Ciência, a arma secreta de uma comunidade indígena para defender a Amazônia

Nas montanhas ricas em cobre do sudeste do Equador, o povo Shuar combina conhecimentos ancestrais e ciência moderna para proteger a selva de uma gigante mineradora canadense

Vista da Amazônia equatoriana nas proximidades de Limón Indanza. Sob estas montanhas da Cordilheira do Cóndor, ricas em biodiversidade e conhecimento ancestral, escondem-se reservas de cobre cobiçadas por mineradoras multinacionais. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.
Vista da Amazônia equatoriana nas proximidades de Limón Indanza. Sob estas montanhas da Cordilheira do Cóndor, ricas em biodiversidade e conhecimento ancestral, escondem-se reservas de cobre cobiçadas por mineradoras multinacionais. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.
Vista da Amazônia equatoriana nas proximidades de Limón Indanza. Sob estas montanhas da Cordilheira do Cóndor, ricas em biodiversidade e conhecimento ancestral, escondem-se reservas de cobre cobiçadas por mineradoras multinacionais. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Vista da Amazônia equatoriana nas proximidades de Limón Indanza. Sob estas montanhas da Cordilheira do Cóndor, ricas em biodiversidade
e conhecimento ancestral, escondem-se reservas de cobre cobiçadas por mineradoras multinacionais. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

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Quando Olger Kitiar chega ao cume, a camisa, encharcada de suor, gruda em suas costas. Com o porte robusto de um defensor de futebol americano, ele se move pela floresta tropical com um ritmo rápido e constante que desafia a subida íngreme e escorregadia. De repente, ele paralisa. “Alto”, sussurra, levantando a mão bruscamente.

Jhostin Antún, que caminha alguns passos atrás, para no ato. Para quem vem de fora, o que veem à frente pode parecer apenas barro amazônico revolvido: escorregadio, marrom e denso o suficiente para engolir uma bota. Mas os olhos de Olger, aguçados por uma vida inteira no território Shuar de Maikiuants, perceberam instantaneamente. Ele se agacha e aponta para uma fenda profunda com quatro pegadas. São recentes. E enormes.

“Uma onça-pintada“, afirma, com um sorriso se abrindo no rosto. A pegada pertence a um exemplar maior do que a fêmea captada por uma câmera trap em outubro, um mês antes. Os homens fotografam a marca com cuidado — não como recordação, mas como prova legal.

Jhostin Antún tira fotos de uma grande pegada de onça-pintada impressa na lama em uma trilha na Amazônia equatoriana, em 29 de novembro de 2025. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Jhostin Antún tira fotos de uma grande pegada de onça-pintada impressa na lama em uma trilha na Amazônia equatoriana. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Jhostin Antún registra a grande pegada de onça-pintada na lama em uma trilha na Amazônia equatoriana, em novembro de 2025. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Jhostin Antún registra a grande pegada de onça-pintada na lama, em novembro de 2025. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

A aldeia de Maikiuants, no alto da cordilheira do Cóndor, no sudeste do Equador, perto da fronteira com o Peru, está sobre um terreno rico em cobre agora reivindicado pela Solaris Resources, uma empresa de mineração canadense que pretende abrir uma mina a céu aberto nessas montanhas. Se o projeto avançar, a floresta por onde Jhostin e Olger caminham — lar de espécies em extinção, cachoeiras, plantas medicinais, gerações de conhecimentos indígenas e seres ainda por descobrir — poderá ser alterada permanentemente.

A presença da onça-pintada tem relevância jurídica. No Equador, as espécies em extinção — e a natureza em geral — gozam de direitos legais. Para aprovar projetos como a mineração em grande escala, o Governo exige o cumprimento de requisitos muito mais rigorosos do que os exigidos pela legislação convencional.

Jhostin e Olger são paraecólogos: pessoas que documentam a vida em seu território unindo conhecimentos ecológicos ancestrais e métodos científicos. Eles colaboram com a Ecoforensic, uma organização sem fins lucrativos que capacita paraecólogos para coletar informações sobre o funcionamento dos ecossistemas e os danos que sofrem. A organização trabalha em lugares como Maikiuants: regiões de alta biodiversidade onde os dados científicos são escassos ou inexistentes.

Os paraecólogos Olger Kitiar e Jhostin Antún verificam com entusiasmo uma câmera trap escondida na floresta, no território de Maikiuants. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Os paraecólogos Olger Kitiar e Jhostin Antún verificam com entusiasmo uma câmera trap escondida na floresta, no território de Maikiuants. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Os dados coletados pelos paraecólogos, como inventários de espécies e amostras de água, tornam-se provas de peso nos tribunais. E eles estão ganhando cada vez mais casos.

Em 2023, paraecólogos comunitários do vale de Intag ajudaram a interromper o projeto de uma mina gigante de cobre ao documentar ameaças a espécies em extinção que os estudos ambientais da empresa ignoraram. A sentença baseou-se nos Direitos da Natureza, introduzidos na Constituição equatoriana em 2008, que redefiniram o status jurídico dos ecossistemas: deixaram de ser considerados bens ou objetos — como um carro ou um micro-ondas — para serem sujeitos vivos, com direito a existir, regenerar-se e manter seus ciclos vitais.

Desde então, os tribunais aplicaram repetidamente esses direitos e decidiram a favor de florestas, rios, ecossistemas marinhos e animais selvagens, frustrando atividades extrativistas em larga escala que, segundo os juízes, causariam danos irreversíveis.

Mas, como qualquer direito, os da natureza não são absolutos. O Equador, um dos países com maior biodiversidade do mundo, também abriga enormes reservas de petróleo, cobre, ouro e outros minerais. Os mercados globais os cobiçam. As multinacionais anseiam por explorá-los. E um Governo com os cofres vazios está disposto a vendê-los. As disputas legais se intensificam.

A Ecoforensic está contribuindo para demonstrar que os direitos da natureza podem enfrentar essas forças. O trabalho realizado em Maikiuants pode ser a iniciativa mais importante até o momento. Para Jhostin, Olger e os outros 480 habitantes, o que está em jogo é a sua própria sobrevivência. Proteger seu território é proteger suas próprias vidas: são a natureza protegendo a natureza. Se a floresta for destruída, também serão destruídos aqueles que nela vivem.

Victoria Tseremp, Isabel Ushap e Nancy Antún participam de uma sessão da Ecoforensic em Maikiuants, Equador. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Victoria Tseremp, Isabel Ushap e Nancy Antún participam de uma sessão da Ecoforensic em Maikiuants, Equador. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Os habitantes de Maikiuants não migraram para essa região. Eles são de lá. Todas as gerações anteriores nasceram naquela terra, uma continuidade que, segundo Jhostin, de 21 anos, seus avós lhe incutiram como uma responsabilidade. A mensagem de seus mais velhos era simples e clara: é preciso defender este lugar. Agora, essa responsabilidade recai sobre ele.

Por isso, os dois paraecólogos contornam com cautela as pegadas da onça-pintada e continuam subindo. Vão em busca de uma câmera trap que está escondida nas profundezas da floresta e há semanas grava em silêncio. Estão ansiosos para ver o que ela capturou.

Jhostin Antún, de Maikiuants, integra a nova geração de guardiões que utilizam a tecnologia do programa Ecoforensic para defender a Amazônia. Ele compõe a equipe que descobriu uma nova espécie de rã no território. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Jhostin Antún integra a nova geração de guardiões que utilizam a tecnologia do programa Ecoforensic para defender a Amazônia. Ele compõe a equipe que descobriu uma nova espécie de rã no território. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Milhares de concessões mineradoras

Alguns dias antes, uma caminhonete branca descia a encosta que leva a Maikiuants. Os limpadores de para-brisa rangiam constantemente ao afastar as gotas da névoa densa que se fechava ao redor deles. No interior, o ecologista britânico Mika Peck freou de repente para evitar um buraco do tamanho de uma banheira. Sua esposa, Inde Kaur Hundal, teve que se segurar com força na alça de apoio. Os cofundadores da Ecoforensic estavam indo à aldeia para dar uma boa notícia: a organização estabeleceria uma estação de pesquisa permanente em Maikiuants.

Havia passado dois anos desde que se reuniram pela primeira vez com os moradores para falar sobre a Ecoforensic, no centro comunitário onde reina um mural que representa um guerreiro Shuar atravessando um colonizador com uma lança. Os moradores interrogaram o casal por mais de uma hora. Queriam saber o que a Ecoforensic faria com os dados coletados pelos paraecólogos ou se Peck e Hundal não eram simplesmente outros forasteiros que tinham ido até lá para extrair conhecimento e depois desaparecer. Mas, acima de tudo, queriam saber como a Ecoforensic poderia ajudá-los a proteger seu território.

O Governo equatoriano vinha dividindo o território Shuar em concessões mineradoras desde a década de 1990, mas a ameaça não saía do papel até 2019, quando a Solaris Resources adquiriu o projeto Warintza. Desde então, a empresa tem mantido uma presença constante na região, explorando-a em busca de cobre e ouro, ao mesmo tempo em que tenta ganhar a confiança das comunidades Shuar que teriam de ser deslocadas ou seriam afetadas de alguma outra forma quando suas montanhas ancestrais fossem reduzidas a escombros.

Maikiuants é um bastião de resistência. Mas, como todas as comunidades que enfrentam gigantes da indústria extrativista, travam uma batalha quase impossível ao terem todo o poder financeiro, político e jurídico contra si. Na Amazônia equatoriana, é assim que as coisas têm funcionado com o petróleo há décadas. Agora, a mineração é a nova fronteira.

Um céu alaranjado paira sobre o centro de paraecologia na comunidade de Maikiuants. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Um céu alaranjado paira sobre o centro de paraecologia na comunidade de Maikiuants. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

As leis equatorianas sobre os direitos da natureza oferecem às comunidades um novo e sólido fundamento jurídico, mas, para ganhar as ações judiciais, são necessárias provas ecológicas rigorosas. “Essa era precisamente a necessidade que a Ecoforensic se propõe a suprir”, explicou Peck aos moradores de Maikiuants durante aquela primeira reunião.

Peck e Hundal se inspiraram em uma sentença histórica sobre os direitos da natureza que a Suprema Corte do Equador proferiu em 2021, a qual definiu como esses direitos podem ser aplicados no país. A decisão concentrou-se em Los Cedros, uma floresta tropical úmida pré-montana protegida. Em 2016, o Governo havia concedido a uma empresa canadense uma concessão mineradora que abrangia mais da metade da floresta, apesar de sua condição de área protegida. Moradores e cientistas contestaram a autorização com base em décadas de pesquisa ecológica.

Parte dessas provas procedia do trabalho de Peck. Por meio de um projeto de paraecologia iniciado em 2005, pesquisadores locais documentaram a presença de macacos-aranha-de-cabeça-marrom, uma espécie em perigo crítico de extinção, na região. A iniciativa fazia parte de um registro científico mais amplo que revelava que em Los Cedros viviam mais de 240 espécies quase ameaçadas, vulneráveis, em perigo ou em perigo crítico de extinção, muitas das quais não constavam nos estudos de impacto ambiental que a empresa utilizara para justificar suas operações. Essas provas foram decisivas: o tribunal considerou que a atividade mineradora colocaria em risco a integridade biológica de Los Cedros e alteraria os processos evolutivos desenvolvidos ao longo de bilhões de anos.

Peck, que costuma ser uma pessoa muito serena, chorou de alegria quando soube que Los Cedros havia vencido. E, junto a Hundal e seus colegas equatorianos, pôs mãos à obra: Los Cedros contava com uma estação de pesquisa científica especializada, mas no Equador existem territórios vastíssimos que foram pouco estudados e que, além disso, estão ameaçados pela mineração. Peck fez os cálculos: em 2021, o Governo equatoriano havia concedido cerca de 8.000 concessões mineradoras. Dessas, 30% se sobrepunham a áreas protegidas e outros 20% a territórios indígenas. Os mais afetados eram os Shuar. A necessidade de documentar de forma proativa os ecossistemas de Maikiuants era “urgente”, explicou Peck à comunidade em sua reunião de 2023.

‘Quando chegarem as ameaças’

Mural no Centro Comunitário de Maikiuants retrata um guerreiro indígena atingindo um colonizador com uma lança. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Mural no Centro Comunitário de Maikiuants retrata um guerreiro indígena atingindo um colonizador com uma lança. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Em sua primeira manhã de volta a Maikiuants, no final de novembro de 2025, Peck e Hundal acordam com o leve cheiro de fumaça de lenha no ar fresco. A cordilheira, coberta de floresta e nuvens, parece abraçar a aldeia.

Atualmente, o trabalho de Peck concentra-se em estudar a rede de relações que une este lugar: a água e a terra, os peixes e a floresta, e as pessoas que dependem deles. No entanto, no início de sua carreira, ele via o mundo em fragmentos, como lhe haviam ensinado. Analisava os sistemas aquáticos de forma isolada para determinar os níveis “seguros” de poluentes na água, uma abordagem que reflete a forma como a legislação ambiental convencional regula a poluição. Mas, quanto mais tempo dedicava a medir os limites, mais desconfortável se sentia com a própria premissa. A ideia de que os ecossistemas pudessem suportar um dano ilimitado, desde que não se ultrapassasse um limite regulamentar, pareceu-lhe um mal-entendido fundamental sobre o funcionamento dos sistemas vivos: a natureza baseia-se em relações.

Peck, um homem de corpo magro e cabelos grisalhos cortados rentes, também tenta viver assim. Seus colegas o descrevem como uma combinação incomum de rigor intelectual e inteligência emocional: alguém que escuta com a mesma atenção com que analisa. Instintivamente, ele se volta para as comunidades que estão integradas aos ecossistemas que estuda, uma perspectiva que vai contra a abordagem verticalista predominante no campo da conservação. Ele acredita que a verdadeira mudança surge das bases. Foi assim que se forjaram as leis sobre os direitos da natureza no Equador: surgiram das comunidades indígenas, que levaram suas tradições ao Estado e exigiram seu reconhecimento.

Peck, descalço e com a calça levemente dobrada, encontra-se novamente no Centro Comunitário, diante de cerca de 45 Shuar sentados em semicírculo. Desta vez, o ambiente está descontraído. Peck não é mais um estranho, mas sim um cientista aliado e de confiança.

A primeira coisa que fazem é uma chuva de ideias: como deveria ser a estação de pesquisa? Onde deveria ser construída? O que preocupa os moradores?

Eles se dividem em pequenos grupos e começam a rabiscar ideias no papel. Ángel Nantip, de 63 anos, um ancião da comunidade de porte robusto e olhar direto e inabalável, é o primeiro a tomar a palavra. Ele se lembra de quando os engenheiros de minas e o Exército equatoriano chegaram pela primeira vez, na década de 1990, para buscar jazidas de metais. Disseram-lhe que nada de ruim aconteceria ao território nem aos seres espirituais que o habitam. Só mais tarde ele percebeu o quão destrutiva seria a mina a céu aberto e que ela romperia os laços entre as comunidades. “Antes de tudo, a comunidade precisa proteger seus defensores do meio ambiente. Precisamos de um sistema de alerta para quando as ameaças chegarem”, diz ele, com o rosto tenso.

Ángel Nantip, ancião dos Maikiuants, recorda a chegada de engenheiros de mineração e do exército equatoriano na década de 1990. Foto Katie Surma/Amazônia Latitude.

Ángel Nantip, ancião dos Maikiuants, recorda a chegada de engenheiros de mineração e do exército equatoriano na década de 1990. Foto Katie Surma/Amazônia Latitude.

A Peck não surpreende que outros expressem a mesma preocupação. A cada semana, uma média de três defensores do meio ambiente — pessoas que protegem pacificamente os ecossistemas — são assassinados em todo o mundo, uma cifra que se acredita ser inferior à real, dados os locais remotos e submetidos à repressão política nos quais muitos trabalham. O setor mais estreitamente vinculado a essa violência é a mineração. E Maikiuants não está imune.

Desde a chegada da Solaris, esta região — até então bastante tranquila — tem visto a tensão aumentar, impulsionada pelo que as lideranças descrevem como a tática do “dividir para conquistar”. As empresas mineradoras ganham o apoio de determinadas comunidades ou líderes com incentivos econômicos que, frequentemente, suprem as carências deixadas pelo Estado em escolas, centros de saúde ou infraestruturas básicas. A escola de Maikiuants, por exemplo, conta com apenas um professor para cerca de 45 alunos de todas as séries.

Duas comunidades Shuar vizinhas e uma organização Shuar que agrupa várias entidades assinaram diversos acordos de cooperação confidenciais com a Solaris. “Como comunidades independentes e legalmente reconhecidas, temos o direito de buscar uma melhor qualidade de vida para os habitantes de nossa comunidade, onde nossos filhos possam estudar, nossos idosos possam trabalhar e possamos ter acesso à assistência médica generalizada que nunca tivemos”, afirmaram as comunidades pró-mineração em um documento judicial sobre sua relação com a Solaris. Entramos em contato com o representante delas para dar voz a esse posicionamento nesta reportagem, mas não obtivemos resposta.

Embora o projeto Warintza tenha avançado sem o consentimento de todos os grupos indígenas afetados, a Solaris o apresentou como uma iniciativa comunitária. “Na Solaris Resources, acreditamos que a mineração sustentável não é apenas uma iniciativa econômica, mas um processo que deve levar em conta as opiniões e os valores de todas as partes interessadas, especialmente de nossas populações indígenas”, afirma o presidente e diretor-executivo da empresa, Matthew Rowlinson, em um comunicado publicado no site da Solaris. “Sua experiência e profunda conexão com a terra são fundamentais para moldar práticas mineradoras responsáveis”.

Mika Peck, cofundador da Ecoforensic, conversa com a comunidade de Maikiuants sobre algumas das espécies endêmicas e fundamentais de seu território, como onças-pintadas e condores. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Mika Peck, cofundador da Ecoforensic, conversa com a comunidade de Maikiuants sobre algumas das espécies endêmicas e fundamentais de seu território, como onças-pintadas e condores. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

O machado do macaco

Em muitos sentidos, a Ecoforensic assumiu o trabalho que caberia ao Governo equatoriano: proteger sua população, defender a Constituição e garantir que as empresas cumpram a lei. Em vez disso, sucessivos governos mobilizaram o Exército para reprimir protestos contra a poluição, protegeram empresas estrangeiras de qualquer responsabilidade pelo descarte de substâncias tóxicas e enfraqueceram a capacidade de resistência da sociedade civil.

Sob o mandato do presidente Daniel Noboa, aliado do presidente estadunidense Donald Trump, essas pressões se intensificaram. Nos últimos meses, seu governo congelou as contas bancárias de destacados líderes indígenas e ambientalistas — entre elas, a de um advogado de Maikiuants —, ao mesmo tempo em que desmantelou o Ministério do Meio Ambiente e impôs restrições generalizadas às organizações não governamentais. A repressão tornou as coalizões imprescindíveis: comunidades, advogados e cientistas estão se unindo para enfrentar a campanha de Noboa destinada a acelerar a mineração e a extração de petróleo.

Ao iniciar a reunião da tarde, Peck convida um ecólogo aquático para tomar a palavra: Edwin Zárate, professor de biologia da Universidade do Azuay, em Cuenca. Em Maikiuants, Zárate contribui discretamente para criar um registro científico sobre o funcionamento do território como sistema vivo: presta apoio aos paraecólogos, implementou um programa de agroecologia e criou uma estação meteorológica para monitorar o clima em tempo real.

Edwin Zárate, biólogo e professor da Universidade de Azuay, atua na validação científica dos dados coletados pelos paraecólogos Shuar. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Edwin Zárate, biólogo e professor da Universidade de Azuay, atua na validação científica dos dados coletados pelos paraecólogos Shuar. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Peck percorre a sala distribuindo dossiês repletos de fotografias coloridas: rãs não maiores que um polegar, peixes com manchas roxas e verdes… cada imagem acompanhada de uma breve descrição. “Estas são as espécies que os paraecólogos documentaram até agora”, explica, enquanto as páginas se abrem com um sussurro. “E continuam descobrindo mais”.

“Cada vez que fazemos um estudo, descobrimos novas espécies”, acrescenta Zárate. Como a que os paraecólogos descobriram recentemente: uma rã com a pele tão escura quanto a noite, salpicada de manchas azuis iridiscêntes, como uma pequena galáxia.

Maikiuants encontra-se em uma íngreme zona de transição onde os altos Andes se unem às terras baixas tropicais. É uma paisagem marcada por antigos movimentos tectônicos: há milhões de anos, a colisão das placas elevou o leito marinho do Pacífico. Cada crista e cada dobra criaram seu próprio microclima, isolando as espécies em nichos ecológicos reduzidos. Aqui, a extinção pode chegar de repente. Segundo Zárate, se uma única encosta for destruída, toda uma linhagem evolutiva pode desaparecer com ela.

Esta fragilidade tem implicações jurídicas. A Constituição do Equador concede uma proteção especial às espécies com trajetórias evolutivas singulares, ou seja, aquelas que não existem em nenhum outro lugar do planeta e que constituem um ramo “único” na árvore da vida. “Algumas espécies são mais importantes que outras nos casos relacionados aos direitos da natureza”, explica Peck. “As que estão em perigo de extinção são muito importantes, assim como as que só existem aqui”.

Em seguida, ele se concentra nas espécies-chave que influenciam ecossistemas inteiros. Como as onças-pintadas: elas regulam as populações de presas, determinam o crescimento das plantas e alimentam os carniceiros com os restos dos animais que caçam. Quando as espécies-chave desaparecem, as teias alimentares desmoronam. “O futuro de outras espécies depende delas”, afirma Peck.

“O condor também”, acrescenta Zárate. Com uma envergadura de até 3,6 metros, os condores-andinos estão entre as maiores aves voadoras do mundo. No Equador, eles estão em perigo crítico de extinção: restam menos de 150 exemplares devido, principalmente, à caça predatória, à expansão agrícola e, cada vez mais, à mineração. Como carniceiros, desempenham um papel fundamental no controle de doenças.

As informações dos dossiês poderiam dar voz à paisagem, porque os direitos constitucionais da natureza estão fundamentados em dados ecológicos, como explicam Peck e Zárate. Com um pequeno projetor, eles mostram um diagrama do marco dos direitos da natureza do Equador sobre um pôster colado ao contrário na parede, que funciona como uma tela improvisada. A obrigação do Governo de prevenir a extinção de espécies aparece em uma infográfico, marcada com um círculo vermelho, ao lado de outras garantias constitucionais.

Peck enfatiza as medidas de proteção do patrimônio biocultural: os laços inseparáveis que unem as comunidades às plantas e aos animais com os quais convivem. Isso é algo que a ciência, por si só, não pode documentar. “Precisamos das suas histórias”, diz aos presentes. “Quais espécies são as mais importantes para vocês? Por quê?”.

A sala se enche de conversas. O paraecólogo-chefe Claudio Ankuash Nantip, conhecido como Pinchu, aponta para a fotografia de um macaco-prego. “Quando as pessoas morrem, elas não desaparecem, voltam na forma de animais”, explica. Aqueles que viveram mal podem voltar como criaturas que infundem medo; outros retornam como protetores. “Como o macaco”, diz. Ele conta que, há quase um século, um demônio aterrorizou a comunidade com um machado e matou várias pessoas; um macaco o derrotou e enterrou o machado nas profundezas de uma montanha. Os mais velhos costumavam ver essa espécie com frequência, mas hoje quase não restam exemplares. Até o momento, os paraecólogos não conseguiram documentá-los. “Agora a empresa quer desenterrar o machado”, diz Pinchu.

Os sonhos de um pai

Jorge Antún percorre a floresta que descreve como sua "despensa e farmácia". Seu profundo conhecimento sobre plantas medicinais e ciclos biológicos é o pilar que sustenta o monitoramento científico da comunidade. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Jorge Antún percorre a floresta que descreve como sua “despensa e farmácia”. Seu profundo conhecimento sobre plantas medicinais e ciclos biológicos é o pilar que sustenta o monitoramento científico da comunidade. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Na manhã seguinte, Peck, Hundal e Zárate calçam botas de borracha que chegam até os joelhos e tentam acompanhar o ritmo de um grupo de Shuar que se embrenha na floresta em busca de locais para a estação de pesquisa. O grupo é liderado por Jorge Antún, de 60 anos, morador de longa data de Maikiuants e pai do paraecólogo Jhostin Antún.

De porte robusto, forjado por décadas na floresta, Jorge avança com facilidade pela trilha. A camisa bege de mangas compridas, visivelmente manchada de lama e suor devido ao ar quente e úmido, gruda em seu tronco enquanto ele sobe. Após alguns minutos, ele se desvia do caminho. Estende a mão em direção às trepadeiras, arranca uma folha e a levanta. “É um bom remédio para insetos que entram na pele”, diz ele, explicando como as folhas são cozidas até formarem uma pasta aplicada sobre o corpo.

A cada poucos passos, a floresta oferece uma nova lição: bagas que são utilizadas como sabão para lavar a louça, plantas que aliviam queimaduras solares, formigas cujas picadas ardem como fogo. “A floresta”, diz Jorge com os olhos brilhantes, “é nossa despensa e nossa botica”.

As empresas mineradoras não veem dessa forma. Seus estudos de impacto ambiental — exigidos antes da concessão das licenças — têm o objetivo de avaliar os riscos sociais, culturais e ecológicos de um projeto. Na prática, segundo advogados, o conhecimento ecológico indígena quase nunca é levado em conta. Tampouco se faz menção à relação espiritual das comunidades com o território, como as cachoeiras de Maikiuants, consideradas templos sagrados de renovação espiritual que revelam o futuro.

A investigação científica das empresas também pode ser insuficiente. A Ecoforensic analisou a avaliação de impacto ambiental realizada pela Solaris Resources e detectou o que classificou como “deficiências graves”, que incluem a omissão de 91 espécies em perigo de extinção ou ameaçadas e a escassa atenção dada aos peixes — um descuido especialmente flagrante em um setor conhecido por poluir cursos d’água. A mineração deixou um legado mundial de contaminação por metais pesados, drenagem ácida e aquíferos esgotados. A avaliação também continha erros, como o fato de não incluir o tamanduá-bandeira e o cachorro-vinagre, espécies em perigo de extinção cuja presença os paraecólogos já haviam registrado nas terras de Maikiuants.

Em termos gerais, o documento nunca analisou se o projeto poderia infringir a legislação equatoriana sobre os direitos da natureza. Para isso, teria sido necessário avaliar o impacto sobre as funções dos ecossistemas (o que eles fazem para se manterem vivos: uma árvore transforma luz solar em oxigênio, áreas úmidas filtram a água contaminada, etc.); sobre os ciclos de vida (por exemplo, a jornada de uma rã desde o ovo até se tornar adulta); e sobre os processos evolutivos (a mudança da vida ao longo de milhões de anos conforme ela se adapta para sobreviver).

Um registro de espécies documentadas no território de Maikiuants inclui uma espécie de rã nova para a ciência, que deve ser batizada como rã-de-maikiuants. Foto Katie Surma/Amazônia Latitude.

Um registro de espécies documentadas no território de Maikiuants inclui uma espécie de rã nova para a ciência, que deve ser batizada como rã-de-maikiuants. Foto Katie Surma/Amazônia Latitude.

Enquanto Peck segue Jorge pela trilha de volta para casa, o ecologista tem dificuldade em imaginar que os contratados da empresa possam aportar o tipo de conhecimento paciente e enraizado necessário para compreender verdadeiramente um ecossistema. Ao chegar à cabana tradicional da família Antún, ele se abaixa para passar pela porta e entrar na estrutura ovalada conservada em perfeito estado: chão de terra batida bem varrido, uma longa mesa de madeira com bancos e um fogo que queima lentamente ao centro. Das paredes pendem panelas, frigideiras e um rifle. Sentadas em um banco, duas mulheres da família descascam amendoins em um recipiente grande, enquanto outra levanta uma criança que se remexe em um colorido andajá e a aproxima do peito.

A esposa de Jorge, Ilda Chias Nakaim Antún, distribui copos de suco de abacaxi recém-espremido e pratos fumegantes de mandioca, bananas e ovos cozidos temperados com sal e pedacinhos de pimenta. Exceto o sal, tudo provém dos arredores. Durante a refeição, Jorge fala baixo sobre ideias de negócios sustentáveis: piscicultura, cultivo de frutas e até de uma variedade local de baunilha. “Queremos alternativas à mineração”, afirma. “Podemos servir de exemplo para os outros”.

Sua família se opõe categoricamente à mina. Sua filha, Marcia Antún, a jovem mãe, está preocupada com a poluição do ar e da água. “A empresa poderia nos obrigar a sair”, diz ela.

Quando a conversa volta a focar nas possibilidades econômicas, eles falam sobre os precedentes. Um projeto de cacau vinculado ao trabalho dos paraecólogos sobre o macaco-aranha-de-cabeça-marrom ajudou os agricultores a triplicar suas rendas ao combinar o acesso aos mercados com a proteção da floresta. Outras comunidades se dedicaram ao ecoturismo. Em Papua Ocidental, província da Indonésia onde Peck ajudou a desenvolver iniciativas de paraecologia, um dos primeiros paraecólogos fez doutorado e hoje dirige o Binatang Research Center, o principal instituto de pesquisa sobre conservação de Papua-Nova Guiné. Em todos os casos, o modelo gerou algo duradouro: meios de vida vinculados a um trabalho científico contínuo, e não à extração.

Uma conexão de internet confiável, agora possível graças aos serviços via satélite, poderia abrir novos caminhos para o comércio eletrônico. A faculdade de administração da Universidade do Azuay poderia ajudar no planejamento. Jorge também imagina compartilhar os conhecimentos medicinais dos Shuar com o mundo. “Tenho sonhos para a minha família”, diz ele. “Mas tenho medo de não conseguir realizá-los por culpa da empresa”.

O tempo não joga a favor deles. Espera-se que, em alguns meses, a Solaris Resources obtenha a autorização definitiva para iniciar suas operações.

Sustento da vida

Sergio Nantip e Edwin Zárate observam enquanto o paraecólogo Claudio Ankuash Nantip escreve ideias para o programa da Ecoforensic. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Sergio Nantip e Edwin Zárate observam enquanto o paraecólogo Claudio Ankuash Nantip escreve ideias para o programa da Ecoforensic. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Mais tarde, naquele mesmo dia, o paraecólogo-chefe Pinchu — aquele que havia contado a história do machado do macaco — sobe a cordilheira por uma trilha estreita, seguido por seu filho Kirup, de dez anos, e por Zárate. A floresta se fecha ao redor deles, cobrindo o caminho como um manto vegetal que esconde o sol do meio-dia. O ar é quente e levemente doce, impregnado pelo aroma de frutas maduras. Eles caminham em silêncio, até que Pinchu faz um sinal para que todos parem.

Uma serpente de um metro e meio de comprimento, com a espessura de no máximo três dedos, jaz estendida no meio do caminho; parece um fragmento de obsidiana recoberto de folhas. “Está dormindo”, sussurra Pinchu. Ele pega um galho caído e o agita sobre a cobra. Sem pressa, o animal se move, afasta-se da trilha e desaparece entre a vegetação rasteira.

Um pouco mais adiante, a floresta começa a clarear. A luz do sol penetra entre as copas das árvores em feixes estreitos e, de repente, o caminho desemboca em um refúgio escondido. Uma cachoeira surge de uma saliência irregular de rocha escura, transformando-se em finos fios prateados que caem sobre uma lagoa. Trepadeiras de galhos grossos pendem sobre suas cabeças como tranças verdes. Kirup agarra-se a uma delas e desliza suavemente até mergulhar na água. Zárate e Pinchu o seguem, avançando pela água em direção a uma pequena ilha coberta por um musgo verde e macio. Ali, Pinchu retira um recipiente com folhas de tabaco demolhadas em água. Entre os Shuar, a mistura não é fumada; em vez disso, inala-se o vapor da infusão, uma prática que, segundo Pinchu, lhe traz calma e reforça a conexão com a floresta, ajudando-o a ouvir e a sentir com maior intensidade. As cachoeiras têm um profundo significado espiritual para os Shuar. Quando surgem os desafios da vida, eles seguem protocolos aperfeiçoados ao longo de gerações: preparam-se cuidadosamente antes de visitá-las para, então, poder entrar em comunhão com elas.

Recentemente, a ciência ocidental começou a confirmar o que muitas comunidades indígenas já sabem há muito tempo. Demonstrou-se que passar tempo na natureza reduz os níveis de hormônios do estresse, diminui inflamações, reforça a resposta imunitária e melhora a concentração.

Mas os locais onde a ciência impera costumam ser, paradoxalmente, os que têm menos contato com a natureza e os que mais contribuem para a sua destruição. É provável que o cobre encontrado sob estas montanhas seja enviado para os Estados Unidos e outros países ricos para impulsionar a expansão do armamento militar, as transições energéticas e as infraestruturas que sustentam o auge da inteligência artificial, como os centros de dados. Um centro de dados convencional pode precisar de até 15.000 toneladas de cobre, mas as instalações que alimentam sistemas de inteligência artificial podem exigir mais do que o triplo dessa quantidade, o que faz com que os preços atinjam recordes históricos.

Esses mundos artificiais parecem incrivelmente distantes daqui, onde um Zárate encharcado sai da lagoa. Esta foi sua décima segunda viagem a Maikiuants. E cada uma delas reafirmou a importância de os cientistas saírem de suas quatro paredes e aprenderem com outros sistemas de conhecimento. “Temos que adotar uma abordagem mais holística”, diz ele.

O mundo industrializado, acrescenta Pinchu, tem “uma forma diferente de ver a natureza: só pensa no dinheiro”. O paraecólogo sonha com um futuro em que seu povo possa se desenvolver sem perder sua essência. “Temos formas de vida que também são valiosas”, diz. “Nosso conhecimento ancestral é valioso, embora não pretenda gerar dinheiro, mas sim preservar a vida”.

O paraecólogo Olger Kitiar para à beira do rio após uma caminhada para verificar uma câmera trap escondida nas profundezas da floresta tropical. Foto Katie Surma/Amazônia Latitude.

Olger Kitiar para à beira do rio após uma caminhada para verificar uma câmera trap escondida nas profundezas da floresta tropical. Foto Katie Surma/Amazônia Latitude.

Amor e esperança

Após documentar as pegadas frescas da onça-pintada, Jhostin Antún e Olger Kitiar aceleram o passo em direção à câmera trap. A expectativa cresce a cada passo. Agora eles estão no alto das montanhas, muito acima da cachoeira onde Pinchu havia levado Zárate. A câmera está fixada em uma árvore banhada pela luz do sol: uma escolha deliberada, já que funciona com energia solar. Olger estende a mão para pegá-la e seus olhos se iluminam. “Eu adoro isso”, diz ele. “Adoro ver todos os animais; às vezes aparecem alguns que nunca vimos na vida real.”

Ele começa a transferir os dados para o seu celular via Bluetooth, um processo de dez minutos que parece uma eternidade. Para passar o tempo, revisam gravações antigas: queixadas fuçando na vegetação; um urso-de-óculos que se afasta com passos lentos; jacus; uma espécie que chamam de cachorro-do-mato; perdizes… e uma onça, capturada uma vez, fugazmente, ao passar pelo enquadramento. Esta câmera é uma das duas instaladas em seu território. Chegar à outra exige uma caminhada de oito horas para ir e oito para voltar, passando a noite na floresta.

“Continua sendo tão emocionante quanto no início”, diz Olger. “A cada vez sabemos mais e descobrimos novas espécies.” Jhostin fez parte da equipe que descobriu uma nova espécie de rã, que batizaram como rã Maikiuants. Segundo ele, seu trabalho é, ao mesmo tempo, divertido e muito sério. Gesticulando com as mãos, ele descreve os ritmos da vida cotidiana: semear, colher e comer o que a floresta oferece. Para sua comunidade, a agricultura não é uma atividade comercial, mas uma forma de manter o corpo e o espírito.

“A Ecoforensic me dá esperança de que este modo de vida ainda possa ser protegido”, disse Jhostin.

Ele quer ter filhos algum dia e quer que eles vivam na floresta sem medo, sem poluição. Sem um território, diz ele, não se pode ensinar às crianças quem elas são. Não se pode ensinar o que é a floresta. Ele quer um futuro de buen vivir: viver bem e em harmonia. Seu pai, Jorge, ensinou-o a conhecer a floresta, explicou o significado de cada planta e de cada rio. Seu avô fazia o mesmo: dava conselhos não com sermões, mas através da própria natureza. Segundo Jhostin, é aí que reside a sabedoria. E é precisamente isso que ele está tentando proteger.

Olger indica que o carregamento dos dados terminou. As imagens mostram um inambu solitário, uma ave também conhecida como galinha-do-mato.

Kirup, filho do paraecólogo-chefe Pinchu, escala as rochas de uma lagoa no território de Maikiuants. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Kirup, filho do paraecólogo-chefe Pinchu, escala as rochas de uma lagoa no território de Maikiuants. Foto: Katie Surma/Amazônia Latitude.

Terminada a tarefa, os dois paraecólogos retornam à aldeia. No caminho de volta, atravessam um rio cristalino e caudaloso, em cuja margem centenas de borboletas de um azul iridescente elevam-se e descem em ondas lentas. Em um estreito banco de pedras e sedimentos no meio do rio, onde a água se divide e se reencontra mais abaixo, Jhostin vê seu pai, Jorge Antún, sentado em silêncio, contemplando a floresta e o céu. Ele sorri. Ele e Olger se agacham, fazem concha com as mãos para recolher a água fresca, molhar o rosto e beber, enquanto a corrente flui como sempre fluiu.

Texto: Katie Surma
Tradução, Edição e Montagem de Página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

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