Sônia Guajajara e Guilherme Boulos durante a COP30. O ambiente de negociações oficiais, para os povos do Tapajós, resultou em um vácuo de consequências práticas diante do avanço das hidrovias. Foto: Alice Palmeira/Amazônia Latitude.
O movimento indígena ocupou o terminal da Cargill em Santarém, empresa que instalou o primeiro porto de grãos na região em 2003 e que hoje é uma das principais operadoras do escoamento da soja pelo Tapajós. Venho acompanhando o avanço dessa empresa na região há mais de quinze anos. Não falo por abstração. Falo pelo que vi, pelo que ouvi, pelo que filmei.
Os impactos socioambientais dessa expansão foram documentados no meu filme Muito Além de Fordlândia (2018), onde já se evidenciavam as consequências de um modelo logístico que transforma floresta em corredor de mercadorias, sem considerar os impactos na saúde das comunidades. À época das filmagens, muitos moradores tinham medo de falar publicamente sobre os casos de câncer que hoje se avolumam e se tornam cada vez mais difíceis de ignorar na região.
A ocupação não surgiu do nada. Ela é resposta a um padrão que vem se repetindo há anos: discurso público de um lado, decisão estrutural de outro, e a consulta às comunidades tratada como formalidade incômoda, sempre adiada, sempre relativizada.
Jornalismo, memória e a fronteira da tolerância
Talvez seja isso que os editoriais se recusem a enxergar. Há continuidade entre o espetáculo da COP e a frustração posterior. Há conexão entre a retórica climática e o silêncio administrativo. Chamar essa mobilização de “baderna” não é apenas agressão verbal. É um modo de apagar contexto, reduzir história, cancelar direitos.
Mais ainda, revela uma fronteira invisível da tolerância liberal. Povos indígenas são celebrados quando produzem símbolos, quando evocam ancestralidade, quando ocupam espaços culturais, quando suas frases circulam como inspiração. Mas quando confrontam diretamente o fluxo de mercadorias, quando interrompem a engrenagem logística da soja, deixam de ser sujeitos políticos e passam a ser classificados como problema. O protesto indígena vira “baderna”. A dragagem de um rio para servir ao comércio internacional, não.
É difícil não perceber a inversão moral. Interromper temporariamente a operação de um porto é tratado como desordem civilizacional. Transformar um rio em rota de exportação é apresentado como planejamento. Defender a vida do rio é “radicalismo”. Submeter o rio à lógica da mercadoria é “modernização”.
O mais revelador talvez seja o conforto com que essa linguagem aparece em editoriais, textos que representam a posição institucional dos jornais. Não se trata de uma reportagem isolada. É escolha deliberada. E aqui a crítica precisa ser dura: quando o jornalismo adota uma gramática que criminaliza a resistência e naturaliza a expansão logística, ele deixa de apenas informar. Ele começa a arbitrar legitimidades. Ele decide quem pode falar, como pode falar e, no limite, aquilo que pode existir politicamente sem ser tratado como ameaça.
E então a pergunta se torna inevitável: que jornalismo é esse que chama de “força bruta” a defesa de rios e territórios, mas trata como racional e necessária a engenharia que ameaça esses mesmos rios e povos? Que jornalismo é esse que se diz guardião do Estado de Direito enquanto relativiza a Consulta Prévia, e transforma em “baderna” o ato de exigir que a lei seja cumprida?
Chamar de “baderna” a mobilização indígena em defesa da vida e do território não é apenas um erro semântico; é a repetição de um vício histórico. Parte da grande imprensa brasileira apoiou o golpe civil-militar de 1964 e, décadas depois, publicou editoriais reconhecendo esse erro por ocasião dos 50 anos do golpe, entre eles Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo.
A imprensa dominante brasileira, em momentos decisivos, frequentemente escolheu o lado da estabilidade econômica e da ordem institucional em detrimento das vozes que desafiam estruturas de poder. E esse lado, não raro, não é o dos que lutam para existir com seus modos de vida, culturas, biomas e ancestralidades, mas o dos interesses econômicos que se sentem ameaçados quando povos tradicionais reivindicam direitos constitucionais. Ao escolher palavras que criminalizam a luta pela vida, repete-se a lógica de ontem: deslegitimar quem resiste e normalizar quem concentra poder.
A liberdade de imprensa é um pilar democrático. Mas liberdade não é licença para produzir desumanização. Ao praticar isso, estão moldando o campo do possível. Estão ensinando o público a ver a luta pela vida como problema.
Se o exercício de um direito constitucional é descrito como desordem, o que resta da promessa democrática?

Se o exercício de um direito constitucional é descrito como desordem, o que resta da promessa democrática? O que está em jogo não é apenas um decreto. É o poder de nomear, e, ao nomear, de legitimar ou deslegitimar. Foto: José Marcos Tapajós/Amazônia Latitude.
O que está em jogo não é apenas um decreto. É o poder de nomear, e, ao nomear, de legitimar ou deslegitimar. Talvez a pergunta mais incômoda não seja porque o governo recuou. Talvez seja outra: que ideia de país está sendo defendida quando a defesa da vida é rotulada como baderna?
Se lutar por Consulta Prévia, por território e por rio é desordem, então é preciso perguntar: ordem para quem, e a serviço de quê?
Porque quando editoriais naturalizam a morte dos rios em nome do “desenvolvimento” e tratam a resistência como ruído, o problema não é apenas de linguagem. É de projeto. E é aqui que o jornalismo revela seu limite. Quando a vida interrompe a logística, a democracia vira inconveniência.
Refleti sobre essa encruzilhada entre jornalismo e política da memória no artigo em que analisei o filme Agente Secreto. Ali, argumentei que a função do jornalismo deve ir além de “documentar” fatos; ele precisa confrontar seus próprios lapsos de memória histórica. O controle da narrativa e a amnésia forçada não são fenômenos apenas ficcionais. São traços de um jornalismo que evita encarar seu passado e, ao fazê-lo, compromete sua própria função pública.
Que a imprensa dominante brasileira é parcial não é novidade. O que raramente se admite é que ela também escolhe esquecer — e ao esquecer, ensina seus leitores a esquecerem. Essa escolha não é neutra. Ao minimizar ou relativizar seu próprio passado, como no apoio editorial à ditadura civil-militar, esse jornalismo molda a memória pública de modo a naturalizar desigualdades e deslegitimar resistências. Mais do que competir contra prazos e algoritmos, ele precisa enfrentar sua história para que o presente seja compreendido com honestidade. Quando se recusa a fazê-lo, não apenas apaga fatos: ajuda a sustentar as narrativas que legitimam regimes de poder. É por isso que repensar a memória jornalística não é exercício acadêmico, mas uma exigência ética. Sem memória, não há responsabilidade. E sem responsabilidade, o jornalismo deixa de servir à democracia e passa a servir aos interesses que moldam o silêncio.
Marcos Colón é professor de Mídia e Comunidades Indígenas do Southwest Borderlands Initiative na Walter Cronkite School of Journalism and Mass Communication da Arizona State University. Produziu e dirigiu os documentários Além de Fordlândia (2018) e Pisando Suavemente na Terra (2022) Publicou The Amazon in Times of War (2024) e organizou Utopias Amazônicas (2025).
Arte: Fabrício Vinhas
Revisão, edição e montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón
